Universo da obra
Universo da obra
Às nove horas senti fome. Foi quando me avizinhava da fazenda da Paineira, de sô Quim Capitão. Conhecia vagamente o velho, que vivia entrevado, com a ciática. “Bom ponto de almoço”, pensei. “E de repouso também, pois a cachoeira ainda dista uns três quartos.” A fazenda era um casarão achaparrado, com capacidade para aposentar um corpo de exército. Circuitavam-na culturas em abandono, que se asselvajavam em capoeirinha. Ouvia-se o trapejar de água a cair e o rumor de um moinho, trabalhando. Ao ranger a porteira do curral, saiu afobado da fazenda, ao meu encontro, um homem dum olho furado. Soube depois que se chamava Sontonho. — Veio buscar o fubá do Totó? — gritou-me ele, a plenos pulmões, chegado a meio passo de distância. — Não senhor; eu... — Você então é o camarada do Zaeca? — secundou semelhantemente, espichando o pescoço para reconhecer-me. — Também não! Eu... A esse ponto enxergou-me gravata e colarinho, e disse, descobrindo-se: — O senhor desculpe, eu vejo pouco. Veio buscar fubá? — Não! Desejava apenas, se não incomodo, descansar um pouco e almoçar, sendo possível. — Decerto que há de ser possível! Uma quarta só? — Como lhe dizia, não vim precisamente para isso...
Aí Sontonho fez da mão porta-voz e berrou-me na concha do ouvido: — Meio alqueire? Larguei a rédea e fugi para a máscara da fazenda. — Trouxe saco? — gritou ainda ele, no ouvido do cavalo. Não sei como findou o diálogo, que foi longo, a avaliar pelos brados que soavam para os lados da porteira. Bati e introduziram-me no quarto do velho. Sô Quim Capitão recostou-se na almofada para conversar. Estava escanifrado, de olhos fundos, muito nos cambitos, desenhando-se-lhe a ossatura acidentada sob a colcha de retalhos. Um bentinho untuoso aninhava-se-lhe entre as falripas do peito descarnado e a cabeleira branca arrepelada dava-lhe ares de Jeová em fúria, a deitar maldição. Depois que me identificou e reconheceu, pediu notícias do povo do Córrego Fundo e da cidade. Quis saber da guerra, da crise e abismava-se de tudo, como se a fazenda fosse uma ilha deserta, e ele, Robinson. Detinha-se, às vezes, num esgar de dor e contorcia-se no catre, onde seus ossos secos estralejavam, como varas dum feixe mal-atado. Depois, acalmado de súbito, pedia desculpas da pausa, e recomeçava a “especulação”. Fazia-me repetir as coisas duas, três vezes e dar de tudo explicações miúdas. Era um anseio de saber, de inquirir e um regalo das notícias sabidas, que por momentos esquecia os estortegões dos nervos gritadores. Arrancaram-me do seu quarto para o almoço. — Fique aqui hoje! — disse ele. — Viroca, manda as meninas desarrear o animal. As “meninas” eram três filhas bobas, cobertas de molambos, e com farrapos de saias até os joelhos. Malgrado meus protestos, passaram as três para o curral. O almoço já fumegava em terrinões claros, altos como monumentos, na mesa da varanda. Espantava-me de tanta iguaria numa casa aparentemente despovoada, quando começaram a concorrer, de todos os cômodos, os numerosos membros da família. Eram uns homens barbaçudos, de olhar palerma, ainda remelados de sono, e
de andar desconjuntado; e eram bojudas figuras de mulheres, mais ou menos matronas, de ar atarefado de galinhas chocadeiras a cuidar dos pintos. Não havia braço sem cria. Os ventres boleavam-lhes, em competência de fetos; a primeira empinava o embigo, já nos nove meses; na segunda espinoteava o filho já viável; e, em todas, as proeminências, mais ou menos acentuadas, assinalavam as fases várias da gestação. A essa vista afigurava-se à gente estar na matriz inicial do orbe terrestre, ponto de difusão das raças. Cumprimentei a todos e a todas, aturdido de tanta cara nova. Só mais tarde consegui rotular cada uma com um nome e destrinçar o mesclado parentesco. Havia ali um Tavico, uma Zoca, Bié, Biela, Carrinho, Viroca, Bastião, Tintina, Cocota... Apareceu também Sontonho do Olho Furado, que se mostrou muito meu amigo e me convidou a sentar a seu lado. — O fubá está pronto — avisou-me. As três bobas, de volta do curral, passaram para os fundos, carregando os arreios. Essas serviam, almoçando depois na cozinha. O pasto foi suculento e o pantagruelismo generalizado dos convivas dava-me por sugestão um apetite que raiava o esganamento. Comia-se muito e depressa. As três bobas, atarantadas, nunca sabiam bem a quem acudir primeiro; e se não serviam presto, era uma saraivada de epítetos: — Ó saranga, a caçarola da fritada! — Que pamonha! há ques tempo ’tou te pedindo o revirado! Era incrível o que aquelas bocas, enormes como furnas, se embastiam de mantimento. Os homens não proseavam, com o tento nos terrinões e a se vigiarem de esguelha, prontos para a ofensiva, no caso de saque de algum bocado precioso. Se ia alguém espostejar um frango, as queixadas paravam de mastigar e os olhos convergiam terríveis para a travessa, a fiscalizar o operador; rateada a ave em quinhões equitativos, recomeçava em torno da mesa a mandibulação interrompida. Cruzados os talheres após as repetições do estilo, foi cada um servido de uma pratarrada de leite com angu; ao cabo chupei os
bigodes, como os demais, para aclimar-me aos novos costumes. Seguiu-se café com bolinhos. E eu já estava tão bem assimilado àquela companhia que em seguida obliquei como todos um olhar inquisidor para os lados da cozinha, a ver se apontava ainda alguma coisa. Após razoável espera, convictos de que havia acabado a refeição, cada um de nós se apossou de alguns punhados dos bolinhos remanescentes e dispersamo-nos. Os varões, refartos e bambos, retiravam-se, na maioria, para os seus aposentos. Por desencargo de consciência fui espiar meu animal. Vendo-o desarreado e a comer milho, invadiu-me um grande desânimo de continuar a viagem. — Não tem nada que olhar para o cavalo — disse-me D. Viroca, que me observava —; papai já disse que hoje o senhor fica aqui. — Impossível, minha senhora! Demonstrei-lhe por mil razões, qual mais convincente, que instava seguir minha viagem; primeira — era juiz e não estava em férias; segunda — viera em animal alheio, que devia restituir à tarde; terceira... quarta... milésima... Ela calou-se, convencida, depois de opor-se muito, e mui amavelmente; eu, porém, cedera apenas à mania dos considerandos, pois estava inclinado a bater pouso naquela mansão que me quadrava tão bem; por isso, foi com espanto que ela me ouviu pedir umas chinelas, quando esperava agradecimentos e despedida. Ordenei às três mudas que me aprontassem um banho com salmoura, requisitei um terno de brim do Totoca e uma camisa sem goma do Sontonho e espapacei-me, por fim, regaladamente, na marquesa de volutas da sala de jantar. Estranhei somente que apenas me dessem para companhia três canzarrões de colmilhos brilhantes, Nimrod, Piquete e Danúbio, cujas boas graças conquistei com um punhado dos bolinhos enceleirados e que eu tivera o cuidado de baldear aos bolsos do terno de brim. Estranhei — mas depois compreendi que havia ali hábitos arraigados a tolerar e respeitar. — Por que não vai para o quarto de papai, dar uma prosa? — disse-me D. Biela, passando.
Respondi-lhe que estava bem e deixei-me ficar. E as horas corriam nessa doce inação. Quando o silêncio me pesava, retinha ao pé de mim o primeiro que passasse pela sala e fazia-lhe perguntas, inquirindo do pessoal e do parentesco, pedindo pormenores, como contagiado da inextinguível curiosidade do velho paralítico, eu que sempre procurei desinteressar-me do que se passa sobre este planeta tão pouco interessante. Talvez a esfrega do cavalo me tivesse ensinado uma vez por todas a não descurar das pequeninas coisas que convém saber e a supersaturar-me da ciência das insignificâncias importantes. E só então começou a fazer-se luz em meu espírito, sobre a intricada genealogia e correlatividade do pessoal da fazenda. Aprendi que sô Quim Capitão era pai do Carrinho, casado com a Saninha. Estes geraram o Tavico, casado com a Tintina de olhos sapiroquentos. Carrinho, filho de sô Quim e pai do Tavico, tivera fazenda e terras. Quando casou o Tavico, pôs-lhe negócio de gêneros na cidade. Em dois meses o casal comeu o sortimento e o filho levou a mulher para a roça, aonde ia “ajudar” o pai. Aí ele e a Tintina geraram uma porção de filhos e filhas... Na fazenda paterna já estavam outros filhos “ajudando” o Carrinho. O eufemismo encobria desemprego e dava recacho para enfrentar de cabeça alta os maldizentes. Em poucos anos todos de parceria comeram a fazenda e as terras, e foram para a Paineira “fazer companhia” ao velho entrevado. Chegando aí o sistema solar do Carrinho, composto de sol, planetas e satélites, já encontraram na fazenda outros sistemas solares, que todos rodavam em torno de sô Quim, que era uma espécie de ponto fixo desse novo universo. Tal união tornava-se edificante e levava os fazendeiros das cercanias a exclamar, apontando-os como exemplo: — Família unida como a de sô Quim, eu nunca vi! Havia, sim, congraçamento, e o mútuo desejo de prestar serviços. Se ali estava a família da Cocota, era para esta fazer companhia a sá Tuda, perto das dores; quando a Tuda “desocupasse”, seguraria a Cocota, que também estava muito “pesada”; e, livres as duas, não podiam desamparar a Biela, que já tinha enjoos e vágados; e nesse gangorrear de panças ia passando o tempo.
Malgrado tanta companhia, mirrava-se na soledade de seu quarto o venerando tronco daquela proliferação copiosa. Dali mesmo, esteio sólido da fazenda, administrava os pastos de aluguel, principal fonte de renda. Seu braço direito eram as três bobas, “guerreiras” para o trabalho; trindade inseparável, iam todo o dia, simétricas, para o eito; roçavam, plantavam; e ainda cozinhavam, lavavam, com os três pares de pernões em perpétua exibição, sob os farrapos dos saiotes. Braço esquerdo era Sontonho do Olho Furado, que cuidava do fubá com uma dedicação sem igual; impaciente, numa freima de mania, vivia da fazenda para o moinho e do moinho para a fazenda, um pouco desperdiçadamente, porém, pois seus sentidos avariados o faziam andar um pouco mais do que o estritamente necessário; tanto era que, empurrasse uma criação a porteira do curral, lá saía com a chave do moinho na mão, muito apressado, perguntando: — É p’ramorde o fubá? Trouxe saco? E, sem atentar mais, nem esperar resposta, enveredava diligentemente para a engenhoca. Com exceção do Bié de barba comprida, frases sentenciosas e músculos dignos do guatambu, que passava os dias no terreiro, capão da pintalhada, a fazer carrinhos para as crianças, os outros varões reservavam-se para a reprodução da espécie, mister de mais nobre alcance. Viviam pelos quartos, derreados da faina de procriar, a refocilar os órgãos trabalhados em intermináveis sonecas reparadoras. Apenas deixavam, estremunhados, os leitos prolíficos, à hora das refeições. Essa inércia geral ia-me ganhando, de sorte que eu não deixava o sofá de volutas da sala de jantar, o qual, à noite, me servia de leito. Aquela atmosfera de langue despreocupação antolhava-se-me como sumo bem e único modo de vida razoável. Quantos dias encalhei ali, como Aníbal em Cápua, integrado na família de sô Quim Capitão na qualidade de satélite avulso? Nem sei. Em certas disposições de ânimo devolve-se o tempo unido, como uma sombra que perpassa lentamente e sem fim, sem repartições de dias e de noites. Não era, todavia, totalmente feliz; acabrunhava-me a vaga consumpção dum
Adão solitário, que boceja no meio da perfeição do seu Paraíso, sentindo pesarem-lhe várias costelas sobressalentes. No meu sofá, saboreava-me do silêncio e da penumbra do amplo salão de jantar. O mulherio atropelava-se ao longe, na cozinha, inventando quitutes; dali vinha um afastado chiar de panelas, cascalhadas, exclamações joviais. Em cabides de pau embutidos nas ombreiras, canos para o alto, pendiam espingardas presas pelas correias e buzinas retorsas, que sonorizavam o silêncio com recordações de caçadas. O alto relógio secular contava os segundos, e tempos a tempos batia nasaladamente horas frouxas. E, naquela estagnação de sombra e mudez, produzia ecos sonoros a tosse do velho, aos fundos, ou a carreira de algum dos canzarrões de guarda, únicas almas vivas que a espaços a animavam e que, em demanda da cozinha, onde iam pedinchar os sobejos, levavam tempos a vencer o varandão, desesperando a gente de vê-los chegar ao cabo do imenso cômodo. A intervalos, uma alegre alarida: são os quitutes que vêm em bandejas e travessas: “Senhor doutor, corá? Pipocas, senhor doutor?” E às vezes milho ou batatas assadas, ou talhadas de moranga. Tomo às mãos ambas meu quinhão, já espertado pelo apetite; e em seguida o bando esparcela-se pelos quartos, onde os machos, estrouvinhados, granjeiam com os petiscos um precioso reconforto para a substância fatigada. E os dias eram todos assim parecidos...
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