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Capítulo 6 · Pindorama

Parte Primeira - Capítulo VI

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3|2ãj RA como uma tranqueira circular, de á-H grossos paus.

No terreiro vasto se abaulavam tectos de palma, ainda verde em alguns. Atravez da cerca vislumbravam-se portas estreitas e baixas, mais semelhantes a boccas de covis. Moviam-se lá dentro na área figuras acobreadas, em completa nudez, fazendo lembrar tudo aquillo antes um curral de bois que habitação humana.

O explorador alongou a vista pela explanada. As serras empinavam-se ao longe, um murmúrio d'agua corrente passava pela campina, e um cardume de aves pretas foi descendo subtil e pousou na relva luminosa, com gritos que pareciam vagidos. No torpor deste sitio calmo só um echo aflautado sobresahia ás vezes ao borbulhar da ribeira.

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A poucos passos da estacada, Affonso Ribeiro encontrou os olhos do fidalgo. Entreolharam-se, um com assombro, o outro com repugnância. Horripilante espectáculo!

— Ainda é tempo, senhor.... tornemonos....

Fernão fez appello a toda a sua temeridade.

A selvagem abanou com a mão, já no caneiro da cerca. E ambos tiveram que passar entre duas renques de caveiras humanas que, á guiza de trophéos de guerra, branqueavam em pontas de varas, dominando o terreiro.

Inexplicável emoção apoderou-se do cavalleiro. Via cahir os arcos e flechas das mãos dos Índios, como affirmação de paz; a mimica, as palavras da guiadora vinham desarmando as potencias aggressivas da floresta e da aldeia. Que aversão, todavia! que sentimento repulsivo experimentava agora, em meio da praça, lançando os olhos áquellas grutas longas que pareciam sarcophagos feitos com cinza de ossadas....

Entretanto pelos postigos das choupanas sahiam e entravam, indolentemente, com fleugma estúpida, mulheres numerosas, oceupadas em misteres domésticos. Muitas d'ellas

acudiram apanhando feixes de pennas, aves e fructas, e vieram sitiar os estrangeiros. Fernão repetiu a scena das praias. Das mãos do degradado ia recebendo barretes, rocalha, espelhos, e distribuindo. A' proporção que trocava, novas mercadoras surgiam, e até creanças, rabiscadas de negro, com os beiços furados como os adultos, vinham trazer-lhe, esta o búzio em que estava soprando, aquella um pássaro, uma pelle, uma flecha.

Ia-se esgotando a provisão. Uma voz guttural despregou-se de longe:

— Indayá!

Fernão rompeu o circulo e sempre nas pisadas da india, penetrou-lhe a casa tosca, onde teve de novo, mais viva, a sensação de caminhar por uma catacumba.

A principio nada distinguiu; mas pouco a pouco, habituando a retina á escuridão d'esse interior, começou a perceber as redes alvadias, suspensas de esteios fincados ao longo da caverna, molhos de settas ponteadas de osso, vasos como talhas e gomis, restos de brazidos cobertos de cinza, cestos pendurados do palhegal e multidão de habitantes movendo-se alli numa communidade de bando animal. A algumas braças l\o postigo dormia

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numa rede um pequenino caboclo, eom as pernas riscadas de vermelho como sangue de drago, o arco e a flecha ao lado. Junto a cada um desses leitos, em torno das fogueiras apagadas, congregavam-se mulheres grulhando, abrindo as suas grosseiras canastras, umas guardando a rocalha, outras mirando-se com espanto nos espelhos, que levavam depois ao rosto dos adultos. A meio da choupana, sentadas á roda de uma gamella, três indias moças e uma velha comiam silenciosamente fructas e carnes sangrentas.

Veio a D. Fenício uma necessidade instante de fallar, de communicar os seus pensamentos, as suas impressões. Affonso Ribeiro acompanhava-o triste, fúnebre, como que presentindo os seus destinos de condemnado. Então, quebrando o silencio respeitoso que guardara desde o limiar da caverna, o fidalgo ousou articular uma palavra, um nome bárbaro, o primeiro que elle sabia positivamente ligar ao objecto.

— Indayá!....

Ouvindo-o, a selvagem virou-se de chofre, e os seus seios rajados de violete roçaram o pelote do explorador. Os olhos argutos, como dons diamantes negros, fitaram-se ávidos na

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bocca do extrangeiro. Dir-se-ia que nos lábios cTelie a palavra soara mais doce, ou que a india o tomava por um familiar, até alli disfarçado, aos segredos da terra. Fernão limitou-se a sorrir-lhe, e como ajuntasse nomes exóticos como elle, desfez-se o engano e continuaram todos para o extremo do antro, seguidos por outras comparsas entre curiosas e ariscas.

Não tardou que á luz do terreiro avultasse, de um postigo a dentro, aquelle que devia ser o principal.

Estava recostado e semi-coòerto por uma trofa de plumas variegadas, a tirar de um canudo socado de herva baforadas de fumo. Era um ancião, de aspecto sombrio, esquálido. Esburacado no lábio inferior, nas azas do nariz e nas faces, entre as maxillas, quando chupava o cachimbo, antes de abrir a bocca, já o fumo lhe jorrava pelas fendas do rosto. O nariz meio achatado, a cabeça grande, no furo do beiço uma pedra embutida, os dentes amarellos, testa, braços e pernas pintados de negro violáceo, era horrível o maioral da choupana.

O estrangeiro, todavia, achou-se um pouco tranquillo com as demonstrações da hospita-

idade selvagem. Indayá o apresentara, gesticulando repetidas vezes para as bandas do mar. O ancião exprimiu-se numa linguagem obscura, com accentos de auctoridade. Em seguida estendeu aos dous estranhos manipulos da herva que lhe ardia no caciíimbo; levantou-se e correndo a mão sobre a cabeça de Fernão Cerveira, cujo chapéo pendia do hombro, proferiu nova lenga-lenga, a que a india respondeu, indo buscar ao desvão da casa um pedaço de estofo semelhante ao da trofa.

Descançava perto d 'ai li uma como trombeta de guerra, junto a robusta clava enfeitada de.pennas. O. principal offereceu o tecido ao hospede; Fernão retribuiu-lh'o com um barrete de orelhas. Forcejava por se fazer entender. O chefe parecia comprehender melhor a physionomia acabrunhada do triste Affonso, em quem seus olhos vividos, contrastando com os sulcos da fronte, pousavam a cada instante severamente.

Logo que a india se afastou com o barrete, um rechino especial fez que o fidalgo erguesse a 'cabeça para o tecto da choupana. Quadro estranho! deparou-se-lhe dentro em um cesto pendurado aos varaes um figura hu-

mana enrodilhada e muda. 0 cesto oscillou, e elle pôde lobrigar os seios de uma rapariga, que se conservou calada.

Enfiou com olhar curioso a parte mais escusa do ergástulo, onde se agitavam como formigueiros lotes de Índias e filhos pequenos, que tinham ar de lebres entocadas.

Fora o sol esbrazeava o terreiro, e outra multidão de mulheres labutava, rachando lenha a golpes de pedra talhada, expremendo o o sueco de raizes que algumas pisavam, extrahíndo tinta rubra de madeira em estilhas; meninos disparavam flechas para o ar; adultos fortes como novilhos corriam sopesando grossas traves. Um canto monótono sahiu da choupana visinha, e o mesmo echo aflautado, que do campo se ouvira, acompanhou-o.

Fernão sentiu Ímpetos de voltar ás praias. Do fundo da gruta deslisou o vulto da cabocla, apressado, como se lhe houvesse adivinhado o desejo.

Mas a india appareceu transfigurada, os olhos despedindo clarões de ódio, os braços estendidos, a bocca rugidora a denunciar cousas que deviam ser abomináveis. A voz, aguda e crespa, não cessava de clamar. Um in-

também agitado, de aspecto embravecido, vinha com ella fazendo coro.

Apenas acabaram de arengar, levantou-se de salto o maioral, cujas feições gradativatente se tinham demudado. Arremessou o cachimbo ao terreiro, e com o rosto ainda nublado pela ultima fumarada, bateu com o pé, soltando um urro estridente.

Num momento a caverna encheu-se de vozes e no terreiro alastrou-se um rebanho trefego, indignado. O principal, com os olhos fuzilantes, correu ao canto da gruta, agarrou a trombeta, emboccou-a, e pela esplanada fora repercutiu o appello como um trovão.

Espantosa mudança, estranhos furores, cuja causa nem o gentil-homem, nem o seu miserando companheiro percebiam! Que abominável crime se consummara, porventura naquellas brenhas, para onde o mensageiro apontava, traçando no chão, com o dedo curto .e rijo, contornos irregulares?

— E' uma peugada, senhor... murmurou, em voz baixa e tremula, o degradado.

Era com effeito uma pegada, um rasto humano.— De quem? Do grumete?....

— Indayá ! chamou D. Fernão; e fez um aceno para a floresta.

Vinham chegando grupos de Índios, armados, arquejantes, em confusão, acudindo ao rebate. Crescia o tumulto no covil, os misteres eram abandonados, o maioral rugia, cuspia, espumava pelos buracos da face. Fernão approximou-se, fez-lhe uma reverencia, e ganhou o terreiro, em breve a esplanada, seguido de Indayá e de uma escolta de indios.

Ao longe a floresta eriçou-se coberta de lascas de ouro, ao pino do dia. O som da ribeira avisinhou-se. Os estrangeiros íoram caminhando á mercê da escolta, para as margens do rio. E aquelle enigma do rasto, que deixava a aldeia sublevada e o seu chefe terrível como um dragão, absorvia a tal ponto as idéas do explorador, que já lhè fizera esquecer o sonho do vellocino; e o seu andar esforçado, atraz da caterva bravia, não era mais o passo firme e arrogante de senhor com que elle sahira da floresta.

Cantaram mais porto as aguas da ribeira. A terra ondulou soavemente, cavou-se depois e descahiu num valle estreito e raso, por onde fugia o rio, de levada, com reflexos cambiantes. Indayá precipitou-se á frente dos indios, e chegando á beira da corrente, anciosa, toda palpitante, poz-se a fariscar o

solo argilloso, até que um dos selvagens, correndo e rebusnando, alcançou o sitio e apontou com a flecha a extraordinária profanação...

Adeantou-se o explorador, e prudentemente logrou certificar-se da causa de tão grandes cóleras; viu também na argilla parda o vestígio de um pé, largo e curto como uma pata, igual ás pegadas dos Índios da sua companhia.

Seu pensamento afastou-se do grumete.

Mas sentia-se embaraçado. O enigma subsistia.

As flammulas da armada o chamavam. O degradado bebia na ribeira.

— Reconduzi-nos, disse Fernão á india mostrando a selva.

Ella obedeceu. Os Índios ficaram banhando-se, ganindo, aplacando a fúria nas aguas profanadas pelo invasor desconhecido.

Quando, meia hora depois, ouviu rebentar o oceano sobre os recifes e a sombra da floresta começou a invadir-se de fulgurações solares, o fidalgo, sereno e orgulhoso, evocou a imagem da aldeia povoada de párias femininos, de creanças viçosas em quem os homens acordavam, desde o berço, os instinctos batalhadores, e tornou a ver a sordicia e bruteza

cTaquella raça ilhada nas brenhas, quasi em contacto com as feras, sem ter das cousas divinas noção ou sentimento apreciável. Pensamentos generosos, humanos, repassados de piedade, brotaram-lhe no espirito, envoltos na luz de ouro do seu primeiro sonho. A hospitalidade leal, ainda que rude e sóbria da tribu, os signaes de sua tosca industria, a saúde physica dos selvagens, a sua presteza no obedecer ao chefe, a docilidade e o prestigio d'essa boa companheira de jornada, os próprios arrebatamentos do velho leão da gruta pediam, bradavam socorro, aos homens e a Deus.

E não alumiar ali o facho da crença.... perder-se aquelle immenso rebanho de almas.... rolar aquelle mundo num chãos perpetuo, sem haver quem o resgatasse das trevas!... Que opprobrio na face do planeta, para uma nação christan!. .. Mas se a terra era fértil, lavradia, as costas abrigadoras, os ares benignos e os homens mansos, porque não encetar ahi, desde logo, a lavra do Senhor?

Insensivelmente, seus olhos cahiram sobre o vulto majestoso da india. Ao lado d'ella marchava, pressuroso, o degradado. Fernão proseguiu, atraz, entretecendo os novos sonhos

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que vinham brotando com a claridade littoral. A idéa de possuir a moça selvagem, de servir-se d'ella como de uma alliada, para o êxito da conquista, figurou-se-lhe uma inspiração do céo. Indayá, filha do principal, que amotinava o campo e levantava uma tormenta ao sopro da sua tuba de guerra; Indayá, bella, forte e gasalhadora como as arvores do bosque, esse génio familiar da selva e soberana de mil vassallos.... quem melhor do que ella, dirigida por hábeis mãos, com ameno tracto e conciliadora industria, para ganhar á santa obra das missões e da colonisação a concorrência de tantas forças desordenadas e riquezas em abandono?

-Eu te agradeço, e aos teus, a acolhida que nos fizeste em paiz tão remoto e selvático. Indayá, o advena é um mensageiro do Eterno. Elle tornará, e visto que sois mansos possuireis com elle a terra. Possas tu entender-me e contar á tua tribu que o estrangeiro não vem para a espoliar nem dos seus bens, nem das suas regalias. Eu te prometto, a ti e aos teus irmãos, a luz do espirito, a paz e um bem de maior preço ainda: a salvação. Recebei-nos sem desconfiança, desvendai-nos

todos os segredos da terra.... Sê a nossa guia fiel, qual me hoje foste....

O mar arrebentava mais perto, aves em bando grazinavam por cima das frondes, que a luz rompia em clarões offuscantes. Fernão continuou a fallar para a selvagem muda, no tresvario das suas idealidades.

— Se puderas abrir o entendimento e o coração para comprehender e amar, certo não me haverias por um forasteiro, senão por amigo e patrono. Mas quem te ha de dizer os meus propósitos, quando amanhan d'aqui se partir a frota?... Esse infeliz condemnado? Já lhe vi os prantos de covardia... O grumete?... Sim... Mas onde está o grumete ? — Indayá! Indayá!

A selvagem voltou-se alvoroçada, olhou-o fixamente e suppondo talvez que elle indagava do paradeiro, abanou para o lado onde estrugiam as ondas.

Vinham crescendo os caules das palmeiras. O cavalleiro exclamou:

— Possa multiplicar-se, e tão alto subir como aquellas columnas a arvore da Cruz!

E foi com um novo brado de enthusiasmo que elle saudou o sol glorioso que espadanava no mar e nas praias, scintillante nos to-

pes das palmeiras, crystallino na espuma que fervia nos cachopos, a fundir o metal da sua luz sobre o verdor dos montes e o azul das aguas, de onde as caravelas empavezadas assistiam á solenne ceremonia da tomada de posse.

Ao norte, no cimo da collina, rugiam as cores mordentes dos. pelotes e barretes. A multidão ondulava lá no alto, silhuetas côr de almagre vinham baixando, caminho da grande matta. .Pouco a pouco se definiram as figuras da armada, a cruz, o altar, a bandeira, as trombetas e armas. Por diversos pontos iam-se mettendo nas brenhas, apressurados, Índios que pareciam ouvir o appello da tuba, além da selva.

Fernão tomou a dianteira a Indayá. No monte postravam-se d'aquelles homens nus, a beijar o madeiro sagrado; o capellão, de alva, erguia de quando em quando as mãos ao céo. Então, pensou o fidalgo, seria a vez de lançar a primeira semente da fé na alma da sua guiadora.

Todos os capitães o contemplaram, quando elle escalava a encosta, na pompa dos seus trajos, com as faces ardentes e a mão no punho da espada.

Nisto Fernão Cerveira voltou-se para a

baixa, em procura da india. O degradado subia, vagaroso, triste e só.

O vulto de Indayá sumia-se na floresta.

Na tarde seguinte, ao levantar ancoras a armada, para singrar em rumo do Oriente, emquanto no chapitéo da capitanea o escrivão Pêro Vaz, o almirante Cabral e frei Henrique olhavam nas franjas da enseada a turba cabocla, que acudia ao soluçar dos degradados, Fernão Cerveira viu galgando o outeiro duas sombras humanas. Uma não cessava de agitar um como mandil vermelho. Elle poz-se também a sacudir um pedaço de tela. De repente lembrou-se do seu tecido, igual á trofa do principal. — Era Indayá, talvez... O presente do ancião ficara em terra. Mas outro aceno partiu do segundo vulto. O mandil deixou de abanar. A linha curva de um arco, muito fina, esbateu-se na transparência do ar, e uma flecha disparada reluziu instantaneamente com a luz sanguínea do occaso.

A frota se fez ao largo.

A' noite, aos tombos da caravella, deli-

neando com o capellão e o capitão-mor os planos da futura colónia, o cavalleiro emmudecia ás vezes e ficava a scismar naquella flecha hostil que envenenou o adeus de Indayá.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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