Universo da obra
Universo da obra
Batendo rijamente no assoalho a peroba do Américo anunciou-lhe a chegada. Suas primeiras palavras deram-nos a agradável segurança de que o José viria. Depondo o chapéu e o porrete, fez menção de sentar-se, para debater comigo um de seus temas favoritos; mas um tinir de níquel no balcão da vendinha, chamou-lhe a atenção. Era a freguesia dos tostões de pinga, que reclamava Américo. Nada o molestava tanto como essas quedas no real, que lhe entrecortavam as altas lucubrações científicas. — Se soubesse como esta vida me aborrece, Dr. Félix... E lá se foi, displicente. Siá Marciana, por sua vez, desceu à horta, a mexer-se para o almoço, que costumava ser em hora bastante matinal. De caminho cruzou Próspero, que já voltava da lagoa, com um bolo de redes sob o braço. Entrando a sala, o velho acomodou-as a um canto. — Poucas se podem aproveitar — disse ele —; mas depois do almoço vou ver se restauro algumas. E, ainda ofegante da empinada ladeira da horta, sentou-se no estrado, onde se pôs a arrancar rabos-de-burro e amores-secos aderidos à calça ensopada de orvalho. Entrementes, eu revia, meio desatento, as figuras de peixe debuxadas na parede. Conhecia-lhes a história, como foram apanhados, a quem os enviaram, pois o melhor das pescas era sempre destinado a presentes a amigos. Deleitava-me ouvir Próspero recontar-lhes a história; punha-se o velho em pé, com o dedo apontava
uma das efígies e começava a narrar; e duma passava a outra, até corrê-las todas, memorando incidentes antigos, surpresas gratas de pescador: uma linha que amarfanha violentamente as capituvas num farfalhar tempestuoso que indica uma grande presa a debater-se na água; um formidável mandi amarelo colhido em pescaria de rodada, certa vez que levara a canoa rio acima, bem longe, e viera depois suavemente, trazido na correnteza frouxa, com uma das mãos a temperar a canoa, a outra empunhando a longa vara de vinte e cinco palmos, e graduando-lhe a altura de modo a trazer o anzol de arrasto pelo talvegue onde se alapam os grandes mandis triangulares, de pele dourada pintada de preto. Com o dedo em alvo e acompanhando a parede, figura por figura, e com seu ar ancestral e barba longa, o Sr. Próspero sugeria-me Paulo da Gama a explicar ao malabar os fastos portugueses, bordados nas bandeiras da armada lusitana: “Este que vês, pastor já foi de gado, Viriato sabemos que se chama...” A mais recente representava um dourado de três palmos, que fora dado ao médico que tratara a última doença da velha. E Próspero contava o prodígio: pegara-o num anzol pequeno, destinado a peixe de menor porte. Ao correr, de madrugada, as varas de espera espalhadas pelas duas margens, vira n’água um grande rebojo e uma larga forma refulgente que por momentos prancheava... Avizinhou a canoa, febricitante, em risco de cair; e, sem mais nem mais, foi-se abraçando ao bicho, quando o pilhou de jeito. Houve uma trovoada no fundo da canoa onde o atirara; o dourado, espinoteando com valentia, queria saltar a borda; tornou-se preciso, para conter-lhe os assomos, que o velho se sentasse sobre sua grande massa viscosa e o sangrasse, ato contínuo, à faca. Siá Marciana subiu a escadinha do terreiro com o côncavo da saia repleto de vagens e chuchus. — Não muda a calça, primo? Tão molhada! — exclamou, entrando na varanda.
O Sr. Próspero meneou a cabeça, num trejeito de indiferença: “Para quê? Estava acostumado com a água. A umidade nunca lhe fizera mal”. Siá Marciana falou-me então das imprudências do velho. Julgava-se moço, não usava resguardos. Lidando n’água, tinha estouvamentos perigosos: no ano último caíra duas vezes no rio, e todo o dia era uma porção de “quases” de inspirar apreensões... — Um dia cai a casa — sentenciou. E acrescentou em alvoroço, como quem torna a si: — E eu que estou a parolar, esquecendo o almoço! Quando o senhor vem ver-nos, Dr. Félix, nós todos ficamos com a cabeça à roda. Não avalia a falta que sentimos quando custa a aparecer! É só o nosso assunto de conversa... O Américo, esse que o diga! Trepa num cupim e aí fica horas, espiando a estrada... Américo, que vinha de atender à inculta freguesia, confirmou que sim — mas com uma certa circunspecção que denotava condenar fraquezas sentimentais e expansões excessivas. Acrescentou que a amizade que tinha por mim era um sentimento nobre e elevado, como a afeição que votava aos livros. Eu achava graça nessas declarações amistosas e sentia-me bem, assim festejado e adorado por aquelas criaturas simples. Mas, para escandalizá-los, pus-me a narrar: — Acredito que sintam essa falta... Nossa capacidade afetiva é tão grande, que às vezes se estende a coisas mínimas. Lembra-me o caso de uma formiga doceira, cujo desaparecimento muito me penalizou. Aparecia em certa hora da noite, à hora em que habitualmente escrevo. Surgia de um ângulo da mesa, atravessava-a em diagonal, passando sobre o papel, e quebrava além outra aresta, sumindo-se até o dia imediato. Foi assim muitas noites. Acostumei-me à formiguinha e, ao avizinhar-se a hora de seu aparecimento, tornava-me inquieto, expectante, fugiam-me as ideias, e nada mais podia fazer, até que surgisse, lépida, ligeira, alegrando o papel com seu passinho miúdo, a minha querida amiguinha. À sua passagem eu movia a pena em continência, arredando-lhe a ponta da trajetória conhecida. Era tão fragilzinha minha amiga! o mais leve de meus movimentos podia causar-lhe a morte. Nesses instantes eu interpelava-a: “Onde vais
tão apressada, minha diligente formiga? Parece que tens a cabecinha cheia de preocupações. Detém-te um pouco, conversemos! Queres açúcar? Reservar-te-ei toda a noite uma boa porção. Anda ao menos mais devagar! Repara que há vinte e quatro horas não te vejo, e sem te ver tenho que passar outras tantas. Vê bem: um oásis de meio minuto entre dois desertos imensos! Vou com a mão interceptar-te a passagem; para seguires, terás que transpor o obstáculo, ou esperar que eu te deixe continuar teu atarefado destino. É muito cedo! Não receies que te estranhem a falta, no formigueiro onde moras; são tantas as formiguinhas trabalhadeiras, e tão parecidas! Faze de conta que hoje foi tua excursão mais longa... Não me atendes, formiguinha ingrata? Então... até amanhã!”. Não me atendia. Era uma pressa, um frenesi de seguir... Não via a trilha de açúcar com que eu lhe pulverizava o caminho; se a mão lho cortava em barreira, não hesitava: subia por ela e descia do outro lado, deixando-me na pele um tênue prurido, que era como uma carícia afetuosa. E não se detinha. Toda ela era uma pressa nervosa, um andar aflitivo, uma celeridade de pequeninos meneios, que pareciam dizer-me: “É impossível! não posso, meu tempo está contado, só tenho prazo para vir ver-te de passagem e muito depressa. Posso apenas conceder-te uma visitinha de instantes, para matar a tua e a minha saudade. Não me detenhas! Tenho muito que fazer...”. E, acabando de atravessar obliquamente a mesa, quebrava a quina e desaparecia. Um dia... ela não veio mais. Fiquei imprestável, tive que depor a pena. Enchiam-me tristes apreensões. Que seria feito de minha formiga doceira? Aborreceu-se de mim? Esqueceu-me? Afogou-se numa gota de orvalho? Um passo brutal esmagou-a inconsciente? Eu sentia infinitos receios. Esperei-a uma noite, muitas noites. Nada! Nunca mais voltou... Todos escutaram sorrindo minha história. Quando terminei, siá Marciana exclamou: — Que graça, a da comparação! Vou agora mudar seu nome — d’hoje em diante é o Dr. Formiguinha. Riu-se alto e foi para a cozinha com a arregaçada de vagens e chuchus.
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