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Capítulo 9 · Pindorama

Parte Segunda - Capítulo III

9 de 22 ≈ 16 min de leitura

OR uma tarde de abril, as praias da capi-

tania apresentavam insólito movimento de colonos. Tinha aportado um navio do reino, com boas novas de conquistas portuguezas no Oriente. Quasi ao mesmo tempo, a armada do capitão Ribeiro trazia o alvoroço de victorias obtidas sobre as naus bretans nas aguas do norte, onde os piratas foram surprehendidos a fazer brasil.

Columins, negros de tanga, marujos, mulheres confundiam-se lá embaixo, misturando gritos e chamamentos nos três dialectos corrompidos em que se entendia o populacho da colónia.

Os bateis da frota e do galeão mercante, cortando o remanso da enseada e entrando o rio ao longo da praia, iam descarregando homens e mercadorias; costaes de mantimentos

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e géneros de resgate subiam para os armazéns de Pêro Mendes. Na tercena, por concluir, se recolhiam as munições e armas.

Depois o galeão recebeu todo o brazil que havia nos depósitos. Nuno Ayres já deixava as praias, satisfeito, murmurando comsigo:

— Jóia de terra! Jóia de terra!....

As peças de cruzados lhe tiniam nas mãos.

Muito maior, o commercio de Pêro Mendes ainda não lhe dera descanso. E elle activava os seus homens com boas maneiras e promessas.

-Andar, andar, mancebos! Mais tarde o regalorio.

Ao escurecer tinha o galeão completado o seu carregamento. A capella enchia-se de meninos e peões para o terço. Nos colmos e ranchos começaram arpejos de violas. Marujos, de folga, a trautear canções, iam preludiando as folias do serão, numa d'aquellas noites tropicaes em que o sueco do aipim e do ananaz fermentado e os vinhos da metrópole, regando comezainas extravagantes pela confeição dos manjares, ateavam a sensualidade faminta dos colonos e marinheiros.

A' voz dos fadistas foram surgindo lotes de grangeiros, sequiosos de regabofe.

Moças indias cahiam nos braços dos marujos, desprendiam-se, bailavam, copiando os gestos e passos das companheiras brancas. Por entre as moitas, na relva dos terreiros, sob um céo macio como velludo, pela aragem fria que ciciava no milharal das granjas e roças, ninguém se lembrava mais do jaguar que bramia além da selva, ameaçando a colónia.

Na vivenda do ricaço Tapuya os vinhos e licores bárbaros e o fumo do petum, bebido em cachimbos e cangoeiras, tinham levado o prazer ao mais alto gráo de exaltação.- A' sua mesa farta de bolos, de pescado e fructas, acabava de sentar-se mais um conviva.

Era um indio novo, baixo e espadaúdo, de tanga de algodão como os negros, o cabello tosado, dentes á mostra num sorriso parvo de chocarrice. O aventureiro, fulo de alegria, apenas o viu, levantou os braços, empunhando o pichei de vinho que lhe pousava debaixo da barbaça ruiva. Um tlim de cruzados lhe escapou dos bolsos do gibão.

— Muchachos, este é o columin amigo dos christãos, Ubiraúna de nome.... Tangei

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as violas em honra cTelle. Cachopas trazei-me da gerimú para o columin!

Os convivas ergueram-se dos mochos. Num momento encheram-se e vaziaram-se todos os picheis. As violas arpejaram. Sahiram dos fundos da vivenda dous rapazes curibocas, filhos de Tapuya Branco, soprando doçainas. Três mancebas punham na mesa, enodoada de vinho, escudellas com talhadas de abóbora que o indio se poz a mastigar. Emquanto comia, dansava aos pinotes, sapateando na roda com os marujos e brasileiros reaquecidos pela ultima libação.

No meio da sarabanda, o aventureiro gritou, emborcando mais um' copo: -Canta, Ubiraúna !

Os tocadores, intensando a musica, metteram o indio num circulo. Ubiraúna entrou a correr, fazendo giros, bracejando como se tangesse um maracá e dando pulos de gato bravo, ao passo que a sua voz rouquenha entoava monosyllabos explosivos, afinando com o tom dos instrumentos.

A' porta da casa tinham parado os concertantes que faziam serenata. Dos ranchos visinhos partiam brados orgiacos, zunidos de viola, rufos de adufes, gaitadas, descantes ao

desafio. E Ubiraúna dansava, repetindo os saltos felinos de maracajá.

De repente os gestos do indio começaram a descrever uma lucta : o braço esquerdo esticava-se-lhe, a dextra parecia segurar a haste de uma flecha, a fronte avançava acompanhando o disparo da arma, um assobio agudo fingia o silvo da setta imaginaria. As feições do columin readquiriam os traços selvagens do indio bravio.

Depois disso os membros se lhe agitaram em desordem, os olhos chisparam epilépticos, o braço de Ubiraúna como que desferia no ar golpes de tamarana; alguém gemia de rojo no chão do aposento, á luz mortiça das candeias. Seus lábios se arregaçaram numa contracção de alegria feroz; as doçainas calaram-se; ficaram as violas monotonamente num zan-zan indefinido e a voz de Ubiraúna, surda e grave, psalmodiando compassadamente:

Hê! hê! herarè!.... Hê! herarê! uhê!....

Quando elle acabou, a turma de foliões que o ouvia do alpendre rompeu em applausos e foi seguindo com as mancebas, em algazarra, pela noite serena. Estalaram palmas na

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sala do Tapuya Branco, os picheis tornaram a encher-se e a esgotar-se. Os marujos e grangeiros da companhia tiravam pelas caboclas e brancas, a quem chamavam muchachas, dando-lhes palmadas nas ancas. Pêro Mendes correu a um canto da sala, abriu um patiguá, depois resvalou com o indio para o alpendre escuro e mettendo-lhe nas mãos um punhado de cascavéis, dos que recebera para o resgate:

-Fala Ubiraúna, ordenou com anciã; eu sei a que vieste. Fala....

O indio lançou-lhe á cara uma baforada de vinho, dizendo:

— Ubiraúna já falou.

E poz-se a reproduzir a mimica do combate, fazendo tiro do punho. Nisto sentiu perpassar na sombra das pacobeiras uma forma subtil. Aguçou as narinas, farejando; abanou com a mão e continuou:

— A flecha de Ubiraúna é mais certeira que o bote da boicininga. Tacyba cahiu como o guariba do galho da sapucaia.

— Tacyba é morto?!

— A curabi do columin livrou da fera o principal dos brancos. Ubiraúna prometteu, cumpriu.

N'este momento pelo espirito de Pêro Mendes atravessou a imagem do seu rival, — mestre Nuno abatido, esmagado sob os desabes de um castello de traições, emquanto elle, Tapuya Branco, todo na graça de D. Fernão, senhor das boas terras, da ribeira, das mattas de ibirapitanga, ficava sendo o arbitro da paz na capitania, o seu medianeiro com a tribu dos tupiniquins expurgada do joio d'aquelle selvagem ciumento....

No terreiro de uma choupana armou-se rixa entre mulheres e marujos que as disputavam. O passo dos besteiros approximou-se. Pêro Mendes entrou de arrancada na sala, tornou a encher os picheis, e levantando o seu. exclamou :

— A' paz da colónia! Ao fidalgo capitão e aos columins da nossa campanha ! Toca a regalar, mucachos!

As violas e doçainas responderam á saudação com impeto. Colonos e mancebas desappareciam nos mattos pelo fundo da vivenda. Por entre as searas húmidas, á beira das choupanas, sobre as esteiras de pindoba iam-se debandando as folias e emmudecendo os concertos....

Entretanto, na sala da casa senhorial,

inclinado sobre o panno de damasco de um bofete, á luz da lâmpada, o capitão da capitanea traçava a mensagem que devia seguir para o reino com a armada, ao clarear da manhan.

Que tem o gentil homem que, de vez em quando, suspende a mão e se debruça da janella, inquieto, a olhar, por entre os colmos e milharaes, a noite cheia de cantigas e perfumes silvestres?

Seus pagens dormem. Das névoas do mar vem raiando o livor da lua. Na quebrada do monte, sob as ramas das embirussús cujas flores se abriram bem por cima de uma choça, murmura a eterna queixa de Afra, a diligente Afra, que veiu com as novas espécies pomareiras e as drogas de condimento ajudal-o a desentranhar os thesouros de Pindorama. O seu canto parece a voz de um alaúde ao vento. — Mas que rumor é aquelle no hervaçal? Serão antas ou caititús famintos que andam a prear nas roças?... Uma suspeita se filtra no animo de Fernão Cerveira e o faz recuar para o meio da quadra.

As denuncias dos aventureiros traziam-no desassocegado, punham-lhe sitio de fantasmas. A crel-os, tanto era preciso escutar as

brenhas, como vigiar as costas. E se deveras a perfídia estivesse alli mesmo entre os povoadores da colónia, armando arrancandas de Índios, minando o campo das aspirações que o trouxeram d'aqueH'outro campo de glorias, das terras do Levante?.... Aquelle mestre Nuno, alma de breu, e o seu Tacyba, mysterioso personagem, — que negros planos andariam tecendo nas trevas?... Pêro Mendes, o grumete desertor, o mascarado bárbiruivo, senhor de concubinas, guloso de pedrarias, de terras e mattas, seria ainda o marinheiro dissimulado que se degredou pela ganância?... Indayá, nume errante da floresta, creatura incoherente feita de rancor e doçuras, por onde vagava áquellas horas, em que secretos conluios porventura empenhava o génio guerreador da cabilda, sequiosa de vingança?....

A voz de Afra extinguiu-se na cabana do valle.

Fernão tornou á janella, a espreitar o hervaçal, por onde o vento suspirava. A lua vinha surgindo, quasi plena, uma lua de ouro mate que o oceano reflectia como aquella esplanada esmeraldina, em volta da taba, onde seus olhos tiveram a mais estranha visão das riquezas da terra. Então, pelas altas relvas

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do outeiro, o capitão viu passar, de fugida, uma após outra, as silhuetas de um casal e breve se apagarem na sombra dos pousos com um sussurro caricioso de amantes felizes.

— Concluamos, disse, olhando para a mensagem aberta sobre o bofete.

Sentou-se 'e accrescentou : «... que se não acudis tão de prompto, como se faz mister, com a providencia de navios guardacostas e de outros donatários que aqui venham a sentar povoações e pôr em ordenança os moradores, asseguro-vos que toda esta colónia e seus thesouros cahirão em poder dos piratas, ajudados pelo gentio, que é do seu natural inconstante, bandoleiro e contumaz. Pela frota que ora refresca neste porto sabereis por miúdo do que ha succedido nestes vossos domínios. Com a repartição da terra deveis, Senhor, de cogitar da salvação de tantas almas, enviando-nos clérigos zelosos, pois é esse um dos melhores fructos, alem dos metaes e drogas, e lavouras, que podeis aqui fazer, como bem vos disse o escrivão da primeira armada.... »

Fernão tornou a sustar a escripturn, ouvindo o suspirar longínquo de uma doçaina. O clarão da lua brincava na panóplia que as

suas adagas e lanças, o elmo de plumas e o arnez polido formavam na parede do aposento.

Pareceu-lhe que do alpendre lateral se dirigiam passos discretos para a porta da quadra.— Quem podia ser? O alcaide? Algum pagem somnanbulo? Algum traidor? Tacyba?!

A porta gemeu ; elle assomou á estreita janella sobre o alpendre. O luar vestia de um velilho pallido o perfil de uma mulher, que tirara dos hombros o farrapo de arasoyá que os cobria.

Surpreso, D. Fernão exclamou.

— Indayá!....

Ella esgueirou-se para o interior e cahiulhe ás plantas na alcatifa da sala, murmurando sons confusos, com olhar humilde e gestos submissos de pobre animalejo sem consciência dos seus delictos.

Severamente contemplou o fidalgo a serva remissa, que assim quebrantava a disciplina e o freio do respeito na sua morada. — Excêntrica villôa!... E devia perdoar-lhe, tolerar suas irreverências, próprias d'aquella barbaria com que era força tratar!

Por fim falou-lhe:

— Indayá, que fazem teus irmãos endure-

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eidos na gentilidade? Prometteste-me a sua alliança, as suas pazes, a sua fidelidade, e d'elles ha que me procuram males em paga do beneficio que lhes grangeio....

A india escutava, com apparencias de impassibilidade.

— Espaço de dous mezes, proseguiu o capitão, d'aqui te ausentaste.... Os corsários entram ribeiras, senhoream terras, derrubam florestas, resgatam sem damno e impedimentos.... Fala, Indayá; que fazem os da tua tribu que assentaram ajustes com Tapuya Branco?

E isto dizendo, o fidalgo espiava a traição nos olhos do aborígene.

Ella ergueu-se da alcatifa e respondeu, na língua barbara, que o capitão pouco a pouco decifrava. — «O tupiniquim era fiel ao forasteiro branco. A voz do abaete da taba reunira um conselho e este conselho tinha decidido levar a guerra ao tupi mau que aprisionara o* morubixaba. Indayá com as outras mulheres da maloca, fabricava os vinhos e a farinha para os guerreiros que iam tirar desforra. Escrava do senhor branco, ella vinha pedir vingança para o sangue do pae que o tupi mau derramara. »

E sempre a vingança, sempre o ódio, larvado mas inextincto, naquella alma selvática, mysteriosa e insondável, como as aguas de um poço profundíssimo! Que perigoso encanto, que felina suavidade, todavia, nessa filha das brenhas, cujos cabellos nédios tão depressa transmittiam a sensação do frouxel das pombas como se eriçavam leoninamente, prestes a desenfeixar molhos de settas ponteagudas!.... *

— A guerra é um crime, Indayá! E o estrangeiro não veio para abominações que o céo reprova ; elle veio a semear concórdia, união e amor; elle quer as tribus apaziguadas em nome do verdadeiro Tupan, que é Deus de misericórdia.

— O senhor branco também faz a guerra. Indayá vê na oca dos forasteiros a arma que vomita fogo e a que vence o pau ferro.

— Teu senhor combate, mas pela alma, não pelo sangue.

Indayá, não percebeu. Disse e repetiu :

— O sangue do morubixaba pede vingança... Vingança! Vingança!

A necessidade de manter e consolidar a alliança com aquelles tupiniquins, de os conservar fieis á defeza da capitania, abaixo da

serra e dos sertões, como uma guarda avançada contra os assaltos de que eram theatro as povoações do sul e do norte, constrangia D. Fernão ao sacrifício da guerra. Indayá continuava a ser a promessa mais segura da alliança. E o preço de tal sacrifício bem poderia ser a conversão em massa dos tupiniquins. Era forçoso ceder.

— Pois bem. Irás dizer ao abaete que o estrangeiro amigo o espera em seu arraial. Dize-lhe que o sangue do principal não cahiu em charneca estéril. Elle será vingado.

A estas palavras, a india, estremecendo, revolveu nas orbitas pequenas os crystaes negros dos olhos, e os membros nus se lhe arquearam executando um salto para o alpendre.

Fernão Cerveira, seguindo-a pousou a mão na sua espádua lisa, que parecia guardar a frescura das aguas da ribeira.

— Aonde vaes?

— Indayá, vae esperar o dia na oca do Tapuya Branco....

Quando fugissem os espíritos maus que vagueavam na floresta e as embirussús fechassem as flores na ocara dos tupiniquins amigos a pocema estrugiria. Dando-o a entender,

a selvagem era como que presa de um calafrio febril.

O capitão sahiu do alpendre ao campo e na quebrada silente, sob o alvor do luar, os ramos das embirussús floridas lhe deram a visão longínqua dos olivaes cobertos sincélos. Das corollas de. neve subia um hálito suave como o suspiro aflautado de uma doçaina que ainda gemia pelo ermo agreste.

O vulto da india, tendo-se afastado, resahiu no cimo do monte como uma estatua em que os raios da lua se tornavam lívidos. Parecia aguardar uma ordem. Fernão andou para ella e tornou a torcar-lhe o hombro, dizendo, em voz baixa e meio anciada:

— Vem....

A selvagem obedeceu.

Quando entrou na quadra, o cavalleiro sentiu-lhe melhor o cheiro das baunilhas que trescalava do longo cabello, negro como a pellucia do jaguareté.

Indayá caminhou para a alcatifa, sobre a qual pousava um coxim de seda, encimado pela panóplia.

Seus membros fortes e opulentos eram como os ramos por onde se enroscavam as grinaldas de trepadeiras silvestres. Seus bra-

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ços tinham flexões magnéticas de caninanas.

Pelo vácuo da janella o fidalgo ainda viu o mar de prata e o céo de velludo pérola; o philtro aéreo das embirussús lhe acariciou mais uma vez o olfacto.

Indayá, tendo pisado o tapiz, abateu-se num movimento de submissão e indolência felina. A lâmpada morria. A doçaina solitária cessou de gemer, e só o sussurro da floresta ficava enchendo a solidão como uma chuva de germens derramada sobre a luxuria da terra.

O capitão, vencido, mergulhou no coxim.

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Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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