Leia agora
Falange Gloriosa

Universo da obra

Falange Gloriosa

Capítulo 18 · Falange Gloriosa

Capítulo XVIII

18 de 21 ≈ 19 min de leitura

No dia imediato, pouco antes da hora designada pelo Navarro para a reunião da congregação, os paredistas já se achavam num dos salões do ex-teatro. Estavam todos pálidos, desolhados, mostrando no debrum escuro dos olhos que haviam passado a noite em tenebrosas maquinações. Quando Bias apareceu, muito amarelo, muito abatido, Mendonça perguntou-lhe pela saúde: — Como passou depois de ontem, Sr. Bias? Sarou? O interrogado ficou indeciso sobre a resposta a dar; mas, como o professorado era bem capaz de alguma invencionice perigosa antes de chegar o Navarro, julgou melhor ter ali à mão, por seguro, a iminência de novas cólicas. — Quase… — gemeu ele —, mas parece que a toda hora vai voltar… Ai! — e levou as mãos à barriga. Felizmente ninguém naquele momento pensava em novas invenções. Nem tinham animação para “trocar ideias”. As frases que entre si proferiam eram lânguidas. Às vezes começava um simulacro de palestra que num pronto arrefecia. Quando ameaçava cair a hora terrível, condensou-se um silêncio expectante na roda à parte dos paredistas. Fluidos frios passeavam-lhes lentamente a espinha, para baixo e para cima. Dos olhares inquietos borbotavam interrogações ansiosas. Como chegaria o Navarro? Estourando como uma granada, fulminando, destroçando, pulverizando? Solene e gelado como um rei, para desarticular friamente um “passem bem?”. As vísceras tremiam-lhe, e os fluidos alastravam-se como passes magnéticos

pelo corpo todo. A cada momento esperavam ouvir o estrondo dos seus passos. A avalancha não ia tardar. Tudo, porém, eram infundadas apreensões; pelo contrário, Navarro irrompeu ali jovialmente. — Ilustres conspiradores, salve! — saudou, com um largo gesto. Entrara com o Dadico pelo braço. Este, de passagem, lançou ao inerme e trêmulo rebanho um olhar que era um raio de esperança. Sorridente, o diretor galgou o estrado, puxando para si o Dadico, que lhe resistia. — Não, Sr. Presidente da Câmara, seu lugar é aqui ao meu lado. Meira, um assento para o nosso benemérito agente executivo, que leva a sua condescendência ao ponto de vir assistir à nossa humilde assembleia. Enquanto Dadico, protestando, era instalado à força no lugar designado, os grevistas enfiaram-se por entre as carteiras americanas. Seus colegas, alheios à liga, foram também sentar-se, olhando-os com curiosidade. Vendo todos em silêncio e em ordem, Navarro começou, puxando um papel do bolso: — Preliminarmente, passo a tomar conhecimento das queixas dos senhores paredistas. Antes de mais nada declaro que, amparados aqui pelo meu grande amigo o Sr. Presidente da Câmara, podem desde já ter a certeza de obter tudo o que quiserem. — Obrigado, Navarro — agradeceu o secretário. Em seguida o diretor abriu o papel e leu as assinaturas. — Peregrino… Mendonça… Penedo… É incrível! Não encontro aqui o nome do Sr. Bias. Deixou a lista, e procurou com os olhos o professor de francês. — Será possível, Sr. Bias, que o senhor não seja participante do conluio? — Eu? — perguntou o interpelado com voz sumida. E, sem saber o que responder, observou atemorizado se os colegas não o iriam trair. Nada viu de alarmante. Dando de ombros, Navarro deixou-o em paz.

— Vejamos o que me pedem os senhores — disse, voltando-se para o papel. — Desejo que tenham sido francos. Creiam que em mim têm o maior advogado de seus interesses, desde que o que me peçam esteja ao limite das coisas possíveis e razoáveis… Navarro frisou a restrição. Os paredistas recearam que por esse furo escapulissem suas promessas. — “Considerando”, leu o diretor, “que as nossas condições climáticas são excepcionalmente privilegiadas… Considerando… Considerando…” — Um sanatório! — exclamou num pulo, chegando à oração principal. — Mas é magnífico! Estupendo! E essa ideia ainda não me ocorrera! Vi bem que nos meus projetos faltava qualquer coisa que o meu espírito tateava e não descobria… Era um sanatório! E, transfigurado, com a imaginação delirando, Navarro dizia quase monologando: — Famílias que convergem para a vila… O clima que se afama… Quem sabe se águas minerais! Veraneantes em bando — o escol das grandes cidades… — Dr. Peregrino, Dr. Cavagnari, os senhores que são cientistas, procurem pelas redondezas fontes minerais. Pesquisem pacientemente… Talvez encontrem perto águas gasosas… ou termais… Vejam, esmiúcem, analisem com o escalpelo da ciência mina por mina… Um sanatório! Águas termais! — Dadico, abra uma verba municipal para o sanatório… E, num arranco de régia magnanimidade, Navarro exclamou: — Peçam-me tudo! Concedo tudo! A exultação foi violenta entre os paredistas, que trançaram entre si olhares triunfantes. Penedo tomou um ar irônico, que parecia dizer aos colegas: — O homem capitula com habilidade. Bem sabia que não tinha outro remédio! — Deixemos, portanto, a preliminar que já foi resolvida, e tomemos o assunto que hoje nos reúne neste local. Conforme a metáfora que já tenho empregado, sou como o general que na véspera de uma grande batalha reúne a flor de sua oficialidade para determinar

a cada um o seu papel. “Vocês, a artilharia; é flanquear a praça de rijo; você acolá, investir de frente. — Apontar… — Fogo! O outro, na ala esquerda, aí vocês, assalto a baioneta: zzupt!” Não farei mais que repisar coisas já ditas e reditas, mas que nunca se tornam inoportunas, pois vejo que, malgrado minhas constantes advertências, as faltas se repetem. Começo por tocar numa questão importantíssima, o vestuário. Quantas vezes não lhes tenho dito que se esmerem no trajar? Pela fachada do edifício, muitos querem avaliar do interior; e a fachada de quase todos os senhores, é, na verdade, lastimável! Por que isto, meus amigos? seus ordenados não são pagos pontualmente? sua missão não é sobejamente nobre? Não posso compreender esta contumácia. Aqui na vila temos tantos alfaiates, dois, três, não sei quantos! Hoje mesmo vão tomar medida o Cândido, o Bias, o Penedo, o Camões, o coronel Mercês. Por especial favor excluo o Dr. Cavagnari; está bem ensebada sua sobrecasaca, mas, mesmo assim, lhe dá uma certa importância. Será a pança, doutor? Seja o que for, sua aparência impressiona bem; dá-lhe assim uns ares de sábio que vela as noites esfregando o nariz em manuscritos antigos… Mas precisa retocar tudo com benzina. Mande seu terno ali para o Mendonça, que o submeterá a alguma eficaz manipulação físico-química. O Sr. Mendonça conhece muitas reações miraculosas. Mendonça aquiesceu, e o poliglota protestou com um “ma!” que não foi atendido. Navarro insistiu ainda sobre o vestuário. Essa questão era agora mais que nunca capital, porque esperava ilustres visitantes. Deixava de lado o Cobra, que vinha fiscalizar os exames normais, pois esse era de casa; mas, como sabiam, o Dr. Romero Fagundes, deputado do distrito, vinha ser o paraninfo das professorandas. Há tantos anos convidado, finalmente resolvera aceitar esse encargo, depois do primeiro de novembro. Contavam ainda com Sua Eminência D. Sério, bispo da diocese, como paraninfo dos bacharelandos. Comprometera-se formalmente a vir. — Por falar nisto, meus senhores — observou Navarro —, D. Sério está profundamente interessado em criar uma certa

irmandade religiosa por esta zona. Escuso dizer que já lhe remeti o nome de todos nós… São cinco mil réis mensais a dar nesta vida, em troca do reino dos céus na outra. “Centuplum acipit”, dizem os evangelhos. Precisamos curar da outra vida, meus senhores! Somos carne e alma. Conservemos a carne nesta, e salvemos a alma na outra! Garanti a Sua Eminência uma centena de irmãos… Dita assim a última palavra sobre este ponto, passemos a outro. Designei o dia dezenove do corrente para as festas da Escola Normal, e o dia vinte para as do Ginásio. O programa das primeiras já está impresso, mas mal impresso, Sr. Luís de Camões. Há ali falta de estética nos tipos e na distribuição da matéria. Nunca mais imprima coisa alguma sem mostrar-me as provas, Sr. Camões, sob pena de multa. Aqui está o original para o programa dos festejos ginasiais. Não o dê a ninguém, componha o senhor mesmo, que é meio tipógrafo. Que diabo! É preciso não desonrar os louros do seu sexto avô. “As armas e os barões assinalados”… Seja também um barão assinalado, Sr. Camões. Muita arte, muito asseio. O senhor tem tal facilidade em deixar impressões digitais em tudo quanto pega! Fidelidade absoluta… Sobretudo, poupe-me o latim. O senhor estropia tudo quanto é da nobre língua de Cícero e de Tasso… Seu quinto avô era versado no latim, Sr. Camões! — Il Tasso! — reivindicou o “dotore”, com indignação. — Não se discute isso — atalhou o Navarro. — Fala-se sobre programas de festejos… Ouçam-lhes alguns tópicos: “Pró-pátria” — isto em letras garrafais, Sr. Camões. Mais abaixo: “Ex digitus, gigans”. Hem? Uma alegoria finíssima. Pelo dedo dos exames, mostramos o gigantesco da instrução que administramos. “Nosce te ipsum… Gutta cavat lapidem”… Que tal o frontispício? Vê-se bem que se está entrando no templo da instrução. Tive sempre queda pela língua de Xenofonte… Sou capaz de levar o reverendo à parede. “Hora, horæ, justus, justa, justum…” Mas que acham os senhores se, em vez de “gutta cavat lapidem” ficasse “Introibo ad altarem lucis”? Hem? Majestoso! O altar da luz! Já risquei a “gutta”, Sr. Camões, e fiz substituição. Ah, senhores, eu sou assim! Tenho sede de

perfeição e tudo quanto escrevo modifico, corrijo, burilo até a última hora. Às vezes penso que nasci com pendor para as letras… Admiro seu avô, Sr. Camões, e considero-o nosso primeiro poeta. Sei os Lusíadas de cor. “As armas e os barões assinalados”… É sublime! Tive sempre o desejo de escrever um poema épico em oitavas… Intitular-se-ia: “A pedagogíada”. Cedo-lhe a ideia, Sr. Camões. Nas férias o senhor vai escrever-me esse poema. Pinte dois exércitos inimigos — o livro contra a Ignorância, ou as Trevas contra a Luz. Descreva batalhas cruentas, todo o fragor de uma encarniçada peleja… No fim, faça o Livro debelar o exército das Trevas. Quanto ao nome dos comandantes, dou-lhe carta branca, faça o que entender. Mais tarde elucidaremos melhor o plano da obra. Voltemos ao programa: “Depois dos exames do Ginásio Equiparado Fiat Lux, os quais serão energicamente fiscalizados pelo coronel João Simplício Tinoco, provecto representante do governo federal dos Estados Unidos do Brasil…”. Nada era omitido. Estava ali a chegada do bispo, discursos de alunos, recitativos em francês, a cerimônia da colação de grau e no final declarava que se faria ouvir “o verbo flamejante do nosso douto e querido diretor”. Depois deste selo de chamas, só restava uma comédia em verso “Amor à instrução”, do Luís de Camões. Bem embaixo da página manuscrita, lia-se, como remate, o melancólico latinório: “Sic transit gloria mundi”. — Passo agora a determinar a sucessão dos exames, continuou o diretor. Amanhã, dezesseis, examinaremos todas as alunas da Escola Normal, escrita e oralmente. A dezessete, escrita do Ginásio, e a dezoito, orais, idem; a dezenove, festejos na escola normal, a vinte, no ginásio. E… “sic transit”. Hão de notar que nunca os exames foram tão rápidos como agora vão ser. É que cada vez todo o mecanismo trabalhará macia e eficazmente, em admirável harmonia e presteza. Por exemplo, amanhã são os exames normais, mas as escritas já estão prontas. Há pouco deixei na chácara todo o pessoal a passar a limpo as provas, sob a fiscalização enérgica da Adélia. Em meia hora as julgaremos. É inútil recomendar-lhes também todo o

rigor com as escritas daqui. “Scripta manent”. Para mim é a prova fundamental, porque é a que fica. A oral não passa de uma ociosa formalidade legal. Ó Meira, o papel, já se sabe, do acetinado de vinte e cinco linhas. Os senhores docentes ensinem os alunos a fazer-lhe uma dobra artística. Nada de borrões e a letra muito caprichada. Quanto aos alunos porcalhões, façam-nos copiar as provas duas, três, quatro, enfim, tantas vezes quantas forem necessárias. E não se façam de carrascos com os pobres infelizes que não souberem o ponto; deem-lhes uma ajudazinha de vez em quando, assim disfarçadamente, e… fechem os olhos a alguma “cola”, porque, digam-me, qual o estudante que não ‘‘cola”? Aliás, digo isto apenas por dizer, pois tenho a convicção de que os senhores os prepararam suficientemente para os exames. Calculo que lhes deram os pontos com a necessária antecedência. A oral, como lhes disse, é uma estúpida formalidade. Face a face com uma banca de exames, qual a alma infantil que não se perturba, perdendo noventa por cento dos seus conhecimentos? O que vale é a média mensal, e por essa estão todos aprovados com distinção. Quando o aluno não souber o ponto que saiu no papelinho, façam uma excursão por toda a matéria, depenicando aqui, onde se mostram fraquinhos, insistindo acolá, em terreno sólido. Perguntem-lhes de preferência aquilo que mais souberem. Mesmo assim, que os pontos sejam tirados à sorte. É outra estúpida formalidade. Ah, se tivéssemos como legisladores homens traquejados no ensino, tudo poderia ser muito simplificado. Mas… “dura lex, sed lex”. — O Navarro está hoje esperdiçando latim, cochichou Penedo ao ouvido do Dr. Peregrino. — Será que com a greve esqueceu o português? — Aquilo vem no fim de um dicionário que eu lhe trouxe do Rio — respondeu no mesmo tom o doutor. — Tenho-o encontrado a decorar páginas e páginas do apêndice. — Outro ponto. Não pensem os senhores que pela superveniência dos exames ficarão dispensados das lições. Absolutamente não! Sejam como o comandante de um navio em naufrágio, que

vê a mastreação por terra, o casco fendido, o leme em pedaços, e que mesmo assim não cessa de correr, multiplicando ordens: — À bomba! Amainar velas! Olá, ó da gávea e o do traquete!… Escaleres ao mar! A bombordo! A estibordo! — Ai, Navarro! me pregou um soco na orelha! — queixou- -se o Dadico. — Crie modos de gente nessa cadeira! Há mais de meia hora estou aqui com a espada de Dâmocles cai não cai em cima da cabeça. A tempestade amainou, e Navarro prosseguiu: — Deem aulas extraordinárias à madrugada e à noite, batendo no mesmo ponto (movimentos de malhar na bigorna), insistindo, repisando, e só passando adiante quando o que ficou para trás estiver bem sabido. Chamem de preferência os mais broncos, e malhem, até meter-lhes os pontos na cabeça (gesto de quem racha um crânio e atocha dentro um recheio de pontos). — Mas compreendem, por sem dúvida, que o naufrágio que figurei é uma pura fantasia retórica. Graças a Deus, não poderá haver sinistros. A tripulação de minhas naus educativas está perfeitamente amestrada, e o seu casco, delas, naus, solidamente reforçado nos estaleiros da competência e da dedicação profissional. — Gosto de falar por parábolas, como Jesus. — Todos os alunos irão a salvamento, com pouquíssimas restrições. Não ficaria bem uma aprovação assim a monte, seria até escandaloso. Haverá reprovações, indubitavelmente. Há por aí meia dúzia de garotinhos que me vêm aqui chuchar de meia-cara a linfa da ciência e que não poderão saber grande coisa. Será um estímulo para eles, um exemplo para os demais, e o irrecusável atestado da nossa energia. Há outros ainda, como o Rui Barbosa, irmão do nosso estimadíssimo poeta. O Napoleão também. Ao seu coração fraternal é um duplo dilaceramento, Sr. Camões; mas, longanimidade no caso. O senhor sabe como eles são broncos, principalmente o Rui Barbosa, que é um monumento de estupidez. Hei de dar-lhes a lista completa dos degolandos; mas aos desta categoria, já se sabe, reprova-se numa única matéria, da qual farão ato em março próximo, ficando assim sem perder o ano. No mapa ao Governo, Dadico,

você especifique bem que o Rui Barbosa e o Napoleão são irmãos de um dos docentes do Ginásio. E lá o meu sobrinho Ricardo… Por que você não continua os estudos? Podia inscrever-se agora; e, se estivesse fraco, seria reprovado numa matéria também, e o Dadico explicaria no mapa que você é meu sobrinho. Estamos combinados, inscreva-se. Agora, resta-me ainda dizer-lhes… Durante algum tempo desenvolveu novas instruções. Nada omitiu, auxiliando-lhe a memória, à guisa de quipos, uma fieira de papeluchos, que lhe pendiam, amarradinhos, da corrente do relógio. No final, fazendo menção de retirar-se, lançou as últimas exortações, com marcial entusiasmo: — Agora, acicalar, armas! brunir elmos! e arremeter com denodo contra a praça inimiga! Aqui o Dadico reteve-o pela aba do paletó: — Navarro, faça favor, decida já o negócio da greve. Você sabe que me interesso muito por isso. O diretor sentou-se de novo. — Tem razão. Vejamos o papel… Nas minhas algibeiras não está. O Meira foi apanhá-lo no chão, para onde voara no momento do naufrágio. E o diretor recomeçou a ler: — “Considerando que”… Mas é estupendo o sanatório! Famílias novas, veraneantes, águas termais… E, em todas as capitais, grandes cartazes: “Sanatório Fiat Lux”. — “Sanatório Dr. Peregrino” — retificou o médico secamente. — Concedido, com a emenda — gracejou Navarro, voltando- -se para ele. — Vejamos agora o resto. Aumento de ordenado… diminuição de serviço, liberdade de musa… Sob pena de demissão coletiva e imediata… Navarro depôs o papel e absorto rufou com os dedos na mesa. E enquanto os paredistas esperavam transidos, grandes coisas povoavam-lhe o mundo interior. “Demissão coletiva…” Esta última frase esvoejava no espírito do diretor como uma tentação, vindo, indo, tornando. — Demitir tudo, em globo! Escorraçar dali imediatamente, com um pontapé nas pousadeiras, aquele povinho irritante!

Nunca acharia melhor pretexto. E depois sanear com um jorro de desinfetante as cátedras que haviam ocupado; e, a exemplo da reforma da Câmara, instalar gente sadia e vistosa no lugar daquelas figuras maltrapilhas e macilentas. Quantas vezes não pensava nesta reforma necessária! Ia despejar tudo na rua, incontinente… Tinha na pasta um cento de cartões de candidatos a vagas. Era só um telegrama, “Venham!”, e teria número para escolher a ponta de dedo a nova oficialidade… Mas de momento havia muito em que cuidar, meditava lances geniais com que se absorver semanas e semanas, e para que criar-se uma situação que lhe tomaria parte dos cuidados? Mais um ano só, e resolveria tudo a seu contento e suavemente. — Está bom, concedo… em parte. Depois das férias, com vagar, reconversaremos sobre o assunto. E o diretor tornou a levantar-se: — Por favor, decida agora, Navarro — pediu Dadico. — Fixe pelo menos o aumento de ordenado. Irritado com a insistência, o diretor voltou-se contra o Bias: — Mas, Sr. Bias, será verdade que o senhor esteja alheio a tudo isto? É incrível! Depois de relancear novamente os colegas, Bias cabeceou negativamente com energia. — Então o senhor não entrou nisto? — interrogou Navarro. — Não… Eu estou satisfeito… — respondeu Bias, com a voz velada. — Jure, Sr. Bias! — Juro! Nada obstante o juramento, Navarro continuou incrédulo. — Pois eu até seria capaz de apostar que a ideia foi do Bias. — Ideia do Bias, não! — protestou Cândido, abespinhado. — Foi do Bias, Sr. Cândido, foi! — tornou Navarro. — Quem sabe se quer significar que foi sua? O senhor nunca teve desses arrancos de imaginação. Ninguém me tira da cabeça que o fomentador de tudo foi ali aquele senhor. Os senhores talvez não o conheçam. Há pouco tempo que meus olhos se abriram. O Bias é um

finório! Vejam ali a cara comprida que ele está fazendo… Não lhes conto até um certo episódio culinário, em respeito ao lugar. Mas D. Oleogarípia há de saber!… — Bias ficou lívido. — E para remate — acrescentou Navarro tomando o chapéu — saibam todos os reclamantes e não reclamantes que para o ano lhes concederei dez por cento de aumento sobre os ordenados atuais. Só excluo o Bias. Ele disse que está satisfeito… Em compensação, arranjar-lhe-ei mais uma aulazinha suplementar; vamos embora, Dadico. Adeus, meus senhores!

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Falange Gloriosa

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Falange Gloriosa

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Falange Gloriosa

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Falange Gloriosa Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 18 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir