Universo da obra
Universo da obra
Esvaziado o canecão, levantei-me, o que significava uma ordem para que cada um se desse às suas ocupações habituais; era já combinação nossa, imposta por mim, para que não perdessem o dia rodeando-me, esquecidos de tudo. Próspero foi ver se ainda salvava alguns palmos de malha das redes rompidas pelos jacarés; siá Marciana dirigiu-se à cozinha, provocando, no caminho, a palra do velho papagaio, acabado de velhice, que passava o dia a cochilar na placa da varanda; quanto a Américo, ficou comigo. Aproveitei o momento para passar-lhe um pacotinho de pratas, espécie de dádiva tira-remorsos, com que concorria, sem ciência dos velhos, para o custeio da casa, a fim de reparar o rombo que davam minhas visitas à caixa comum; este dinheiro aparecia como renda do negócio malsortido. Américo, meio distraído, e lançando um olhar vago para fora, enfiou o rolete no bolso. Estava agitado, cogitabundo; por fim voltou-se para meu lado e disse: — Não sei se o José virá hoje; se o doutor permite, vou à casa dele saber. — Pois não! Américo calcou até às orelhas um chapéu abudo, tomou um bengalão que figurava uma cobra enroscada num tronco — obra-prima de seu canivete — e dirigiu-se para a cancela, que fechou sobre si. José era um aluno, ou melhor, o aluno. Porque Américo ensinava. O quê, não sei. Por um certo pudor, se eu me avizinhava quando estava lecionando, ele parava, e por nada no mundo continuaria à
minha vista, como quem se considera muito humilde para tão nobre empresa. A verdade é que no cômodo de negócio, lugar das aulas, eu via à hora da lição profusas bolas de tabatinga, de vários tamanhos, que representavam, talvez, os planetas conhecidos — o que me fazia temer pelo miolo do seu catecúmeno. Embora admitido grátis, era o José tratado com todas as considerações. Américo trazia-o nas palminhas, como um bem mui valioso que é necessário conservar. Se caía doente, velava-lhe à cabeceira, em aflições maternais; queria-o consigo às refeições, como pensionista semi-interno; e cedo eram inquietações de cada momento: o negrinho viria? não viria? (José era da cor da noite.) Comigo mesmo batizei o discípulo amado: “o hóspede do Grande Hotel”. A história da alcunha dava pano para longa novela, cômico-sentimental. Em poucas linhas passo a tracejá-la: O Sr. Almeida vegetou trinta anos numas bibocas infrequentadas do sul de Minas. Assim vegetara seu pai, seu avô, seu bisavô, e assim vegetariam mais tarde os filhos, se os tivesse; mas era apenas pai de nove filhas casadeiras, as mais velhas bem passadinhas e, as mais moças, umas passando e outras no viço e frescor dos melhores anos. Naquele desterro onde vivalma não estanciava, que valia, porém, a graça, o viço, o desabrolhar de tantas louçainhas? Ai das nove filhas solteiras! Ai dos ricos encantos que se fanavam na solidão! Feiticeiros sorrisos, voluntariedades feminis, fanfreluches cheios de encanto, momos caprichosos, tudo que faz da mulher um entezinho apetecível, estavam ali como certas flores agrestes amoitadas no ermo e que esterilmente perfumam o ar com suas delicadas caçoilas aromais, sem um olfato que as aspire, nem olhos extasiados a quem maravilhem. As nove flores agrestes do Sr. Almeida tinham-se apenas, umas às outras, como espectadoras invariáveis de tanto encanto esperdiçado na solidão, e sabe Deus se se contentavam com tão pouco! A melancolia daquele destino infecundo azedava-lhes o gênio, ao ponto de passarem os dias a unharem-se umas às outras. E o Sr. Almeida, por fim, coçava a barba, pensativo. Gostava de passar os dias pitando seu cigarrão de palha, um toco babujado que lhe filtrava doce quietude à alma, de envolta com a fumarada, acocorado perto de uma bacia com brasas, a ralhar com os crioulinhos e a gritar com as nove; compreendia agora, porém, que sua
vida não podia cifrar-se naquilo. Esta ideia embutiu-se com tanto aferro no seu cérebro, que um dia resolveu quebrar as tradições da família, tomando uma grande resolução. O proprietário de um grande hotel, numa vila de águas, desejava pôr lavoura; o Sr. Almeida deu o que tinha pelo hotel e freguesia, e despediu-se definitivamente do ermo agrícola. Não vira solução mais acertada para seu caso melindroso. Pois um hotel, em tal ponto, é frequentado pelo escol da sociedade carioca e paulista, e ali, pondo à vista dos pensionistas as nove virtudes guerreiras enrijadas na vida da roça, não lhe seria difícil achar bons partidos matrimoniais. E lá se foram. Infelizmente, porém, o Grande Hotel andava desconceituado. O dono alienara-o para livrar-se do alcaide. Tinha o prédio corredores imensos, quartos sem-conta, refeitórios amplos, era todo largueza e amplidão, mas não apareciam veranistas que lhe viessem despertar o silêncio claustral, animando aqueles corredores, longos e vazios como artérias cortadas, com um pouco de sangue corrente de gente viva. Mais cogitativo que nunca, e a recoçar o queixo, o Sr. Almeida resolveu instalar a um canto um fogareiro, para sentir acalentar-lhe a melancólica desilusão um pouco de borralho, a cuja beira passava as horas intermináveis a cuspir o sarro do toco. Um dia, não se sabe como, surgiu lá o primeiro hóspede, homem dos seus quarenta. Foi um rebuliço na casa. O Sr. Almeida gaguejava e atarantava-se, e as nove musas, passadinhas ou não, ficaram num alvoroço de aleluias em tarde estiva, a trançar estonteadamente pela casa, numa boa vontade de servir e agradar, que era para pôr um homem rendido. O Sr. Garcia (este o nome do hóspede) não podia queixar-se de mau tratamento. Verdade que preferiria menos rebuliço e vaivém, pois, muito neurastênico, fora para calma dos nervos irritadiços que escolhera aquele hotel desfrequentado. Só encontrava um pouco de bem-estar no ambiente sedativo dos lugares ermos, na convivência consigo mesmo em infindáveis meditações, em que o ondeante mover do pensamento parece fazer-se fora do tempo e do espaço, e o espírito flutua, frouxamente, como uma penumbra de crepúsculo em nave abandonada. Com a sua chegada ao Grande Hotel, fez-se ali, na sua paz morta e atmosfera de estupor, a vida que ele evitava. O toco
do Sr. Almeida lá ficou a tostar-se nas brasas esquecidas; com a obrigação de dar prosa, não descolava do homem, interessando-se pela sua saúde e família e contando-lhe reminiscências da lavoura. O Sr. Garcia era delicado, e conversava. Se o hóspede queria água, o Sr. Almeida berrava para os fundos: “Água para o Sr. Garcia!”. A casa toda agitava-se, havia correrias, balbúrdia, rumor de lutas, trinclidos de copos, gritos como eco: “Água para o Sr. Garcia!”. E era um bater de portas, um alagar de torneiras, até que enfim, quando o Sr. Almeida berrava pela décima vez a reclamar a água, aparecia uma das nove musas, com um copo orvalhado numa salva, corada e pudica, e a fazer com os lábios uns trejeitinhos graciosos, que eram para bulir tentadoramente com um coração menos amante do ermo, como o do nevropático pensionista. O Sr. Garcia ali viveu, adorado, benquerido, adivinhado, amimado, por espaço de algumas semanas; mas a situação tornava-se insustentável; com receio de levantar celeuma, ele procurava conter até as mais urgentes necessidades corporais. Chegava a passar fome e sede. Um dia, por fim, com o mal incuravelmente agravado, e com a obsessão das mais tétricas ideias, saiu do hotel sub-repticiamente, deixando a conta paga e sumiu para sempre.
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