Universo da obra
Universo da obra
floresta virgem abateu-se uma grande fe^ arvore, cujo tronco, desbastado e aplainado, formou a cruz, que jazia encostada á margem da ribeira, para ser plantada no sitio escolhido pelo capitão-mor.
Ao amanhecer, depois de feita aguada e provisão de lenha, disse o almirante aos capitães:
— Saiamos em terra a chantar a cruz de Nosso Senhor e as armas de el-rei. Amanhan deve partir um dos nossos galeões com a boa nova deste achamento. Que antes, porém, se effectue com a maior solennidade a tomada de posse deste paiz que, ao meu parecer, é uma dilatada ilha, a que ponho nome de Vera Cruz.
Começaram todos a descer para os esqui-
onde a maruja, loquaz e -jocunda, com os remos armados, era prestes a vogar. A breve trecho deslizaram, ao som das remadas.
A costa resplandecia por todas as suas dunas crystallinas e todos os verdores da selva e do palmar.
Attingindo-a, saltaram e dirigiram-se á borda do rio, onde estava a cruz lavrada e prompta, com as insígnias reaes. Mareantes, homens d'armas, bombardeiros e missionários, com a bandeira erguida, formaram longo e variegado préstito, em que ardia o carmezim dos pelotes e a gran das pantalonas.
Emquanto num cimo se abria a cova que devia receber a arvore da Cruz, era esta conduzida em procissão, ao toar de cânticos sa? grados; magotes selvagens accorriam, e lançando ao chão arcos e clavas, em prova de sentimentos pacíficos, iam metter hombros ao madeiro, ajudando os portuguezes a carregal-o. A dous tiros de besta acima da ribeira, ao norte, junto ao sitio da cruz, armava-se um altar para a segunda missa. Dos recessos umbrosos da floresta foram surgindo mais indígenas, um de fronte empennachada de amarello e vermelho, outros monstruosamente pintados a tinta negra e rubra, nos rostos e
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nas pernas, ja se acercando confiadamente dos gaiteiros que os faziam bailar, rindo, de envolta com a multidão dos forasteiros claros, Iimitando-lhes a reverencia deante do lenho em que viram, com espanto, retinir os machados de ferro. A esse tempo o nobre Fernão, trajando rico pelote golpeado de escarlate, com os pés calçados de balegões, o rosto suavemente corado á sombra de basto chapéo de guedelha, em companhia de um degredado franqueara a planice arenosa, e entrando pelos hervaçaes, próximo da selva que bracejava a um tiro de berço, divisara um lote de mulheres, cuja esquivança e tristonha catadura lhe fizeram presentir alii uma grande inferioridade social.
Á beira da matta, sob as comas buliçosas das palmeiras que se enfileiravam no umbral da selva, as mulheres, apathicas, presenceavam as marchas e contramarchas dos índios; e a procissão, vagarosa, desfiava, ao longe, sua longa fita matizada.
Depois de transpor a curta distancia que o separava das Índias, Fernão ainda olhou para traz. Do mar esplendido, aqui azul, alli dourado e chispante, corriam bafejos do ou-
os mastros das caravelas, como braços erguidos, abanavam pendões e flammulas, e ao coro tremulo dos hymnos que o préstito cantava, subindo o outeiro, respondiam echos dos flancos do monte e do coração das mattas, em cuja folhagem farfalhante parecia vibrar um calafrio mystico.
— Muita cousa já viste por esta terra dentro? perguntou Fernão ao degredado, encaminhando-se para o ajuntamento.
— Bem pouco, senhor; e que lhe poderei mais ver senão barbaria e abominações?.... Ah! senhor fidalgo, se me trocásseis por outro este degredo! Antes a índia, antes a Africa, antes a morte....
— Cala-te.
Os olhos de Cerveira pararam em uma selvagem desornada, de altura mean, que trazia o filho entalado aos peitos por uma banda feita de pennas verdes. Ás coxas da misera agarrava-se outra creança, do tamanho de um covado, com a vista sarapantada; e tão grande era a emoção do pequenino, que deixou escorregar das unhas, sem dar por isso, o fémur alvadio de que se servia á maneira de flauta. — «Membira», creu ouvir Cerveira á mãe cabocla. O menino aferrou-se-lhe ainda
mais ao ventre, como o bezerro annejo farejando mama. A attenção do fidalgo volveu-se para uma velha enrugada, de semblante feroz, a qual tecia uma espécie de canastra. Junto a ella, duas moças, com os rostos e pés listrados de vermelho e fios de conchas nos braços, mastigavam uma grossa tubera e de vez em quando abrindo as boccas, deixavam cahir a massa triturada por os seus alvíssimos dentes num vaso de barro cosido. A velha apenas viu chegar, o estrangeiro, levantou-se hostilmente e relanceando olhares tigrinos desferiu da garganta um jorro de palavras inintelligiveis. Acudiram outras á sua voz, remoendo, com esgares caprinos, desconhecido alimento, estas enrolando compridos cipós ou acabando com rezinas aromáticas os seus toucados de pennas, aquellas ameigando papagaios que mansamente se lhes empoleiravam nos braços e nas espáduas cor de canella.
Apinharam-se de improviso deante do forasteiro mais de vinte corpos nus e glabros, em cuja pelle corriam desenhos grotescos, traços arroxeados como o fructo do abrunheiro e traços rubros como o béthel da índia. O cavalleiro estacou a esquadrinhar tão bizarras
nymphas. Depois interrogou-as. Mas do grunhido que escapou da roda não percebeu mais que as vozes já conhecidas: «Emboaba».... «Tapuy-tinga».... «Igarissú». E as índias* estendiam os braços roliços em direcção ás caravelas. A tecedeira sentou-se e proseguiu indifferentemante a sua tarefa. Nisto Affonso Ribeiro, o degredado, apontou para a matta, e Fernão vislumbrou ao fundo, sob uma arvore colossal e versuda, outra figura femenina, mais alta e adornada que as primeiras.
Avançou, resoluto.
Ella deu alguns passos para o interior da floresta. Seu andar, suave e rithmico, lembrava os movimentos voluptuosos das bailadeiras, de Calicut; o cabello, liso e extenso, tinha o brilho do onix, enfeitado num diadema de pennas amarellas e sanguíneas. O fidalgo alcançou-a e mirou-lhe de frente, com ousadia, a desnudez graciosa. Nas espheras cúpricas do seio, círculos da mesma tinta violácea, na face um risco purpúreo e abaixo dos joelhos, á guiza de atilhos, ligas de um tecido, cuja cor lhe suggeriu a imagem da selvicula entrevista no primeiro dia de desembarque.
— Quem sois ? perguntou-lhe o estran-
geiro, indicandoa com o dedo e movendo a cabeça interrogativamente.
Ella resmungou e fez um gesto expressivo para a entranha da selva. D. Fernão deu a entender que queria seguil-a até lá. A india perscrutou-o com os olhos diminutos e achinezados, e pareceu comprehehder, porque continuou a marcha, menos lenta, atravez da matta sombria.
Vendo o gentil-homem disposto a acompanhal-a, Afíonso Ribeiro desolou-se.
— Senhor D. Fernão, por essas brenhas?....
— Caluda!
Um dédalo quasi impenetrável de troncos rectos, troncos cylindricos e fusiformes, cepas torsas e nodosas de grossura inaudita, revestida, crosta grisalha, enrugadas de velhice, ramificações lançadas virtiginosamente pela estruetura superior das abobadas de folhagem, e de vez em quando, como florões de ornato, visões aéreas de uma florescência luxuriante a desabrochar em golfadas de perfume — taes se lhe abriam os pórticos dessa Babylonia encantada, por onde o vento soluçava soturnas jeremiadas.
Esta primeira impressão echoou fundo no
animo do fidalgo. Mas a presença do grumete, cujo heroísmo agora o espantava, lhe deram forças para seguir.
— Senhor, senhor... advertiu atraz o mancebo covarde ao penetrar no âmago da selva cerrada e negra, quando viu as columnas, immensas, jungidas desde o sócco, tombando, amparando-se umas ás outras, engrazando na sombra húmida, sob as copas, com attritos lancinantes como gemidos humanos, os galhos travados, estendidos, recurvos, parecendo braços de luctadores que se estrangulavam.
Entretanto uma invencível displicência começou bem depressa a torpecer os passos do cavalleiro. Ás vezes sentia-se apavorado, como se a floresta com os seus travejamentos labyrinthicos e o peso das suas arcadas viesse abatendo para o esmagar. Figurava-se a si mesmo um espectro, um prisioneiro subterrâneo, a caminhar por catacumbas, para destinos trágicos. Mas avançava sempre, nos rastos da india, segurando o punho da espada, ora silencioso, ora acenando, chamando pela guiadora, soltando exclamações, a que ella se mostrava surda, ou porque não as entendia, ou porque a bulha das altas frondes era cada vez maior.
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Extraordinário lhe apparecia o vulto do grumete, exilando-se por acto voluntário nessa furna de alimárias, cujos bramidos se adivinhavam na lúgubre espessura! Como crescia, aquelle villão! e se transformava, heroe, remido da fome de ouro!
Em plena matta, um grito de assombro feriu-o pelas costas.
Fernão voltou-se, confuso. A duas braças delle, estatelado, Affonso Ribeiro olhava, com a face crispada de terror, para o solo da vereda; uma lamina de sol, varando o sobrecéo da galeria, tremeluzia no dorso escamoso de uma boicininga que, aos torcicollos, ia cortando a picada.
Desde esse momento a floresta se povoou de phantasmas hediondos. Em torno dos grossos caules, o cipoal escondia garras de tigres famintos, focinhos de pantheras mosqueadas, cornos de búfalos, maxilas de javali, línguas de serpentes venenosas, toda a fauna horrenda e carniceira das regiões de alémmar, todos esses monstros e ameaças surgindo de luras lobregas para castigar a audácia da incursão ao forasteiro. Outras vezes julgava elle ouvir o sibilar de flechas traiçoeiras, disparadas por selvagens occul-
algum amante ciumento, algum regulo affrontado com a profanação dos seus .domínios. Já o coração se lhe apertava debaixo da crypta esmagadora; seus pés cansavam de pisar o solo fofo em que as folhas mortas, ao contacto frio da terra, nem mais estralavam.
Escutando a voz estertorosa das arvores batalhantes, uma angustia cruel lhe penetrou na alma. Desejou retroceder; mas emquanto volveu a olhar a extensão percorrida, distanciou-se da india. Seus olhos cobertos de névoa mal distinguiram a sombra fugitiva da selvagem, cujo passo miúdo e leve dir-se-ia um voo de sylphide.
Atroz suspeita germinava em seu cérebro. Se aquella mulher, por deslealdade instinctiva ou calculada hypocrisia, o estivesse conduzindo para pasto de antropophagos, porventura refugiados em alguma solapa, entre as serras e a drenha!... E esse grito, esse echo de ferro que vinha de quando em quando percutirlhe os ouvidos!... E que significavam essas chocalhadas sinistras pela urze do caminho.... e esse doloroso — aí — guaiado a espaços no meio do rugido florestal?.... E aquelles urros insistentes, que vinham se approximando
como a agonia errante de um bando de leras!... Já era de mais.
— Senhor! senhor! gemia sempre a afflicta do degradado.
Por espaço de mais meia hora vagaram assim, rompendo balsedos, malhas de lianas, cerrações de Folhagens, até que um urro mais próximo lhes deu aviso de perigo imminente.
Num esforço heróico, Fernão Cerveira accelerou a marcha, alcançou a selvagem, com a manga do pelote rota por espinhos tocouIhe o hombro. Ia perguntar-lhe, com o gesto mais expressivo que na occasião lhe occorreu, se ainda estava muito longe a aldeia ou o pouso da tribu. Antes, porém, que a palavra lhe sahisse dos lábios, cortou-lrfa um berro animal, um formidando brado de estertor que fez tremer a floresta e o deixou immovel, gelado, com a mão no copo da espada, em attitude de recuo.
Quando deu fé de si achou-se a borda de um desvão sombrio, signal de derrubada, cheio de tocos de arbustos. Por cima deste circuito bracejavam outros colossos; resteas de luz punham listras quentes no solo ouriçado. A india espiava para dentro, com uma d'aquellas resteas sobre a espádua á semelhança
de um lagarto de ouro, e súbito uma voz roquejou do fundo.
— Indayá!....
— Tacyba, respondeu ella.
E num salto de leoa franqueou os tocos, forçando os estrangeiros a seguil-a.
Pelos mugidos fracos que agora sahiam da brenha, Fernão julgou comprehender o que lá se passava. Mas não foi sem receio que penetrou a clareira, porque aos arquejos surdos respondiam incessantemente uns como silvos de flechadas que vinham de dentro.
Entretanto, viu reluzir, no crepúsculo da matta, rente com o solo, como grandes vagalumes, duas candeias pallidas, e a esta luz sulfurina, ouviu exhalar-se um gemido cavernoso de morte.
Seus olhos foram pouco a pouco decifrando a obscuridade das formas e contornos das cousas, até reconstruir a cerca de paus a pique, o focinho tigrino da fera, de rojo entre as patas, com as presas de fora, numa crispação tetânica e sobre o dorso pelludo, crivado de flechas, achatando-o, o grossíssimo toro do mondéo.
Um selvagem moço, de membros curtos e repletos, lançando o arco por terra, tinha
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descido da arvore que lhe servira de trincheira, e com os olhos escusos falava para Indayá, emquanto esgrimia a derradeira flecha, a designar os dous forasteiros.
Fernão pôde ainda notar-lhe o furo do beiço, desguarnecido da pedra verde que os semelhantes traziam. Esta circumstancia fel-o associar o grumete ao protogonista do quadro. Torturado de impaciência desprezou a supplica não menos torturante do degradado. Os rumores da selva, sonoros como vagas, um gralhar da aves»lá pelos torreões dos castellos de verdura, que rangiam como a tormenta nos mastros das caravelas, embalaram-no por instantes com a visão illusoria do mar e das praias manchadas do rubor dos pelotes em procissão cantante para o outeiro. E apenas deu a guia o primeiro passo, ellc a seguiu impetuoso, reagindo contra os fantasmas que até alli o acompanharam.
Em breve encontrou-se debaixo de um arvoredo suave. Grandes flores amarellas desabotoavam, constellando o verde claro, por onde a luz se esparzia aos feixes. A rama1 liada era menos profunda, os troncos espaceja vam-se. — Acabou-se, pensou com allivio, a
selva negra e gemedora onde os gigantes se davam batalha braçal.
Perfilaram-se palmeiras, esgalharam arvores fructiferas, batiam azas verdes, purpúreas, matizadas, entre revoos e gorgeios. Novas flores, corollas niveas como estrellas de prata balouçavam-se nos docéis de folhagem; simios invisíveis assobiavam agudamente.
De chofre um clarão intenso fulgurou na terra vestida de hervas viçosas, e o corpo da india, mordido pelo sol, brilhou metallicamente. O explorador sentiu-se desopprimido, sua alma respirou n'um ambiente de liberdade.
Deteve-se a gosar o refrigério das ramas, de onde se evolavam aromas dulcíssimos e trinos de pássaros. Involuntariamente as pálpebras se lhe fecharam, emquanto os membros doloridos pediam o balouço da rede suspensa, vacillante á sombra do bosque azulado, elle dormindo, guardado pela virgem de seios hirtos e espáduas de canella, sua companheira de jornada.
Quando pisou no descampado, o seu sangue de aventureiro brotou, enchendo-lhe o coração de ousadias. Acreditou-se o senhor da terra, das florestas e do ouro, cujas fon-
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tes se derramavam na planície, como aquelIas cascatas que elle vira do oceano, pela manhan em que surgiu a frota. O sonho do ouro. vinha offuscando as riquezas todas que o chamaram para outras bandas do mundo. «Esperae.... esperae.... » Assim respondia, do intimo do seu encanto, ás mãos feiticeiras que lhe acenavam de longe, de muito longe, dos confins do Oriente.
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