Universo da obra
Universo da obra
Numa transição inesperada, o dia começou de embruscar. A atmosfera tornava-se dormente e abafada. A gente parecia mover-se num fundo opresso de água morna. — E os velhos! — preocupou-se Américo. — Entretidos na pesca, talvez nada vejam... Ia gritá-los; mas, da janela das fúcsias, que meneavam os flexíveis caules florescidos, divisamo-los açodados, a vingar cansadamente a ladeira da horta. Já os cabritos, salvando a cerca, recolhiam. As bafagens do vento, que levantava, encrespavam num sussurro as folhas do feijoal, embalançando as campânulas que sobrenadavam nas ondulações da verdura. — Quantos dourados? — gracejei, à fala com os velhos anelantes, já entrados no terreiro. Siá Marciana, de rosto quase encoberto pelo chapeirão de palha desabado, tirou do cesto piriforme um peixe de palmo: — Não caçoe, que aqui trago um dourado legítimo. Mas filhote muito novo. A pesca fora má, explicou Próspero. Talvez porque o ceveiro estivesse rondado por algum pirata dos poços profundos. Por seguro, lá ficara um anzol, iscado com lambari vivo. — E que seria esse pirata? — indaguei. — Talvez um dourado dos grandes, que breve terá o Américo que desenhar na parede. Não se trata, Deus louvado, do minhocão ou do boi-d’água — sorriu o velho.
Disse-me do primeiro, que é crença ser enorme serpente que solapa as ribanceiras, mudando o curso aos rios; e muitos supersticiosos juravam já ter visto o boi-d’água, monstro que ama espapaçar-se ao sol, fazendo seu pouso em lajedos ilhados no meio das correntes profundas; em avistando alguém, atufa-se no abismo; a água catadupeja e espirra, fechando-se em sorvedouro sobre seu gigantesco costado. — Feche a janela! — interrompeu-se, a um súbito pegão de vento que revolveu a casa, despregando da parede velhos cromos de folhinhas. Fora, a lufada assobiava numa cerquinha de bambus novos, arrancando-lhe uma assuada de mil silvos agudos e graves. Vastos turbilhões de folhas e poeira revoluteavam no ar. De volta aos beirais andorinhas retardatárias lutavam com o vento; às guinadas daqui pr’ali, debatiam-se, buscando o rumo; por momentos, perdido o equilíbrio, descaíam, para, rasteiras com o chão, recomeçarem o voo e a luta, numa aflição de asas que traduzia o anseio pelo ninho; e, às vezes, como vencidas, levava-as o vento, coisas inertes, espaço em fora. Pela porta do negócio, aonde eu fora acudir a batidas urgentes, de envolta com a ventania embarafustaram aos gritinhos duas mulatas, meio cegas do pó, acolhendo-se do temporal. Uma delas, papuda, trazia uma pequenita acavalada na cinta. À minha vista acanharam-se. — Siá Marciana? — Entrem — disse-lhes, apontando a portinha de comunicação. Uma atrás da outra entraram. Observei-lhes o andar desengonçado, bambaleante, tão peculiar aos roceiros, e que é a adaptação do passo humano às desigualdades do chão habitualmente trilhado. A tromba passou quase instantânea, como viera. Mas o dia sombreou ainda mais. Da porta do negócio, onde me deixara ficar, inspecionei o arredor. A poeira erguida flutuava imota, toldando a perspectiva com a sua cor suja; e revoadas de folhas, largadas na altura, desciam aos corrupios, ou em lentos vaivéns, juncando a
estrada. Suava-se. A pele, titilante, pedia o refrigério duma afusão gelada e o calmo espasmo das prolongadas imersões. Tudo gritava pela água, ansiava por aguaceiro diluvial que abeberasse o solo calcinado e em farta ablução abstergesse a natureza. No abafo abochornado da hora, havia uma como concentração de expectativa. A terra voltava-se para o céu negro, num boquear generalizado de poros sequiosos, suplicando a gota d’água de Lázaro; e, nessa dilatação de secura e anseio, o boleado dos campos parecia intumescer-se, para que mais fácil a fresquidão os filtrasse e embebesse, restituindo aos colmos estanques de linfa o alegre rugitar alvoroçado da seiva. As primeiras gotículas, ainda invisíveis, disseminaram-se escassas; depois esboçaram-se, menos espalhadas, em tracinhos finos caindo. O céu mostrava-se taciturno, como fechado num rancor reconcentrado, rosnando. A súbitas um estampido seco explodiu nas entranhas das nuvens; e, em longo ecoar, uma cauda rumorosa de sons fez o circuito do horizonte, passeando pelas quebradas das montanhas seu rugido mordaçado. Foi o sinal. Grossos pingões precipitaram-se em atropelo, empelotando a poeira, cerrando-se, premendo-se, a espipocar balofamente no chão; em pouco a bátega despejava-se em ondadas cheias. Colunas brancas corriam no horizonte, como batalhões de reforços, sucedendo-se num assalto. Despenhavam-se dos beirais as goteiras tensas, paralelas, estralando nas pedras da calçada; e, formando um reticulado de inumeráveis veios, a água confluía para o meio da estrada em enxurro barrento, que abria carreira morro abaixo. Eu estava salvo. Não me linchariam, aquele dia. Fui logo avisar siá Marciana: — A senhora tem hoje um hóspede para pousar. Os velhos ficaram encantados. Américo irradiou, antegozando longas horas da noite fecundas em ciência pura: naturalmente eu seria seu companheiro de quarto. Na varanda reinava penumbra, a que logo meus olhos se afizeram. Vi as duas mulatas sentadas na beira do estrado. — O senhor deve sentir fome — disse siá Marciana. — Vou buscar-lhe uma coisa de que gosta muito...
Suas chinelas arrastaram-se, encaminhando-se para a cozinha. Trouxe-me um pedaço de mogango coberto com uma poça de melado. Cada um teve o seu naco e sua colher. Fez-se na sala um silêncio de mastigação. Fora, as goteiras trapejavam, em abafado escachoo. O feijoal, sob a corda d’água, abria um acachoeirado rumor, que nos chegava amortecido, através das janelas fechadas. — Fenômeno curioso, um chuveiro assim repentino — murmurou Américo, cogitativo. — O doutor não adivinha sobre que falávamos — disse siá Marciana noutro rumo, lançando um olhar malicioso à companheira papuda. — Não seja linguaruda! — pediu a mulata, bufando de riso e escondendo a cara. — Não é segredo — riu a velha —; diz a Clemência que implica quando encontra qualquer pessoa, porque a primeira coisa que olham é a barriga dela, e que o senhor foi mais delicado. — Gente! a senhora diz tudo! — torceu-se Clemência, engasgada de riso. — A falar verdade, pois decerto! é coisa que implica, porque não foi roubado. Há criaturas que parece que nunca viram pança de mulher! Sabe, o sô Gaspar? Trasantontem teve o desaforo de perguntar-me se comi muita abob’ra. Olhei-lhe o abdômen, que de fato era um monumento notável. Trazia sua possuidora as mãos enclavinhadas sobre o embigo, talvez com a pretensão de dissimular-lhe o volume. — Tem mesmo muita gente desaforado — grunhiu a papuda. — Desde que fiquei com o pescoço grosso, é um gosto de reparar... Esta grossura... Contou-lhe a história desde remotos antecedentes, fugindo, com eufemismos, à propriedade da expressão. Ouvindo a conversa, a menina, ainda enganchada na ilharga, pôs-se a brincar distraída com o par de cabaças. — Fica queta, demoninho! — rugiu a criatura, estortegando-lhe a nádega. A pequenita confrangeu-se, largando os pendurelhos.
Siá Marciana entrou a perguntar sobre as conhecidas das bandas delas. Miséria, doenças... Havia uma grande novidade: voltara de cumprir trinta anos na cadeia o Lourenço da Frederica. Lembravam-se? Da Frederica, que andava com o Martinho, de longos anos. Lourenço namorava-a. Num acesso de “canelagem” pica de faca um caboclo, que deitara vistas cúpidas à mulata. Não houve apelo nem perdão — gramou todo o tempo entre grades. Chegara avelhuscado, quietarrão com inchação de membros, e arrastando de uma perna. Não sabiam que viera cheirar para ali. Estivera na casa da Frederica uma hora, e depois seguira pras terras dele que, parecia, eram além de Uberaba — coisa de léguas e léguas. Interessei-me pelo caso e fiz perguntas. Nada sabiam... A Frederica era quem poderia contar. — Ela mora no caminho da cachoeira, Dr. Félix — explicou Próspero. — O senhor ver-lhe-á o rancho quando fizer a viagem planejada. Falar nisso — não pode ser na quinta-feira próxima? Assenti, de corpo mole; como quisesse... Continuou a falar nesse passeio. Disse algo sobre cavalo arreado, e não sei que mais, o que ouvi desatento. Pois esse projeto pouco tentava-me a lesmice. Eram castelos no ar, pensava. A chuva ainda cantava na coberta, coando fino pulverisco pelos interstícios das telhas. Com a garoa rarefeita, a temperatura refrescava, no interior fechado. Já as projeções das cordas d’água eram menos rumorosas. Cedia, o temporal. De goteiras aqui e ali, aparadas em latas, pingopingava a água com mais espaço. Com satisfação atentaram as mulatas em seu declínio. — Vai passar, sá Clemência — resmungou a dos papos. — Deixe chover — disse a velha. — As senhoras estão em abrigo. Esperem a janta. — Impossível, sá Marciana! É ida de muita urgência... Precisamos estar logo na cidade. Coisas de doença. O marido da Clemência estava com febre e empachado. — Será do lugar... Porque estamos mudados de pouco tempo. E aquela morada não me está quadrando nada. É na beira da estrada
e, na estrada, a senhora sabe, passa bom e passa ruim. Desde que fui pr’aquela casa não tive um dia de alegria. Nem a gente pode criar. Tenho uma paixão quando gavião come um pintinho meu, e lá já comeram oito, só esta sumana. E não combino com o novo patrão. Assim, a senhora vê — meu homem na cama, entregue, e ele passa pra lá e pra cá e não vai lá nem uma vez perguntar se morreu, se viveu. E ainda insolências, “ridiquices”... — Mamãe, quero água... — choramingou a pequenita. — Fica queta, coisa ruim! — ralhou a papuda, com um repelão. — Tu não qué água nenhum. — Vou buscar, neném... espere! E siá Marciana, tomando um copo, apressou-se para o pote. Destapou e tirou água com a caneca de borda repicada e cintada de furinhos sob as pontas — precaução para o asseio da bebida. Mas o tempo estiara. Só se ouvia o pingar lento das abas do telhado e o rumor distante da enxurrada decrescida, afastando-se. Perras de movimento as mulatas puseram-se em pé, gemendo a preguiça. — Bem, vacês até outro dia. Despediram-se de um em um. Pela porta que lhes deu saída entrou uma aragem fresca e a palidez do dia enevoado. Abertas todas as portadas, a casa alegrou-se com a suave claridade exterior. Frouxéis de nuvens brancas tapetavam docemente o céu. Ouvia-se ainda um murmurejar de águas remotas, perdidas ao longe. Escasqueada a paisagem de seu tisne poento, todas as cores se fixaram, lavadas, nítidas. O próprio som tinha um timbre mais claro e musical. Da terra, enfim saciada, brotava como um sorriso esparso, que cascalhava, argentino, nas surriadas dos caracarás pousados num sassafrás fronteiro, sorriso feito em frescor na aragem, em brando frêmito nos pendões penugentos dos campos e em alvura cariciosa nas lentas vaporações que já despegavam do solo, acamando-se maciamente nos refolhos dos vales.
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