Universo da obra
Universo da obra
Circundada de grades, casinhotas e telheiros, tudo repintado a cores vivas, pompeava numa garganta a maciça edificação da escola normal. À sua frente uma escadaria de dois lanços traçava uma ampla oval, depondo os últimos degraus numa avenida que descia suavemente a escarpa, indo mais abaixo entroncar na estrada da povoação. No ponto de união erguia-se novo arco de triunfo com as palavras do outro, porém em francês, “Dieu, Patrie et Famille”, que os pais de alunos, quando ali passavam, traduziam, cheios de si, uns para os outros: “Deus, Pátria e Família”! E admiravam-se de sua própria argúcia. Pouco antes haviam subido a avenida os pais e as alunas desembarcadas; agora os dois velhos fariam o mesmo com fadiga, firmando a cada passada a mão no joelho, para atenuar o esforço. O olhar de ambos errava de uma coisa para outra com mais inquietação que maravilha. A majestade do Navarro crescia ainda nos seus espíritos deslumbrados; e assombreava-lhes mais o ânimo o palacete que se lhes deparava defronte, pois na sua ingenuidade supunham ir encontrar ali um pardieiro destroçado pelas chuvas, como os casarões do Douradinho. — É um palácio, João… — sussurrou Flávia, com um tremor na voz. — É… — confirmou o marido, não menos perturbado. Se tivessem recursos para voltar daquele ponto, como não hesitariam antes de subir suas opulentas escaleiras! Mas a sorte estava
lançada, só lhes restava curvar a cabeça ante o desconhecido destino, que os enchia de misteriosas apreensões. Chegados ao palacete, bateram palmas. Um preto hercúleo que cantarolava perto, alisando o pelo de cavalos de tiro, cessou a cantilena e gritou-lhes meio escarninho: — Subam a escada e batam de novo. Os dois seguiram a recomendação. No patamar repetiram novas palmas, timidamente. Pelo longo corredor, que à frente mergulhava no edifício, havia uma lufa-lufa de criados conduzindo malas e acompanhando meninas chorosas. Uma voz lenta, de mulher, dava ordens ao fundo. Do locutório, logo à entrada, vinha-lhes o chalrear de vozes conversando, dominando todas um vozeirão reboante que adivinhavam ser do diretor. Depois de algum espaço o vozeirão interrompeu-se e aproximaram-se passos duros. Surgiu-lhes de rosto um homem robusto, pletórico, orçando pelos trinta e oito anos; na mão e na gravata faiscavam-lhe diamantes e tinha os olhos negros carregados de hipnotismo. Vendo a velha, seu rosto tomou um ar de complacência e foi cumprimentá-la com ambas as mãos. — É a D. Flávia? do Douradinho? Já estava tardando… Boa viagem? Entre, está em sua casa. Vá procurar a Adélia, aos fundos. Dando nesse momento com a vista no velho, reteve um movimento de recuo e perguntou, em tom duro: — Quem é esse homem? Flávia, estonteada pelos modos bruscos do diretor, tartamudeou a resposta. Navarro clamou, entre surpreso e indignado: — Marido?! Pois a senhora não é viúva!… — e levou a mão à cabeça. — A senhora não é viúva! — repetiu, ao passo que, lançando ao velho um olhar de cólera, exigia que o contestasse. Pela primeira vez João sentiu já não estar entranhado sete palmos adentro na terra. Flávia escutava-o aterrada. E a timidez de ambos tolhia-lhes a palavra.
Então o diretor pareceu concentrar-se em meditação, e acrescentou irresoluto, como em solilóquio: — Tem marido! Não serve… Se os separar, são visitas todos os dias… Ele parece doentio, toca a velha a acocá-lo, deixando as obrigações… Não serve, absolutamente! Isto é, veremos… Hei de consultar a Adélia… E, lembrando-se das visitas, tornou à sala. Da porta, porém, voltou-se chamando-os: — Venham! Havia no locutório numerosas pessoas sentadas em semicírculo. Apesar das idades várias e da diversidade de posições sociais, comungavam todos, naquele momento, na mesma veneração pelo impertérrito paladino na instrução. Entre eles estava o negociante apalermado que viajara a cavalo oitenta léguas para conhecê-lo. Todo olhos e enlevo, como em colapso celestial, ainda não havia aberto a boca para pronunciar uma palavra, ocupado em decorar todas as frases do Navarro, para as reproduzir o resto da vida em rodas sertanejas, com a narração circunstanciada daquele grande dia. Acolheram o retorno do diretor em respeitoso silêncio. — É uma nova auxiliar — disse-lhes o Navarro apontando Flávia, que esperava, queda, à porta, ao passo que João buscava sumir- -se à sua sombra —, vai ser regente… E, como a figura de ambos não os recomendasse muito, Navarro tomou expressão paternal: — Um casal de pobres velhos que protejo. Não se tornou a falar de ambos no decurso da palestra. — Pois meu caro jornalista, apreciei muito seu artigo — prosseguiu Navarro, reatando o fio interrompido. Dirigia-se ao Décio, um rapaz louro e espigado, que piscava por balda roendo descontinuamente o bigode amarelo. Décio enviava correspondências do Mar de Espanha ao “Estado”… e numa das últimas, a pedido do diretor elogiara no superlativo os colégios três- -barrenses. — Jornalista! Você está debicando… — respondeu.
— Juro que sou sincero. Você tem um estilo admirável. — Oh! uma despretensiosa correspondência! — Despretensiosa mas extraordinária — afirmou Navarro com calor. — Não me considero suspeito pelos encômios que fazia a esta humilde tenda de trabalho, porque, francamente, não receio a competência de qualquer outro colégio de Minas. — Do Brasil! — emendou com entusiasmo o doutorzinho de nasóculos. — Não gostamos de alardear nossos méritos — observou Navarro, modesto. — Aos amigos desta casa incumbe julgar-nos; e, quando o juízo é favorável como o seu, curvamo-nos, agradecidos. Mas o senhor disse a verdade. Sei bem como nesses colégios por aí anda tudo à matroca. Ao passo que Décio, muito sensível a elogios, se consternava com o novo rumo da conversação, Navarro prosseguia, enumerando pelos dedos: — Falta tino, falta seriedade, habilitação, prática, higiene… Falta tudo. Nós temos tudo. Desafiamos a quem prove o contrário! Seu olhar aquilino relanceou a sala, como se o repto se dirigisse aos presentes. Longe de protestar, todos se curvaram, esmagados sob o peso da evidência. E essa hostilidade que lhes era emprestada, deu-lhes um tudo-nada de escrúpulos, como se se sentissem culpados. O pai do Dario embebeu no diretor um olhar maravilhado. — O senhor é um herói, nosso país deve-lhe muito — disse. — Muito! — confirmou o Navarro em tom breve. — Este homem — disse o doutorzinho aos pais, apontando o Navarro —, este homem sabe tudo, até engenharia, matéria em que posso falar de cátedra, porque é minha profissão. Pois, sem acanhamento o confesso, deu-me um dia um quinau em áreas, na fórmula do trapézio. Houve um murmúrio de admiração. — O doutor vê tudo pelo prisma do seu grande coração, iluminado pelo facho de amizade — declamou Navarro batendo-lhe ao ombro, com modos de vencedor indulgente.
A esse ponto um coronel bexigoso tomou a palavra para detrair o Ginásio Rio-verdense, duma localidade próxima, cujos alunos o iam de ano para ano desertando, absorvidos pelo “Fiat Lux”, como se entre os dois ginásios se tivesse estabelecido um sistema de sifão, com o ramo maior no último. O coronel das bexigas desabafou ali da grande indignação que o oprimia. Pois seu filho, moço inteligente e aplicado, não fora lá reprovado na última época de exames? — O expediente é velhíssimo — anotou Navarro com desprezo. — Reprovam para demorar os meninos no colégio. Uma patifaria! Nós aqui nunca reprovamos, em geral; e em geral nossas notas são de plenamente para cima. Por quê? É que sabemos ensinar. Ah, meu caro, nesse terreno sou uma fera, uma fera indomável! Escolho o professorado a ponta de dedo e submeto-o a uma disciplina férrea. Para nós o magistério não é meio de vida e sim uma missão. É como se Deus do seu alto sólio nos tivesse despachado à Terra, ordenando “Ide e ensinai!”, e nós, humílimos e obedientes, tornamo-nos em apóstolos da luz e legionários da ciência. — Apóstolos da luz… — decorou, em êxtase, o homem das oitenta léguas. Para prova de desprendimento, Navarro passou a pormenores financeiros. Todo o mundo supunha que seus colégios fossem uma mina de dinheiro. Puro engano! No último ano letivo havia tido um deficit de vinte contos. Ah! Se não tivesse os seus dois vinténs, já estaria arruinado. E não esperava no futuro. No futuro antevia maiores e crescentes sacrifícios. — Que fazer, meus amigos, sou feito assim! Nesta argila moral há aspirações divinas (e bateu no peito com força). Sou o missionário da instrução. Ensino por dever, como D. Quixote combatia. Sou o último cavaleiro errante da instrução e do progresso! Entranhado de admiração, o engenheiro encarou com o diretor, exclamando: — Mas que homem é você! — E creia que incompreendido e vituperado — disse Navarro com singeleza.
Em seguida puxou o relógio. — O Dr. Peregrino já está demorando — disse —, ficou de vir apresentar-me dois professores novos… Neste ensejo seus olhos deram casualmente com o aspecto lastimável dos dois velhos que ainda esperavam à porta, retraídos e atemorizados, fazendo-se pequenos para ocupar o menor espaço possível. O diretor coçou a cabeça irresoluto, e teve-lhes ódio pelo problema difícil que lhe havia suscitado. Tomou uma expressão severa para falar-lhes, mas um tropel múltiplo subindo a escada reclamou sua atenção. Correu à janela. — Cá estão os retardatários! — exclamou. E saiu, para introduzi-los no locutório. Entrou à frente o Dr. Peregrino, médico dos colégios e professor de ciências físicas e naturais. Era um frangote de óculos, cujo rosto se compunha de caso pensado, para aparentar sisudez científica. Diplomado havia apenas um ano, da Academia embocara diretamente para ali. Intumescido de teorias acadêmicas e espírito de classe, tinha a presença altiva do homem que se reconhece superior aos seus semelhantes. Foi dispensada sua apresentação porque já o conheciam quase todos os presentes. Atrás do médico, Navarro cedia o passo aos dois professores novos. O mais moço era um galhardo rapagão de sobrecasaca, luvas brancas, sapatos fulgurantes de verniz, andar majestoso e linhas esculturais em todos os movimentos. Os olhos cravaram-se nele deslumbrados. Navarro apresentou-o: — O Sr. Penedo, que hoje vem alistar-se em nossas fileiras patrióticas… Os pais levantaram-se, e Penedo adiantou-se cumprimentando. O diretor acompanhou-o com a vista um instante. Conhecia-o apenas por cartas, e visivelmente impressionara-se bem. Chegou a esquecer um instante o outro professor. Ao vê-lo teve uma ligeira visagem de desagrado. Era um sujeito de cinquenta anos, alto, colarinho de duas semanas, calças no fio, o porte abrutalhado de um
cabra sertanejo. Politicão decaído por uma reviravolta governamental, sem eleitores e sem consideração, precisara arranjar o emprego de professor para sustentar a família. — O coronel Mercês, ex-deputado estadual… Navarro apresentou-o assumindo uma expressão displicente, que era como o lavar mãos de qualquer responsabilidade; mas, ao dizer “ex-deputado”, animou-se a confessar a verdade: — Também vai ser um dos maiorais do nosso exército… Ex- -deputado! Quem não conhece em Minas o coronel Jerônimo da Silva Mercês?! O diretor circunvagou o olhar interrogativo pelos presentes, que assumiram o ar de quem confirma vagamente. — Quem não conhece no Brasil o nome respeitabilíssimo do coronel Felipe de Sousa Mercês?!… — tornou o diretor com ênfase. Estava lançando o futuro magíster. Os pais arregalavam os olhos para ele, meio esquecidos do Penedo. Muitos chegaram a afirmar que o conheciam de fama; depois viram que era engano. O coronel debateu-se debilmente para fugir à apoteose; mas depois entregou-se de corpo e alma ao regalo daquele momento de popularidade. Fazia tantos anos que perdera a influência política e vivia esquecido para um canto! Nele despertavam gratas emoções dos tempos de antanho quando as manifestações de solidariedade e apreço iam filar-lhe a cerveja. E quedou-se com a atitude formalizada de quem ouve uma saudação, enquanto Navarro desenvolvia o seu panegírico. Entrementes Penedo sentara-se com todo o garbo numa poltrona, dobrando carinhoso a aba da sobrecasaca. Ao seu lado, o Dr. Peregrino pôs-se a relatar aos mais vizinhos a marcha de uma pneumonia que estava tratando com todo o rigor da medicina moderna. Sua voz era abafada pelos berros do Navarro, que rememorava insignes feitos do “ex” na bancada mineira, numa crise política de outrora. O coronel Mercês, formalizado e desvanecido, os olhos postos no assoalho, dizia a espaços palavras agradecidas, com a voz entrecortada
de emoção. E como não se lembrava de ter feito todas as coisas que Navarro dizia, vez em vez arriscava um delicado protesto: — Há engano, não fui eu… Meu mandato era meramente estadual… O diretor atalhava-o, tonitruante: — Perdão! Nada de modéstias. É como eu estava contando… Durante suas breves pausas ouvia-se a voz grave do facultativozinho falar em microrganismos e Metchnikoff. Penedo, entre dois fogos, tinha aprovativas inflexões de cabeça para um e outro lado. Com este movimento acentuava-se na sala um precioso aroma de brilhantina e cosmético. — Mineiro de altos ideais, antiescravista, republicano histórico… — bramava o diretor. Súbito, no meio de um rasgo eloquente, Navarro emudeceu, suspenso, enquanto de olhos no chão e extremamente comovido, o ex-deputado esperava o resto. Navarro não acabou a frase. Acabava de ouvir a palavra “bacilo”; e, com grande espanto do ex-deputado, abandonou-o no meio da sala, correndo para o médico. Navarro cingiu-o pelas costas, dizendo em tom confidencial aos circunstantes: — O Dr. Peregrino é um sábio! Um grande sábio! A atenção deslocou-se para o médico, que fitou gravemente o teto, calando-se. — Continue, doutor, queremos apreciá-lo — estimulou Navarro. O médico recomeçou, com sisudez e competência: — Eu expunha aqui a estes senhores as fases de uma moléstia cíclica e endêmica… — É um sábio! — berrou Navarro. — O maior sábio do Brasil! Vejam-no! (E o diretor pôs-se detrás dele, para melhor exibi- -lo.) No seu crânio há todos os caracteres lombrosianos da ciência. Quando emite uma opinião, os mestres curvam-se respeitosos. São os frutos de dez anos de vastíssima prática, de acuradíssimo estudo. Há dez anos que luta e vence, fora das portas da Academia. — Oh! — pasmaram todos que davam ao médico vinte anos prováveis.
— Sim, senhores. O Dr. Peregrino já tem trinta e tantos anos e não os aparenta. É a higiene, a vida metódica… talvez o elixir da longa vida, não, doutor? — e Navarro deu-lhe palmadinhas amistosas para fazê-lo rir. O Dr. Peregrino fechou a cara. Não gostava daquele procedimento do Navarro. Pois já não o obrigava a andar de óculos pretos? Ele era um sábio; o próprio Navarro o reconhecia; para que mais? O seu maior orgulho era ser um sábio precoce; mas o diretor embirrava em dar-lhe mais idade. Essa nova apologia confortou os pais, que ficaram tranquilos sobre a saúde dos filhos. — Coronel — disse de improviso Navarro —, lembro-me de que em uma de suas cartas queixava-se de qualquer moléstia; se ainda sofre, trate-se aqui com o doutor. Garanto que em poucas semanas o nobre deputado está bom. — Desculpe — acudiu, espinhado, o coronel. — Não sou mais deputado, nem o pretendo ser. Seu tratamento ofendeu-me. Por estes tempos de desmoralização e servilismo, o título de deputado é um labéu. — Pelo contrário! — opôs o diretor, vincando a testa. — É uma honra insigne. E é mesmo provável que o nosso amigo, num futuro não remoto… — Nunca! — exclamou o coronel, cheio de ódio. O diretor fora-lhe bulir no ponto sensível. Depois de sua queda do poder, dez vezes apresentara-se candidato, e dez fora derrotado, apenas sufragado pelo seu próprio voto isolado. Esses insucessos seguidos encheram-lhe a alma de rancor contra a sociedade. E veemente, a transbordar fel, o coronel atacou os homens de Minas. Navarro não gostava que se falasse do governo. Para quebrar o rumo da palestra, interpelou o elegante Penedo: — Que acha da nossa modesta chácara? O perguntado, com gesto de primor, arredondou uma frase florida; a chácara era um dos recantos bucólicos que celebra Virgílio, sob a doçura de um azul macio, debruado das tonalidades verde- -negras da mata; numa garganta, que era um tesouro, ela erguia-se
como um palácio de contos de fadas, de ouro esplêndido sob o dardejar do sol, engrinaldada de voos de andorinhas… Sua voz era pausada e veludosa, um andante de violoncelo. Navarro ficou encantado. Sem poder conter-se, segurou-lhe a mão com força, confidenciando-lhe efusivamente: — O senhor é um homem extraordinário! Um artista! Conserve preciosamente seu estilo. Procure os pais, fale, disserte, descreva… E, afastando-se do Penedo, namorou-lhe ainda de longe a belíssima estampa, contrapondo-a à do ex-deputado, a quem o acesso de cólera pusera descomposto, a camisa irrompendo da cintura, a gravata enviesada a escalar o colarinho. Nesse momento assomou à porta do locutório uma negra idosa, alta e hirta, prevenindo que o almoço estava na mesa. — Avise que já vamos, Luciana — disse o diretor. A negra retirou-se, tesa como um poste. Os dois professores novos, já almoçados, levantaram-se para sair. — Temos reunião no ginásio amanhã, à tarde — avisou o Navarro. — Não faltem. Lá combinaremos o que for necessário. Depois de amanhã as aulas começarão a funcionar regularmente. Depois de se retirarem, ainda o diretor gritou-lhes da janela, gracejando: — Dou-lhes vinte e quatro horas de férias! Voltando-se então para os presentes, o diretor explicou: — Viram-me galhofar com meus dois novos subalternos e hão de estranhar a intimidade. É que há em mim dois homens: aqui fora sou o amigo e meu coração é um trapo; abro o peito e mostro-o por dentro. Sou o colega, o camarada. Mas de portas a dentro das aulas, em hora de serviço, o amigo afetuoso é substituído pelo diretor inflexível. A intimidade e a amizade são do amigo, porque o diretor tem o coração de pedra! Durante a explicação Navarro assumiu atitude e expressões adequadas; dizendo-se amigo, inclinava-se para a frente, sorridente, em menção de quem vai abrir a caixa torácica pelo meio; e como diretor tornou-se tão rígido, com tais chispas de ferocidade nos
olhos magnéticos, que um arrepio de terror lavrou nos membros dos circunstantes. — Mas vamos ao almoço! — comandou Navarro, militarizando-se. E, com meneios de violência amistosa, impeliu-os de tafulho para o corredor. Nesse instante Décio travou-lhe do braço, pedindo um particular. — Dr. Peregrino, comande a falange, que não me demoro. Vão começando o assalto! — Que deseja, meu amigo? — perguntou-lhe Navarro, apenas ficaram sós. Décio perturbou-se; mas, vencendo a timidez, balbuciou com voz débil: — Navarro, diga com sinceridade: você gostou mesmo do meu insignificante artigo? Navarro segurou paternalmente as duas mãos do moço. — Muitíssimo! Você já é um escritor de estilo definido. O jornalista pôs-se a pestanejar muito e a roer desesperadamente o bigode, o que nele era indício de grande emoção: — Então… — perguntou, gaguejante — não é desfrute? O diretor apertou-lhe as mãos com força: — Excelente! Você é um escritor de raça. É digno de transpor os umbrais do Silogeu! Décio vibrava. Piscava freneticamente, e num movimento nervoso quase tosou com os dentes a metade do bigode. Mas o Navarro fechou o assunto, recomendando-lhe que desfechasse no “Estado” novas correspondências sobre os seus colégios. — Mas ao almoço! Marchar! — rematou, empurrando Décio, com rudeza de veterano. À porta do locutório estacou contrariado: — Vá para dentro, vá almoçando, meu amigo, quanto a mim inda tenho que fazer… É que ali, a um canto, encolhidos, timoratos, dera com o casal de velhos. E recomeçou, desesperado:
— D. Flávia, por que não me disse que não era viúva? Foi uma traição! E agora me põe amarrado… — e murmurou para si: — Que maçada! Que maçada! Ficou contrariadíssimo e pôs-se febril a passear pela sala, monologando: — Preciso de uma professora de primeiras letras e estou sem regente… É casada! tem o trambolho do velho! Não serve! Isto é lógico, claríssimo… Mas preciso de regente! É necessidade inadiável… A anarquia já está começando e pode impressionar mal… Então Navarro lembrou-se de chamar a mulher. Tendo alguém ao lado, acompanhando-lhe os raciocínios, resolvia melhor. E seu vozeirão atroou no corredor: — Adélia! A esposa atendeu-o, surgindo logo no locutório. Tinha uns trinta anos. Era magra, aparência histérica. — Veja, Adélia — e ele apontou-lhe os velhos —, é a regente, casada! É claro que o velho não pode ficar com ela no colégio; mesmo assim todos os dias serão visitas intempestivas, queixas de doenças, interrupções… Que hei de fazer agora! Vamos, auxilie-me… Com as mãos apoiadas aos ombros da esposa, encarou-a fixamente, como a beber ideias na sua figura apagada. De repente tomou uma resolução desesperada: — Não há remédio! É preciso que a velha fique. Leve-a, Adélia, leve-a… Flávia, em tremuras, tomou a trouxa que o velho lhe oferecia e acompanhou a esposa do diretor. — E o caro amigo… — acrescentou Navarro para o velho, repuxando-lhe um botão do colete. Fora uma frase e um gesto maquinal, por cacoete, pois sua atenção se concentrava, através da janela, no negro que ainda lidava no terreiro com os animais. — Estão bem ferrados, baiano? — gritou para fora. — Então vá aprontar o trole. O negro respondeu chamando a atenção de Navarro para o que
quer fosse, o que o decidiu a ir ao terreiro. À saída reteve-o uma voz trêmula. — Sr. Diretor… Com desespero viu que era o velho João. — Meu Deus! Não posso almoçar hoje! Vá embora, homem, vá para onde quiser! — Não conheço ninguém aqui… E eu queria dizer-lhe… — Possa-se com esta! — exclamou Navarro levando a mão ao sincipúcio. — Não me importune! Vá embora! E atirou-se para a escada como um furacão. Minutos depois, como tornasse, encontrou ainda o velho imóvel, no patamar, a esperá-lo. — Ainda está aqui! — berrou Navarro, a estourar. — Vá embora! Vá, vá, vá. O velho desceu a escada atarantadamente, fugindo ao diretor que se quedara no patamar, com um gesto de expulsão, em atitude trágica de anjo de extermínio. Navarro acompanhou-o com os olhos pela alameda em declive, achando-lhe gaiata a pressa trôpega. De longe, vendo-o lançar para trás um olhar de terror, acenou-lhe ainda com a mão que se fosse, que se fosse! Depois entrou, expedindo um suspiro de alívio.
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