Universo da obra
Universo da obra
Vagabundeei sem rumo pela casa, buscando algo em que me interessasse. Pesado e bamboleante fui ao negócio. Fora o sol reverberava, dando ofuscantes fulgurações de ouro à estrada poeirenta, onde rangia a intolerável serrazina do guincho de um carro de bois. Fartamente assoalhados pelo chispante estendal de luz, os campos também modorravam sonolentos. Nada há tão vulgar como as horas dum dia de sol. O venerável astro-rei, tenha paciência, bem podia variar os seus processos de iluminação. São assaz estúpidas essas reincidentes ondas de ouro e mormaço, cegantes para a vista e atorporantes para o organismo. Não pensavam assim os altivolantes corvos, cujos remígios serenos se banhavam voluptuosamente no ar das alturas, refazendo, incansáveis, curvas enormes. Divisados de longe eram pequenos traços horizontais, rudimentos de monoplanos, as asas ligeiramente arrebitadas na ponta. Arranquei-me à sua vista obsidente e relanceei o cômodo. Nas prateleiras, meia dúzia de molhos de rapaduras, muitos feixinhos de canetas invendíveis, um litro de óleo de capivara, meia dúzia de peixes fritos num prato esbeiçado e o garrafão de pinga. Um enxame de abelhas zumbia e rezumbia em torno das rapaduras, cujo cheiro enjoativo impregnava o ar. Em atitude correta, o José copiava, em bela vertical, uma historieta do livro de leitura. Perto, Américo sorria enfiado, julgando-se sem perdão aos meus olhos pela sua grande ousadia de querer lecionar.
— Também ensina estas coisas? — perguntei-lhe, mostrando o caderno. — Supus que apenas transmitisse ciência pura. — O senhor sabe — desculpou-se ele —, é preciso começar por essas ninharias. Não faz dois meses que saiu do abecedário... — Aprendeu com você? — perguntei-lhe, admirado. Fiz o negrinho ler, ditei algumas palavras, passei-lhe uma conta — era surpreendente como acertava. Maravilhado encarei no Américo. Estava ali um bom corte de professor primário. Revolvi no pensamento certa resolução secreta. — E gosta do ensino? — inquiri. — Oh, senhor doutor! Se não fosse muita presunção eu arranjaria uma escola para lecionar de graça os moleques destes lados; mas, afinal, como diz o caipira, cada um deve pendurar o chapéu onde a mão alcança — ou quem tem perna curta não dá passo largo. Isso só para homens como Vossa Excelência. Sorri com o “Vossa Excelência”, e internei-me de novo para a varanda. Sentia urgente necessidade de espichar-me em meu lugar de repouso preferido. No meio daquela pasmaceira soçobrante, a caixa antolhava-se-me como lugar de eleição. Estendi-me com gozo na larga tampa, e, dobrando o cotovelo, fiz do punho travesseiro. — Já deu o ataque de preguiça, Dr. Félix? — casquinou da antessala siá Marciana, que auxiliava o velho. — Já... Quantas redes prontas? — Uma só, por enquanto... Meu Deus, como era demorado! Aquela paciente tarefa enervava-me, como se estivesse eu próprio a trabalhar. Penosíssimo fardo é a ociosidade, algumas vezes! No meu pouso não pude ainda cair em beatitude. O tédio é um estado fecundo às más sugestões. No meu cérebro o Sr. Próspero trançava barbantes sem cessar e regiravam preguiçosas rondas de corvos. Cerrando os olhos eu via estrias e manchas verdes e escarlates, doloroso decalque impresso na retina pela ofuscante visão das estradas e dos campos ensolados. Queria dispersar-me, devanear; puxei pontas de romances heroicos, cujo principal personagem era
eu; mas o enredo apagava-se como um rio sem foz que se evapora no deserto e a dispersão concentrava-se no importuno vinco daquelas impressões visuais. Uma coisa pulou na arca. Era a gata predileta de siá Marciana, muito dada, esfregadeira, ronronante. Coçou as pulgas no meu pé, continuou a fricção perna acima, deixando na casimira um rastro de pelos caidiços. Achei adorável aquela sem-cerimônia e, ajuntando paciência, resolvi comigo: “Vamos ver até onde chega o atrevimento”. Fez-me massagem abdominal, coçou-se no meu cotovelo, encostou a bigodeira pruinte no meu rosto, rouquejando surdas catarreiras; fez menção de beijar-me, fossou-me no ouvido... “Vamos ver até onde vai!”, trocadilhei, fulo de raiva. Foi a dez passos de distância, pois sem chamar mais paciência, apliquei-lhe um tabefe centrífugo: siá Marciana não estava ali... Perto dela é que eu tinha hipocrisias. Amimava o felino, tomava-o nas mãos, achava-o bonito e tudo o mais que agradasse à dona. Escafedeu-se a gata aos pinchos e bufos pela janela do terreiro. Fez-me falta, porque então senti-me vazio. O vácuo pesava-me como chumbo. — Quantas redes? — perguntei. — Quase duas. E eram dez, ao todo! Busquei alhear a atenção pensando em coisas da cidade. Evoquei a minha vida de homem civilizado... O diabinho zombeteiro do tédio fez-me lembrar uma inquirição marcada para aquele dia. Testemunhas de longe, crime sensacional, com advogados, acusador particular... Pulei da caixa. E eu que me havia esquecido! Maldito azar! Dias e dias que passo às moscas em meu gabinete, sem uma petição, um auto a despachar, sem um depoimento, apenas a encabulação da visita do meirinho bexigoso, reverente e correto, a perguntar-me inutilmente: “Senhor doutor, tem alguma coisa para os cartórios?” — tão correto que, ao chegarem as onze, já começo a enfezar: “Faltam cinco minutos... quatro, três, dois...”
e exaspero-me, apreensivo, certo de que daí a um minuto bate delicadamente à porta e na curvatura respeitosa do costume me estribilha o quotidiano: “Senhor doutor, tem alguma coisa...” — e espero que falte aquele dia ao menos, que quebre aquele hábito de pontualidade acerbante, novo suplício de Dâmocles — e passa o minuto, e aí vêm as pancadas e a pergunta e a minha resposta impaciente: “Nada, nada, homem de Deus!” — tantos dias assim vazios e, logo naquele, destinado a uma excursão de visita aos velhos, a tal encravação do sumário a berrar-me de longe a sugestão de um intolerável remorso! Numa crispação raivosa procurei perto a gata, para um segundo revés de desabafo. Nada! Havia-se decerto eclipsado para o fundo da horta, suicidara-se no rio ou fugira para o fim do mundo, a evitar segunda aventura. Senti-lhe a falta. Serzinho inestimável, um bichano! — Ora, que se arranjassem! Dar-me-iam como presente à inquirição, ou a deixariam para o dia imediato. Estendi-me de novo na caixa. Mas já não tinha sossego. O aborrecimento moral comunicara-se ao físico: revolvia-me, remexia-me, voltava-me “como a porta em sua couceira”. Só via autos, num ror de papelada com estampilhas e um desfile interminável de figuras de partes: este, rábula terrível, que achava em artigos tudo que eu fazia “radicalmente nulo”, por isso, por aquilo; uma rubrica malgatafunhada, uns minutos de atraso na audiência, o porteiro que apregoou só uma vez o requerido, e já se enfileiravam os “Provará...”. E era tudo catado, depurado, num espiolhar implacável; outro, figura manhosa e insinuante, a querer em palestras auferir conselhos ou previsões sobre o êxito de tal feito; um terceiro, berrador e impulsivo, possesso com um indeferido, a clamar que o juiz é prevaricador e comprado — uma procissão irritante de figuras irmãmente hostis, da surda hostilidade instintiva de classe, que separa os postulantes e os julgadores, e os põe, a uns e outros, numa eterna e irritante defensiva. Via-os a todos gananciosos e rapaces, com as unhas que esfolam o constituinte prontas
para agadanharem o juiz. Enxotava-os da mente e eles tornavam processionalmente, com as suas astúcias e exigências, protestando e recorrendo... Por fim foi-se esfumando a turba vociferante, deixando apenas enfocados uns gordos autos de embargos por julgar, que estavam havia sessenta dias sobre minha mesa de trabalho. Incoercíveis, os remorsos continuavam a pungir-me, com pontas aceradas. Oh, esses malditos autos! Ter que meditar duzentas folhas ensebadas e arriar a livraria, procurar o caso nos praxistas, quando os praxistas preveem todos os casos, menos o que nos interessa! Ante a enormidade da tarefa os embargos lá ficavam dormindo sobre a mesa o sono dos prazos intermináveis... Afogado sob tanta culpa, tive uma reação de desespero. Não! eu não era um mau juiz. Em mim sentia a massa dos julgamentos imparciais. Mas — diabo! — a justiça, como nós a compreendemos, esse tonto catar de artigos e retalhos de acórdãos, era excessivamente implexa. Em mim não faltava boa vontade para o trabalho nem amor acendrado ao monumento das leis; respeitava-as, admirando-lhes o alto espírito filantrópico. Respeitava os bons juízes e as sábias sentenças. O diário oficial, por exemplo, transcrevia sempre os julgados de um dos mais sabedores de nossos Papinianos, onde cada parágrafo tinha farta cauda de citações ponderosas. Eram sentenças de peso e tutano, via-se bem. E com respeito imenso eu as cortava e colecionava. Pode-se ser mais respeitoso? Não as lia, é verdade, mas — com mil raios! —, se não me faltava boa vontade para o trabalho, sobejava-me pouca para o começar e assim ficavam em perpétua esterilidade as minhas boas intenções. Que pena não estarmos na terra dos vizires autônomos e Salomões sumaríssimos, que numa frase deslindam uma pendência, sem inútil esbanjar de tinta e de praxistas! A culpa não era minha, portanto. E, com esta convicção crescente, os gordos autos de embargos foram-se também reduzindo e esfumando a distância.
— Tome um travesseiro, Dr. Félix. Agradeci a siá Marciana, que vinha de rematar com o velho a segunda rede e ajeitei-o sob a cabeça. Boa e perspicaz velhinha! era decerto o que me faltava para calar a galhofa dos diabinhos do tédio. A cabeça azoinada achou-se bem naquele aconchego de paina macia e a alma dilatou-se satisfeita, predisposta a cair na beatitude de um longo cochilo. Tudo começou a tornar-se em calma e incomparável mansuetude. Os escrúpulos das obrigações atamancadas e esquecidas, a hostilidade das figuras que à desfilada me traziam pungitivo anseio, o vinco luminoso do meio-dia ensoado, as repisadas órbitas dos corvos lentos, foram-se vaporando e dissipando no doce diluimento com que se esmaecia e se apagava no azul a nuvenzinha branca que nesse momento meus olhos contemplavam; até o conserto infindável das redes, em vez de nervosismo, trazia-me a tranquila certeza dum dia doce e sem fim. Parava o tempo, o mundo imobilizava-se na última postura das mãos e no derradeiro soído de voz, como no castelo da princesa adormecida, suspendia-se a vida numa última emoção, o ritmo do coração numa diástole final, tudo passava ao estado de irrealidade e de sonho... Benigna sesta beatificadora! Não era bem dormir mas apenas entreviver, fazer na alma um grande vácuo, dar-lhe uma varredura nas ideias e preocupações, fazê-la uma coisa inerte e vegetativa que se abre ao sol e à vida com a passividade de uma fronde largamente espalmada na altura. E, assim vazia, penetrava-a com suavidade o ambiente daquela quadra, o odor dos manjericões que viçavam à janela, sob as fúcsias que a emolduravam. Entrava-me uma sensação de paz, de lar e bucolismo. Era como um retrocesso à infância: sentia-me recuado vinte anos, tornava-me criança. E àquela hora nada me seria mais doce que uma cantiga materna à cabeceira. “Dorme, dorme, meu filhinho, Que o Tutu vem te pegar...”
Não ter a gente a vida toda quem assim nos embale, dando-nos a carícia de macia mão que nos alisasse os cabelos, a dizer-nos histórias de fadas e príncipes encantados e a chamar-nos filho, uma asa imorredoura sob a qual nos pudéssemos fazer pequeninos, encolhidos, escondidinhos... Mal-organizada, esta complicação dolorosa da vida! Mas naquele momento parecia-me quase perfeita. “Viver é bom!”, murmurava sonolenta minh’alma, dissolvendo-se. Longe, na estrada, rangia ainda o carro, interminavelmente; e era como se o meio-dia se houvesse feito som e por essa voz atorporada e longa dissesse o desmaio voluptuoso dos grandes campos adormecidos ao sol...
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