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Capítulo 20 · Vida Ociosa

A cachoeira

20 de 21 ≈ 11 min de leitura

Enquanto reino sobre meu sofá como único e indisputável senhor, a vida parece-me amável; mas o velho piorou e o curandeiro que o trata veio arraigar-se a meu lado, refugindo do enfermo, cuja loquela interrogativa não se compadece com sua veia filosofante. Se meu vizinho fosse um ser inofensivo, eu poderia tolerá-lo; mas o homem fala, fala, fala... Procuro dispersar-me; numa fuga de atenção analiso-lhe a cabecinha ruiva de formiga e orço-lhe trigonometricamente a proeminência do nariz pontudo; minha atenção, porém, resvala para a perlenga ininterrupta e eis-me de novo a ouvi-lo: — É como lhe digo — sou carimbamba por muito fuçador e querer saber coisas que não me competem. Sou peneireiro, fazedor de pilão, de colher de pau e de gamela, e devia ficar só nisso, porque é como lá diz: “Quem é mão não faz pé” e “Quem nasceu pra cachorro há de morrer latindo”. Pois eu, o senhor sabe, não tive princípio nenhum; o pouquinho que aprendi foi escutando aqui e ali e conversando com os entendidos, que eu, Deus louvado, sei pôr-me no meu lugar. Às vezes sou poeta e gosto de especular os médicos; foi assim que, pedindo uma explicação a um deles, do que me disse compreendi que a saluva é a graxa do estamo. Guspir é um vício. Veja as criações, que não gospem. À proporção que a saluva vai marejando na boca, a gente deve engolir, porque assim ela vai desenvolvendo pra dentro e não faz falta para a digestão. Creio que é por isso que meu estamo é bom. Aquilo que caiu dentro dele, vara. Como de tudo. Só não gosto de caça de rabo, porque é parente de cachorro. E como, sempre que meu estamo pede. Numa comparação: um moinho,

se tem milho na moega, vai moendo; se não tem, azanga. Assim também o estamo: é preciso ter nele sempre alguma cousinha pra não trabalhar em seco. Abundei na mesma opinião e o meu interlocutor prosseguiu: — Sou peneireiro e lavro madeira, mas não tenho mais tempo pra dar ao ofício; são muitos os doentes e vivo da casa deste pra daquele. Ainda agora... ainda agora... Veio esta repetição porque comecei a abstrair noutras coisas e o homem o percebeu. Com o segundo “ainda agora” ele exigia que me fixasse na sua exposição. Concentrei-me a escutá-lo e ele continuou: — Ainda agora venho de trás da serra, onde fui ver um compadre com um berne arruinado; e dei volta pelo Engenho, por causa duma esporada de mandi na mão do Zé Vicente. Aí estão duas doencinhas que parecem de nada e ameaçam levar os doentes. Dou mais por sô Quim Capitão, que não é homem de ir assim entregando a palha com a rapadura. Esse é dos antigos, a vida nele está mais agarrada. Porque hoje, senhor doutor, com a descoberta desses vapor e desses automóvel, a gente anda mais depressa, mas também vive mais depressa. Tudo vem mais cedo, até a morte. No meu tempo criança começava a adentar depois de um ano; hoje, com cinco, seis meses... Antigamente as criancinhas nasciam de olhos fechados, feito cachorrinho; só os abriam no fim de oito dias; hoje tudo nasce arregaladinho e esperto, como se já entendessem as coisas. Sô Quim é duro, não vai assim em dois arrancos. Se me atendesse, eu o punha bom, porque doença que entra com a friagem, cura-se pelo sistema antigo, com tártaro em folha de laranja; se o estamo não aceita, a gente põe uma chave na mão, pra não vomitar; no dia seguinte, sangria, pra força da doença sair; depois, qualquer cordial cura. Enfim... enfim... Sofreou de novo minha atenção erradia, prosseguindo: — Enfim, se faz bem ou mal, não seguindo meus conselhos, só Deus sabe, porque tudo neste mundo é o destino. Eu, na minha compreensão, senhor doutor, acho que Deus criou o mundo com tudo o que é necessário para nós, e deu, a cada um, um destino.

Veja, numa comparação, uma gata que acaba de parir. As mamiquinhas são umas coisas de nada, umas berruguinha que a gente custa a enxergar. Se der, cada uma, meia colher de leite por dia, é o mais. No entanto, os gatinhos, quando nascem, a mãe vai ficar deitada, e eles vão fuçando no pelo da gata, até dar com as berruguinhas. Durante dois meses só vivem daquela miséria de leite. E assim mesmo ficam gordos, lustrosos. Que é isso? É o destino. Noutra comparação... noutra comparação, senhor doutor... — Arreiem já meu cavalo! — ordenei às três mudas, que passavam. Arreado, despedi-me, montei e fugi. E foi assim que num dia de sol quebrou-se o encanto e pude despegar-me daquela deleitosa mansão. Toca para a cachoeira. Receei recomeçar experiências para pôr o animal em andadura aceitável; por seu lado, também receoso, ofereceu-me ele o acordo de um galope macio que, jubiloso, aceitei. Carrascais de candeias tortas bordejavam agora a estrada, interpoladas de ásperos pés de fruta-de-lobo. Não temesse eu melindrar a montada, apearia para colher gabirobinhas do campo, que recendiam convidativamente da orla do caminho. O chão arenoso e declivado pouco empapara a água caída nos últimos dias, que decorreram num chuveiro pertinaz. A aragem era fresca e o sol, doce; e, contrastando a penumbra de meu prolongado encerro, sorria-me a natureza o melhor de seus sorrisos. Aqui e ali fugiam roscas do rio, que carregava águas barrentas. Às suas margens multiplicara a vazante espraiados tranquilos, que cintilavam ao sol. Já audível, o rumorejar da cachoeira encorpava-se a cada passo avante; era uma cortina de sons que se erguia numa nesga do horizonte e que, em pouco, alastrando, ganhava todo o circuito da paisagem, estrondejando compactamente. Meto-me por um trilho que se desgarra da estrada, em direitura da cachoeira. Cruzo pedestres, já de volta, com sacos e jacás atestados de peixe. Conversam gritando como surdos, para fazerem-se ouvir. Avisto por fim, constringidos entre paredões de rocha, os rolos de água, despenhando-se. São os degraus em que a torrente rabeia, fustigando o leito, como serpente assanhada a encrespar a cauda

nervosa. Muita gente: homens nus, ou com tanga, ou só de calças, munidos de toda a sorte de utensílios de pesca, ou outros objetos momentaneamente adaptados a esse uso — balaios ou coadores na ponta de bambus, guarda-chuvas, balaios sustidos nas mãos, peneiras, redes ondeantes como bandeiras, na extrema de varas longas. A torrente despeja-se aos fluxos e refluxos. Quando a ondada passa, pulam os peixes em cada poço, inumeráveis, projetando-se para o ar, a despedir chispas de prata dos corpos retorsos nervosamente enovelados e vibráteis. E aqueles aparelhos visam todos colhê-los no salto. Se recresce o rolo líquido, aquieta-se o peixe um momento, esperando que passe, para, em cada socalco, entre o esfervecer dos borbulhões tumultuosos, recomeçar o seu projetar incessante, que o caipira compara a pipocas arrebentando. Abaixo da cachoeira, onde o caudal se rebalsa e retoma a majestade de seu curso lento, a água é torva, quase negra; e, ao olhar que lhe escruta a profundeza, essa negrura revela-se feita de cardumes de dorsos escuros, que esfervilham, evolucionando processionalmente no bojo dos remansos, esperando o seu turno de lançar o salto. Lembram correição de formigas, faixas migratórias de gafanhotos, perpassando inumeráveis. Lateralmente derivam fios escassos, delgadas fitas que traçam sinuosidades no lajedo, fazendo escala em caldeirões cavados na rocha. Esses filetes que mal umedecem a pedra, são o varadouro dos peixes ínfimos, dos embriões de polegada para menos, que sobem, miniaturas de peixes, por aquelas miniaturas de rio. Nos caldeirões enxameiam aos milhares, negrejando em espirais — simulacro de nebulosas movediças, que são, em vez de formigamento de astros, um rebolir de germens. Sobem como vermes, reptando, e aos pequeninos arrancos; e, nas intercadências dos estos, que estancam os exíguos manadeiros, aderem ao limo, expectantes, em formas glutinosas de sanguessugas. Por toda a parte é a obsessão do peixe. O ambiente tresanda a peixe podre. Ao andar, patinham os pés numa lama mucilaginosa de peixes esmagados. Nas mãos, nas vasilhas, aos montes na margem, há o contorcionar epiléptico de formas prateadas. Só se vê peixe e só se pensa em peixe. É a luta sem tréguas declarada aos pobres viageiros.

Onde os esquece o homem, caçam-nos seriemas, socós, marrecas, espécimens sem conto de parasitas do rio. — Pode ser belo — mastiguei —; mas monótono e repisado como uma descrição de Zola. Havendo satisfeito uma velha curiosidade, eis-me enfarado, com a saciedade da posse. Isto me confirma a cômoda filosofia... Está visto. Agora, rumo da cidade. Já míngua ao longe o trapejar da cachoeira. Desobstruídos daquele som e daquela vista, meus sentidos se deixam impregnar da suavidade da hora. É um dia precioso, tocado discretamente a ouro e repassado do perfume do assa-peixe branco, cujos capulhos recendem às margens da estrada. Meu animal chouta inteligentemente. Já diviso, espapaçada e imensa, a fazenda da Paineira, que dormita no silêncio dos vastos campos, alheada da vida, num infindável coma de gestação. Quando fronteio o curral, ouço berros e a porteira rechina, dando passagem a alguém, que nesse dia viu demais. É Sontonho do Olho Furado, com dois sacos na mão. — Sô doutor Félix! — grita estentoricamente. Tive um arrepio de terror. Se a tentação vencia, e me ia esquecer de novo ali, outra temporada! Enrijei minha vontade com a evocação do curandeiro terrífico. — Pois o fubá, Dr. Félix! Não é que já ia sem ele? — Ora, Sontonho! não é preciso... Até outro dia! Piquei de esporas, ou, mais propriamente, de calcanhares, tentando fugir; mas, implacável, meu amigo travou solidamente do freio. — Neste saco — disse e apontou — está sua encomenda: meio alqueire; neste outro, mais meio, que lhe dou como lembrança de amizade; porque — não é por estar em sua presença — fiquei gostando muito do senhor. — Obrigado, Sontonho... Mas, co’os diabos! não hei de levar isto comigo. — Pus em dois sacos para fazer um picuá — explicou a criatura. E, malgrado minha relutância, depois de atar, uma na outra, as bocas dos sacos, atravessou-os na cabeçada dos arreios.

— Então, como não quer portar, boa viagem — disse ele. — Adeus, Sontonho. E, dando aos calcanhares, afastei-me precipitadamente. Agora já não me corria a viagem tão bem. Sentindo o acréscimo de peso, o animal rezingava, socando-me com um trote duro e ameaçando-me com várias acrobacias. Eu deixava-o ir, encolhendo-me na sela, para evitar movimentos que irritassem o bucéfalo. O que não parava, eram os sacos. Sacudidos daqui pr’ali, batiam-me em compasso os joelhos, polvilhando-me de branco as calças. Tive a ideia de largá-los à beira da estrada; mas receei consequências imprevistas, dado o gênio incerto e esfogueteado da montaria. Achei melhor deitar fatalismo. A viagem, com aqueles sacos, já estava, por sem dúvida, prevista na minha página do Livro do Destino. Todavia, se assim me vissem a recovar fubá, eu, o juiz municipal do termo! — receei. Se viram! Comecei a cruzar gente da cidade. O médico, acudindo a um chamado. Os irmãos Faria. A família Gonçalves. A família Guimarães. Diabo! Todo o povoado se baldeava nesse dia para outra parte. Cruzou-me o meirinho, um advogado. Santo Deus! Mais duas famílias... Agora o interminável cortejo de um casamento: um cavaleiro, dois, três, vinte, trinta... Santa Bárbara! Uns cumprimentavam-me, todos observavam-me obliquamente, a maior parte ria-se sob capa, cochichando entre si o que quer que fosse. A face, esbraseando, ardia-me. Suava. E com o suor o corpo pinicava-me, dando-me uma coceira infernal, principalmente no fio da espinha, no ponto exato onde as mãos não alcançam. Um estirão deserto — graças a Deus! — e a fazenda do Córrego Fundo. Apeio, tiro os sacos e entro pisando duro, para desemperrar as pernas. — Ô de casa! — O Dr. Félix! O homem sumido! — exclamam os velhos. — Sim, meus amigos! Mas que reaparece com um presentinho para siá Marciana! Entrego-lhe a sacaria. E assim liberto-me, radiante, do picuá de má morte.

Vida Ociosa

Sinopse

Leia gratuitamente Vida Ociosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos e a obra A Filha removidos do corpo principal, organizada pelos subtítulos internos reais para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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