Universo da obra
Universo da obra
A palestra arrefecera em torno das brasas extintas. Cada qual se isolava em suas reflexões. Siá Marciana ciciava padre-nossos numerosos; a obrigação era grande, por isso começava cedo. Em certo momento, explicou-me: — Antigamente, Dr. Félix, eu rezava um padre-nosso por cada defunto estimado; mas hoje são tantos, que dedico um a cada cinco mortos e dura horas o cumprimento da tarefa. Rezo até por gente que não conheci. Há tempos leu o velho num jornal que morreu afogado, não sei onde, um pescador; e de vinte anos para cá não me esqueci dele uma só noite, embora ignorando-lhe o nome. Chamo-lhe “o pescador do jornal”. — Mas, siá Marciana — objetei — são tantos os pescadores afogados, cujo perecimento os jornais registram, que, ao cair sua prece na eternidade, pode haver disputa grossa entre as vítimas: talvez botem demanda uns aos outros, para destrinçar a propriedade do sufrágio. — Se houver dúvida — sorriu a velha —, repartirão a intenção por igual. Assim todos se salvem! Simpatizei sempre com pescadores, Dr. Félix. Quem lida em cima d’água em regra é gente boa e pacífica. Por isso escolheu Jesus entre eles seus apóstolos mais amados. — É que, ocupados em fazer mal aos peixes, não se lembram de o fazer ao próximo — sentenciou o velho. Calamo-nos. Cada um passou a revolver seu próprio círculo de reflexões. Era esse cogitar mecânico das horas cansadas, quando as
ideias se soltam como presos desalgemados, e se juntam e dissociam sem espírito de sistema, agregando-se vadiamente em simulacros de raciocínios, fluidos, inconsistentes... São as travessuras das pobres encarceradas, em momentos de folga. É também o desagregar do sono que começa. Nos olhos semicerrados a retina semelhantemente se emancipa, desfilando sem método as impressões do dia: água a cair, uma árvore, um chuchu, andorinhas tontas a lutar com o vento... — Traz a sanfona e toca, Américo — diz Próspero. O instrumento, que o sanfonista pousa sobre os joelhos, absorve o ar num prolongado acorde. Àquela hora, soltas as ideias, a música penetra-nos como um bálsamo. Seu ritmo, assim doce e rústico, é a única linguagem compatível com o nosso estado de espírito. Soam velhas melopeias de mutirões, gemidos de escravos melancolizados em cantigas, toadas de extintos serões que a sanfona já sabe de cor, antiga como o são elas e que saem automaticamente dos dedos habituados do Américo. Seu timbre anacrônico ressurge coisas remotas, esfumadas no passado. Cerrados os olhos, os velhos se impregnam desse odor ancestral, como se aspira o recender a alfazema de alfaias antiquíssimas. De quantos anos a sanfona do Américo espairece os serões da fazenda, com a sua voz fanhosa! Cada música prende a uma época, ou recorda um morto amado; antigas seroadas alegres, tempos de angústia, tudo revive, gravado nos acordes dolentes, refazendo a história de dias idos. Eu achava encanto em vê-los, os três, tão absorvidos, inalando aquela revivescência do passado. Também a música influía sobre mim, mas o meu sonho era o sonho deles; buscava sentir o reflexo de suas cogitações, enxertar-me em seus pensamentos, como quinhoeiro deles. Não é que após mim não ficassem vinte e tantos anos de acervo próprio de recordações; mas só o passado dos outros parece-me interessante. É o meu uma série de fragmentos desconexos, um perpassar de silhuetas vagas, e tem o vinco preponderante das sensações desagradáveis; um mau romance truncado, sem interesse, de que de bom grado me alijaria, se pudesse deli-lo dos
refolhos d’alma, onde, por mal de pecados, se tatuou inapagavelmente. Esmaga-me a predominância dos maus momentos sofridos; meu passado figura-se-me um rol de misérias cujo cruciar, quando o evoco, lateja sempre atual. Não sei que malévolo ímã me constitui o núcleo da alma, que só atrai, limalha imprestável, impressões sabendo a fel e pranto. E, ao lado dessa, outras penúrias. Sei de pessoas que, de uma excursão pequena, fazem uma narrativa longa, vendo em ínfimos nadas peripécias atraentes. Creio que, o que nos torna a vida interessante, é sorvê-la com o apetite ávido de todas as curiosidades, o qual, em torno de incidentes mínimos, multiplica sugadores de polvo, bem como na mesa colabora o apetite no sabor das iguarias. Tenho viajado muito; mas em tanto correr terras não colhi uma anedota, uma observação rara, como se desprende num canteiro o pedicel de uma flor. Tudo encinzeira-me tédio na alma e escancela-me a boca em bocejos. Sou, talvez, um abortado da alma, inviável para a vida normal. É por isso que sinceramente invejo os que sabem ou podem viver. Oh, as simples criaturas, cujas almas se entreabrem como corolas para acolher o orvalho dos eflúvios do passado! Que livro interessante não folheiam, ao ritmo da sanfona roufenha que há tantos anos lhes acalenta os serões! E a noite prolonga-se nessa beatitude sem fim — meus amigos todo recordações; eu, vampiro de nova espécie, avoejando pela sua cisma. Encorujado na placa, o papagaio dorme, com o bico aninhado nas penas das costas.
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