Universo da obra
Universo da obra
— É como lhe digo, sô doutor: a linha da divisa passa por esta cova, a vinte braças de um óleo pardo; por aqui vai descendo... E o dedo do meu jurisdicionado ia descendo por um papel sujo, esboço de mapa, de dobras rustidas de velhice. — Sim, sim! Já me disse isso; mas não posso, absolutamente, dar opinião; procure um advogado de sua confiança, exponha-lhe o caso... —... vai descendo, até esbarrar no corgo do Zé Elias. Aqui faz um bico... Levantei-me, impaciente e pus-me a passear, agitado, pelo escritório. Forte maçada! Precisando ir ao Córrego Fundo e aquele estupor a moer-me a paciência, com a história infindável de seus litígios! Se o não despejei vinte vezes pela janela, é que me comovia a humildade paciente com que acolhia meus frenesis. Desta vez ainda emudeceu, com o papel sujo estendido sobre a perna, à espera. — Pois vá, vá perguntar a um advogado o que quiser. E olhe, tenho serviço, não posso atender ao senhor toda a vida. Malgrado estas palavras ásperas, meu consulente continuou incrustado na cadeira. Recomecei meu passear agitado, buscando divertir o pensamento. Sobre a mesa vi, dobrado, o papel azul recebido de manhã. Um doce calor de júbilo filtrou-se-me no espírito. Senti-me feliz. Mas uns gordos autos de embargos, que avultavam logo adiante, esfriaram-me consideravelmente a alegria. Diabo! Tanto atraso no
serviço... Os prazos findos rabujavam em minha consciência lenga-lengas intermináveis, atassalhando-me de remorsos. Afastei essa vista importuna e voltei-me para o gramofone. Era uma velha máquina, preciosa, que, de empréstimo em empréstimo, se desgovernara desoladoramente. Mas o último empréstimo dera-lhe virtudes raras, muito de meu agrado. Mesmo sem disco tocava músicas de Wagner, ricas de estrépito. Desloquei a mola e ele começou. Primeiro foi um roncar surdo de tempestade que cresce; súbito desencadearam-se trovões rolantes de mistura com guinchos inexprimíveis. Em seguida amainou e pôs-se a piar e a ringir com um acento tão animal, que bulia nas fibras do coração. Foi nesse ponto que bateram palmas à porta. — Senhor doutor, licença para três! — exclamou uma voz de velha. — Oh! que boa surpresa! — retruquei, correndo ao encontro dos meus amigos do Córrego Fundo. Era a primeira vez que os via na cidade. Viviam tão consigo e ilhados na sua pobreza, amavam tanto seus hábitos tranquilos, que a novidade quase me alarmou. — Pois aqui estamos! — disse o velho Próspero, entrando. — E especialmente para ver o doutor. Recebi-os jubiloso. — Um homem solteiro morando sozinho num casarão destes! — admirou-se siá Marciana. Mostrei-lhes o interior da casa, a cozinha, onde o meu moleque queimava sistematicamente o feijão, a horta afundada em ervas altas; depois levei-os ao escritório, onde acendi o fogareiro de álcool. — O senhor também é meio cozinheiro — gracejou siá Marciana. — E faço questão de que me conheçam a força. Ofereci-lhes cadeiras, nas quais silenciosamente se sentaram. Notei algo de estranho em meus amigos. Raras frases proferiam, como se os ganhasse uma grande preocupação e, a miúdo, trocavam olhares de inteligência, que me intrigavam. Notei ainda que o Sr. Próspero vestia a sobrecasaca de grande gala. Muito deveriam ter-se alarmado as borboletas de minha
porteira! Pronunciei algumas palavras para puxar palestra; elas, porém, congelaram-se no silêncio dos três. Trocaram, a esse ponto, novos olhares significativos. Então o Sr. Próspero levantou-se solene. — Américo — disse —, dê-me os óculos. Os óculos! Era grave. O velho só os punha em circunstâncias excepcionais. Ajeitou-os atrás das orelhas e, voltando-se de novo para o filho: — Américo, dê-me a caixinha. Recebeu das mãos do filho um pequeno volume embrulhado em papel de seda e amarrado com uma fita; e, voltando-se para mim, começou em voz pausada: — Senhor doutor, nós temos contas velhas que ajustar. Faz alguns anos que o senhor nos dá o prazer de frequentar o nosso rancho. Lá o recebemos, não como hóspede e sim como filho. No entanto, o senhor — e aqui brandiu o indicador ameaçadoramente — de cada vez que nos visita deixa um pacotinho de pratas, como se lhe cobrássemos nosso feijão. Nunca nos recusamos a recebê-las, para pô-lo mais à vontade; secretamente, porém, conspiramos uma vingança, isto há meses, há anos, esperando que não a levasse a mal. — Mas... — ia-me eu defendendo. — O senhor é muito orgulhoso — e o dedo brandiu de novo —, muito mesmo, por isso, como não queria nosso feijão, também, orgulhozinho de pobres! não queríamos as suas pratas. Se tivéssemos recursos, nossa vingança seria fazer-lhe um belo presente; não sendo isso possível, eu, notando que em seus dedos faltava alguma coisa, disse à prima: “Vamos juntando as pratas da hospedagem (senti nas faces o grifo da palavra) e lhas devolveremos sob a forma de um anel. Se não aceitar como devolução, receberá como brinde de amigos”. E aqui está, senhor doutor Félix, a vingança dos seus piraquaras... A estas palavras abriu o estojo e estendeu-mo. Era uma joia belíssima, deitada sobre veludo, tendo no aro as insígnias da
justiça. No engaste, uma grinalda de brilhantes chamejava à roda de sanguíneo rubi. — Que beleza! — exclamei, examinando o mimo —; a lição foi boa — castigaram-me o orgulho. Mas os senhores estão também mareados deste pecado... — Nós? — e os velhos admiraram-se. — Decerto. Castigaram-me por não aceitar seu feijão. Precisam de castigo por enjeitarem minhas pratas... — O caso não é o mesmo — protestou Próspero. — É, sim — atalhei. — A minha desforra, porém, será imediata. Depus o estojo na mesa e, tomando o papelucho azul, entreguei-o solenemente a Américo, dizendo: — Senhor professor, aceite meus cordiais parabéns! Américo leu — tremeu-lhe a mão, tremeu-lhe o beiço, ficou pálido e sem fala; e súbito atirou-se sobre mim, estreitando-me convulsivamente: — Ó senhor doutor... senhor doutor... Estava um tanto teatral, mas era sincero; mais do que eu que, em vez de rejubilar com o seu júbilo, divertia-me com a situação, que me obrigava a atitudes de quinto ato. Essa coisa tão importante para Américo, para mim pouco significava, pois, criar uma escola rural no Córrego Fundo e nomeá-lo professor, não fora êxito em que despendesse grande esforço, graças a certas facilidades de ocasião e ao influxo de prestantes intermediários. Enquanto Próspero arrancava o alvissareiro telegrama das mãos de Américo, tartamudeava este que nunca ousara esperar que se realizasse um dia o seu sonho secreto. E, lançado em contrastes de sentimentos, ora irradiava, felicíssimo, ora turbava-se, duvidoso dos seus próprios méritos, achando a tarefa muito grande para seus ombros frágeis. — Duvida, Américo, duvida bastante, meu amigo — filosofei —, que as realidades mais doces são as que saem das dúvidas mais amargas. Inteirados por sua vez da nova, os velhos ficaram uns instantes sem voz, como o Américo; depois, identicamente, tremeram de mãos e lábios, e abraçaram-me, e exultaram, e duvidaram — o que
me ensinou que os lances da vida são muito parecidos, duas alegrias, pelos modos, assemelhando-se entre si como duas gotas d’água. Mas a máquina, roncando, anunciou-nos pronto o café. Servi. Bem salgada pareceria a bebida a Próspero, tantas lágrimas nela misturava! Passamos largo tempo juntos. Prometi ir à fazenda no dia seguinte, para orientá-los sobre as formalidades da nomeação. À saída foi um não acabar de mútuos agradecimentos. Retiraram-se, por fim. Tornado ao escritório, retomei o estojo e contemplei melancolicamente a joia coruscante de rebrilhos, calculando comigo o quanto de privações e amarguras se condensariam naquela cercadura chispante e naquela gota de sangue vivo mineralizado. Em vez da festiva alegria com que os pobrezinhos contavam, com que aperto de coração eu recebia a sua dádiva! E considerei a joia, longo tempo, absorto, até que uma voz cava, saída de algum ponto misterioso da quadra, veio subitamente despertar-me: — Como lhe dizia, sô doutor, aqui a divisa faz um bico. Ao depois a gente garra corgo abaixo tuda vida, até o angico do pasto do João Juca...
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