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Capítulo 4 · Vida Ociosa

Um gênio enciclopédico

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Os velhos não protestaram contra o despotismo do Américo, que assim me escamoteava, em dois tempos, ao seu convívio. É que adivinharam que íamos falar sobre os “estudos”. Mas a este ponto precisa ser focalizada à vista do leitor, nalgum dos seus aspectos, a alma e a situação do meu amigo. Américo, apesar de seus quarenta anos, era ainda uma espécie de filho-famílias. Na fazenda sua única função consistia em gerir a vendola, que abria a porta exígua para a estrada, compartimento mais frequentado pelas mamangavas e maribondos, que pelos viandantes raros. Usava a barba intonsa e arrepelada ao deus-dará, e, ao alto da testa, acidentada de várias bossas correspondentes aos seus vários talentos, rareava-lhe o cabelo em profundas entradas, apresentando um capucho revolto, na linha de simetria. As bossas da fronte e os olhos encovados davam-lhe uma expressão aquilina que parecia ter a virtude de revolver escaninhos d’almas. Américo possuía assombrosas disposições para fazer a canivete, com pontas de bambu, pedaços de carretel e palhetas de mica, umas canetas de formas caprichosas, pintadas a urucu e pó de sapateiro, de um amarelo terroso listrado de preto. Dava-lhes ainda outros matizes com sucos de frutinhas silvestres. As canetas amontoavam-se aos molhos nas prateleiras da venda, e ali ficavam eternamente, visível mostra do desequilíbrio entre a oferta e a procura da mercadoria. Os pedaços de carretel serviam para tirar sortes: a gente

rodava-os, e, ao parar, um certo pique apontava no eixo uma letra ou uma frase que respondia à pergunta formulada a esse oráculo de nova espécie. Nos intervalos dessa fabricação, mergulhava-se em suas leituras prediletas, entre elas um tratado de mesmerismo nunca assaz manuseado, outro de física, e qualquer coisa de Allan Kardec, o que tudo, agindo separada e conjuntamente, era para estremecer-lhe a fraca razão. Gostava das conversações científicas, não admitindo que se perdesse tempo em prosas de nonada; e, debatendo sua especialidade, sabia encantoar o interlocutor desprevenido em questões profundíssimas, insondáveis, que explicavam a desusada proeminência de suas bossas frontais. Para isso tinha um jeito especial, uma certa manha em concatenar perguntinhas capciosas, na aparência inofensivas, que insensivelmente iam guindando a gente ao pináculo de altos problemas transcendentes. Estas questões constituíram o nobre emprego de sua vida. Na época em que todo o mundo se casa, ele esqueceu o matrimônio, todo embebido em resolver o problema do infinito do tempo e do espaço. Onde começa o mundo? Onde acaba? Seria o espaço o conteúdo de uma imensa bola de vidro? E para além desse vidro? Outras bolas? Quando começara o tempo? Se desde o princípio até hoje decorrera o infinito, como poderíamos chegar até o hoje se de hoje ao fim há o mesmo tempo infinito e nunca chegaremos ao fim? E com a atenção aguda aplicada a estes altos problemas, não vira a mocidade que fugia, nem as roceirinhas casadeiras que o rodeavam, atraídas pelas culturas paternas. Só agora, depois que lhe demonstrei por uma série de finas induções e deduções que a conservação da espécie é um dever moral, porque a ciência não pode morrer, e porque se todo o mundo pensasse como ele a humanidade se extinguiria e a ciência com ela; e, como a única forma legitimadora da reprodução é o conjugo vobis, concluía-se que, etc. Américo convenceu-se; e depois ficou, além de convencido, altamente estimulado, quando lhe contei, com ar misterioso, existir uma viúva moça e rica, que só esperava, para aparecer-lhe, acabar de assimilar umas tinturas de magnetismo e eletricidade, com uns

toques de Kardec, para não ser uma esposa vulgar e incapaz de sustentar uma conversação instrutiva com seu científico marido. Américo fora toda a vida o orgulho da família, o seu grande homem; e todos lastimavam que não houvesse seguido uma carreira superior. Desde criança revelara inclinações destoantes do seu meio. Em pequenito, enquanto os outros fedelhos andavam a correr pastos e pegar animais, ou brincavam de “tempo-será”, ele deixava-se ficar espichado, de queixo no chão, a passar figuras do Manual de criador de galinhas. — Era um amor pelos livros! — dizia siá Marciana ao marido, indo buscá-lo para vir de mansinho apreciar o sério aplicado do pirralho. E os dois ficavam a cocá-lo com o olhar repassado de comoção. E faziam planos: seria isto, seria aquilo. Mais tarde, nos tempos de estudante, firmou-se a vocação. Tinha uma memória para guardar as coisas! Depois que o mestre o deu como preparado, e que pediu, aflito, que não lhe mandassem mais o “Merquinho” (bons quinaus lhe pregara o pequeno!) este continuou a ser, só consigo, bom estudante. Conservara sempre, e sempre manuseada, a sua biblioteca de aluno, recapitulando, no intervalo de mais altas cogitações, a matéria aprendida, com uma sede de conservar que era quase avareza; e a conservara com tal aferro, que inda agora, que dobrava os quarenta anos, tinha fresquinha na memória a exótica onomástica das ilhas da Oceania e dos vulcões do México; sabia de cor todas as definições da Gramática da infância, e traduzia correntemente os exercícios do Sevène. Se não encorpou esse cabedal, também não desaprendeu o sabido. Às vezes pedia-me que abrisse ao acaso um de seus livros escolares e lesse a primeira linha. Eu o fazia. E Américo tomava-me logo o fio da frase, e desembestava por ali abaixo sem uma hesitação; a matéria saía-lhe fluente, corredia, sabidinha e em um nunca-acabar. Depois de sair do colégio, nem tentaram os pais metê-lo na lavoura: ele revelara uma aversão profunda por tudo o que não fosse ciência pura e por isso também não aprendera ofício, nem ocupara empregos; vivia na fazenda à espera de uma oportunidade para continuar os estudos fora, numa grande capital; mas o amor materno,

hesitações sobre a carreira a seguir, o apego à fazenda, e, principalmente, um não sei quê muito imperioso e que nunca souberam o que fosse, não os deixavam encontrar uma oportunidade bastante oportuna para a execução de seus mimosos planos. E assim foi ficando e amadurecendo em anos meu bom e estudioso amigo. — O Américo não é como qualquer um, ele tem qualquer coisa aqui — dizia ainda o pai, dando pancadinhas na cabeça. — Ele é porque nunca saiu da roça, senão poderia ser hoje médico, advogado... ou... ou mesmo professor (era uma escala ascendente). E, se bem que melancolizados com o estéril fugir dos anos, os velhos ainda esperavam que o filho, mais tarde, atingisse uma daquelas sumidades. Chegados a seu quarto, Américo fez-me sentar à beira da cama, para o misterioso colóquio. Em frente, sobre uma mesa, estava um armarinho. Em suas prateleiras via-se um caos de frutinhas secas, papéis amarelos, cascalhos de cor e forma esquisita, volumes desconjuntados, com folhas espessas e de bordos revirados, pelo aplicado manuseio em tantos lustros. À margem daquela mesa um velho Delamarche aberto exibia um mapa das constelações. Induzi que Américo andava virado para a astronomia. — Senhor doutor — começou —, desculpe ter-lhe pedido este particular; mas, o senhor compreende, há assuntos de interesse, que não convém debater levianamente. — De que se trata? — inquiri. Sem responder, Américo concentrou-se, firmando dois dedos da mão esquerda nas arcadas superciliares. Passados instantes, perguntou-me: — Acredita na pluralidade dos mundos habitados? — Acredito. — E... será gente pacífica, a que habita os outros planetas? — Conforme o grau de seu adiantamento. De novo a fronte pendeu-lhe sobre o polegar e o índex e Américo submergiu-se no subjetivo. Esperando a continuação eu examinava-lhe as bossas, comparando-lhes as dimensões respectivas

e conjecturando: esta, a mais chata, era a do magnetismo; outra, a mais pontuda, a das especulações filosóficas; aquela, sobre cujo cimo lustroso uma mosca deambulava em idas e vindas, era a do espiritismo; a outra... — Porque o meu receio — continuou Américo enxotando a mosca — é que o cientista do futuro, que primeiro realizar a comunicação interplanetária, seja recebido num meio hostil, que o faça prisioneiro das alturas; e, semelhante desterro, como prêmio da arrojada tentativa, seria incomparável desdita. Concordei que seria uma ocorrência lastimável; não acreditava, porém, que quem quer que fosse, em dias vindouros, chegasse a correr tal risco. As excursões intermundiais nunca seriam praticáveis. — Como não! E o progresso da ciência, senhor doutor! — protestou Américo. — Mas não crê que noutros astros, mais velhos que o nosso, esteja a ciência infinitamente mais adiantada? — Sim... — Pois bem, se fosse possível semelhante viação, já nos teria visitado algum habitante dessas regiões privilegiadas. — Ora essa! E eu que ainda não o havia pensado! — pasmou Américo. E, transparecendo-lhe da fisionomia o alívio de uma preocupação incomodativa, removida por aquele argumento, tomou-me a mão, asseverando com calor: — Uma palestra com o senhor vale contos de réis! Protestei modestamente; Américo insistiu que valia; teimei que não, ele que sim, e não cessaria a disputa se não ouvíssemos a voz alegre de siá Marciana, avisando: — O café está na mesa! Não o deixem esfriar!

Vida Ociosa

Sinopse

Leia gratuitamente Vida Ociosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos e a obra A Filha removidos do corpo principal, organizada pelos subtítulos internos reais para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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