Universo da obra
Universo da obra
Fomos ao café. Atravessando a casa, aspirei com prazer o recender a vassoura verde, que impregnava o ambiente, deixado pela varredura da manhã. Outras conhecidas notas caseiras vinham aumentar minha sensação de tranquilidade e bem-estar: cacarejos e pios no quintal, chios de filhotes de morcego entre a fuligem da telha-vã. Entrevi em sua placa o velho papagaio sorumbático. Na larga mesa da sala de entrada já estava o bule fumegante, rodeado de pequenas canecas de louça e tigelinhas desbeiçadas, com letreiros “Saudade”, “Amizade”, tudo sobre uma grande salva de prata, última alfaia preciosa dos velhos tempos de abastança, relíquia de família, que desde época imemorial vinha de pais a filhos. “Minha cadeira”, forrada com um couro de cachorro-do-mato, fora removida para ali. Ouviu-se na cozinha um estralejar de gordura frita e dali a instantes surgiu siá Marciana com um prato de biscoitos ainda quentes da panela. Abanquei-me ao lado de Próspero, que estava solenemente sentado diante de um canecão cheio até à borda. Siá Marciana intencionalmente ofereceu-me a tigelinha “Amizade” e passou-me os biscoitos fritos, sentenciando: — Diziam os antigos, Dr. Félix, que café deve ser assentado, assoprado e mastigado. Sem cerimônias, pus diante de mim uma pirâmide de biscoitos e fiz o prato, sensivelmente diminuído, continuar o giro. Em movimentos ritmados, o canecão, espécie de patriarca do vasilhame,
ia até os bigodes aparados do patriarca da família e voltava para a mesa. O velho Próspero bebia silencioso, com a unção de quem segue um ritual. No espaçado e no calmo das idas e vindas, havia como que a afirmação segura de que Roma não se fez num dia e que mais tempo menos tempo se veria o fundo do canecão. — Por que está quieto, Sr. Próspero? — perguntei-lhe, para puxar palestra. Pousou a vasilha e, voltando-se para mim, disse: — Ando mais surdo estes dias, doutor, e receio que minha prosa o incomode. Sei como é cacete conversar com surdos: é preciso gritar e ainda reter o riso, por causa dos disparates que se ouvem. No meu tempo eu também não gostava muito e só conversava por espírito de caridade. Por isso julgo os outros por mim... Rematou sorrindo, como quem conta com um protesto certo e delicado. Protestei e perguntei-lhe se o incômodo não o fazia sofrer. — Às vezes entristece-me um bocado. A gente, quando vai ensurdecendo, também vai ficando isolado. O som é um dos encantos da existência, e, sentir-se ele esmorecer em torno de nós, é como sentirmos o afastar da vida. Com o som, os homens nos fogem, de sorte que vamos ficando trancados no silêncio, como em nova espécie de deserto. Mas enquanto eu tiver olhos para ver minha velha, não desespero... — e fitou maganamente siá Marciana, que lhe chamou enjoado, caçoando: — Isso da surdez do meu velho, Dr. Félix, acho que é um pouco de malandrice. Vêm aqui às vezes umas caboclinhas bonitas e, com a desculpa de não escutar, ele as vai renteando com desembaraço. Houve risadas e o velho sentenciou, brejeiramente: — Tudo neste mundo tem sua compensação. Essa é a da surdez. Deus quando dá o mal, também dá o consolo... Contou-nos, em seguida, como começara aquilo, insensivelmente afetando a um tempo os dois ouvidos, lá iam anos. Defeito imperceptível a princípio, foi-se aos poucos fazendo doença incômoda. Parecia-lhe que todo o mundo falava enrolado, ou em língua estranha. Um dia teve um raio de esperança. Estava sentado na eira,
a apreciar a tarde, quando sentiu uma espécie de estouro na cabeça. A surdez cessou instantaneamente, por milagre. Ficou com o ouvido apuradíssimo como nunca o tivera. Ouvia nitidamente a conversa de dois canoeiros, ao longe, na curva do rio e o chapinhar compassado do remo na corrente. Levantou-se exultante, trêmulo, para contar à “prima” tal prodígio; nisto ouviu um segundo estouro, formidável como um trovão. E desse momento em diante teve oclusão completa de um ouvido. O outro piorava lentamente. — Dizem que os moribundos têm, às vezes, visita da saúde. Isso foi, decerto, a despedida do som. Após estas palavras, o canecão, em repouso algum tempo, recomeçou seus pausados movimentos. Para espancar a nuvem melancólica trazida pelo assunto, resolvi entreter os altos espíritos de Américo com pouco de física recreativa. Com garbo de prestidigitador arregacei as mangas, pedi um copo d’água e um pedaço de papel, e perguntei: — Conhece a experiência do copo invertido, cuja água não se entorna? — Apenas de leitura. Mas supusera ser coisa que só existisse em livros. — Pois atenção! Um, dois, e... Fiz a sorte. O pasmo de Américo assumiu as proporções de êxtase. — Sim senhor! Ora vê-se! Sim senhor! — era só o que sabia dizer, arregalando olhos admirativos. Tais surpresas, que me divertia a provocar no espírito simples de Américo, constituíam um regalo de minha predileção. Todavia, em minha convivência com essas boas criaturas, mais de uma vez pungitivo remorso feriu-me a consciência. Parecia-me não haver lisura em meu procedimento e que, na corrente alternativa de provas amistosas que entretêm a verdadeira afeição, eu ali dava menos do que recebia. Sentia-me profundamente amado pelos meus amigos; era um filho dos velhos e um irmão de Américo; e, para mim, eram todos talvez mero divertimento; pois analisando, bem pela raiz, meu sentimento por eles, reconheceria serem os quitutes de
siá Marciana, as histórias de caça do velho e os espantos virginais do Américo, que o entretinham e viçavam. Depois de me doer com essas considerações, eu rematava comigo, para aligeirar escrúpulos: — Afinal, tudo na vida corta-se pelo mesmo modelo; e é avisado, para a não desvestirmos do seu florente recamo, que nos contentemos com aspirar a flor dos sentimentos, gozando a sua superficialidade amável, sem cogitar das pútridas fermentações dos subsolos. Se remorsos me pungem, não é que eu peque muito, mas porque vejo claro. Não há como flutuar à tona dos sentimentos bons, levados pela sua onda mansa, sem que lhes descomponhamos a estrutura elemental... O canecão, mais uma vez esquecido durante a sorte de física, já retomara seus movimentos regulares. Então Próspero pediu-me notícias da conflagração. — A humanidade continua possuída de sua demência assassina — respondi. — Longe de abrandar, a luta se encruece. Cada dia, na terra e no mar, a voragem da morte traga milheiros de vidas. — Coitados! — murmurou siá Marciana, envolvendo a todas as vítimas no manto de sua piedade. Brincando distraidamente com o copo da experiência, em cuja água um raio de sol, chegando obliquamente, acendia rebrilhos alegres, disse-lhe que desejaria estar lá, no mais forte da refrega, para apreciar a hecatombe. — Apreciar! — estranhou a velha. — Como pode dizer assim de uma coisa tão triste! — Siá Marciana — continuei —, o homem é um animal perverso. Somos parentes da pantera e do jaguar, e ainda remanescem em refolhos misteriosos de nossa alma, como uma ninhada de víboras numa greta de lajedo, velhos instintos vivazes, mal-a - cobertados pela fragílima côdea civilizada com que campamos na sociedade; é um velho legado de sangue, atavismo de índole, de que não nos poderíamos libertar em poucos milhares de anos — um minuto na evolução. Em nós há rugidos adormecidos, crispações de garras dissimuladas no veludo macio das patas. Amamos o sangue e o espetáculo do sofrimento, das agonias horríveis...
Os velhos ouviam sorridentes, como se minha lenga-lenga os divertisse. Lançado no tema, e um tanto pela vaidade de exibir, ante sua simpleza rústica, minha natureza perversamente refinada de homem culto, prossegui, balançando ligeiramente o copo, a cuja beira uma mosca pousara: — Embora o neguemos, é-nos uma volúpia o espetáculo do sofrimento. O sentimento da comiseração é um enxerto das morais doentias e por isso como que nos demora apenas à flor da pele. Pois o preceito principal da nossa moral indestrutível e primitiva é que cada um de nós é o eixo, o núcleo da humanidade, a sua razão de ser. Só existe o nosso sofrimento. Cada um de nós tem todos os direitos imagináveis sobre as pessoas e coisas que nos cercam. Sabemos que a luta é necessária — pois desses fundamentos resulta um permanente e salutar estado de luta. Lutamos para a solução do único problema que nos interessa: o da nossa felicidade pessoal. E, se tudo foi criado para nosso gáudio, também o foi o sofrimento alheio, que não é a menor de nossas delícias. Que deleite estranho e sobre-humano o sentirmos — tigres travestidos de homens — a presa cobiçada impotente entre nossas garras! É um ser vivo que pensa ter os mesmos direitos que nós e que, com toda a sua arrogante presunção, está à nossa mercê. Saboreamos-lhe o susto, que se lhe acende no olhar esgazeado, voltado para nós a suplicar misericórdia. — Não terás quartel! — respondemos, cravando-lhe agudamente o olhar impiedoso, para aumentar o terror. E, como requinte da voluptuosidade da carnagem, brincamos primeiro com a presa inerme, alentando-a a espaços com uma falsa esperança. Simulamos descuido: pensa que pode fugir, tenta-o, mas reapoderamo-nos dela. O terror acresce. E isto se repete indefinidamente. Sente, enfim, que tudo está acabado; e, esgotado pelo seu próprio excesso, o terror começa a esmorecer em desânimo, em conformidade... E, na sua passividade descorajada, nesse languescer de desalento, há como o abandono voluptuoso de uma fêmea que se entrega... Os velhos continuaram a sorrir. À beira do copo, em cuja água límpida uma flecha de ouro se abeberava, passeava a mosca confiadamente. Acendendo um cigarro, prossegui:
— Então esgotaram-se os aperitivos preliminares, acabou-se a fase preparatória. É a grande hora. Ajeitamos a vítima para o sacrifício. Vamos saborear a agonia física depois do sofrimento moral. Sedentos de sangue, e com o frenesi de um lascivo sedento de amor, cravamos-lhe os dentes agudos no pescoço. Há um ganir de dor deliciosamente cruciante. Nervosamente afastamos com o focinho o lanho de carne arrancada, e aplicamos a boca sanguissedenta bem ao fundo da chaga, no esguicho da artéria rompida; empurramos o focinho sôfrego até se justapor à ruptura dos tecidos, para que nós e a vítima façamos um só todo, um caso delicioso de xifopagia, de hermafroditismo de nova espécie, em que em vez da volúpia se bebe a vida. Está formado o novo e estranho ser! Somos um! E nos nossos braços felpudos, que embalam e dominam, sentimos a vítima barafustar impotente, com excitantes ralos de agonia, toda fremente, a estrebuchar, fazendo, a cada arranco, que o sangue borbote em golfadas mais vívidas; e, quando o corpo afrouxado dá de esmorecer, num colapso, e o sangue flui moroso, reexcitamo-lo com o entranhar nervoso das garras nas partes mais sensíveis, provocamos um último e poderoso entesamento que nos jorra na goela a última golfada quente. E, enfim saciados, a cabeça torva, os sentidos preguiçosos, a volúpia extinta, deixamos tombar dos braços, como uma trouxa inconsistente, o corpo da vítima inanida e, a passo bambo, vamos enrodilhar-nos sonolentos à sombra acalentadora de uma grande árvore da espessura... Num estouvado movimento caiu n’água a pequenina mosca. Como se debate aflita! Estendo-lhe uma felpa da palha do cigarro, como ponte salvadora. Toda de seu desespero, espolinha-se e não a vê. Não vá a pobrezinha afogar-se! — Pois somos assim. O medo das represálias, ele apenas, recalca-nos o natural bravio de besta-fera. Por isso a guerra é bela e natural. Traz a abolição momentânea de todas as ferropeias, de todas as mentiras jurídicas e morais — hipocrisias de nossa falsa civilização. Podemos ser tigres, ser humanos! Deixados à solta, como matilha desatrelada, nossos instintos recalcados cevam-se em todas
as grandes voluptuosidades: os estupros, os saques, as carnificinas, as flamas incendiárias... Somos selvagens, somos bárbaros, mas humanos. É a grande vida natural que ressurge, é a natureza que reivindica os seus direitos imprescritíveis, é o eterno, o indestrutível, que fulgura à labareda dos incêndios, no resplendor de uma incomparável apoteose! Afinal sentiu a mosca a fibra. Apegou-se a ela e começou a subir lentamente. Depu-la com cautela sobre a mesa. Andou um pouco, arrastando as asas pesadas. Tentou voar — caiu. Espanejou-se, deu mais forte impulso e, librando-se enfim no ar, alegremente voou pela réstia dourada, janela em fora, a secar as asinhas úmidas à luz gloriosa da manhã. Os velhos continuavam a sorrir...
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