Leia agora
Vida Ociosa

Universo da obra

Vida Ociosa

Capítulo 18 · Vida Ociosa

O sentenciado Lourenço

18 de 21 ≈ 12 min de leitura

A vastidão dos campos sem veios d’água, dera-me sede. Avistei um rancho à beira da estrada. Defrontando a porta, defendida por um cancelo, gritei pelos moradores. No mesmo instante vi agitar-se no cômodo da entrada, que também servia de cozinha, uma mulata obesa e velhusca. — Um pouco d’água, faça favor? Trouxe-ma numa cuia, pedindo desculpas: casa de pobre... Regalei-me com a frescura nevada da bebida. Nesse momento uma voz de homem chamou da horta: — Frederica! Frederica! Este nome lembrou-me o sentenciado Lourenço, que matara um homem por ciúmes. Aquele escombro de gente, aquelas roscas de toucinho velho com figura humana, aquela criatura fora a fatal inspiradora do gesto homicida, no frescor de seus dezoito anos tentadores, que tinham a virtude de açular os homens uns contra os outros, em fúria de morte, na disputa de sua posse. Que descalabro! O que os anos levam de graça e provocantes atrativos! E, com o vivo interesse que me causara a narrativa das duas roceiras no dia do temporal, borbulhavam-me à boca muitas perguntas sobre o encontro com o Lourenço após trinta anos de cárcere; recalquei-as, porém. Decerto fora banal e desinteressante. Duas respostas que me desse, e lá se desenflorava a mente do romance que eu tecera sobre a volta do sentenciado. Era melhor não saber. Entreguei a cuia, agradecendo; e prossegui.

Fora melhor não perguntar. Porque, afinal, bastava-me a minha visão interior, que sobrepujaria, certo, a realidade. E evoquei a figura do Lourenço, demandando a casinhola, meio inchado, deslumbrado do sol a que se desabituara, arrastando de uma perna. Passara trinta anos a antegozar aquele momento. Nele via a razão de ser de sua vida, o ponto de convergência de seus mais caros pensamentos. Pela ilusão da ausência, acarinhara todo o tempo a imagem da mulata, como a vira pela última vez. Nos primeiros anos esperava com ânsia a saída; entretinham-no as apelações, o perdão em festas nacionais... De cada vez era um alvoroço. Via-se chegando de surpresa; e, na alegria do amor reatado, causa dela, desfechava o romance de sua vida. Mas os anos se escoavam, os últimos recursos foram baldos e o perdão não viera. Sem esperança, aquietaram-se os assomos de sua mocidade insofrida, recalcitrante entre as grades e começou a ganhar uma calma filosofia de conformidade. Sua vida não era mais um romance com desfecho e sim uma interminável biografia incolor, que, decepada em qualquer ponto, aí ficaria bem rematada, sem que se lhe notasse descontinuidade. A Frederica, se pousava de ordinário na sua imaginação, nela chumbada indelevelmente, não lhe acelerava o ritmo do sangue. Evocava-a melancólico, como um bem inatingível, raio de luz que tangenciou o deserto polar de sua vida com uma promessa e presto se eclipsou esquivo. Se a sorte houvera sido outra! Se não lhe truncassem o encadeamento da vida! Porque a liberdade era uma porta longínqua, a tremeluzir baçamente no cerraceiro da velhice, como uma luzita hesitante na sombra vasta. Volveram-se os tempos e ele saiu. Ei-lo trôpego, aturdido pelo ar livre e espaço desempeçado, buscando, em terras longes, o paradeiro da mulata. Por que o fizera? Último anseio pela felicidade? Atração? Monomania de pobre-diabo um pouco virado do juízo? E o ar livre o oprimia, o mundo aberto e imenso dava-lhe vertigens. Talvez lhe passassem pela imaginação cenas de outrora e, permisto, os sorrisos feiticeiros duns dezoito anos túrgidos de seiva, boleados em tentações de carne, inspiradores da acre tonteira que o arrastara ao desvario e ao sangue. Velhas exalações...

E trôpego, arrastando a perna, chega, afinal. O sol abrasa. Esbaforido pousa o bordão e a trouxa, limpa o suor. Que canseiras de estradas longas! Antes de bater olha o céu e o arredor. Não tem pressa. Fere fogo, remexe a cinza do cachimbo e chega a isca. Devassa outra vez o arredor e o céu puxando a primeira fumaça. Ainda arqueja. Que estradas sem fim! Que mundo imenso! O pensamento lerdeia-lhe com as baforadas indolentes. Bambo, acocora-se, cravando os olhos hipnotizados numa volta da estrada coruscante de luz. Revê a prisão, o carcereiro de sorriso amável, os outros sentenciados. Boa gente! Sentira deixá-los. O coração ainda apertava-lhe a essa nova ruptura do encadeamento de seus dias. Ia encetar uma terceira existência, ele que se contentaria com a embriaguez da primeira ou com o tédio sonolento da segunda. Má coisa, o recomeçar! Enfim, repousa na derradeira etapa; e, daquela soleira terminal, como dum píncaro sobranceiro, aprazia-lhe olhar ao longe o caminho andado e balancear as fadigas retrospectivas. E, assim, queda largo tempo. É com esforço que resolve reentrar no presente. Ergue-se a custo e dá “ô de casa”. Chegando do fundo, Frederica assoma à porta. — Boas tardes. — Boas tardes. Ela entreabre a cancela e espera, de pé, no limiar. Ele observa-a em silêncio. O silêncio demora-se. Por fim rompe-o: — Vacê é a Frederica? — Sou. — Eu sou o Lourenço. Recai o silêncio. Observam-se longamente. — Entra. Frederica escancara a cancela, dando-lhe passagem. — Senta. Apresenta-lhe uma tripeça, indo acomodar-se no toro do pilão. Continuam a observar-se mudamente. Ela, primeiro, quebra a mudez:

— Antão vacê é o Lourenço? — Sou. O sentenciado atiça o fogo do cachimbo e recomeça a baforar. Seu pensamento também bafora, em visões esparsas. Era a mesma necessidade de relançar, ao cabo da jornada, o caminho feito. Sentia uma grande calma, o sedativo bem-estar de quem chegou e pode, afinal, espairecer. Mas a vida sabia-lhe amarga. Precisava conformar-se. O que a gente se ilude, sequestrada entre grades! Cá fora também a roda do tempo não para de girar. O mundo, para seguir seu curso, não espera trinta anos a libertação de um qualquer Lourenço. Seu pensamento flutuava, de reminiscência em reminiscência. Coisas antigas! Grita de crianças, no terreiro, chamou-o à atualidade. — Vacê mora com homem? — perguntou. Com o Martinho. Tenho onze “famílias” dele. A vida sabia-lhe amarga. Havia mudanças. Não lhe haviam de embalsamar o passado, imutável, aguardando os trinta anos. A roda do tempo girava igual em toda a parte, e em toda a parte a vida revezava seus cambiantes aspectos, em agregamentos e desintegrações. Invadiu-o então um grande cansaço. Bamboleando a custo o corpanzil anafado, Frederica tirou o coador do arco, espetado na parede. O condenado seguia-lhe os movimentos; viu-a enxaguar o pano, assoprar as brasas arrefecidas, ajeitar a chocolateira no borralho, depois sentar-se na taipa, à espera, sem desprender os olhos das brasas, que a fascinavam. O pensamento de Lourenço esvoaçou frouxo, para a prisão. Revia o carcereiro, de sorriso amável, bom homem. Envelhecera na faina e o mister lhe não empedernira o coração. Longas prosas tiraram ambos, separados pelo engradado da porta. O tempo fizera-os amigos. O Sr. Pedrosa, que assim se chamava, poupava-o na faxina e facilitava-lhe a venda de seus artigos de trançador, ofício aprendido na cadeia — o que procurava o encarcerado compensar-lhe com a prestação de pequeninos adjutórios. E a cada momento reciprocavam-se desses miúdos obséquios que, mesmo impalpáveis

e ínfimos, firmam a amizade, sem a onerar com o compromisso de obrigações que cativam. Era o Pedrosa, por ter melhor cabeça, quem fazia o cálculo do tempo a cumprir: “onze anos, dez meses e cinco dias, Lourenço...”. Uma folhinha animada, impaciente por não soltar mais prestes os folhelhos, exulando-os ao vento em revoada, ao ritmo do seu desejo, para soltar o amigo. Depois a despedida: não houve prantos, mas íntima agonia rebuçada de frases vulgares. “Você sabe, aqui um criado para o servir.” “Disponha, sem cerimônia.” “Até um dia!” E aí começara a odisseia do preso, a angustiosa freima com que tentava recolher os restos do passado, para com eles recompor sua existência mutilada. Primeiro a Frederica. Vagara de déu em déu recolhendo notícias. Tudo vago. “Léguas além...” E, sublinhando esse vago, as mãos acenavam molemente, significando distâncias sem fim. Felizmente havia economias. Com parcimônia nos gastos poderia correr muitas terras. E, ademais, tinha pernas. Meio inchado, e perro, o andar muito talvez lhe destravasse as juntas e adelgaçasse a compleição. Provavelmente não seria logo — um mal-andado em anos, levaria outros tantos a desandar. Era também um modo de desforrar-se da clausura. E metera-se longânime pelas estradas. Mesmo pequena, contentava-se com a aquisição do dia, desde que significasse mais umas braças trilhadas. Assim vai-se longe, embora arrastando um membro imprestável. Pois trinta anos, infinitamente lentos, não passaram? Jornadeara meses, em rumos incertos. A obsessão das estradas rubras, coleando infindáveis, tornara-se-lhe dolorosa; era o suplício perene do eterno recomeçar; a reverberação da luz dava-lhe ofuscações oftálmicas; os incômodos não melhoravam, antes agravavam-se. Tudo, porém, tem seu termo. Descobrira a mulata. “Adeus, canseiras de estradas longas!” E, chegando, ao enxugar da testa as bagas de suor, era como se se despedisse do longo azar que o tolhera na vida e, depondo a trouxa e o bordão, depunha o passado. Mas as coisas haviam mudado. Isso é que era mau.

Soerguendo a cabeça, assoprou para o alto uma lenta baforada. — O Martinho é bom sujeito? — Bebe, às vezes. Do mais não tenho queixa. Enfim, a vida é a vida. Cada um tem lá a sua sorte, como diz o outro, e da sorte de cada um só Deus sabe. É quem ajunta e separa, trama e destrama. A Frederica parecia remediada a seu gosto dela. Então encarou-a melhor, analisando-lhe as feições. Estava bem diferente. E a esse ponto evocou os velhos tempos de namoro. Viu-a provocante e roliça, na graça dos seus anos floridos. Estimava um colar de grandes contas douradas, que lhe dera ele num caxambu. Adornava-se sempre com o singelo adereço, cuja cor fulgente casava bem com o seu colo de âmbar; e, quando ela sorria, brilhavam harmoniosamente o seu sorriso e as contas. Furtara-lhe beijos à boca rosada, que lhe sabia a polpa de frutos. Certa vez, num abraço, sentira contra o peito áspero de cavador o suave premer de seus seios turgentes. O sangue fervera-lhe aos borbulhões, incendido de desejo. Era rapariga de virar a cabeça e fora má sorte do outro vir cobiçar-lhe a criatura. O que tem de ser! Mas tudo, velhos casos. O passado, passado. Desligou-se da recordação. Todavia, uma lembrança puxa outra. Acudiu-lhe a mãe, já por aqueles tempos velhinha, a bater roupa, e os manos pequenos. Não vira mais a família e nem tivera notícias. Na sua memória, porém, vivia ela embalsamada, sempre a mesma, no mesmo rancho, com as mesmas idades e a vida enquadrada na mesma paisagem da roça. E vieram-lhe saudades da mãe e dos irmãos. Trinta anos longe! E fora ingrato, poucos pensamentos lhes dera nesse trajeto de tempo. Tinha economias — iria levar à velhinha um pouco de descanso. Tanto bater roupa na fonte há de dolorir o braço, inda mais a ela, que sofria de reumatismo. Parecia que ainda a ouvia queixar-se das juntas, em frases gemidas, quando o frio enevoava o ar, acamando geada brancacenta nos campos. Boa mãe! dar-lhe-ia ele o que economizara, tudo, tudo! não queria um vintém para si. Fariam uma casinha de telhas no lugar do rancho velho e haviam de morar juntinhos.

Já ansiava pela chegada. Mas uma dúvida doeu-lhe no coração: trinta anos! — Vacê, tome café. Frederica apresentou-lhe uma tigela fumante. Para si aparou noutra vasilha, sob o bico do coador suspenso da parede. Beberam. Ouvia-se no silêncio o gluglutar espaçado dos goles. De longe vinha vozearia de crianças, garrulando. Lourenço depôs a tigela e reatiçou o cachimbo. Trinta anos! Os irmãos pequeninos, que via como um bando trêfego a derriçar pitangueiras, estavam já homens maduros. Talvez nem todos fossem vivos. E a pobre mãe, que deixara de cabelos algodoando-se de velhice... Mas onde quer que houvesse farrapos do passado, cumpria ir recolhê-los, em romaria piedosa, para ver se do acervo esparso reconstituiria um simulacro de vida. Era alheio aquele lar onde pensara repousar, apenas sofrendo em retrospecto mental as canseiras sentidas: nele não podia acolher-se. Era vomitado dali como o fora da prisão, em cujo vegetar achava mais suavidade, que naquele jornadear sem paradeiro. Era mister seguir avante. Procurou entrever os dias vindouros. Tremeluziu-lhe outra vez na imaginação, numa fulgência doce, a casinha materna. A velha, os irmãozinhos... Mas a fulgência desbotou. Tantos anos de permeio! Invadiu-o de novo um tédio infinito. A vida pesava-lhe. Cumpria, porém, partir. Ergueu-se penosamente. — Antão, adeus. — Adeus, Lourenço. A custo deslocou a perna enferma, buscando a porta. A inchação, agravando-se, punha-o opresso. Era um mal-estar, um sibilo no peito... À soleira, defendendo a vista, sondou a estrada, assuntando concentradamente, como se sondasse o futuro. Lonjuras infinitas, sol escaldante, o impreciso além... — Adeus — repetiu. — Adeus, Lourenço. Guardou o cachimbo, retomou a trouxa e o bordão, e afastou-se, trôpego, paciente, rebocando a custo a perna enferma, como um casco desarvorado, sem rumo, toando ao léu...

Vida Ociosa

Sinopse

Leia gratuitamente Vida Ociosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos e a obra A Filha removidos do corpo principal, organizada pelos subtítulos internos reais para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Vida Ociosa

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Vida Ociosa

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Vida Ociosa

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Vida Ociosa Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 18 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir