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Capítulo 8 · Pindorama

Parte Segunda - Capítulo II

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rico homem andava bem propenso a i& manter o sigillo do seu appellido bárbaro. As suas barbas ruivas para alguma cousa lhe serviram, desde aquella noite de surpreza, em que viera achar-se á face de D. Fernão. Decerto, a cicatriz da flechada que recebera na testa, havia dous annos, também lhe ajudava a caracterisação. Podia perfeitamente esconder o seu passado aos olhos do gentil-homem. Sempre era um tisne em sua fama, agora invejada, aquella primeira falta por onde escorregara para a fartura da vida. Podia, e de alguma sorte convinha, atravessar a scena rebuçado, assim como Affonso Ribeiro, o colono envelhecido, que tinha uma cicatriz de um ferrete que as justiças de el-rei lhe assentaram.

Mas D. Fernão viera acompanhado de um

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mau génio: o milhafre do tal mestre Nuno, que era língua, sustentava mancebas e se mettia com os Índios, angariando-os disputando-os a elle, Tapuya Branco, para a lavra de uma sesmaria, doada pelo fidalgo capitão. — Ah! o intrujão do sesmeiro, que lhe não respeitava as divisórias da terra, cultivada á custa de tanto suor, no meio de tantas vicissitudes, assaltos de gentios das serras, ataques de piratas normandos, incêndios, escaramuças, abordagens, aprezamentos. Como se não fora bastante o dizimo que devia pagar d'alli por deante, a concorrência dos novos mercadores de brazil e exploradores de metaes e pedrarias.... Quem se atrevera, como elle, ao descer com a bandeira, e por amor da fazenda, sua e dos seus colonos, ir ao encontro d'aquella dibra furiosa de indios, d'aquelles demónios loucos de dor e raiva, a quem. o tupinambá do norte, em tremenda guerra, aprisionara e matara o velho morubixaba? Quem, senão elle, soubera aplacar a tempestade d'aquella noite, quando os gentios sem chefe entraram no arraial, e aos bramidos de vingança de Indayá, sanhuda como a fêmea do jaguar que perdeu os filhos, estiveram a pique de assaltar a guarda de besteiros,

lá debaixo do alpendre?.... Os indios, apaziguados, viviam agora, uns na taba nova, áquem da serra, outros pescando e fazendo roças de parceria com os colonos; Indayá, rendida ás promessas do fidalgo, entre suas domesticas: tudo obra de Tapuya Branco. E depois de tanto bem fazer, mal haver de uma alma damnada, que até parecia vendida aos corsários do Normando.

Tapuya Branco enfiou o gibão, apertou a fivela da sua petrina de couro, apanhou o sombreiro de pelle e sahiu da vivenda, resolvido a fazer valer os seus títulos junto ao regedor da colónia.

Em sua casa, no alto do monte, que se povoara de novos ranchos, D. Fernão ouvia os golpes de machado e a bulha dos constructores que trabalhavam uns na capella, ás ordens de um frade arrabido, vindo na ultima frota que d'alli passara á índia, outros embaixo, na tercena destinada aos armamentos e munições. Emfim as cousas tomavam melhor rumo. A nuvem brusca dos sertões — os levantes de indios — julgava-a desfeita; a costa era menos visitada pelos navios do bretão; de Guiné tinha chegado uma leva de cavadores com a sua rainha negra e sementes de novas

especiarias; os grangeiros plantavam o milho, as roças de mantimentos e o pescado produziam fartura, o dizimo se multiplicava. Um principio de governo se organisara com os homens bons da colónia. Para timbre da sua empreza faltava, entretanto, ir juntando áquellas messes abundantes a colheita d'almas, de que fizera ponto de honra.

Pindorama lhe dera o corpo, com os braços robustos da tribu, o ventre fecundo da terra, o sangue da madeira cor de braza, e a pérola das filhas da floresta, aquella altiva Indayá, ora suave como o pêlo ruivo das onças, ora bravia como o mar que atroava nas fragas. Mas a alma de Pindorama, essa ainda estava por vencer. Alma volúvel, esphinge de alma que tinha medo ao céo, e lhe escapava sempre e fugia, tão subtil, por entre as malhas da selva obscura, como a sombra de Indayá, que havia já um mez não procurava o tecto de seu senhor.... Indayá vingativa, por amor de quem talvez tivesse que exterminar os assassinos do velho principal!

— Senhor D. Fernão.... interrompeu uma voz, da porta do aposento.

O capitão voltou-se para um homem de coura, esgrouviado e sem barba.

— Bem vindo o mestre Nuno. Que novas me trazeis? Daes-me acaso por finda a questão das raias de sesmaria?

— Só de vós depende. Mestre Nuno é homem de boa razão e justiça, e por isso vem recorrer á alçada do justiceiro D. Fernão. Ides ouvir, senhor, que o milhafre do Tapuya Branco illude as vossas determinações. O alarve!....

Nuno Ayres tirou da cinta um papel, e desdobrando-o:

-Esta é a carta de outorga que vos approuve passar-me. Bem sabeis o que ella resa. Aqui está: duzentas varas de fundo até entestar com as cabeceiras do rio pela banda de loeste, duzentas varas de largo com serventia dos arvoredos e da ribeira.... E da ribeira, senhor.

— Continuae, mestre Nuno.

— Digo-vos que o mau visinho, pela muita cubica, além da luxuria, que o demo lhe poz na alma, põe-me embargos á serventia daquillo que a mim doastes com o sello das vossas armas. Por maneira que já lá fomos ás do cabo; que isto faz o sangue em fervuras. E mais não é tudo, senhor. Tapuya atalha-me na ribeira do brasil que derrubo, leva-me dos

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abunhados que lavram minha terra, captiva-os, dá-lhes sumiço. Se quizerdes saber com quem elle trafica.... heis de quebrar a cabeça. Olhae para aquella baixa. Hontem havia lá cem quintaes de madeira do Tapuya, hoje nem um toro. E cá não chegou navio do reino.... Destrinçae-me esta meada.

— Estaes certo do que dizeis, mestre Nuno?

-Ah! senhor, olho de piloto não confunde terra com arrumação de tempo. Ponde atalaias na costa, é o que vos digo. Eu vou descançado na justiça do senhor D. Fernão.

— Podeis ir. A minha jurisdicção não soffre quebra.

Nuno Ayres sahiu.

A's suas costas entrou Tapuya Branco. -Guarde-vos Deus, disse, descobrindo a grenha ruiva.

— De piratas e traidores, respondeu o capitão com aspereza e altivez.

-A' fé que me tirastes da bocca as palavras. D'aqui sahiu quem vos bem entendera....

— Tendes pleito com elle. Calae-vos. Dizei-me antes, onde embarcastes a madeira que tínheis acolá?

— No galeão de mestre Duarte que aqui aportou hontem sobre a tarde.

— E partiu?....

— Hoje, no quarto d'alva.

— Quantos indios captivos despachates no galeão?

— Nenhum, senhor. Se elles me não bastam para a grangearia....

O capitão emmudeceu. Reflectiu. As respostas do aventureiro eram firmes e promptas. Em todo caso havia tempo para averiguações e devassa.

— leis dizendo....

— Que esse mestre Nuno, se vos não arma traições eu quero dar a alma ao diabo.

— Que provas tendes?

— Não provas por emquanto; mas indícios, de sobejo. Permitti-me a ousadia de perguntar se a vossa serva Indayá se acha aqui entre os vossos domésticos.

— Não. Vae por um mez que a não vejo.

— Conheceis o indio Taciba, que veio da guerra com um collar de dentes do gentio tupinambá, por merecer a filha do morubixaba?

— Quem elle é? Não, nunca o vi.... Mas que quer isto dizer?

Tapuya Branco surprehendeu na agitação

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do fidalgo a confissão de uma fraqueza, e continuou :

— Quer dizer que esta colónia está semeada de sizanias e a sua paz por um fio; e que homem ha de tão más entranhas que se não peja de metter em zelos um gentio bellicoso contra um fidalgo christão. Traças, senhor, do tal milhafre; tudo por me fazer damno e tirar vingança. Sabei que esse indio Tacyba me tem a mim por cúmplice de Vossa Mercê.... e a vós, por corrompedor de Indayá....

Fernão estremeceu, escandalisado. - Basta. Graves cousas dizeis-me.... Já percebo tudo.

— Quanto a mim, desde que aqui entrei logo percebi a causa das vossas inquirições. Crêde-me, e tomai cautella....

— Obrigado.

— Não me agradeçaes, que o promettido é devido.

— Que dizeis?

— Eu prometti dar-vos conta do que nesta paragem visse e aprendesse....

— Vós?

— O senhor D. Fernão me prometteu da terra, dos fructos e do mais que o milhafre do piloto me quer despojar.

— Quem sois?.... não comprehendo. Tapuya Branco apromou-se, encarando o

gentil-homem.

— Lembrae-vos do grumete.

— O grumete.... o grumete....

Fernão Cerveira rebuscava na memoria. De súbito, pregou os olhos no Tapuya, investigou-lhe a fronte bombeada, os cabellos ruivos, a pupilla viva e ardente. Exclamou surpreso :

— Pêro Mendes!

— Elle mesmo, confirmou o aventureiro, sem pestanejar; mas para vós tão somente. E' graça que vos peço.

Crescia o borborinho de trabalho no arraial.

Ranchos de creanças passavam, conduzidos pelo frade arrabido; Índios forros, mulheres de colonos, pretos, grangeiros labutavam pelos mattos encoivarados, cujo fumo nublava a atmosphera; os gibões dos soldados passeavam na planice, ao sol; as machadadas repercutiam nas obras da capella e da tercena.

— Que mais manda de mim Vossa Mercê? perguntou Pêro Mendes, d'alli a um quarto de hora, depois de narrar suas curiosas aventuras e concertar os planos de contra-revolta.

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— Ide chamar o bombardeiro a quem tenho delegado a alcaideria. E velae os passos do gentio.

Pêro Mendes partiu, triumphante.

O capitão via-o descer, e pouco a pouco sentia esvair-se-lhe a confiança de que antes uma hora se achava alentado. Como que rugia um vulcão debaixo das suas plantas. Suspeitas cruéis lhe incutiam aquellas duas figuras de aventureiros.

— Tâcyba.... Tacyba....

A flecha do indio, perdida no espaço, naquella tarde em que a frota zarpou, de novo apparecia, entre o fumo das coivaras, emquanto um rumor de tormenta parecia crescer das funduras da selva.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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