Universo da obra
Universo da obra
Acabaram-se as aulas das três. No corredor do antigo teatro, como era hora de mudança de classe, a torrente de alunos que se dirigia para o edifício principal do ginásio encontrou-se com outra que vinha em sentido inverso. Foi como o referver ruidoso de dois caudais que topam de frente misturando as águas: houve balbúrdia, gritos, abalroamento propositais, sacões, rasteiras; em seguida o novelo humano desdobrou-se em duas turmas, a dois de fundo, a se afastarem uma da outra… Em passinhos lentos a sacudidelas de pernas, para as desentorpecer, os docentes buscaram o corredor já desimpedido, sem atenderem ao tumulto que lá ia nos salões de aulas, onde os alunos recém-chegados aguardavam. Apenas o ex chegou-se à porta do seu compartimento, para pedir em tom benevolente: — Menos barulho, meus amiguinhos! E dali foi reunir-se ao grupo de professores que alisavam palhas e preparavam fumo para os clássicos cigarros dos intervalos. Todos se mostravam perfeitamente tranquilos, porque era hora de o Navarro estar na Escola Normal, a podar arvoredos. Devido à algazarra dos meninos, baques de tampas de carteiras, corridas, retinir de tímpanos, os professores mal se podiam ouvir. O assunto versou logo sobre a indisciplina crescente que tomava os alunos no segundo semestre, em que tinham assegurada a impunidade, desmando agravado agora pelos ecos da imponente recepção do fiscal Matos Cobra. Cândido Rodarte pedia conselho aos colegas para conter os meninos.
— Eu não me queixo da indisciplina — disse o ex —, e não uso castigo. Estou muito habituado a tratar com homens, cujas qualidades existem em rudimento nos pequenos, de onde a justeza do aforismo “a mocidade é o porvir”. Assim, nas horas de reinação apelo aos sentimentos nobres dos meus queridos alunos, mostro-lhes sua tarefa no futuro, apresentando-lhes o quadro dos homens atuais hipócritas, inconstantes e traidores. Ah! no meu tempo não era assim! E o coronel suspirou com amargas saudades porque “no meu tempo” queria dizer — no tempo em que ele tinha eleitores. Cândido, que muito acatava a opinião do professor de civilidade, pelo grande ascendente que tomara sobre muitos colegas, dirigiu a ele um olhar interrogativo para ver se aprovava o método do ex-deputado. Mas Penedo volveu, incisivo: — Quanto a mim não apelo para coisa alguma. Faço como o Lago: vai tudo a sopapo. Cada vez mais decadente, tinha a roupa no fio e barba de duas semanas; e respondera áspero e breve, sem aveludados de entoação. Cândido achou o processo violento. Por isso ficou hesitante em “deixar correr o marfim”, divisa do Bias, ou em distribuir pelos alunos pastilhas e balas peitorais, como fazia o farmacêutico Mendonça. Nas aulas a algazarra continuava. Como águas que se despenham de rochedos altos, com intercadências de grande fragor e arrefecimentos súbitos, o ruído infernal dos rapazes fazia-se ouvir às ondadas. Aproveitando uma relativa calma, Penedo, visivelmente de mau humor, prorrompeu em protestos contra a última arbitrariedade do Navarro: — É uma roubalheira! Cada um de nós desembolsar cinquenta mil réis para entrouxar no tal doutorzinho mascavado! Tudo porque ele quis dar-se à alta recreação de cortar a perna a um pobre jornaleiro! Qual! um dia eu estouro… Referia-se ao meio conto que Peregrino exigira pela amputação do Matias. O diretor, querendo assegurar-se a boa vontade do
médico, que se fazia um tanto esquivo, repartiu a obrigação pelos professores, depois de uma eloquente arenga sobre a caridade. E não houve reagir. Penedo, a quem a perda das boas maneiras tornava ousado, quisera objetar; mas o Navarro abotocara-o com um “perdão!” formidável, que abalara as vidraças, e tirara ao atrevido o desejo de prosseguir no mesmo assunto. A essas palavras do Penedo, que fizeram vibrar no íntimo de cada ouvinte a mesma nota de revolta, o médico surgiu no limiar. Passou teso pelos colegas, em cuja companhia não gostava de comprometer-se, dando-lhes um superior e escasso aceno de mão. O coronel Mercês disfarçou; os mais retribuíram friamente. Penedo seguiu o médico com a vista, até que entrasse no salão de história natural, enciumado da gola de veludo do seu sobretudo novo. Teve então um profundo suspiro de rei deposto que vê sua coroa no cocuruto do usurpador. Ao perpassar do médico os olhos vidrados do farmacêutico, sempre rente ao ex-deputado, tiveram um brilho de alegria perversa, por haver conseguido libertar o coronel Mercês das garras do ganancioso facultativo. O coronel encarregou-se de contar o caso: — Sabem que esse Dr. Coisa cortou relações comigo? Somos hoje inimigos capitais, e agradeço ao meu bom amigo Mendonça o ter-me aberto os olhos. Lembram-se das minhas queixas a seu respeito; viram também, na noite da festa do Cobra, o sem-escrúpulo com que ele me apontava a cova para que me sujeitasse à operação na bexiga. De tanto repetir esse gesto agoureiro, tomou-me o espírito a vertigem da morte… A essa impressão se juntava um tal horror, que eu ia consentir enfim, e abençoando-o, por cima. Mas, para atender ao meu amigo, resolvi empregar a sonda cujo uso foi a minha salvação. E o mais ridículo do caso é que esse doutorzinho, mal soube disso, foi, como um menino que tomou uns cascudos, fazer queixa ao Navarro… O diretor mandou chamar-me. Quis obrigar-me a operar-me, censurando-me por implantar a discórdia no seio do corpo docente, mas respondi-lhe
francamente que o achava injusto e que minha saúde era coisa que principalmente me interessava a mim mesmo. À recordação dessa cena, uma nuvem obscureceu o bom humor do coronel. Lembrou-se do tom irritado com que o diretor queria impor-lhe as pazes com o médico. E não foi só: indo no mesmo dia examinar seus alunos, achou-os atrasadíssimos e decidiu passá-lo às primeiras letras, no princípio do mês imediato. O ex-deputado estadual não gostou da ideia, bem que o diretor lhe tivesse feito ver quão mais nobre era a missão de mestre de abc. Quem diria que ele se degradasse tanto na sua vida acidentada? Para fugir a essa torvação desagradável, o ex segregou-se dos companheiros, desistindo de prolongar o furto de tempo dos intervalos, e penetrou na sua sala, entalando na forquilha da orelha o cigarro apenas principiado a fumar. Com a sua presença a anarquia dos estudantes de aritmética e álgebra não diminuiu; apenas o Oscavo, travesso incorrigível, que havia escrito o quer que fosse no quadro negro, depôs o giz às pressas, e correu para o seu lugar. — Meus filhos — começou enternecidamente o ex —, façam menos barulho! A fervura das palestras baixou um pouco; e, sem incomodar-se com os recalcitrantes, o ex-deputado envolveu num olhar acariciativo a turma dos seus adorados alunos. Ali sentia-se completamente feliz. Depois que, na festa do inspetor Cobra levantara o seu protesto humano, teve a palavra asfixiada, mas não vencida, pelo tarataxim dos instrumentos da banda do Lago, começou a gozar entre os alunos de uma popularidade de encher as medidas. As palavras que ali lançara, através de uma atmosfera hostil, não as proferira em vão, pois notava que se haviam embutido no ânimo dos estudantes, que depois não deixavam passar ocasião de demonstrar-lhe seu apoio. Desde aquele dia memorável, cada vez que, com intoleráveis tenesmos, atravessava o pátio do recreio (andava um pouco disentérico), os alunos faziam-lhe cauda berrando com entusiasmo:
— Viva o coronel Mercês! — Viva o ex-deputado ao Congresso Mineiro! E muitos repetiam as frases que ele clamara naquela atitude veemente, o que mostrava que lhes haviam caído n’alma como a boa semente no terreno bom. Ainda na véspera, ao dirigir-se com urgência a certo sítio do pátio, levando às calças as mãos aflitas, pôs-lhe cerco numeroso grupo, que lhe fez as demonstrações costumadas numa avalanche de vivas. — Obrigado, meus amigos, obrigado! — dizia ele, tentando passar adiante. Não era fácil; os alunos reclamavam-lhe a atenção; e o Cerqueira guindou-se à barra fixa, de onde lhe fez uma comprida saudação por motivo de seu aniversário natalício. — Mas é um novo engano, como o da semana passada — interrompeu o ex. — Não faço anos hoje. — Faz, faz! É modéstia sua! — bramou a turba em efervescente entusiasmo, enquanto o da barra prosseguia: — Saúdo, pois, o aniversariante, impertérrito ex-campeão das pugnas políticas, o ex-farol do Congresso mineiro, o ex- -coronel Mercês… — Desculpe! — interrompeu de novo o manifestado — coronel ainda sou… Isto é, tenente-coronel, apesar de não haver tirado a patente. — É modéstia, é modéstia! — berraram de novo os alunos; e o clamor abafou o seguimento da saudação. Então o Cerqueira pulou abaixo e deu um sinal: irresistivelmente todos avançaram sobre o coronel, e carregaram-no em braços, dando com ele quinze voltas em torno do pátio do recreio. A essa doce recordação, sobrevinha naquele momento de início de lição, o ex sorriu interiormente, passando por alto, como página desagradável que se deve passar depressa e de nariz tapado, o desafogo que tomou nessa ocasião a fragílima natureza humana. — Meus bons amiguinhos… — começou a dizer em tom complacente.
Prestaram-lhe atenção os da primeira fila, entre eles o Weber, baluarte da aula de francês como de todas as outras, miudinho e pálido, eterno exemplo de estudioso apontado aos cento e tantos colegas. Com o tempo ia-se identificando com o aluno ideal de todo o mestre-escola, para o que ele se esforçava. Nas aulas, como seus colegas não parassem de mexer, e se pusessem em posições atravessadas, ou de cotovelos estatelados na carteira, o punho na cara repuxando as feições, ele levava de seu brio conservar-se absolutamente imóvel, empertigado como um soldado, os braços escorridos aos lados do corpo, o olhar cravado no professor. Ao recreio nunca brincava, quedando-se nas rodas dos sérios na posição sisuda das gravuras dos livros de leitura. Tinha uma memória assombrosa, não omitindo nem substituindo palavra das definições, com imenso gáudio do Navarro. Nos últimos exames ginasiais, a firmeza com que respondia ao Bias o “oui, monsieur!” fizera que o conclamassem primeiro aluno de francês, e que lhe fosse conferido o prêmio “Afonso Pena”. Os ouvintes eram ainda muito poucos; o ex queria reclamar mais atenção; todavia não se atrevia a censurar os que tagarelavam ou brincavam; tinha pelos alunos a benevolência de um chefe de partido com os eleitores. Ascendera muito alto na sua carreira política, e caíra depois, vítima de infames corrilhos de que acreditava fossem pactuários todos os altos personagens do Estado e da República, numa conspiração geral contra a sua pessoa; e vegetando depois apagadamente num recanto mineiro, desprezado e esquecido, não fora no coração dos seus queridos alunos que pela primeira vez acharam eco seus brados de protesto? Eles os haviam retido, como a concha o rumorejo oceânico, e agora ali estavam, patriotas do porvir, eleitores de amanhã, com a boa semente germinando na alma. Deles o ex-deputado esperava a reivindicação; por isso, depois de obter um silêncio sofrível, passou à parte principal das suas aulas, que era atassalhar os conventículos dos politiqueiros e os do governo. E regalava-se por ter ali um auditório para desabafar os seus agravos e propagar seus ideais patrióticos.
Os alunos deliciavam-se com essas digressões, que diminuíam os pontos para exames. O Weber, correto e atento, buscava decorar muitos conceitos do orador, para os repetir integralmente, sem a falta de uma palavra, como se fossem pontos de arguição. O Samuel, mocinho espigado, de expressão alerta, fiscalizava-lhe todas as frases, para filar erros de português. Seu fraco era colecionar batatas dos docentes e escabichar pelos dicionários coisas nunca ouvidas, para com elas, mediante perguntinhas que se fingiam de ingênuas, pôr em aperturas o professorado. Sempre com um lápis engatilhado sobre uma caderneta, era o terror dos que lhe conheciam o vezo. Chefiava uma rodinha que lhe devotava grande admiração. — Vocês, meus queridos filhos — ia dizendo o coronel —, serão os homens de amanhã. A salvação da nossa pátria infeliz está nas suas mãos. Como Cristo no templo, expulsem a azorragadas os vendilhões da… O ex sentiu na garganta um nó que lhe atalhou a palavra. É que, na sua fúria inspirada, circunvagando com febre os olhos sobre toda a classe, para hipnotizar-lhe a atenção, dera, casualmente, com as palavras escritas a giz no quadro-negro. Fixou-as de olhos muito esbugalhados e semblante mudado. Lia-se ali: “Deputado relaxado”. Passado o primeiro estupor, pulou do estrado com expressão homicida, como uma vez em que puxara faca no Congresso. — Qual foi o infame que escreveu aquilo?! — perguntou com voz rouca, o dedo convulso apontando as palavras fatais. — Quem escreveu aquilo? O mesmo silêncio. Então, dementado com aquele conchavo de mutismo, deu botes para cada aluno, perguntando, quase afônico: — Foi você? Então você, o senhor? Foi você? Tudo inútil. Afinal, dando acordo do seu ridículo, parou a tremer de ira no meio das carteiras, as mãos crispadas a fremerem, brancas no ar, prontas a esfrangalhar o primeiro gasnete que se lhes metesse de permeio. Repentinamente, determinando-se a ir buscar o Meira, saiu de repelão. O Meira veio, aconselhou, ralhou, e foi-se sem atinar com o culpado.
Todavia, a rajada de demência que assalteara o coronel, já se comutara em profunda comoção; e, em pé no estrado, sobranceiro aos alunos, começou um discurso vibrante, relembrando seu passado glorioso. Tantos louros que colhera, tantos aleives que desmascarara, o desastre da sua queda, e, por fim, entre seus amiguinhos vinha receber aquela afronta, a maior da sua vida! Entre seus filhos estremecidos, fibras da sua alma! — Eu não fui! Nem eu! — começou um chorrilho de protestos, logo que o ex-deputado resvalou para a ternura. — Mas aquele labéu — e atirou um gesto trágico para o quadro negro — não podia ter surgido ali, espontaneamente! Alguém o escreveu. Para que essa obstinação em negar? Digam o nome do culpado! Não querem acusar um colega? Pois bem, próprio culpado que se acuse, que de antemão está perdoado! E o coronel ex-deputado reforçou o seu apelo com o panegírico da verdade. Tendo em mira o seu programa básico de educação moral e cívica, citou casos de meninos que mentiam, e que no fim, confessando arrependidos a verdade, obtinham perdão e recompensa. A recompensa ali estava já no seu bolso, uma caneta-tinteiro. — Mas levante-se o culpado! Para o reinado da mentira bastam os conventículos políticos! O momento tornou-se palpitante; sentia-se que a verdade ia aparecer. E todos os olhares convergiam para o Oscavo, que havia um quarto de hora estava transido de pavor. Foi então que uma voz cínica e meio escarninha soou bem ao fundo: — Fui eu, Sr. Mestre! Lá estava o Martinho, de pé, a cara muito lavada, fitando o ex-deputado. — Venha, meu filho, aos meus braços! Sôfrego o ex precipitou-se ao seu encontro, cingindo-o demoradamente. E por ser tão bela aquela apoteose da verdade triunfante (ou por unânime zombaria), a sala prorrompeu num estrondoso uníssono de palmas. Houve alarma nas turmas contíguas de
meninos soltos; e, como alguns professores que ainda esforçavam o tempo no corredor, mostraram à porta a facha curiosa, perguntando o que sucedera, o ex, apontando para o Martinho, que baixara os olhos, modesto, declamou: — É a verdade que triunfa! Abraçou-o de novo, deu-lhe o prêmio prometido, e encorajou-o a que prosseguisse na mesma luminosa senda, para que um dia fosse um cidadão útil à Pátria, ao Estado e à Família. Em seguida foi sentar-se. O final da aula transcorreu sem novidade. Como de costume, a lição, enfim à baila, versou sobre cálculo mental e problemas sobre as quatros operações. Por fim soou o sinal para nova mudança de classes. Sem esperar mais, os alunos atiraram-se de roldão para o corredor. Apenas meia dúzia permaneceu na sala, pondo cerco à mesa do ex-deputado. Era o Samuel com uma rodinha de admiradores. O perverso rebuscador de dicionário trazia uma consultinha traiçoeira. — Senhor coronel — perguntou em voz blandíflua, cavilosa —, que diferença há entre “peão” e “noete”? — “Peão”, meu filho, é um homem que amansa cavalos — respondeu afavelmente o ex — e “noete”… deve ser um nó pequeno; por exemplo: dado num fio de linha, num barbante, etc. Os consulentes atiraram-se para a porta, abafando frouxos de riso. Só nesse momento notou o professor que na sala ainda havia ficado mais alguém. Era o Weber, o aluno impecável. Quisera destacar-se da classe em peso, e esperara sair até o último dos colegas. Então, em passinhos medidos e dignos, buscando com o olhar o professor que o observava, tomou da escova, e foi ao quadro negro apagar as palavras que, por geral relapsia exibira durante toda a hora os seus dizeres garrafais: “Deputado relaxado”. E, superior e impecável, retirou-se.
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