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Vida Ociosa

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Capítulo 12 · Vida Ociosa

No barreiro

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Num barreiro — continuou Próspero, a quem escutávamos atentos eu e o papagaio — onde se reúnem espécies tão várias, dão-se às vezes interessantes episódios. Era testemunha, não de vista, mas de ouvida, de uma pendência entre uma onça e um bando de queixadas. Os queixadas, acrescentou, não são os únicos animais que podem enfrentar o nosso jaguar; a anta defende-se dele perfeitamente, graças à sua rija couraça nativa. E sua arma de ataque é o arremesso da fuga. Nunca assistira eu à corrida de uma anta? Era espetáculo empolgante. Quando foge acossada pelo inimigo, tem o ímpeto de um obus; rompe desencabrestadamente em linha direita, varando, esmagando, sem encontrar obstáculo. É uma avalanche que despenha. E não há enrediça de touça ou tranqueira engrazada que ela, irresistível, não force. Malgrado a couraça encorreada, é atacada às vezes. A onça, num pulo, toma-lhe de assalto o cogote, onde se encarapita; e aí, aderida como emplastro vivo, forceja por estroncar-lhe o cachaço. Contaram-lhe de uma que, levando uma fera assim às cavaleiras, embarafustou mato adentro em rompente arremesso, que o peso suplementar não moderava, aprofundando um túnel no intricado da selva. Guiada pelo instinto, atira-se de raspão sob o primeiro madeiro deitado de través... Com o crânio estalado, a onça desmonta bruscamente, aquém do obstáculo, onde fica escabujando, no ralo último. Podia não ser verdade, mas era verossímil.

Atestava, porém, a veracidade do que passava a narrar. “Palavra de caçador, Dr. Félix!” Desta vez era seu companheiro um vizinho, bom sujeito, o Prudêncio. Estavam empoleirados num jirau. Noite negra e silêncio grande. Um rastilho prateado, no horizonte, anuncia a lua. Já as ramas mais altas se meneiam alvacentas sobre o bojo atro da clareira. Podem dormir, ainda é cedo para caçar, pois o luar tardará a banhar o barreiro emparedado pela grande mata, num profundo entresseio de serras. E, no estaleiro cômodo, dispõem-se a fazer cama... Súbito a atenção aviva-se-lhes. Ouvem um rumor longínquo, um vago crepitar que se torna cada vez mais nítido. Por fim é um vasto estrépito que se avizinha, tomando monte e vale, em convergência para um só ponto — o barreiro. À chegada, o rumor sinistro torna-se o formidável estralejar das presas de um cento de queixadas. De mistura soam roncos, grunhidos, acachoado farfalhar de folhagens destroçadas. E o terreno apisoado pela horda invasora é fossado e furiosamente revolvido, arado pelo cento de focinhos, que ávidos se cevam na salobra infiltração do solo. No entanto, os caçadores nada veem. A treva homogênea, compacta, espessa como piche, enche o âmbito da clareira. A vida ali é apenas o confuso rumor da bandeira invasora — um grulhar múltiplo e um amortecido estrincar de presas. Aquela vida misteriosa no negror da noite, coa-lhes pelos nervos arrepios de pavor. Arriscar passos, àquela hora, sob as soturnas abóbadas da mata, seria buscar o perigo. Em cada ponto das pesadas trevas pode haver uma emboscada. A elasticidade do salto está pronta para o bote, as orelhas aplicam-se adivinhando a presa, as úngulas crispam-se nervosas no antegosto da posse... Mesmo protegidos pela altura, os caçadores estão emocionados e trementes. Oh, a forte sensação, eternamente renovada, da montaria às feras! Embaixo, a bulha amortece. É agora um resfolegar exasperado de focinhos lavrando a terra mole, num grande raio. Improviso, celeuma terrível. Entrebatem-se as presas entre roncos ferozes, bufos

assanhados e confuso revolvimento da horda. Era uma onda infernal a investir contra um ponto e a recuar, como rolos encapelados abalroando um rochedo e refugindo com fragor. E a misteriosa investida arrancava para um mesmo ponto, sempre o mesmo... Para os caçadores só havia em baixo a homogeneidade do negrume; nem chispas, fosforescências, ou pálido delinear de contornos: a treva unida, igual. — Sabe que significa este rebate? — perguntou Próspero a Prudêncio. — Não. — É um inimigo. Os queixadas defendem-se. — De quê? — Escute, escute! Não tardou partiu de baixo um rugido fortíssimo, prolongado, que dominou a alarida dos porcos, enchendo a mata e a noite com um reboo de trovão; e embuzinado pelo vale, desconforme trompa, o rebramar da fera foi despertar até longe os ecos adormecidos dos rincões selváticos. Aos caçadores, azoinaram-lhes os ouvidos. — É onça! — exclamou abafadamente Prudêncio. — Atire! — Atirar como! — objetou Próspero. — Nada vejo! Mas sossegue, que, ocupada a caçar os queixadas, não dará pela nossa presença. Com o urro espalhou-se o pânico no bando dos suínos, seguindo-se precipitada bulha de numerosa abalada. E, entre bufos, guinchos, matraquear de dentes e um farfalhar encachoeirado, a esparramada turba desgalgou pelo vale, tornando-se prestes uma crepitação longínqua. E então, já remoto, um segundo urro ecoou no silêncio e na treva. O inimigo também distanciava-se, na esteira da preia recalcitrante. Esse incidente foi um azar. Subiu serena a lua, dealbando as entranhas do vale, um luar tão claro, que se desenhava no barreiro a sombra carregada do menor caule de erva. Era uma riqueza de minúcias no chão calcado e aberto, que mais claramente mostrava a falta de caça. Nem uma paca, nem um rato montês!

Pela madrugada desceram, com as cargas inexplodidas nos canos das armas. Viram em cada palmo do solo os vestígios da passagem do bando; e, num grosso tronco, para onde se concentrara a investida da bandeira, a casca, nalguns lugares escodeada de fresco e agatanhada de garras, mostrava a cautela da onça, em frente dos queixadas, não se aventurando ao duvidoso desenlace de uma luta rosto a rosto com a desaçaimada horda estrepitosa.

Vida Ociosa

Sinopse

Leia gratuitamente Vida Ociosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos e a obra A Filha removidos do corpo principal, organizada pelos subtítulos internos reais para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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