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Capítulo 16 · Pindorama

Parte Terceira - Capítulo V

16 de 22 ≈ 24 min de leitura

RAM apenas decorridos três dias. <£*&£ O despertar do povo da villa, pela madrugada nivosa, foi como o sahir de um pesadelo para as agonias, ainda peores, da realidade.

Ao raiar da manhan, as roças, depredadas, tinham aspecto mais triste do que aquellas por onde passava uma praga de socas. A lagarta de fogo deixa de pé o caule crestado das plantas; mas das searas do Gallego e seus genros nem a maniva escapara á destruição. A mesma rasoira furiosa nivelara as toucas de canna, as ramas do mandiocal e do aipim.

Sobre os colmados e barracas choveram settas; a torre da casa do donatário, as portas das choupanas e vivendas, o piso dos

arruamentos apresentavam esses vestígios da

assaltada que se embateu no obstáculo das tranqueiras. Uma flecha com algodão inflammado incendiara parte de uma cabana.

Devia ser implacável a cólera dos gentios revoltados, por que assim desafiassem os brios a antigos campeões da Ásia e ao vencedor dos tupinambás do norte, no combate naval a que assistira o capitão Martim.

A colónia inteira estremeceu, sentindo perto, encantoado nas brenhas circumvisinhas, o inimigo traiçoeiro. O povo entreviu, no campo talado, os celleiros sem grão, a penúria e a fome; e o clamor rebentou á volta da casa de Coutinho.

O velho donatário appareceu tremulo á porta, compondo o saio e chamando o alcaide para reunir seus homens d'armas e quantos penes sufficientes em vista da quantidade de armas e corsoletes.

— Sede tranquillos, tende-vos por seguros, que Nosso Senhor será pelos seus soldados!

E assim falando, tremia a voz do ancião. Na sua fronte encanecida o povo alvoroçado lia a fervorosa confiança de um crente; mas o braço do fidalgo não lhe parecia bastante forte para empunhar e brandir a espada.

Quando o alcaide chegou, os olhos do donatário buscavam por cima da multidão o elmo do cavalleiro de seu conselho. Como não lograsse vel-o, reiterou as ordens:

— Fazei prestes a gente d'armas e mandae tanger as trombetas para que todos os visinhos acudam á defesa.

— Senhor, respondeu o alcaide, o terço de nossos espingardeiros já lá está em feição de combater.

— Em quantos homens o esmaes?

— Formam duas companhias.

— Só, Ruy Sanches?!

— A mais gente anda esgarrada por longinquas partes. São os colonos a quem doastes sesmarias no recôncavo e d'aqui se foram com armas, a fazer fazendas, por consentimento vosso.

Coutinho empallideceu, reconhecendo o seu erro, e só então notou que a multidão alarmada no terreiro da casa se compunha de pobres mulheres brancas e mestiças, de creanças e mancebos inexperientes, negros somente afeitos á enxada, colonos inutilisados no serviço do campo e em antigas guerrilhas com o gentio, outros alquebrados pela doença, destemperados no sangue pelo rigor exhaus-

tivo do clima. Era uma legião, não de guerreiros, mas de inválidos. Não pediam guerra, e sim asylo que os abrigasse dos perigos da guerra, da miséria, da fome e da morte. Os que tiveram armas desde muito as permutaram por mantimentos com o indio e os tapejaras aventureiros, sahidos para o recôncavo, evadidos por criminosos para outras capitanias. Coutinho, cada vez mais pallido, procurava sempre, com o olhar embaciado pela névoa da sua angustia, o elmo esquivo, que não apparecia naquelle momento de perigo. Por fim, lembrou-se dos indios aldeados e de seu valente principal.

— Chamae-me sem detença a Diogo Alvares.

Já este rompia o ajuntamento, com o prestante Ararig. Chegado que foi, o donatário estirou para elle os braços, num gesto de afflicção, e pediu:

— Falae-me, Diogo. Haveis por imminente um assalto?

— Não estará por muito, senhor.

— E que fazer?

— Ordenae a vossa gente.... ou, se a não tendes que farte e não podeis prover no caso, o remédio é despejar a terra.

— Não me faleis em tal, Diogo!.... Que é dos nossos alliados? que é da banda de Ararig?

— Desde hontem ainda não se tornaram das roças. Menos de trinta canicurás restam na aldeia, fieis a Ararig e a vós.

— Então?....

— Senhor, tomae cautela. Houve conluio de traidores contra o vosso governo....

A populaça ouviu, e desatinou-se em brados afflictissimos.

— Misericórdia! Soccorro!

Ao tempo em que o donatário, transido, se debatia, quasi indefeso, em frente do seu rebanho assombrado, — distante do circuito, nas bordas da floresta, D. Fernão, cheio de dor, vra afastar-se, abandonando-o, aquella por cuja causa se tornara cavalleiro andante nessas selváticas regiões.

Elle a vira na véspera, com os filhos adolescentes e o herdeiro de Pêro Mendes, á beira da mesma choupana em que a guardara o leal Diogo, desde que as igaras e o esquife partiram para a grande batalha no lagamar.

Vencedora a tribu de Ararig, elle não dormiu á sombra dos louros; redobrou de esforços para fazer vingar no coração das hordas,

castigadas umas, aterradas outras, a semente do Evangelho. Nos mares, nos campos, nas brenhas, o seu espirito vigiava a condueta do inimigo, que alli se chamava corsário e aqui gentio. De suas inspirações e seus conselhos manaram os benefícios que a colónia desfructara por largos annos. Era obra sua a maior submissão dos Índios da capitania, a conversão dos submettidos, o bom acolhimento do donatário, o casamento de alguns colonos com indígenas puras e mestiças, a vinda de novos negros de Guiné. Refreando cobiças, premiando virtudes, sonhava sempre, sempre, coroar sua heróica aventura com o emblema da fé christan arremessado aos céos de Pindorama no alto de um pedestal mais solido que os gigantes da floresta.

Jamais esquecera a abjecção moral da taba além da selva que lhe deu tão boamente o madeiro da primeira cruz. Nunca mais cessou de correr, do âmago de sua alma, esse rio de piedade em que se embebiam todas as suas obras.

Indayá era o sello vivo de um pacto de gratidão a que elle se obrigara para com o bando selvagem que em 1500 o acolhera em praias desconhecidas. Nella vivia mais do que

a tribu gazalhadora, — a raça inculta, todas as dibras ferozes, sem excepção das inimigas que lastraram de cinza e cadáveres os campos e collinas do arraial da Santa Cruz. Recompensal-a, a despeito de sua residência, accender nas trevas d'aquella alma a claridade da crença, conquistal-a pelo baptismo.... dignas acções de um cavalleiro devotado ao Christo.

Oito lustros de trabalho eram quasi consumidos no lapidar a jóia que devia luzir, na coroa de Portugal. As campinas povoavam-se de searas, no coração das mattas virgens, á margem dos rios grandes, o engenho e o munjolo iam marcar a cadencia das industrias; de villas, de arraiaes e foftaíezas toucavam-se os montes e orlavam-se as ribeiras do mar, onde a quilha dos galeões profundava com o peso das mercadorias de commercio, e o pendão das naus cruzeiras punha em fuga a pirataria.

Mas de repente essa rebellião dos indios, na própria chapada em que se erigia o sagrado monumento das primeiras victorias.... esse rugir medonho que pela madrugada soara perto das tranqueiras, com saraivada de flechas e depredação das roças.... aquelle borborinho de pânico lá em cima, exasperado

pelo rebate das trombetas.... e nessa hora tétrica em que talvez a colónia precisasse de appellar para a amisade da tribu tupiniquim — o rompimento inopinado, a fuga a deserção d'essa ingratae volúvel Indayá, mais dura que o cerne da sicupira!....

Em vão lhe declamara protestos de bemfazer, invocando os antigos laços e as promessas reciprocas de alliança. A' palavra persuasiva e branda succedeu o gesto de império e ameaça. Debalde o raio da espada fulgurou sobre a cabeça rude da selvicola e mostrou-lhe o gume afiado na carne dos invasores de Porto Seguro. Tudo em vão....

Fernão acenou mais uma vez. Indayá fugia sempre; a sua sombra já se desvanecia nas sombras da matta.

Aos filhos ensinou, talvez, o caminho da taba longínqua, aos hombros lançou-lhes o patiguá de viagem, armou-os com a flecha hervada, cujo veneno era o seu segredo. Ia conspirar? Quem o sabia?....

Continuando a fugir, sumiu-se Indayá.

Então, solitário desamparado, Fernão voltou-se da brenha obscura para as faldas da montanha e as veigas sulcadas, onde o sol batia queimando as lavouras destruídas. Com

o vento sufíocante das campinas chegou-lhe aos ouvidos o brado de misericórdia do povo em perigo. Dous instantes retrahiu-se com a mão sobre a ferida que lhe rasgara no peito a serva desleal. A terra incendida escureceu a seus olhos; todos os thesouros se eclipsaram, as caravelas sossobraram em pleno oceano, o septro que dominara a índia vacillou, a vera cruz arrancada por um cyclone rolou feita em pedaços até á planicie revolta, e erectas ficaram somente as palmeiras reboantes, prolongando ao infinito o alarido hostil das piaras serranas.

Segundo brado, mais longo, repercutiu nos valles e lapas da chapada. A visão terrificante esvahiu-se. O sangue do cavalleiro ferveu num esto marcial; seu punho grudou-se ao da espada e o solo resoou debaixo dos seus passos.

Breve o clamor crescente, em que já pareciam fundir-se o bramir das hordas sitiantes e a grita dos colonos acuados, transformou-se num canto afinado, sonoroso, como o appello de um sino a cahir das alturas. E quanto mais o cavalleiro subia, mais esse som vibrante do bronze mysterioso o embriagava de recordações heróicas....

Chegado á planura do chapadão, elle notou a fuga da floresta e viu o lagamar deserto. Em volta de si, nas quebradas e baixas cobertas de moitas, procurou a hoste inimiga, e nada percebeu. Nos ares não batia uma aza ide pássaro. Um como estupor amordaçava e tolhia a natureza.

Mas avançando no planalto, Fernão divisou ao longe a casa torreada, as choupanas da villa, e no terreiro, em massa, os moradores tiritando de assombro sob a violência do sol. Relampeavam armas de aço no circuito da casa, e elle adivinhou quão mesquinha era a defesa da capitania.

A conjectura fez-se convicção, quando seus olhos surprehenderam soldados que se evadiam furtivamente pelas ribanceiras para o littoral. Esse espectáculo indignou-o. E os homens fugiam com as armas. Era a deshonra, a capitulação antes mesmo do combate. E elle que vinha imaginando a resistência do pequeno troço contra a barbaria em peso, um milhão de saggitarios que fosse!....

De momento uma chusma de villãos, mulheres, grangeiros e creanças, bracejando loucamente, precipitou-se para elle aos gritos. As mulheres choravam. Do meio do rede-

moinho miserando, Fernão contemplou com serena tristeza os poucos homens d'armas perfilados na praça da villa, fieis ao governo da capitania; e entrando no lar do donatário, achou-o num almadraque, prostrado de animo, descansando a fronte na empunhadura da espada. A dor do abandono, tão profunda, augmentara as cans do velho Coutinho; suas palavras sentiam o frio do desalento que lhe gelava a alma. O bom Diogo, ao lado, buscava reanimar o antigo servidor da pátria; o arrabido, enfermo de velhice juntava as mãos, erguendo um Crucifixo e murmurando preces. D. Fernão approximou-se, estranhando:

— Que vejo, nobre capitão!

— Infortúnios.... gemeu o donatário, com a cabeça abatida.

— Excusae-me que eu não soffra o vosso desanimo, replicou D. Fernão, severamente. Pois que diriam aquelles dos nossos antepassados, que em transes maiores se compraziam em denodamentos?.... Que diria um Nun'Alvares, um Ruy Pereira, um infante Henrique, se aqui vos viram descrido, estimando a possibilidade de uma victoria não pelo valor próprio e dos vossos soldados, mas pela quantidade dos apetrechos e homens d'armas?....

Lembrae-vos, nobre capitão.... lembrae-vos.... Com alguns besteiros cie serviço, o valoroso Ruy, embarcado na capitanea, affronta o fogo terrível de quarenta naus castelhanas!... Acommette o Infante as portas de Ceuta, sem mais gente que esta pouca que vos cerca, e rompendo passagem sobre corpos de infiéis leva ás torres do castello mouro a bandeira de Nosso Senhor!... A' vanguarda dos peões, gritando -S. Jorge! — põe Nun'Alvares em fuga ao soberano de Castella !.... Nobre ancião, sabeis quantas eram as lanças e adagas dos nossos, quantos e quaes os engenhos de guerra do inimigo? Perguntae á memoria de Nun'Alvares se alguma vez vacillou aquelle caracter de ouro e aço, ouro de lei no brilho, aço no resistir!....

Emquanto falava o cavalleiro, erguia-se lentamente o donatário. Sua physionomia denotava assombro. Dir-se-hia que os augustos fantasmas, evocados pelo discurso de D. Fernão, resurgiam num halo de gloria, offerecendo-lhe cada qual a arma polida e deslumbrante como os raios do sol.

Os brios do antigo soldado da índia sentiram-se reptados, e elle respondeu:

-Senhor D. Fernão, se tendes por mortos

a fé e o brio de um Coutinho, enganaesvos de plano. Olhae para esta fronte.... cada fio de neve que aqui vedes conta uma lição da experiência e um serviço á religião e á pátria. Não tenhaes em pouco o valor de um ancião: tempera-o a prudência, não o esfria a covardia. Mas, se apesar de tudo, quereis que me aventure com esse pugilo de inválidos a resistir á barbaria, não serei o ultimo, senão o primeiro, a offerecer em holocausto o sangue e a vida.

Isto dizendo, Coutinho marchou até á porta.

Súbitas energias lhe espertavam o passo e o gesto. Diogo acercou-se d'elle.

— O alcaide! o alcaide! chamaram para fora.

A turba-multa, anciosa, revolveu-se em todos os sentidos. Diogo observou:

— Capitão, sou a dizer que ha alli menos soldados do que eram....

Fernão acudiu e certificou-se também da triste verdade. A própria multidão diminuía. Havia mais columins que portugue Ararig já andava por fora da tranqueira, escutando as brenhas longínquas, a baixada e as moitas, entre as plantações arrazadas.

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De espaço em espaço um grito plangente sahia do meio da chusma, e as mulheres, desesperadas, agarrando as crianças, clamavam por soccorro.

E o alcaide não chegava.

Iam correndo as horas. O sol pendia; a sombra dos montes deitava-se nos valles. Negrejavam, lá no fundo, catingas e balseiros. Ararig rondava sempre os campos e rodellas de matto, farejando as tocaias do inimigo.

Nada estava decidido em casa do donatário. Continuavam a esperar Ruy Sanches, o alcaide, e já desconfiando de mais uma defecção, sahiram Fernão, Coutinho, Diogo e os genros até ás raias da villa. D'alli miraram a vasta bania toda erma. Das naus que a navegaram nem um sulco, nem um pendão para lenir a desesperança dos abandonados.

Elles sentiram, mudos, essa solidão do oceano e olhando em rumo do sul, por aquellas aguas alterosas que em tantas conjuncturas depararam soccorro de esquadras á colónia periclitante, não viram mais do que céo e o mesmo mar deserto quebrando, espumando na ponta do Padrão.

Voltaram-se para os campos e florestas. O valle, cada vez mais sombrio, antecipou-lhes

o horror da noite, no descampado sem defesa, a visão mortífera das piaras em correria, desfechando settas, incendiando roças, tranqueiras e casas, e o misero povo de mulheres, creanças e enfermos como náufragos ilhados no pincaro de um rochedo que o diluvio de fogo não tardaria assoberbar.

D'este horrivel destino se avisou o dedicado Diogo. No semblante de Coutinho e do próprio Fernão elle acabava de ler a inquietação e amargura que lhes. trasbordava da alma. Conhecia, mais que todos, o caracter e os instinctos pérfidos da tribu. Talvez nenhum calculasse ao justo a extensão d'aquella revolta fermentada nos alfozes da capitania, onde os maiores chefes tupinambás se conservaram sempre arredios de toda communhão com os estrangeiros, disputando-lhes, além d'isso, a nobre e formosa filha dos tupiniquins. Que seria, pois, o crepúsculo dV tarde, ou o da manhan seguinte, quando as entranhas da selva arrojassem o turbilhão feroz?

Diogo não pôde mais soffrer a resignação dos fidalgos. Já elles entravam no povoad matta escurecia, os oitibós piavam. Falou com Affonso e Paulo Dias, e repentinamente

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fez alto, encarando o capitão-mor e seu conselheiro.

-Ouçam Vossas Mercês.... é o grito do jucurutu e do oitibó. Quando for noite cerrada, esses caminhos talvez nos estejam barrados com mós de gentios; que elles. em anoitecendo, fogem a bom fugir das brenhas.... Senhores, quem vos fala é um homem quasi asselvajado, que aqui vive um ror de annos, tractando com a barbaria, a Deus e á ventura.... Decidi-vos, senhor D. Fernão, e crede que melhor não determinareis que abalando com os visinhos restantes d'esta villa para aquella ponta do Padrão, onde esperaremos o soccorro que a Nosso Senhor approuver nos enviar.

Apenas calou-se Diogo, explodiu ao longe, no terreiro, a gritaria dos villãos. Ao mesmo tempo o vulto de Ararig, mais veloz que um veado, corria, dando rebate do perigo. Ararig, com arco e flecha, em extrema exaltação, vinha de arriscada batida pela selva a dentro; vira resvalar a sombra de Indayá, mais ligeira que a cotia, demandando a aldeia de Tajaçu; escutara o chão e ouvira o echo fragoroso das hordas que se approximavam. Tinham enviado pelos ares a tangapema alada; ella

foi e tornou com o vaticínio triste : a perda do chefe branco.

Um só pensamento acudiu a todos. Fernão Cerveira entrou na praça, onde ninguém mais se entendia. O troço armado pareceu-lhe tão reduzido, os velhos colonos trôpegos fugiam tão miserandamente, eram taes os gritos de angustia das mulheres, que a idéa de resistência se lhe figurou de todos os martyrios o mais inútil.

Não foi preciso ensinar o caminho ao povo. Os lotes fugitivos, alguns escoteiros, outros embraçando patiguás e alforges, passavam deante d'elle como a enxurrada dos montes.

Coutinho e a família foram seguindo a mesma trilha, menos aforçurados, elle embuçando-se num tabardo, combalido, porque a dor da retirada lhe ferira de um só golpeos brios e o alento vital.

O grupo de canicurás, fieis a Ararig, protegia as costas ao donatário.

Negros e enfermos, aquelles carregando os instrumentos da lavoura, moveram-se tardamente em pos dos indios. Commovente apparição reservava esse bando ao cavalleiro. Afra, esquecida nas arrotéas e eiras, desde o

abandono de Santa Cruz, arrastava comsigo uma recua de filhos creoulos. Suas plantas eram disformes, nas orelhas e pálpebras o morso das vespas e abelhas bravias lhe criara calombos, do tronco lhe pendia um farrapo de langotim. E ella marchava, apesar de tudo, carregando o enxadão.

Por fim desfilaram os raros soldados, lanceiros e espingardeiros, com as cabeças guarnecidas de celadas e os peitos de corsoletes.

Fernão sentiu um calafrio de enthusiasmo deante do troço fiel.

— Salvastes a honra das armas portuguezas!

Disse, e tomando posição de commando, partiu, despedindo-se da montanha, mas não da terra immensa nem das ambições que a ella o agrilhoavam.

Já os mattos encobriam a vanguarda dos retirantes. O sol tombara no poente, carpido pelas aves crepusculares. Era triste o êxodo da colónia, por aquella estrada e aquellas ribanceiras que quatorze annos antes davam passagem triumphal ao exercito victorioso de Ararig e ás esperanças da gente portugueza.

Mais tristonha se tornou a marcha por

entre os massiços de arvoredo e a cerração das balsas, onde o crepúsculo já parecia noite, e só a voz das grandes cigarras acompanhava o tropel das turmas. Este silencio, porém, não durou muito.

A meio caminho da ponta do Padrão, ouviu-se um como forte estrugimento de procella. Eram as ondas selvagens salteando a chapada e a villa.

Fernão e o terço pararam a escutar. A orgia nefanda estrepitava ao longe, com seu furor de apupos e devastação.

A retirada fez-se mais á pressa. Os grupos da vanguarda sumiram-se em desordem. Já subia fumo das encostas, e clarões vermelhos afogueavam o espaço.

Inesperadamente o marulho approximou-se, como se os indios viessem á caça dos retirantes. Novamente pararam os soldados, e tornando a ouvir o alarido, descarregaram as espingardas.

A horda recuou, mas volveu á carga. Por espaço de um quarto de hora as armas foram dando fogo, para afugentar os atacantes.

Emfim cessou a perseguição e a surriada. O som do mar nas fragas annunciou a ponta

do Padrão. Por sobre as terras altas reverberava o céo como uma fornalha de borco.

Era noite alta, e á borda do oceano, refugio do attribulado Coutinho e de sua misera companha, D. Fernão ainda seguia como um visionário a figura indelével da india a esvahir-se nas brenhas, a demandar a taba inimiga. O ruge-ruge das mattas, flagelladas pelo vento nocturno, parecia-lhe um clamor de anathema, expulsando-o da terra. Sitiado no pontal, sem mantimentos, sem agua, sem munições, elle pensava no que seria esse degredo, se tão cedo não apontasse no horisonte o iris da bandeira salvadora no mastro de alguma caravela....

Os dias succederam-se, reproduzindo as mesmas angustias. O povo agazalhava-se em choupanas de patioba construídas pelos soldados e columins de Ararig; a fome e a sede apertavam os colonos, que tinham de reppellir espias selvagens para se proverem de alguma fructa e agua escassa.

Certa manhan, batendo as praias, Diogo e os soldados encontraram dous caravelões desguarnecidos e fundeados além da ponta. A noticia do achado veiu promptamente aos capitães, e d'entre os colonos alguns mais pra-

ticos na mareagem receberam ordem de partir numa d'aquellas embarcações a procurar mantimentos em Ilhéos.

O caravelão sahiu. Mas no mesmo dia os que ficaram tiveram que pelejar com um magote de tupinambás, cujas flechas mataram no abarracamento um filho de Coutinho. A desolação do donatário chegou ao desespero. Os inválidos e as mulheres choravam de rojo no solo, á mingua de alimento.

Decorreram semanas, e o caravelão não voltou.

Novas suspeitas entraram no animo de D. Fernão e Coutinho ; e elles dispunham-se a despachar o outro caravelão, quando, pelo meio do dia, a vela de um navio clareou á foz da barra.

— Alviçaras! exclamaram todos, reanimados, agitando palmas, ao ver deslisar, com os pannos cheios e a proa no desembarcadouro, a caravela providencial.

Cobraram audácia os lanceiros e columins, e dirigidos pela espada de D. Fernão, partiram á pista dos indios emboscados, na intenção de dar livre accesso aos recem-vindos na caravela. De tocaia em tocaia, foram os exploradores afugentando os selvagens e avançando nas mattas virgens.

F.mquanto a guerrilha se fazia nos valles brenhosos, o povo ancioso aguardava os seus

vadores.

Esta espectativa prolongou-se até a tarde. ( ) segundo caravelão nadava á distancia das rochas, prompto a demandar o surgidouro do Coutinho começava a duvidar.

De momento assomou nas reboleiras visi-

da costa um grupo de homens armados,

enti ; os quaes avultava o burel de um reli-

Os colonos, ébrios de alegria, abriram

raços, e Coutinho, que julgara perdido o

anabido enfermo, rendeu graças a Deus.

Quando o grupo se approximava, maior foi a surpreza do donatário, vendo no meio d'elle o alcaide e as duas inseparáveis figuras que era voz se terem evadido para a capitania de Duarte Coelho.

Coutinho carregou a sobrancelha e com a mão por dentro do tabardo, nos copos da espada, sahiu-lhes ao encontro, prestes a censurar a falta do alcaide, por quem tanto esperara.

— Mas que vejo!.... disse perplexo, encarando o religioso. Não é o ar rábido!....

O frade silencioso, metteu a mão num bolso do habito.

Coutinho voltou-se para o alcaide, e austeramente:

— Sois vós, Ruy Sanches?!.... Explicae-me a vossa ausência.

O alcaide não respondeu; olhou para o frade, que safava do bolso alguma cousa.

— Não falaes?.... insistiu o donatário.

A mudez e a postura arrogante do alcaide surprehendiam-no. Por traz de Ruy Sanches, não menos altivos, quasi escarninhos, os dous aventureiros tapejaras trocaram palavras mysteriosas. A multidão testemunhava a scena, sem nada perceber do que se passava naquelle grupo sinistro. O velho fidalgo exaltou-se.

— Se sois um traidor, Ruy Sanches.... O alcaide não lhe deixou acabar.

— Executor, senhor fidalgo, executor da soberana vontade de el-rei, é o que sou, e d'isso me não pejo.

Tinha recebido das mãos do frade um papel e o estendia aberto aos olhos turvos do donatário. A chusma dos colonos cerrou-se em torno d'este. Coutinho tomou o alvará. Pallido, estarrecido, deixou cahir os braços, com o papel entre os longos dedos trémulos. Da multidão escapou um sussurro ; elle a custo suspendeu a dextra e leu, traspassado

de dor, a ordem regia de prisão que o fulminava no abandono das praias.

O alcaide e o religioso, com os companheiros, foram-se afastando a passos largos; e emquanto o donatário, cambaleando, se encaminhava para a sombra da choupana, outros grupos, dos que até alli o acompanharam, partiam accelerados, iam unir-se a Ruy Sanches, Mem Tupi e Gil Vaz.

A' beira do pouso, os últimos colonos do rancho viram Coutinho, cercado pela família, erguer os olhos ao céo e murmurar:

— Seja feita a vossa vontade... Esgotarei o meu cálice até a ultima gota!...

Na mesma tarde, ao cahir do crepúsculo, o caravelão fazia-se ao largo, transportando D. Fernão, o donatário destituido, Diogo e os restos da colónia para o seu novo exilio em terras austraes.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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