Universo da obra
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— Então, Dr. Félix! tardou mas sempre apareceu — repetia-me Américo exultando, ao abrir a cancela do eirado, deixando à esquerda a porta da vendinha da fazenda. Ao chegarmos à entrada principal da casa, com o indicador cruzando a boca recomendei-lhe silêncio; e gritei para dentro, engrossando a voz: — Ô de casa! Respondeu-me de dentro uma voz de velha: — Pode entrar, que desta vez não me assusta! Ouvi no mesmo instante, vindo da cozinha, o arrastar conhecido das chinelas de siá Marciana e a voz do velho Próspero, já um tanto surdo, que lhe perguntava o que sucedia de anormal àquela hora tão matutina. — É o tropeiro de fala grossa que me assustou o outro dia — explicou ela. Penetrando a sala de entrada, depus o chapéu sobre uma mesa, negra de uso, chata e larga, desse estilo esparramado dos antigos estrados e arcas de guardar cereais. Relanceei as paredes fuliginosas, cobertas de desenhos de grandes peixes: dourados ao natural, piabas de três palmos, mandis gigantes ainda com os ferrões alvoroçados e as barbatanas em leque, prontos para a defesa — registro fiel das felicidades de pesca do velho Próspero, que Américo perpetuara sobre a cal, a carvão e urucu. Cada peixe grande tirado do rio, antes de ir para a panela fazia escala ante o artista primitivo, que lhe debuxava a efígie na parede.
Abracei os velhos, que tropegamente vieram ao meu encontro. — Então, como vamos de doenças? — perguntei-lhes, encetando o assunto obrigatório à chegada, questão preliminar, como dizemos em nossa gíria forense (penso não haver dito ainda que sou bacharel, e juiz em um termo sertanejo). — Ah, Dr. Félix! Andamos cheios de “não presta!” — exclamou a mulher. — Vamos pendendo de velhice. Minhas carnes secam, meu corpo é só osso. Também já estou uma irara velha — acrescentou mostrando os cabelos encanecidos. Para despreocupá-la, disse Próspero que aquilo não era nada. A “prima” sempre tivera dessas alternativas de engordar e emagrecer dum momento para outro. — Tem natureza de cachorro — terminou, rindo-se. Siá Marciana protestou, escandalizada com a comparação. Depois foi o turno do Américo, que se queixou do mal moral que lhe causava aquele ermo e a falta do convívio de homens superiores. Por fim tive de sofrer um interrogatório minucioso, que me obrigou a desfiar-lhes, à míngua de moléstias mais graves, todos os meus defluxos, dores de dentes e picadas de pernilongos, sobrevindos desde minha última visita; sussurrando a todo o instante um “coitado!” os velhos ouviram-me concentradamente. Siá Marciana receitou-me um simples, bom para tudo aquilo; Próspero contraveio, aconselhando outra coisa. Disputaram um pouco sobre este ponto, mas afinal chegaram a um acordo. Sobre que acordaram, não pus tento. Conversando chegáramos à varanda. O descalabro das paredes era o mesmo. Sobre os panos de cal empardecida escapos à ação roaz do tempo, viam-se novos desenhos de peixes enormes, alguns ainda de anzol espetado no beiço. A mobília ali compunha-se de um vasto estrado que podia servir de cama, de uma imensa caixa e duas cadeiras desconjuntadas, uma ainda com uns restos de palhinha e conservada com cuidado, porque era “a cadeira do Dr. Félix”. Para contentá-los, sentei-me um pouco
na alfaia privilegiada que me ofereciam quatro mãos solícitas; em seguida fui aboletar-me à oriental sobre a caixa, vindo o velho ladear-me, devido à sua surdez. Ouvi as recriminações que me faziam por minhas espaçadas visitas; que viviam a esperar-me, a fazer conjecturas sobre minhas idas, se era hoje ou amanhã ou a que hora, indo a todo o instante sondar a estrada, a ver se eu apontava. Quanto a Américo, dirigia-se toda a manhã para seu posto de observação, que era o cupim onde eu o vira acocorado. — Se soubesse a falta que nos faz, viria todo o dia — rematou Américo. Perguntei então ao velho sobre as últimas pescas. — Ah! Dr. Félix! — exclamou apaixonadamente — fiquei hoje aborrecido. Os aruraus esta noite fizeram mutirão e rasgaram-me todas as redes da lagoa. Já esses danados do papo amarelo me comiam leitões, quando era o mangueiro no fundo da horta, e agora perseguem meus peixes! E contou-me que entre a maçaroca das redes rotas encontrara a metade de uma piaba de dois palmos. Enquanto Próspero falava, era visível o desgosto que sentia Américo, pelo rumo trivial que a conversação tomava. De espírito fundamentalmente científico, ansiava por abordar questões de maior tomo, mas repugnava-lhe profanar altos problemas, mesclando-os às frases dispersas de uma palestra vulgar. Por fim, não se conteve, e alvitrou um conhecido expediente: — Dr. Félix, quero um particular com o senhor. Nunca fui amante de conversas reservadas. Lembra-me que, a primeira, foi com o meu primeiro mestre, que me chamou a um quartinho, mimoseando-me aí com meia dúzia de varadas. Velhas varadas! Já lá vão mais de três lustros. A segunda, tive-a com um ex-futuro cunhado, que, em noite atra, os olhos fuzilantes, enorme cacete alçado, à guisa de mundéu, sobre minha inerme personalidade de estudante, me propôs um dilema: “Ou casar, ou...”. O lugar ermo e a atitude diziam o resto. Até hoje não sei
que milagroso santo me tirou dentre as aspas do terrível Minotauro. Que embirração, inventarem os filósofos essas especiosidades escolásticas! Desse tempo em diante, os colóquios à parte me causam horror. Sendo, porém, conhecida a natureza inofensiva do que me solicitava o bom Américo, acedi. Em consequência, meu amigo travou-me o braço e conduziu-me a seu quartinho.
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