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Capítulo 11 · Vida Ociosa

Uma história de caçadas

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— Conte-me uma história de caça, Sr. Próspero. Ultimado o conserto das redes, viera o velho sentar-se ao pé de mim. Sentei-me também; e, ainda estrouvinhado do longo cochilo, observava, um tanto abstraído do lugar e da hora, no alto de um portal negro, pequeninos túneis de barro estendidos lado a lado, povoado rústico acrescentado cada dia pela faina construtora dos maribondos. Saindo de seu profundo torpor, o velho papagaio dignou-se abrir um olho vidrento, com que nos inspecionou um instante; em seguida remergulhou na sua imobilidade de ave empalhada. O Sr. Próspero pigarreou, sorriu, ajeitou-se e começou a história reclamada. Era um velho episódio, num tanto desairoso para seus foros de caçador feliz. Combinaram uma vez, ele e o Capitão Domiciano, passar a noite num barreiro, à espera de caça. Não sabia eu que era um “barreiro”? Ia explicar-me. Nas nascentes de certos córregos, há, nalgumas grotas, uma espécie de lama salitrada, que os animais gostam de lamber. A terra aí lagrimeja continuamente escassa umidade. Durante o dia e a noite reveza-se nesse lugar toda a sorte de caça. É o ponto de encontro das espécies mais desirmanadas, e algumas ali vão mais à cata de pábulo vivo, que atraídas pelo salgado marejamento do solo. De dia são os animais menos espantadiços e as aves de grande porte, até jacutingas: à noite é a assembleia transida das pacas e capivaras ariscas, cutias, cachorros-do-mato, que não raro são surpresos pelos temerosos povoadores da mata virgem: antas, onças, queixadas. Calcado por todo o feitio de patas,

o terreno é limpo em certo raio; e, pela ação erosiva de milhares de bicos e línguas, vai-se solapando em roda. Não há melhor posto para um caçador, que uma das árvores do circuito. É preciso, porém, que seja homem de coragem e use certas prevenções. Ora, para isso, era ótimo companheiro o Capitão Domiciano, pois mais de uma vez haviam-se arriscado em sombrias tocas de feras e acampado semanas em serras bravas, à caça de macucos. Durante o dia foram ao ponto escolhido, para os preparativos necessários. Procuraram uma árvore apropriada para construção dum estaleiro, e que não fosse oblíqua, nem muito grossa, que as onças grimpam de melhor grado nos troncos hartos lançados de viés. Feita a escolha, dois escravos, Adão e Pai Tomás, arranjaram o ponto de pouso. — Sabe que é um estaleiro ou jirau? É uma espécie de prateleira de paus encruzados, armada numa árvore. Estiva-se bem estivado, fazendo-se como um assoalho e dos lados levantam-se parapeitos. Fazem-se para uma e duas pessoas. Aí até pode-se dormir. Finalizando os escravos o serviço, fomos para a fazenda, a tratar dos últimos aprestos. Preparamos matalotagem, verificamos o bom estado e limpeza das armas, entrouxamos cobertas que nos defendessem do frio e nesses arranjos esperávamos a tardinha para partir. Precisa-se ir com dia e estar-se disposto a passar a noite no jirau, porque é perigoso arriscar-se a gente com o escuro em lugar rondado por tão perigosas feras. Depois do jantar chegou à fazenda, muito açodado, o Vigilato, nosso parente longe. “Soube que vão ao barreiro?”, perguntou. Respondemos que sim. “Pois vim para caçar com vocês.” “Impossível! o jirau dá apenas para dois. Se avisasse mais cedo...” “Não seja essa a dúvida! arranjar-me-ei de qualquer modo.” Pensei que fosse gracejo, porque era de gênio brincalhão e pouco dado a aventuras. Mas teimou que ia, que ia... Já vinha armado e pronto para o pernoite. “Pois então, Vigilato, faça o que quiser. Depois não se arrependa!” E, à tardinha, partimos os três, rumo ao barreiro... Aqui o Sr. Próspero tocou-me o braço: — Veja, Dr. Félix, a atenção do louro... Está-se recordando dos tempos antigos...

De feito, o papagaio, com os olhinhos agora vivos e brilhantes, desperto do seu sono de velhice, escutava com imensa atenção. — São do seu tempo, meu louro, o Vigilato, o Capitão Domiciano, o Pai Adão... E o velho prosseguiu na narrativa. Foram, pois, rumo da grota. Chegados aí, Próspero e o capitão subiram, a experimentar o estaleiro. Pareceu-lhes pouco sólido e nele cabiam estritamente duas pessoas. — Pois, Vigilato, arranje-se como puder, que não sobeja espaço para você. O rapaz tomou em riso a dificuldade. Se ainda estava dia... — Vou fazer uma estiva melhor que a sua — disse. Numa árvore perto atravessou uns paus pelas forquilhas dos galhos, amarrou e encruzilhou em tudo sólido cipó e pôs-se à turca sobre a armação, gracejando: — Daqui farei mais proezas que vocês, porque não há parapeito a estorvar-me. E pilheriava, contava casos, atirava remoques aos companheiros. Quando o negrume da noite deu de adensar aos poucos, o caso mudou de figura. Vigilato foi-se pondo mudo e de olhos arregalados. — C’os diabos! — rosnou entredentes. — Não avisei a Maricota, que pode estar inquieta... Devassou num relance o caminho a desandar; mas seguir um carreiro mal-amassado, por brenhas inóspitas, e àquela hora, e só... — Vamos adiar a espera para outra noite? — perguntou em voz incerta. Os companheiros, quietos. — Que diabo! Não respondem? — Pouco barulho — ciciou Próspero; — é tarde para lembrar-se da Maricota. Se tem medo, trocamos de lugar. — Medo, eu?! E tentou, para mostrar isenção, cochichar novas facécias, que lhe saíram miseravelmente sem sal. Os ouvintes, também, não lhe encorajavam a loquela, pois para o bom caçador é grave

pecado quebrar o silêncio solene da espera. E os bichos não iam tardar. Fechou-se de todo a noite. Do barreiro subiam sons misteriosos, bruscas correrias, estranho amarfanhar de folhagens, guinchos abafados, longos silêncios expectantes... Em forçada inação passam algumas horas. Felizmente a lua eleva-se e na clareira esmoitada espalha-se um difuso albor. Já se pode caçar. E, olhos à espreita, ouvidos fitos na calada da selva, ao menor rumorejo suspeito comprimem com o polegar o gatilho das armas, prontos para aperrá-las. Raras formas assustadiças sombreavam o chão numa carreira, fazendo, pequeninas que eram, largo rumor. Um focinho minúsculo trabalhava o barranco, na faina de lamber. Nada que valesse uma carga de chumbo e o alarme de uma detonação. Vigilato pôs-se a trautear entre dentes uma modinha, afetando desassombro. O focinhito riscou o chão de negro, numa fuga rápida. — Pst! — recomendaram os companheiros ao cantador importuno. Fez-se outra vez o silêncio... e, no silêncio, muito longe, rouquejou um urro sinistro. — Nunca ouviu urrar uma onça, Dr. Félix? É uma coisa bonita. É um miado forte, mas um tanto engasgado, como o dos gatos em sanha. Quando ela urra, parece que tudo se confrange de medo e até a mata fica mais quieta. No instante do uivo entreviu-se no barreiro um confuso debandar de formas antes invisíveis. Um trepidar seco vinha do estaladeiro do Vigilato. Ele tremia e os paus nos seus pés tremiam com ele. — A bicha aí vem — murmurou o capitão. Passou-se um espaço de calada absoluta. No céu sem brisa imobilizaram-se as ramas das árvores, negras e como petrificadas. Apenas longe em longe um lufo manso corria um frêmito pelas franças sombrias. E aquilo prolongava-se, sem termo... “Má noite!”, pensavam os caçadores. Mas um segundo indício, bem próximo, preveniu-os de algo sensacional. Ouviram um taque-taque característico.

— É pintada — avisou Próspero. — Essa qualidade de onça tem o “sotaque” de estralar com as orelhas. Armas engatilhadas e silêncio. Vamos atirar todos juntos. Segurem o ponto e esperem o sinal. Do negrume da brenha surge uma grande massa animada que avança lenta e ondulante. É um felino. Ao sair da orla de sombra, bate-lhe em cheio o luar. Tem o pelo mosqueado de negro e ouro. Na pausa solene dos quadris a deslocarem-se na marcha, há a segurança da força. Ondulante e lenta atravessa o barreiro, em direitura da árvore onde se acham os dois... Detém-se em baixo, como buscando sonegar-se-lhe à sombra, à espera, também. Preparam o ponto, cautelosamente. Os dentes de Vigilato estralejam, entrebatendo-se. — Pst! — faz Próspero, a pedir-lhe silêncio. Com o “pst” a onça olha para cima. Domiciano assusta-se e um seu movimento instintivo falseia um pau do estaleiro, e o estaleiro, mais os dois caçadores, desabam fragorosamente sobre a onça... A fera, surpreendida, atira-se, de salto, para a árvore onde está Vigilato. Vigilato despenha-se, num berro... — Ah, senhor doutor, nem posso contar-lhe todas as peripécias dessa noite! Caímos de muito alto — ficamos machucados, uma espingarda quebrou-se e as outras ficaram sob os escombros... E, tropeçando no escuro, aos tombos, aflitos, a olhar para trás, fugimos correndo quanto podíamos, quase sem rumo, extraviados na escuridão da mata. Felizmente não fomos perseguidos. Então, recobrando alento, pudemos gemer as nossas contusões, e, acendendo pedaços de taquara e palha de pinheiro, conseguimos achar o caminho da fazenda. E Próspero ria, da velha recordação. Siá Marciana, da cozinha, fez coro com ele. Eu ajudei-os. E, esperto na sua placa, revivendo também antiquíssimas memórias, na ilusão de um retrocesso aos bons tempos, o papagaio quebrou sua obstinada mudez, clamando em falsete estridente: — Capitão Domiciano! Vigilato! Pai Tomás!

Vida Ociosa

Sinopse

Leia gratuitamente Vida Ociosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos e a obra A Filha removidos do corpo principal, organizada pelos subtítulos internos reais para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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