Universo da obra
Universo da obra
Ainda desta vez o dia arrasta-se numa lentidão deliciosamente aborrecida. Vive-se mais, na fazenda do Córrego Fundo, que no resto do orbe. Invento mil modos de encher tempo e ainda há sobra para uma semana de farniente. Maravilhas da vida rural! Por isso é que o fazendeiro que passou anos a tostar-se ao calor dum brasido, tem a voz indolente, frouxa e de um fanhoso monótono com um sabor a confidências, que acalenta e entorpece. Por essa causa é que poupa os movimentos; para levantar-se não o põe alerta, de pé, a mola duma energia que atua de pronto; esse movimento é um capítulo do seu dia: primeiro hesita, pesa e resolve, depois começa — estira os braços, num bocejo hiante e sem fim, descai sem forças, corcovado, sobre seus próprios quadris, recomeça o bocejo e o espreguiçar, com a mão tenteia um apoio, mexe o pé e com um “ah!” interminável vai-se levantando, bambo, desconjuntado. Ganhou com isso alguns minutos. Siá Marciana tem um bom sistema de encher-me o dia, vive a inventar comezainas. Lá surge da cozinha com um prato de pinhões. Tenho o que descascar e roer até o almoço. Enquanto o faço, Próspero encordoa anzóis, dando-me conselhos: devem-se encastoar com cabelos de cavalo-marinho, cuja transparência os torna invisíveis na água; se em vez de fio se usa arame, cuidado com as crocas! que, encrocando, a menor piaba o arrebenta; o fio deve ser do comprimento da vara, enrolando-se outro comprimento por esta abaixo...
De vez em quando uma discussão religiosa. Próspero aprecia a leitura da História Bíblica, a que dá interpretações pitorescas. Proponho-lhe uma questão difícil: se os pecados são sugestão do Demônio, não seria melhor que Deus não houvesse criado a este? Ele refuta-me calmamente: — Se o senhor montasse uma empresa, não necessitava de um administrador? Assim, criado o inferno para castigo dos maus, era preciso um tomador de conta, e este é o Diabo. Dou-me por convencido, e ele prossegue a encordoar os anzóis e eu a roer os pinhões. Nesta conversa desatada e mastigação interminável, veio a hora do almoço. O aluno foi pontual. À mesa lá estava à beira do Américo, que se desmanchava em atenções. Era um negrinho de quinze anos, empertigado, de meia e chinelos, que em questão de decência o professor mostrava-se inflexível. Usava a carapinha levantada em topete, e a tudo só respondia “sim” ou “não”. Tinha ar sério de negro educado, que sabe ser negro só “nas cor”. Aquilo era obra do Américo. Siá Marciana arrumou-me um prato alto como uma pirâmide, que lenta, mas seguramente, eu ia escavando e trasfegando para os mistérios do tubo digestivo. A cada momento eram instigações: — Coitado do Dr. Félix! está sem fome! O senhor precisa tratar-se melhor... Ao fim da refeição deixei-me ficar na cadeira, refarto, soltos os botões abdominais, sem coragem para deslocar-me. Sentia-me inteiriço, empanzinado, como feito de uma só peça indobrável. A barriga tumefacta dava-me sensações de gravidez. — Coitado do Dr. Félix! Anda tão sem apetite... coma ao menos uma pamonha com o café... Agora é uma raridade milho verde, mas ainda aparece. — Pamonhas? — hesitei, apalpei-me. — Venham! — resolvi, intrepidamente. Como sabiam bem! Pena foi não poder passar de duas, que assim mesmo se puseram a brigar com o almoço e os pinhões, para
arranjar lugar. Convenci-me nessa hora que a impenetrabilidade é a mais secante das propriedades gerais dos corpos. Conciliei a pendência e compus-me com a física cedendo mais um botão da cintura. Siá Marciana arranjou com sobejos o prato da gata favorita, que lhe puxava significativamente a barra da saia. Sopesando-a pelo ventre elástico, pô-la sobre a toalha, junto ao petisco. — É um animalzinho tão manso e asseado! — disse ela, dando-lhe maternos olhares. Sempre impliquei com bichanos. Detesto-lhes a música encatarroada do peito e a balda de coçar pulgas nas bocas das calças da gente, principalmente se são novas. Observei: — Fie-se nessa cordura hipócrita! Não conhece o aviso popular “gato matou sô padre”? A velha riu-se. Era uma antiquíssima história e provavelmente lendária. Já seus bisavós lhe contavam em menina o caso do padre que, armado de chicote, se fechara numa sala para castigar um bichano. O animal enfurece-se, encrava-lhe as presas curvas na garganta e... era um padre que morria e um exemplo que ficava para todos os séculos porvindouros. Que a história era muito espalhada. Ouvira-a do Dr. De a Pé, galego, e também um francês lha confirmara, pelo que um e outro ouviram na sua terra, deles. — Caluniaram vocês, minha gatinha... — e siá Marciana amaciava-lhe a espinha ondulante, esperando a terminação do almoço, para acabar de tirar a mesa. Fora a toalha, espalha-se o pessoal. A velha encafua-se na cozinha. Próspero vai buscar as redes necessitadas de reparos, e Américo, mais o empertigado negrinho, somem-se para o cômodo de negócio. Na sala só fico eu, empachado, o cóccix no rebordo da cadeira, a nuca apoiada no respaldo. Daí a instantes faz-me o velho companhia, consertando uma primeira rede que estende sobre a larga mesa de óleo. Próspero absorveu-se no trabalho, pelo qual, meio distraído, eu me interessava. O novelo de barbante não tinha descanso. Durante meia hora acompanhei-lhe os movimentos, calculando comigo:
“Agora é um remendo aqui, um nó ali...”. Às vezes errava em minhas conjecturas, o que me dava uma leve contrariedade. Incansavelmente meu espírito formulava previsões: “Para consertar aquela ponta, o velho terá fatalmente que passar para o outro lado da mesa...”. Fatalmente enganava-me; ou virava ele o tecido, ou debruçava-se mais. Isso fatigava-me extraordinariamente. Com intervalos mais ou menos longos, Próspero ia ligando pedaços de frases, narrando-me episódios de pescarias a malhas. Nunca compreendi bem como se arma uma rede: sobre isso minhas ideias eram em absoluto falsas, o que me desgostava. Ao mesmo tempo receava que o velho mo explicasse. Aprender é tedioso. Os maquinismos, então, causam-me particular horror. Numa descascadeira, ao ver o café cair, deleito-me com isso; mas se querem contar-me o processo da descasca, supliciam-me inutilmente. O caso das redes enchia-me de apreensões, porque uma ideia falsa também causa tédio e eu tinha na boca uma perguntinha recalcada: “Como se arma isso?”. Previa já a intuitiva exposição: o velho que interrompia o trabalho e fazia gestos de fincar estacas, e outros gestos figurando a rede estirada... Provavelmente eu faria um esforço de abstração, mas continuaria na mesma, sem compreender. Nesse em meio ia acompanhando o conserto, procurando, a espaços, divertir a atenção para o exterior, onde devassava um trecho de céu. Era cair de Cila em Caríbdis. Via corvos minúsculos ao alto, descrevendo serenamente grandes órbitas vadias. As extremas de suas parábolas, quase as encobriam os portais da janela. Era sempre quase. Por esse lado também vinham-me apreensões: “Desta vez encobre, porque a parábola é mais longa...”. Preparava-me para mudar de posição a fim de não perder as extremas da curva. Mas era escusado, porque, mal tangenciava o portal, o voo tornava em direção regressiva... Era intolerável. Antes as redes! Após um tempo infinito finalizou-se a primeira. Suspirei de alívio. — Quantas faltam agora, Sr. Próspero? — Nove.
Horripilado, levantei-me e fugi. Não foi bem fugir; a expressão é muito lesta para quem tinha meia arroba de mantimento no bucho; fui rebolando-me para o interior da casa com a lerdice dum cevado em ponto de faca. Ao chegar à varanda, novo susto do papagaio e a indefectível queda do poleiro. — Por isso é que meu Louro anda acorrentado depois de velho — disse siá Marciana, que vinha trazer-lhe a ração. — Cai à toa! Velhice é coisa triste, não, meu negro? Contou-me que não havia papagaio tão tagarela como aquele, no seu tempo. Sabia o nome a todos, atiçava cachorros, chamava os escravos. Toda a manhã descia da placa e ia postar-se na cerca que dá para a estrada, donde saudava os transeuntes conhecidos com um “boa-tarde” nasal. Para ele era sempre tarde, a qualquer hora... Em novo, muito dado, mas a idade tornara-o rabugento. Só tolerava o velho; os agrados dos mais, recebia-os de bico em riste. E que implicância tomara com o Leonardo, o hóspede comido de sífilis que ali fora curar-se da gafeira que o imbecilizava! Se, quando o via, estava solto, lá ia, pés impercussos, empoleirar-se em sítio propício e, zás! no lóbulo da orelha. Ainda agora, ao ouvir-lhe a voz na estrada, agitava-se, caía, batia as asas, febril, buscando libertar-se da corrente. — Não é assim, meu Louro? — perguntou ela. Não teve resposta, porque, depois de uma bicada inapetente na comida, a ave, sem esperar pela conclusão da biografia, recaíra em sua modorra habitual.
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