Universo da obra
Universo da obra
Serviço até o pescoço. É uma enchente de autos. Esta atmosfera de petições e arrazoados produz-me, como a pasmaceira habitual, efeito desalentador. As impertinências dos advogados, longe de me espicaçar brio, tiram-me até a coragem de levantar a pena empoeirada da mesinha de trabalho. E já entreouço à volta um zum-zum de descontentamento que me turba o farniente. Preciso fugir, cobrar um pouco de vitalidade para enfrentar com valentia os desgostosos. Na minha cabeça soa como refrão incansável uma frase do velho Próspero: “Quinta-feira, sem falta! Quinta-feira...”. E como é hoje uma quinta, alicio resolução para zarpar para o Córrego Fundo. Fecho meu ninho de solteirão e saio. Nuvens algodoam-se esparsamente no céu. Como tem chovido, palmilho com esforço o chão barrento. Meus sapatões roceiros produzem borborigmos na lama peganhenta. Detenho-me rente a uma cerca, observando uma moita de taiobas folhudas, consteladas de pérolas d’água. A intervalos uma gotícula corre sobre os folhões e perde-se como estrela cadente — um risco de prata e sumiu-se. Muitas vão engrossar outras pérolas, que hesitam bamboantes, límpidas, na superfície glauca. Desprendo-me dessa vista e continuo, meio arrependido, o meu caminho. Dia péssimo para uma excursão! o serviço largado, o lameiral extenso, chuva à tarde, provavelmente... Meus pensamentos levam-me para trás mas as pernas instintivamente avançam. Hoje não há cigarras. Provavelmente tiritam, sob o abrigo de uma folha, não se sentindo de veia para a música azoinante.
Parafusam, porventura, sobre o caso da formiga. Má coisa, a imprevisão! Agora que o sol não as embriaga, filosofam, fazem exame de consciência e juram tomar rumo mais sensato. Entreluza, porém, o primeiro raio de ouro, e as tontinhas, esquecidas dos protestos, serão todas para a luz e para o céu, numa generalizada orquestração sonora, afronta de arte à labuta utilitária das formigas. Sucedem-se os conhecidos marcos de minha rota: a sempre-lustrosa, opada de roxo, alcatifando o chão de pétalas caídas; a porteira, frígida, sob a arqueadura das ramarias encontradas; a curva do rio, o campo entressemeado de cupins... Enfim, a fazenda. Tosando a relva da eira, um animal, já de arreios postos, espera alguém. — Ô de casa! Vêm os velhos, vem o Américo. — Aqui está o homem! — exclama Próspero. — Já tomou café? Então não o convido para entrar. A cavalo! — Que é isso?! — espantei-me. — Pois hoje é quinta, não se lembra? Os peixes já estão pulando na cachoeira. O doutor sabe o rumo, é tocar. Nada de preguiças. Estou hoje disposto até a montá-lo à força no animal. Pedi, objetei, reagi — tudo baldado. Vi-me, sem apelo, escanchado no quadrúpede. Supliquei ainda, quase lacrimoso, mas uma palmada na anca da montaria cortou cerce as últimas esperanças, despedindo-a em trote acelerado. Eis-me a jornadear. Miserável de mim! Meu espírito, desdobrando-se, apiedava-se da misérrima vítima que a cavalgadura sacolejava num trote duro. De longe gritou-me Próspero que fizesse isto ou aquilo para amaciar a andadura. Não entendi bem, nem me esforcei por entendê-lo, devido à minha preguiça de assimilar aquisições novas — do que depois me arrependi. Convenci-me nesse dia de que é sempre bom saber. Primeiro, caí num estado de resignação acomodatício. Meu eu que sofria, vendo o outro eu doer-se evangelicamente de sua sorte, assumiu atitude de mártir, para que o outro lacrimejasse mais condolências. Dizia o primeiro:
— Vês como me componho? O trote vascoleja-me tão duramente, que nas minhas entranhas é um confuso misturar e abalroar de vísceras. O estômago embica com o fígado, o coração se atraca com as pacueras e nos convólvulos das tripas é um emaranhado labiríntico. Sou um infeliz! E não me queixo. Sei conformar-me. Ao que o outro respondia: — Pobre amigo! Sua paciência raia pelo grandioso. Está aí um caso desses heroísmos obscuros, mas nem por isso menos meritórios, que a fama não celebra. Continue a sofrer paciente, bom amigo! Algum tempo depois as consolações do outro pareceram-me sensaboronas, e meu estoicismo improfícuo. Então refundi os dois personagens e busquei lembrar os conselhos do velho, gritados à partida. Mas nada me acudia. Eu tivera preguiça de escutar. E esses conhecimentos agora me seriam úteis, para conseguir a reversibilidade do trote em cadência mais aceitável. Pelos modos, os bichos dessa espécie sabem várias maneiras de andar, escolhíveis à la carte. Faltava-me somente um meio de correspondência. Era o diabo! Procurei, então, recurso, na caixa das ideias. Era homem de luzes, tinha obrigação de saber. Revolvi o mofo dos velhos preparatórios, evoquei o capítulo dos paquidermes, pedi auxílio à história dos cavalos célebres: nada que me valesse naquela conjuntura! Nem o velho cabedal de humanidades cavalares, nem Incitatus, Rocinante ou o cavalo branco de Bonaparte me deram um rastilho de clarividência. Por fim a Lógica refulgiu, com soberana luz, lembrando-me que há induções, deduções, experiências e contraexperiências para arrancar as verdades do seu poço escuro. Era isso! O método experimental! Atinaria assim com a receita do velho. Submeti a azêmola a uma porção de manejos. Dei rédea, puxei rédea, sofreei de arranco e com amabilidade, toquei-lhe as orelhas, escoicinhei-lhe os ilhais com os tacões das botinas. Nada! Minhas vísceras, aos gritos, pediam urgência. Redobrei os recursos, combinando-os, alternando-os, e mais além iria, se o animal súbito não assentasse de reagir, procurando cuspir-me da sela e
ameaçando andar de dois. Convenci-me esse dia de que as experiências in anima vili têm seus senões. Apressei-me a amaciá-lo: — Que é lá isso? Acalme-se, que o caso não é para tanto. Entremos num acordo, criatura! Sou homem pacato e razoável — aceitarei condições. Fez-se o acordo tácito. A montada voltou a andar de quatro, com a cláusula de me pôr eu o mais quieto possível. Em compensação, buscou variar o mais possível o cardápio. Às vezes abria um galope macio, dando-me ao corpo agradável galeio; outras, servia-me o trote de má morte, lardeado de um horrível picadinho sacudido; por fim caiu num passo preguiçoso, melancólico, que parecia sentenciar: — A vida é triste. Para que pressas, se ao cabo de tudo é sempre a morte? Uns trepam, outros são trepados, qual corre, qual anda, mas no fim a dentuça da megera abocanha a todos. Aquela andadura dizia-me coisas. Eu edificava-me, traduzindo seu compasso significativo. Quando me senti saturado de filosofia cavalina, lancei vistas aos arredores. Campo, campo, campo... Monotonia exacerbante. À margem da estrada, o mesmo ervecer tolhiço de juapoca rajado, de gerbão de pendão negro e florinhas roxas, barbascos felpudos, manojos de carqueja. Cupins bojavam a flux, como a furunculose da terra. Nos espigões, a eterna crista de arbustos, debruando valos ocultos. Era secante e vulgar. Como os grandes artistas, nem sempre a paisagem tem gênio. E assim corria a viagem. Quanto custa às vezes viver a compridez do dia, cuja lentidão ainda frisa mais, pautada por uma andadura lerda de rocim!
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