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Capítulo 7 · Pindorama

Parte Segunda - Capítulo I

7 de 22 ≈ 19 min de leitura

S guerras da Ásia, entretidas pela perfiçy£ dia dos naires e rajahs e pelas intrigas dos mouros, levavam aos mares do Oriente expedições successivas. O campo do heroísmo portuguez era nas praias e sob os arecaes daíndia. As frotas carreavam para alli a flor da mocidade, saudosa dos tempos áureos de Aljubarrota e Ceuta; os novos condestaveis chamavam-se Affonso de Albuquerque, Francisco d'Almeida, Tristão da Cunha. E aquelles que sonhavam, como Fernão Cerveira, a gloria de redemptores de almas e conquistadores de vellocinos, tinham primeiro que dar fogo ás bombardas e ensanguentar o aço dos montantes.

Nessas pelejas e refregas, nos trabalhos de feitorisação, nas vinganças que os portuguezes eram forçados a tomar dos suzeranos

bárbaros, quasi se havia estancado no coração do joven fidalgo a fonte de ternura que elle sentira derivar, em plena floresta, á face da virgem selvagem, de suas irmans degradadas, dos indios sem Deus nem rei, entregues, num paiz feracissimo, á bestialidade dos instinctos.

Largos annos decorridos, e a projectada feitoria, quasi esquecida, continuava a ser um castello no ar. Novas da terra descoberta, só as traziam armadores que andavam cruzando nos seus mares e pojando em seus portos, como contractadores de pau brasil.

Foi por esse tempo que chegou a Fernão Cerveira um echo assustador, que o fez passar ao reino, já menos receoso da conquista asiática. Espalhou-se a nova de que ousados mareantes normandos grangeavam a alliança das tribus pacificas do Occidente e lhes punham saque ás riquezas.

Com poderes de capitão de uma capitania, declarados em alvará de el-rei, o gentilhomem transportou-se numa esquadra mercante ás terras de Vera Cruz. Alguns besteiros o acompanhavam com armas, munições e mantimentos. O primeiro ensaio de colonisaçãoia fazer-se.

Não lhe foi propicio o vento. Uma tempestade esgarrou os galeões. Depois, quando as primeiras serranias se azularam no horisonte, a proa de um navio pirata ameaçou o barco do capitão. Era impossível luctar. Fugiram.

A costa do paiz estava infestada de especuladores estrangeiros; esboços de feitorias, quintaladas de madeira preciosa, vestígios de commercio em todos os abrigos do littoral.

Nova tormenta sobreveiu. Novos transes. Mas não desanimava o heróico aventureiro. Em meio dos perigos uma grande voz troava, sempre, sempre. — «Ide-vos por todos esses mares em fora ás terras de infiéis. Ide-vos a plantar a arvore do vosso Deus; elle vos guiará sobre as ondas aparceladas e tempestuosas.... »

A frota demandou o primitivo «porto seguro».

Fernão tinha pressa em assegurar-se da fidelidade dos seus rudes amigos. Para lá o chamavam recordações inextinctas, ainda que meio apagadas: sua aventura na selva, a aldeia, a cruz do monte, Indayá, o grumete.... Este! que seria d'essa victima da cobiça, que se suppoz na armada ter-se evadido com ou-

num esquife? Já lhe não sabia o nome... E os degradados? Se os fosse encontrar a todos.... Havia lá colonos, aventureiros, outros condemnados, mas dispersos no sertão e' nas costas do paiz, informou Nuno Ayres, o piloto do barco.

— Dispersos.... E porque?

— Em cata de ouro ou acossados pelos piratas, respondeu o piloto. Se não foram as guerras d'Asia, devíeis de pedir para aqui uma esquadra de guarda-costas. Pois não é que os taes bretões nos privam, a nós portuguezes, de fazer o resgate, elles que não pagam vintena e quarto nem sabem o que seja casa da índia?.... Os alarves....

— Piloto, conheceis acaso algum dos nossos na bahia de Vera Cruz?

— Nenhum, senhor. Lá refrescamos uma feita, mas não pojamos em terra. O nosso escambo é ao sul, no porto da Carioca. Este paiz é vasto como trinta Guinés. E que riquezas, senhor, que riquezas....

— Sabeis algo da língua dos seus naturaes?

-Sei o que farte para nos entendermos.... Se me concedêsseis uma sesmaria, senhor.... eu vos promettia limpar a costa de

corsários e abrir-vos o thesouro cTeste encantado Pindorama, de cabo a cabo.

— Pindorama?....

— Esquecia-me que ainda não sois experto na algaravia do gentio. E' o nome do paiz, senhor cavalleiro; é como se eu dissera — Terra das Palmeiras. Jóia de terra! Se mandásseis vir pretos d'Africa e navios guardacostas.... Se me concedêsseis....

A noite poz fim á conversa.

Fernão recolheu-se.

Na madrugada seguinte os galeões davam fundo na enseada. Sôfrego de pisar o solo e estabelecer arraiaes, o moço donatário desceu ao batel, apenas raiou o dia.

— Mestre Nuno Ayres, hei mister da vossa companhia. Muito ha que mondar neste campo. Se quereis trocar os roteiros de piloto pelos foros de sesmeiro, segui-me.

Mestre Nuno entreviu o rosto da fortuna, que até então lhe fora escassa, apesar das muitas diligencias. Era um homem secco de músculos, desbarbado, altura regular e feições retintas, com um olhar ferino a que as pálpebras rugosasaccrescentavam malícia. Largou o leme ao sota-piloto e desembarcou, promettendo:

— Contae commigo. E' só Vossa Mercê dizer para onde arrumo a proa.

Estava mudado o aspecto do sitio. A's orlas da praia havia embarcações pequenas como fustas e almadias, sobre os recifes o cavername de um bergantim naufragado. No outeiro os braços da cruz se abriam tisnados para o descobridor; toucas de pacobeiras meneando os largos leques, as palmeiras mais altas, os hervaçaes queimados. Só a floresta parecia a mesma, intacta, pejada de sussurros e mysterios, e o chorrilho dos papagaios voando-lhe pelas culminancias para os sertões e as montanhas. Abaixo da collina e dos montes eram casas, cobertas de rama e palma tejupares miseráveis, cercas de taboa, alpendradas, galpões de espeques e palha cheios de toros de madeira, caules de burys abatidos sobre os ares das praias, e pairando na atmosphera do arraial, em contraste com os esplendores da manhan, um socego, um ar estagnado de presidio e tapera.

E os indios?.... Nem uma d'aquellas figuras indolentes, esquivas, em pêlo, que tão mansamente acolheram a gente da primeira frota. E Indayá?.... Os degradados? O grumete?....

PINDORAMA Hl

Cercado dos seus homens d'armas, emquanto o batel descarregava oscostaes de mantimentos, o capitão mandou tanger a trombeta.

Começaram a despertar os visinhos. Abriram-se postigos e portas de urapema. Em breve, ao tropel dos besteiros e ao pregão do instrumento achou-se Fernão e sua companhia entre mulheres brancas e muito moças caboclas domesticadas. Creanças quasi nuas mostravam na tez morena mescla do sangue bárbaro que começava a tisnar a raça aventureira. Todo o arraial acordou. Um velho esmaleitado, de chapeirão cerzido, appareceu no meio da turba, estremunhado, a pedir novas da península e das guerras da Ásia.

— Vem da parte de el-rei, Vossa Mercê? E o perro de samorim?. .. Quando voltam esses galeões? Ah! se me despachásseis num delles para além-mar.... Nesta feitoria, senhor, tudo é derribar mattas e carregar brasil; tudo é guerrearem-se uns aos outros, gentio com gentio, christão com christão.... E os corsários!....

— Agora? perguntou o capitão. Jaz tudo aqui em paz?

— Paz, agora? Elles por lá se avenham. O

PINDOBAMA

peor é que o gentio d'esta paragem é fraco e os seus contrários mais ferozes que jaguaratés. Já cá nos bateram á porta. A guerra, senhor, anda lá por esses sertões. Emíim Vossa Mercê vem por sentar arraial, não é verdade?

— Assim o espero. E quem sois vós? Quem é o «feitor» d'esta feitoria?

O colono hesitou, e baixando a vista:

— Eu... sou um triste necessitado de mezinha, como vedes, sem sorte na grangearia.... O homem rico d'esta paragem é o Tapuya Branco. D'elle é toda aquella madeira que Vossa Mercê está vendo, e muita mais fazenda que se não vê. A casa do nosso Tapuya é 'um granel; a nossa é aquelle colmo. Se quereis, todavia....

— Por agora dae-me noticias dos colonos e do.... feitor.

— Ha duas semanas se partiram para a serra verde, que é toda de pedras preciosas, elles o crêem.... São esses cabedaes, senhor, que desavém os nossos; e quantos por essas brenhas têm pago a cobiça com a vida, frechados, devorados....

As mulheres davam trela aos marujos e besteiros, sob o alpendre da casa de Tapuya

Branco, onde se recolheram os mantimentos e armas.

Nuno Ayres, que ouvira calado, interrogou por sua vez o ancião, em tom irónico:

— Em que frota veio esse grão senhor Tapuya de tão grossas fazendas?

— Não o sei dizer. Sei que quando aqui esteve a nau Bretôa, já o Tapuya embarcava para o reino quintaes do tal pau de tinta e mais especiarias, animaes e grandes aves a que chamam araras. E com elle vieram doutras partes muitos colonos e até mulheres que lhe rendem menagem e o respeitam como senhor d'estas marinhas e terras. E tudo é trabalhar para o Tapuya....

-Ladino, lá isso é, o tal feitor.... Senhor D. Fernão, vamos a repousar. Temos mouro na costa, e se vos aprouver, amanhan daremos uma batida por ahi dentro, a ver quem mais manda e desmanda.

O resto do dia passou-o Fernão e mestre Ayres na pobre vivenda do colono, a inteirar-se dos costumes da pretensa feitoria, do seu commercio marítimo e suas luctas com os piratas normandos, da lingua usanças e minas do paiz.

Os besteiros arrancharam-se nas casas

das cachopas, improvisando folias e descantes, ao som de violas, adufes e doçainas.

Na manhan seguinte, armados de ascumas e bestas, sahiram todos com o capitão e mestre Nuno Ayres a explorar o littoral, as montanhas e a selva.

A principio achou-se o cavalleiro num espesso mattagal; internando-se, porém, descortinou claros immensos, troncos golpeados, feitos em toros, copas derribadas, signaes de verdadeira devastação. Mas o seu fim principal era descobrir a antiga aldeia. As sombras da floresta já lhe não causam pavor. A necessidade de celebrar com os indios um pacto de amizade, que conjurasse todos os perigos de futuras incursões, impellia-o á maloca do velho morubixaba e da altiva Indayá, sua filha.

— Se estão em guerra, opinou mestre Nuno, baldareis os vossos passos. Aquillo deve de estar uma tapera.

Fernão, todavia, não se deu por convencido. A imagem da moça india o chamava, com alguma cousa de sentimental e de ideal que se mesclava á sua concepção de um governo forte na colónia, aos sonhos azues da serra de saphiras e aos sonhos deslumbrantes do ouro.

MNDORAMA 85

Avançava, quanto podia, sem norte, a demandar a oca do ancião, cuja hospitalidade lhe era então mais precisa que nunca.

Nesse vaguear deteve-se, alto dia, a um gesto de Nuno Ayres.

-Nas margens do Mar Doce, ao norte d'aqui, disse o piloto, houvemos occasião, eu e a mais gente que levava commigo, de acertar com o paradeiro dos seus naturaes. Eram uns ramos de arbustos lançados a dentro pela floresta, em direitura. Por maneira que os seguindo fomos topar com o taba da cabilda... . Notae, senhor, esses ramúsculos verdes aqui, alli, acolá. Por aqui, vos afianço eu, passaram indios.

— Razão é para que não desesperemos de encontrar algum dos nossos.

Ao aventureiro é que não se lhe dava de encontral-os ou não. O peor eram aquellas guerras da índia que não permittiam a el-rei enviar armadas e soldados bastantes para garantir o escambo nas costas. Quanto aos selvagens, elle os via como excellentes peças, rivaes das alimárias que forneciam pellegos de valor.

— Já entrastes muito estas terras interiores?

— Nem uma, nem duas, muitas vezes. Que eu cá, senhor D. Fernão, tanto carteio em terra como no rriar. Tudo isso, desde o Mar Doce até Paránambuco, e rio dos Tapuyas, e bahia dos Perdidos.... Oh! paiz sem fim.

— Não era pois uma ilha, como entendeu o almirante....

— Qual, senhor! Estas terras não têm cabo, são um continente vastissimo, todo elle assim de bastos arvoredos, rios navegáveis e campos lavradios, d'elles cobertos de pastagens, d'elles entregues á herva damninha. E fructas, raizes, mel silvestre, caça grossa abundante como o peixe nos esteiros e enseadas. Mau aqui, senhor, só é o gentio, porque a própria fera não traga a seu semelhante....

— Certo não são taes os d'esta paragem, que tão bom agasalho nos fizeram.

-Por os conter em obediência, proseguiu mestre Nuno, foi mister, alhures, atacal-os em som de guerra. E porque, ou atiçados pelo Normando ou levados pelo seu natural maligno, fugissem sempre de pazes com n osco, determinaram os armadores das frotas, com licença de el-rei, que os conduzíssemos captivados também como objecto de trafico, o que

d'alli por deante se tem praticado com grandes proveitos.

O capitão fez sustar a marcha dos besteiros. A espessura da selva augmentava: um acachoar de levada rompia das bandas do sul. D'ahi em deante o cipoal e as lianas, cahindo em cordas e grinaldas pelos troncos, enroscando-se pelos galhos que se entreteciam, á altura de um homem, roçando folhagens por um dédalo de raizes aéreas e matto bravio, oppunham verdadeira tapada ao avanço dos exploradores. Foi-lhes preciso renunciar a pista do desconhecido matteiro. A conselho de mestre Nuno tomaram todos a direcção do mar, ao longo do cerrado, atravez do qual sentiam o borbotão d'agua corrente.

Teriam andado cem braças, começaram a ver mais claro. O chão recamado de folhas bordava-se de fantásticas illuminuras. Estugando os passos, descobriram vasto rasgão na tapagem, e approximando-se deram com uma espécie de aceiro aberto pelo rio caudaloso, cujas aguas verdeciam, rolando por alli surdamente. Depois de contemplar a corrente, perscrutaram-lhe as margens e os barrancos argilosos. Fernão recordou-se da pegada enigmática de outr'ora. Aves ribeirinhas iam-se

recolhendo timidamente ás moitas, um grito de ferro tinia de espaço em espaço, as grandes corollas amarellas dos jacarandás reappareciam na margem opposta, o azul do céo desenrolava-se como uma fita por cima do leito do rio verde. Fernão impacientou-se naquella solidão, que confirmava o êxodo da tribu tupiniquim e do seu principal. Sem este, sem a magestosa Indayá, figuravam-seIhe mal seguros os seus planos de colonisador.

Fatigado, contrariado, ia regressar ás praias, mas um choque súbito dentro no rio, á distancia de um tiro, attrahiu todas as vistas. Uma india nua, agarrada a uma creança tenra, banhava-se. A companhia precipitou-se sobre ella. A selvagem, depressa, vadeou a correnteza e lançou-se no matto, fugindo como uma lebre.

— Tarde se faz, ponderou o fidalgo. Mestre Nuno, é bem de ver que não conheceis esta zona. A aldeia já lá ficou.... Vamos a esperar a chegada do Tapuya Branco, quem quer que elle seja.

O aventureiro, um pouco humilhado, jurou descobril-a. Esse Tapuya já lhe fazia sombra, isto elle o sentia. Mas não tugiu.

IMNDORAMA 89

— Senhor Nuno Ayres, disse um homem d'armas, já que tão adestrado sois nas cousas do paiz, podereis decifrar estes rastos?

Mestre Nuno abaixou-se á beira do rio, examinou as pegadas e falou :

— Que ellas pertencem a indio sou a jurar....

— E que vem das cabeceiras do rio, também o juro.

— Posto que assim pareça, emendou o aventureiro, radiante, não sou de aviso que a ella nos confiemos. Nem vos espante, nem vos mova o riso, senhor D. Fernão, se eu vos disser que o dono d'esta pista bem pode estar fugindo ás nossas costas, para as fontes (Testa ribeira.

— Como, mestre Nuno? Acaso a gente d 'este paiz anda ás recuadas?

— Abrenuncio, exclamaram os besteiros.

— Se me não credes, lá está o mestre João da nossa frota, a quem foi presente um indio das malocas do Mar Doce, com os pés ás avessas!.... De maneira que se alguém intenta seguir ao encalço de algum, saía-lhe em sentido contrario aos vestígios do pé.

Esta informação encheu de pasmo a companhia. Os mais incrédulos mofaram.

A marcha continuou em silencio, mais apressadamente, seguindo as costadas do rio. Os homens d'armas abriam passagem, batendo os arbustos pela beira do arvoredo, em cujas ramas gorgeavam passarinhos e fructos e flores de exquisito perfume desabrochavam.

A tarde vinha carregando as sombras cte matta. — Era preciso ganhar as ribas do oceano e esperar o Tapuya no arraial. Mas quando chegaria o rico homem?

Os exploradores desciam, ao grito echoante das grandes cigarras, passando quasi indifferentes pelos cambuys arreados de flores alvas e as mandibas de fructos cor de cereja, mocujês listrados pelo látex branco que escorria dos troncos feridos, copiubas negras de tantas fructas que lhes apinhavam a folhagem, amaytins que balançavam cachos semelhantes a uvas, e cambucás, maçarandubas e abajerús também pintados de flores niveas e bagos roxos, a demonstrar que as praias vinham perto.

Com effeito, já um estrondo amplíssimo annunciava o mar quebrando próximo. A ribeira alargava o leito, despenhava-se com a terra, areias claras appareciam lastrando-lhe o fundo. Não tardou que o lençol azul da en-

seada se desdobrasse aos olhos da companhia.

Mas neste ponto uma forma escura se levantou, caminhando para a foz da corrente. Era um homem, um selvagem. Tanto que o viu, deu ordem o capitão para que lhe cortassem a fuga.

Seu intento era munir-se de um guia e obter novas da tribu e do seu exacto paradeiro.

O indio não se perturbou nem se desviou. A' distancia de vinte passos, acenaram-lhe que parasse. Elle obedeceu. Era avançado em annos, tinha um furo no beiço inferior sem o botoque, a guedelha comprida, braços e pernas tintos de urucú. Vinha da pesca, embraçando a puçá e uns peixes. O língua dirigiulhe a palavra, indagando da sua casta e posição da aldeia.

— Tupinaê, respondeu o selvagem, com ar de simplicidade, — de ao pé da serra Azul e da serra Verde.

— Os d'esta costa para onde se partiram? O pescador abanou com a mão para o

norte.

— Desde quando?

— A lua já alumiou e se apagou três ve-

A taba é hoje tapera. Grandes guerras soffreu o tupiniquim, gente fraca, por causa da filha do morubixaba.

— Vem comnosco.

Elle não resistiu.

Noite cerrada, emquanto nas choupanas do arraial os soldados e os marujos que desceram da frota sopravam doçainas, cantando e folgando, na casa do velho colono mestre Nuno e seu senhor ouviam attentos a narrativa do pescador tupinaê. — «A filha do morubixaba tupiniquim, a formosa Indayá, fora cobiçada por um estrangeiro, depois que d'alli sahiram as igaras grandes. Das serras altas desceu o cacique dos aymorés, da serra Azul viera o valente guerreiro tupinaê. Os tapuyas-brancos derrubaram mattas e partiram. A inubia troara perto da aldeia de Indayá; o morubixaba ouviu o page e deixou a taba. Lá perto de um parámirim encontrou os guerreiros tupinambás. Indayá foi tomada por elles. A guerra começou.... »

As difficuldades amontoavam-se, empecendo ao capitão a realisação dos seus planos. As tribus em guerra accesa, o littoral talado por desconhecidos e feros bandoleiros, piratas normandos e bretões salteando portos,

devastando florestas. Os colonos dispersos, o paiz disputado pela ganância de suppostos feitores, á mercê de aventureiros de toda espécie.

Como sentisse appetite, mandou mestre Nuno ao alpendre buscar do vinho e figo secco que viera na frota.

Nuno Ayres ia sahir, quando um assombroso tumulto de vozes e estrupidos invadiu a escuridão do arraial.

Abriram-se as portas, e o mulherio despejou a gritar, explodindo em jubilo:

Chegou Tapuya Branco! Chegou o nosso feitor!

A trombeta soou no alpendre. O alarido redobrou. Entrava a bandeira. Mas ao clarão rubro dos fachos que os bandeirantes agitavam, o capitão viu também um rolo de selvagens que vinham desordenadamente, aos uivos, brandindo arcos e maças, e á vanguarda d'essa legião de duendes o vulto de uma india, que ao mesmo tempo carpia e vociferava....

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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