Leia agora
Pindorama

Universo da obra

Pindorama

Capítulo 17 · Pindorama

Parte Terceira - Capítulo VI

17 de 22 ≈ 9 min de leitura

capitania de Pêro do Campo, cerca de dous annos depois, foi ter o dedicado Diogo, que já se havia transferido á sua sesmaria, afim de tentar pazes com os tupinambás.

Fernão sahira em expedição ao longo da costa, acampamento da tribu tupiniquim, buscando por sua vez consolidar a alliança entabolada por intermédio de Indayá.

— Senhor, disse Diogo ao donatário, sabido está hoje que fostes victima de um desleal servidor e de um falsario que se não pejou de envergar as vestes dos servos de Deus para aquella abominação....

— Sei-o de mais, bom Diogo. Ruy Sanches vendeu-me por trinta dinheiros.... Que tempos e que paiz, em que se vê um fidalgo

da casa de el-rei ludibrio de criminosos e degradados!

— Sabei mais que das provanças que vos fizeram curtir estão arrependidos gentios "e canicurás. Desde que de lá vos partistes, nenhum resgate se fez. De maneira que Tajaçú e os seus, vendo que tudo lhes fallece com quanto folgavam e eram costumados, tornaram-se a mim e a vossos fieis vassallos Paulo Dias e Affonso com mostras de submissão e recados para vÓ3.

-Estaes certo de que não usam fingimento?

-Certo, senhor.... Elles vos mandam promessas de paz e deveis de crel-os, quando por ai não fosse, porque a uns corsários normandos, que lá estiveram em busca de concerto, elles os repelliram duramente.

— Caso é para demorado reflectir... . Aguardemos a vinda do cavalleiro D. Fernão, que a el-rei communicou todo o occorrido nestes annos de fragoas. Diogo, se a el-rei approuver a pratica do que lhe é encommendado pelos seus conselheiros, a lei e a justiça não mais serão escarneo de miseráveis, e o governo d'estes Brasis terá fortaleza e assento forte e o mais que cumpre ao serviço

ir»

de Deus e da Pátria, a quem votei os últimos alentos da minha velhice.

Na mesma semana regressava Coutinho, -D. Fernão e Diogo, com a gente que os acompanhara a Porto Seguro, embarcados em dous caravelões.

Entristecido pelo abandono em que fora achar o seu primitivo arraial naquella capitania, Fernão tinha os olhos postos no reino, . aonde representara, pleiteando a remessa de missionários e de um governador suficientemente armado de poderes para reger os destinos da vasta colónia. O que elle vira no sul, o que sabia dos longínquos feudos do norte eram symptomas de grangrena e excidio. O seu ideal — a immensa terra senhoreada pela Cruz, o immenso mar dominado pelas naus do Tejo — se obumbrava numa nuvem presaga de tormenta imminente. Trinta annos de aventuras, de trabalhos e refregas sustentadas a preço de sangue, ameaçavam baldar-se, como baldado fora o esforço dos últimos nove annos naquella infeliz villa da Victoria. Ah! que valia o amor e a piedade liberalisados á selvageria d'esse ingrato Pindorama! Pelo coração d'essa terra, digna genetriz de Indayá, passavam as obras de cari-

dade portugueza como a lympha dos ribeiros por sobre um leito de rochas.... .

A fronte do cavalleiro pendeu agoniada. Empanou-se o céo, e um vento teso começou a gemer no seio das ondas.

Quando a névoa dos arvoredos e montes pairou ao longe sobre o lagamar, Fernão reconheceu a ilha grande, cingida pelos baixios de pedra que espumavam como feras assanhadas.

— Tempestade! gritaram os homens da mareagem.

A bravura do cavalleiro, experimentada nos revezes do alto oceano, zombou do perigo. O que essas aguas em fúria lhe suscitavam não era o temor dos seus abysmos e parceis, era a lucta gigantéa que sobre ellas se travara um dia, era a versatilidade dos índios que se bateram nas igaras pela mesma causa a que depois voltaram armas.

E a ilha crescia, rapidamente, num turbilhão de sopros e rebentaçVs, toldada por um céo de fuligem.

Os mareantes, redobrando a faina, certificaram-se das correntes poderosas que, de concerto com o vento, lançavam os caravelões em rumo dos escolhos.

— Conspiram os elementos... murmurou o donatário, a tudo resignado.

A embarcação em que elle ia com Diogo se havia distanciado da outra, em que navegava o cavalleiro. Ambas corriam, de velas amainadas, procurando abrigo no ponto da costa onde o escolho não mostrava os dentes negros que partiam vagas.

Próximo estava o refugio, e para lá se dirigiam as proas dos caravelões, escorraçados pela ventania e o marulho. Por uma d'aquellas barras a que a frota de Ararig fizera os tupinambás recuar, iam surgir nas praias até que abonançasse o tempo.

Entretanto scismava o conselheiro de Coutinho não sabia em que perfídias latentes no ermo d'aquellas ribas cheias de echos assombrosos, echos do mar que ralhava em cima dos recifes, dos palmares desgrenhados que á vista já dos navegantes como que cantavam a pocema de guerra dos vencidos de outrora....

Elle não sabia que no caravelão de Diogo, o primeiro a demandar a barreta, o velho fidalgo soffria, mudo, o presentimento das mesmas ciladas. — Fugindo á morte nas ondas, que surpresas brotariam da terra, tantas vezes mais cruel que as ondas?

Assim acabava de pensar Coutinho.

A voz que lhe respondeu foi a do mestre do navio. Mas que voz tremenda de ouvir! rouca, assombrada, e logo sorvida pelo embate das vagas e pelos brados de — misericórdia! que os colonos náufragos despediam á cólera fria dos maroiços!....

Na garra de pedra, occulta a meia agua, o caravelão tinha cahido em cheio. Um diluvio ameaçava cobril-o, homens da guarnição rolavam para os escolhos visinhos. Coutinho teve apenas um grito para o céo:

--Senhor, ainda não basta?....

E no mesmo instante se debatia no mar, que o arrastava á morte no recife escumoso.

Fernão Cerveira, á pouca distancia, testemunhava aquelle novo infortúnio do ancião e as manobras dos caraveleiros, que mergulhavam remos e varas para evitar os anegados da pérfida passagem. Emquanto a bordo do seu navio desarvorado os mareantes lidavam, elle via os miserandos companheiros nadar por entre as fragas, surgir mais além, cuspidos pelas ondas e vacillantes, mas salvos, emfim, alcançar a praia soturna.

Depois volveu-se para o perigo que affron-

penetrando a barra, afim de recolher o donatário e as mais victimas do sinistro.

O segundo caravelão triumphou.

Ia-se chegando á costa.

As brenhas sombrias adquiriam matizes verdes. Uma faixa de areia branqueava.

Súbito um estrépito horrível partiu dos mattos marginaes da ilha, e a praia escureceu, coalhada de selvagens que se precipitavam de roldão, com voracidade lobal, sobre os naufragados.

A gente de bordo ficou immovel de dor e espanto, com as mãos hirtas em acção de soccorro aos companheiros. A horda alcançou-os....

Não era lucta, mas uma caçada gulosa, infrene, louca, o que lá em terra se fazia. Os colonos, molhados, exhaustos de fadiga, não resistiam, deixavam-se agarrar como paralyticos; raros corriam até á borda d'agua. A tromba selvagem rodopiava, apprehendia-os, sumia-os no vórtice clamante; choviam golpes de murucús, laceravam-se vestes, e boccas famintas parecia trabalharem nas carnes dos prisioneiros.

Tudo se passava mais rápido que o as-

sombro de D. Fernão. E o matto ia escondendo os últimos horrores da carnificina.

Restavam na praia dous únicos náufragos,—um que gesticulava, talvez a implorar misericórdia; outro que voltava as costas á matança e quedo, como a sombra de um crucificado, abria os braços, contemplando o céo.

O magote que ouvia Diogo hesitou. Seus gestos, indicando o navio e as aguas do lagamar, como que evocavam reminiscências da antiga batalha.... Mas depressa começou a girar da brenha, em direcção a beira-mar, um novo redemoinho pardo, eriçado de flechas e clavas enormes.

A mimica de Diogo exasperou-se. Os magotes uniram-se. Uma grita feroz rebentou. Mãos iracundas cahiram sobre o ancião, um laço de mussurana apertou-lhe o tronco, sua espada voou aos ares, a pocema restrugiu e o golpe de varapau desceu sobre a cabeça do martyr....

Diogo havia recuado até dentro d'agua. Emquanto a horda fugia para o mattagal com a presa, elle bracejava nas ondas, para tomar o navio escapo das pedras.

Foi cessando a algazarra dos verdugos, e

a ilha grande, lavada pelas maretas, volveu á soledade fúnebre das suas praias.

Havia serenado a tormenta.

Com o sol nublado, penso no horisonte, o caravelão surgia no porto da villa abandonada, onde Coutinho era sofregamente esperado pelos morubixabas dos arredores. As aldeias estavam aplacadas, rendidas pela necessidade do resgate; os canicurás, reduzidos a obediência pelo chefe Ararig, acenavam de cima das escarpas. A sua admiração foi grande, não vendo apparecer o donatário; maior, porém, foi a surpresa de D. Fernão, quando avistou no alto das rochas o perfil inconfundível de Indayá.

Foi para elle uma compensação naquella trágica jornada.

O sol, que ia a tombar, golfou luz sobre a terra.

Pindorama

Sinopse

Leia gratuitamente Pindorama, de Xavier Marques, romance brasileiro em domínio público sobre a época do descobrimento. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Internet Archive/University of Toronto da edição de 1907, organizada em 24 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Pindorama

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Pindorama

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Pindorama

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Pindorama Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 17 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Pindorama

Capa de Pindorama
Continue a leitura Parte Terceira - Capítulo VI Capítulo 17 · 17 de 22 · ≈ 9 min
Todos os capítulos 22 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir