Universo da obra
Universo da obra
Faltava carne para o jantar; por isso, depois do café da uma hora, meus amigos piraquaras aprestaram-se para a ida à beira-rio. Estava pronto o samburá com os roletes de angu, debulhos de frango e milho para rapar na ceva, como chamariz. Convidaram-me para participar da pescaria. — Outro dia... — respondi. — Venho com tenções de pescar, e no entanto não me encorajo a arrostar sol e ladeira para satisfazer meu desejo. E a vida assim é que me parece razoável: um perpétuo aspirar, sem realizações. — Tem graça, Dr. Félix! — aparteou siá Marciana. — Acha mesmo que o melhor da festa é a espera? — Sou assim, na verdade, e entendo que é o mais lógico meio de evitar desilusões. É a causa de ainda estar solteiro. Não quero dizer que condene o amor... Perpassou-me aos olhos da memória a estampa do tal ex-futuro cunhado, de marreta engatilhada: “Ou casar, ou...”. O desastrado espaventara-me uma vez por todas do casamento, com grande consternação das amáveis pretendentes a sogras, pululante espécie que vive a tecer redes de agrados para que se lhes carreiem as filhas do lar. — Por exemplo: essa mata da outra margem, que não é como esta margem praguejada de caatingas e pastos, exerce sobre mim verdadeira fascinação. De contemplá-la a distância embriago-me, perturbo-me, imprecando os fados que me fizeram nascer civilizado e homem. A verdadeira vida é a da floresta, com os seus mistérios,
emboscadas, emanações de húmus milenário e florações ridentíssimas. Seu silêncio há de segredar-nos coisas nunca ouvidas, que valem os livros de todos os poetas e filósofos. Porque a sabedoria nativa e a poesia humana estão nessas vozes ciciantes das brenhas, no exalar mistérios do seu chão balofo e de seus troncos penugentos... Eu desejaria ser índio, ou fera, ou o que quer que seja que respira e sente, vivendo entre os jequitibás centenários, a conversar o ermo, deus familiar sempre presente onde haja uma árvore frondejante ataviada de bromélias e entrelaçada de lianas. Viver a floresta, entrever-lhe a alma bruta! Mas... lá não vou. É simples porquê. A desejá-la me inebrio; possuindo-a, ver-me-ia azoinado de pernilongos, ferretoado de outros insetos, de sorte que o tempo da visita iria em esborrachar essas pequeninas pestes. Além disso, as orquídeas não me pareceriam bem florescidas, nem os cipós bem tramados, nem os jequitibás bem anchos, nem o perigo bem real. Não sei se estarei a plagiar um romancista querido... Mas a verdade é que suas onças e queixadas já se estão fazendo lendárias, Sr. Próspero, mais as suas encorreadas antas. Já repararam que tudo que nos contam de bom e digno de ser visto, ou fica para muito longe ou se passou há muito tempo? Esses escritores que nos impingem suas maravilhas... Se fossem descrever uma pesca, mostrar-nos-iam dourados espadanejantes, a abrir n’água remoinhos espumosos, reagindo à tração da corda. Obrigassem-nos, porém, a tomar do anzol para provar com feitos a parolagem, garanto que somente ajuntariam numa farpa de capim meia dúzia de pratinhas anêmicos, do porte de um dedo minguinho. De pé quedo, e sorrindo, ouviram os velhos o estirado discurso. — Decerto que o peixe não vem quando se quer — disse Próspero —, mas há dias felizes, e então o extraordinário visita-nos. — Diga-me: já viu peixes subir cachoeira, aos milhares, aos milhões? — Falaram-me nisso — respondi, cético. — Pois, quando as águas crescerem mais um pouco, vou obrigá-lo a dar um passeio a umas três léguas daqui, para presenciar um pouco de maravilhoso.
— Três léguas! — exclamei horrorizado. — É como disse: ou fica muito longe ou foi há muito tempo... — Há de ir longe uma vez na vida. Estamos combinados? Encarrego-me da condução. Resolvi molemente que sim, que iria. Mal sabia — incauto que fui! — o terrível compromisso que acabava de asselar. E, varas ao ombro, e armados de “coador”, “desabusa” de desenroscar anzóis, samburá de iscas e demais utensis indispensáveis, lá se foram os dois velhos, rumo ao rio. Ficando só, revolveram-se-me na memória as últimas narrativas de caçadas. E, esperta pelo longo repouso, com sugestivo pábulo, teceu minha imaginação uma série de romances heroicos em que eu era o personagem principal. Em poucos minutos abati um casal de suçuaranas e uma bandeira de quinhentos queixadas, a tiro e à faca. Saí com um ligeiro arranhão na perna e uma das mangas do paletó ligeiramente rasgada — coisa que com dois pontos e um pouco de arnica tinha conserto. Os despojos, carregados por uma caravana de burros, puseram queixicaídos meus jurisdicionados. Tinto de sangue como um magarefe, ia eu à frente do comboio triunfal. Das janelas espiavam todas as caras de minha implicância: o advogado dos “provará” esmiuçadores, o impulsivo, o meirinho cacete, um negociante que me não fiava, outro que me cobrava atrevidamente, todos corridíssimos de sua inferioridade. Esgotadas essas sensações de triunfo, meti-me em empresas de pesca. Apanhei num dia quinze dúzias de lambaris, seguidas de treze dourados, um jaú e, por fim, um peixe-fenômeno que ia saindo, sem fim, da água. Eu a recuar morro acima e o monstro a deitar rabo: trinta metros, cinquenta, cem... A este ponto escandalizou - -me o exagero do romance e deixei, ainda com farta rabada n’água, o mirífico peixe, capaz de embuchar uma geração de Jonas. No entanto, sem temer aquele homem terrível sentado na arca, a esfregadeira gata de siá Marciana, já esquecida e confiada, fazia evoluções pela sala, a negacear um pinto piador extraviado da mãe. Eu olhava-a com uma certa amizade, com a afeição tolerante e um
tanto paternal dos poderosos e temidos, pela vítima inerme que já lhes sofreu o peso da cólera. Começava até a simpatizar com aquela figurinha de felino a fingir de onça. Na graça elástica do andar, no harmonioso de todos os seus movimentos, havia o garbo clássico das grandes espécies, o que lhe dava, por parentesco remoto, uma certa nobreza. Como se as pernas das cadeiras figurassem reboleiras soturnas, encolhia-se entre elas a preparar o salto; e, pé suspenso, acompanhava depois ocultamente os vaivéns do extraviado, simulando, mais adiante, outro bote traiçoeiro. Por fim a piadeira desolada do pinto perdido enervou-me; ouvindo palavras de despedida no cômodo de negócio, para lá encaminhei-me, a assistir à partida do Discípulo, que era despachado mais cedo, em virtude do acontecimento extraordinário de minha visita. De caminho um mio lancinante: pisara o rabo da oncinha. — Fez fiasco, senhora gata! Suas altas parentas têm mais cuidado com o nobre apêndice... A espécie degenerou, não há que ver. Segurando a alça dos livros cuidadosamente empilhados, o pretinho partia, com uma caneta, de prêmio, no bolso. — Amanhã bem cedo, não se esqueça, José! — recomendou-lhe Américo. — Temos muito que recapitular. — Sim, sô Merco. Da porta o professor olhava-o afastar-se; e, revendo-lhe a linha de discípulo impecável, saboreava-se em sua obra. A certa distância José agachou-se e encheu os bolsos de pedras. — Que é lá isso?! — bradou Américo, alarmado, saindo a apurar o caso. Não se julgando observado, o negrinho sobressaltou-se; e, fazendo torcidas da aba do paletó, explicou, com vexame: — É que, o senhor sabe, os meninos por aí me puseram apelido de Zé Correto, e eu queria quebrar a cara de meia dúzia. — Não, meu filho! Não faça isso... À voz da inveja devemos contrapor o orgulho de nossa superioridade. Despreze esses remoques. E esvaziou à sua Obra os bolsos cheios de projéteis.
De regresso, fez da mão sobrecéu, observando o sol. — O dia está-se velando, Dr. Félix — disse. — Vamos ter, provavelmente, mudança de tempo. Pus-me em defensiva, suspeitando os manejos conhecidos para a entrada em conversações científicas: — É... E afinal, um pouco de fresca não seria mau. Se chovesse, ser-me-ia bom pretexto para dormir aqui. Prefiro não ver hoje meu pessoal da cidade, porque enforquei uma inquirição importante. Mas, a sondar o céu, com a mão em pala, não aceitou Américo a desconversa; e, com pausa e tranquilidade, como quem formula a pergunta mais natural do mundo, começou: — Senhor doutor, com a capacidade calorífica que tem hoje o centro de nosso sistema planetário, e dado o seu arrefecimento progressivo, qual será o lapso de tempo necessário para a extinção completa da energia solar?
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