Universo da obra
Universo da obra
Dos fundos da casa vinha-me sem interrupção o incansável arrastar de chinelos de siá Marciana. O rangido da porta dum velho armário, e um barulho seco de milho mexido, indicaram-me que ia tratar da criação de pena. Aquele rangido conhecido alvoroçou o terreiro: ouviu-se um rumoroso frufrutar de asas e uma orquestra de pios e grasnidos. Cacarejante e em andar cauteloso, atravessou a casa, da frente para os fundos, uma galinha cercada de pintos; ao cruzar-me, deitou-me a matrona com desconfiança o seu olhar perscrutador, esse olhar lateral das aves, que parece exprimir simulação. Com seu monótono crocró, saiu para o terreiro. Fui apreciar a refeição das aves. Ao atravessar a varanda, o velho papagaio que continuava a cochilar na placa, despertando em sobressalto ao rumor de meus passos, caiu do poleiro; em seguida, com muito custo, à força de bico e unhas, conseguiu grimpar pela correntinha e alcançar o pouso, onde continuou sua interrompida modorra de velho. — Quit! quit! quit! — gritava siá Marciana da porta do terreiro, dando tempo a que chegassem os últimos retardatários. Debrucei-me à janela, a cujo poial se acostava um longo caixote, onde vicejavam manjericões e fúcsias trepadeiras. Dali eu via o chão batido do terreiro, onde apenas medravam escassos carurus e carrapichos-de-carneiro; e, além, o milharal já seco, pronto para a colheita; afogava-lhes os altos colmos vestidos de velhas folhas farfalhantes, o feijão de vara a subir triunfalmente até aos pendões,
enroscando-lhes suas espirais vestidas de folhas verdes e pesadas de longos e oscilantes molhos de vagens. Entrelaçando seu caule volúvel com o do feijoal, e misturando com as deste as folhas verdes, alastravam trepadeiras florescidas, abafando ainda mais os colmos ressequidos, que entreapareciam aqui e ali, estonteados e como faltos de ar, emergindo de sob aquela viridente alcatifa, profusamente estrelada de alegres campânulas róseas e azuis. Cobrindo totalmente as achas da cerca, que dava para a rua, com seus fofos de verdura, um chuchuzeiro proliferava em pendentes pesos brancos, de áspera casca. Para ver-se livre da galinhada, que se apinhara à orla de sua saia, siá Marciana atirou o primeiro punhado de milho bem longe, no terreiro. As aves em confusão precipitaram-se para o cevo, e num momento cessou todo o rumor de asas, ouvindo-se apenas as pancadinhas secas dos bicos no chão apisoado. — T’c, t’c, t’c — e nova mancheia atirada ao meio do bando, num rumor espalhado de grãos caídos. — Chit! — fez a velha enxotando do ombro uma franga imprudente que lhe tomara de assalto o cogote. — Esta Quita é confiada, que é um precipício. Bem sabe ela que é a minha predileta. A culpa foi da criação. E, continuando a atirar o milho, siá Marciana contou-me sua história: — Era um pintinho doente, morre não morre, que um dia de chuva encontrei encarangado e nu, largado da mãe, debaixo do assoalho. Foi criado à beira do fogo, muito embrulhadinha e, à custa de mil cuidados, vingou. Com isso ficou mal-acostumada. Cresceu mansinha e hoje é essa agarração que o senhor vê. Não sai da cozinha e dorme na taipa do fogão. Anda atrás de mim, que parece um cachorrinho: a cada momento preciso enxotá-la. A lata cantou à saída do resto do grão atirado a esmo. — Então chama-se Quita? — Está estranhando? — sorriu a velha. — Minhas galinhas têm todas nome de gente. Quem me deu a mãe desta, com a roda de
pintos, foi a Quita do compadre Elias. Aquele galo chama-se João de Melo — só porque este passou por aqui e o achou bonito. Ali está a Maria Justina, a Pinduca, a Amélia... Olha aquela arrepiada: tem um nome de homem... É a Dr. Félix... E siá Marciana riu alto. — Meu nome? — perguntei. — Sim, porque a estou reservando para o senhor. Quero que também comece uma criação na sua casa, e sabe que galinha, para ir adiante, é preciso que a primeira seja dada. Deu-me ainda outras instruções: que nunca eu chocasse número par de ovos, senão gorava. O número ímpar tinha virtudes, até nas crianças; nunca se vira nascer alguma de 6 ou 8 meses. Num voo pesado, depois de escolher posição, a Quita alcançou o braço de siá Marciana, onde ficou a bater asas, procurando equilíbrio. — Vem, tentação! — disse a velha, auxiliando-a a atingir o ombro. A esse momento siá Marciana lembrou-se de uma operação que tinha que fazer. Acomodou a Quita na cozinha, e tirou de sob um jacá um frangote assarapantado. Munindo-se de tesoura e de agulha, foi sentar-se à porta do terreiro. O frango parecia doente, e fazia com o pescoço movimentos sacudidos, como para tossir, imobilizando-se depois com o bico aberto, anelante. — Ainda tem o pau atravessado no papo, este coitado — disse ela acariciando-lhe a cabeça. Contou-me que se chamava Manequinho e que era, havia cinco dias, mártir do galinheiro, desde que num acesso inconsiderado de gula abocara aquele graveto. Nada do que comia lhe parava no papo: vinham engulhos e vomitava. E o coitado, que era esganado, havia de sentir tanta fome! O resto da galinhada já o sabia, e, logo depois da ração matinal e da tarde, fazia-lhe numeroso acompanhamento, à espera do vômito suculento. E o cortejo punha-se em evoluções pelo terreiro, lento e expectante, o frango sorumbático abrindo a marcha, com os engulhos, e as cabeças ávidas a espreitar a hora, prestes para o assalto. Quando o vômito tardava, o augusto patriarca do quintal, o galo João de Melo, bicava-lhe a cabeça aflita, como
a dizer-lhe que se apressasse, por favor, que aquilo de andar tanto, era, afinal, cansativo e aborrecido. De repente, num engasgo mais forte, Manequinho estacava: era o momento. Havia então um precipitar-se geral e desordenado; as aves premiam-no num assalto terrível, pulavam-lhe às costas; outras, mais sôfregas, bicavam-lhe a língua, e enfiavam o bico pela goela abaixo, de esganadas. Manequinho definhava. Aquilo não era vida! Nesse dia siá Marciana resolveu livrá-lo do suplício ou matá-lo. Foi breve a operação: uma tesouradinha no papo, tirar o pau, uns pontos, tudo no meio de um exagerado bater de asas. Enquanto isso, ela animava-o. Ia ver como a vida lhe mudava! Todo o dia, quando chamasse para o milho, não viria ele desconsolado, sem entusiasmo, fechando a comitiva, como se acompanhasse a um enterro; podia agora comer muito, quanto lhe apetecesse, até ficar com o papo tumefacto. Tivesse paciência... Um nó cego para rematar a costura e pronto. Acabou-se o estardalhaço de asas. E, como para demonstrar que a cesura não lhe diminuiria a voracidade do costume, Manequinho entupiu-se do milho, que a velha lhe serviu no covo da mão. Em seguida soltou-o. Onde caiu encorujou-se receoso. Mas as galinhas começaram a avizinhar-se. Rodearam-no. Premeram-no. Então, Manequinho pôs-se a andar, recomeçando sua Via de Amargura. E lá ia o acompanhamento. Pelo terreiro fizeram as evoluções do costume. Manequinho à frente, desconsolado, inquieto, e o galinheiro todo atrás, com pausa e pertinácia. Às vezes, porém, notava-se no olhar daquele uma fugidia expressão maliciosa, que parecia dizer: “Podem vir! Mas previno-lhes que perdem o tempo! Muitos dias regalei a vocês todos, com o máximo desinteresse; em vez de me agradeceram a magnanimidade, pagavam-me com maus-tratos. Pois bem, já que foram tão ingratos, hoje acabou-se. Podem acompanhar-me quanto quiserem! isto até me distrai... E favorece o quilo. Façamos de conta que estamos fazendo a Avenida”. E, trocando com pachorra as longas pernas, guiava o povinho de penas por todos os cantos e recantos do terreiro. Certo momento
o galo João de Melo foi-se-lhe pôr à beira, como para oferecer-lhe o braço. Mas não. Intérprete do descontentamento geral das massas, deu-lhe uma bicada de incitamento. Manequinho piou e abriu as pernas, correndo... A galinhada atirou-se furiosamente ao seu encalço... Não vi o desenlace, porque o bando se afastou, sumindo-se na horta.
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