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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 21 · Falange Gloriosa

Capítulo XXI

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Todo fim de ano havia sempre alguma pequena modificação no corpo de professores e regentes dos colégios de Navarro. Nesse ano o Ginásio perdeu Ricardo. Não houve para isso causas externas, apenas o resultado da evolução interior. Talvez entrasse um tanto o influxo da primavera, que foi excepcional. Por toda parte o que era germe e broto vingava com facilidade maravilhosa. Era uma eclosão profusa de verdes, de flores, um frutear copioso. E surriadas de chilros que chegaram a perturbar a alma. Da natureza esmirrada de Ricardo, dos seus desesperos, do seu tédio, das suas latentes aspirações, desse terreno preparado para a revolta, espipou uma tal torrente de seiva primaveril, que se quer expandir, e tornar-se em ramagens e florações, que resolveu libertar-se da estreiteza de sua prisão. Já o mundo para ele não se limitava ao Navarro; não o turbava mais a ideia da luta tremenda fora das paredes do colégio; nem tão mau seria assim o mundo! compreendia apenas que era grande e que ele precisava de um âmbito mais amplo que o daquela clausura em que vivia; se fosse preciso lutar, para a conquista de mais alguns palmos de espaço, sentia-se forte para a luta. Até mais, parecia que os assomos da primavera, que rugiam alegremente no seu sangue, ansiavam por ela. Ricardo queria viver. Era certo que por toda parte encontraria ferropeias e sofrimento. Mas que importava! E, como argumento decisivo, a imaginação sugeria-lhe as antigas visões estonteadoras: o desejo de

morder na polpa de frutos não provados, de gostar felicidades incógnitas, de amar, de lutar. Foi assim que no dia seguinte ao dos últimos exames procurou o Meira para despedir-se. — Sr. Meira, adeus! — disse, singelamente. O subdiretor viu-o de chapéu na mão, e com o ar de quem parte. Viu-lhe o olhar tão contente e a aparência tão diversa da que lhe conhecia, que adivinhou sua grande resolução. — Adeus! — respondeu o Meira. — Seja feliz — sua voz tinha a inflexão comovida. Como o moço se afastasse, Meira chamou-o: — Sr. Ricardo! Ricardo voltou-se e ele abraçou-o chorando. Eram lágrimas de pai despedindo-se do filho; mas o moço ria. — Não chore, Sr. Meira! Estou tão satisfeito! O subdiretor quis dar-lhe algum dinheiro. Ele recusou firmemente. Queria sair dali apenas com a sua mocidade. Mais tarde, se precisasse… Passando pelo Navarro, desbarretou-se jovialmente. Não lhe reparou na expressão atonitamente parva, nem ouviu o que lhe gritava. E foi seguindo. No largo, hesitou: que estrada seguir? Eram muitas, e se alongavam para todos os pontos cardeais. Para que, porém, essa hesitação? Todas eram dele. Estava livre como um pássaro para escolher o seu rumo. E meteu-se por uma delas, indiferentemente. De caminho, sentia na garganta um prurido esquisito. Era vontade de cantar. Mas cantar o quê? Só sabia hinos escolares, e esses, detestava-os… Então gritou versos às árvores, ao céu, às montanhas, aos pássaros. Súbito, deu-lhe para rir. Riu-se, riu-se até às lágrimas, sem motivo algum. Agora o caminho subia; e certo momento chegou ao cimo de uma montanha. E viu sobre si um céu que nunca sonhara, vastíssimo, sobrepondo-se a um fervedouro de serras que se boleavam para todos os lados. — O mundo é enorme — murmurou Ricardo, varrendo os horizontes com o olhar sonhador. Procurou ali embaixo a vila. Lá estava, a seus pés, com o seu punhadindo de casas achegadas umas às outras. Pela ilusão da

perspectiva parecia conter-se no espaço de alguns metros quadrados. Alguns pontos escuros, minúsculos como insetos, moviam-se nas ruas da largura de uma polegada. Eram três-barrenses. Ricardo amiserou-se de tanta pequenez. E riu-se, lembrando que um bichinho daqueles pretendera escravizá-lo numa lura fazendo-lhe crer que uma casquinha de noz era o universo. Em um daqueles pontos quase imperceptíveis agitavam-se ambições, sofrimentos, desejos e uma tão grande maré de soberba presunção, que acreditava que o mundo devia gravitar em torno da sua insignificância. Então Ricardo deixou-os, para dominar de novo a amplidão com o olhar extasiado. Por toda parte o galope sem fim de montanhas para o horizonte sem raias. E com o peito intumescido pelo anélito ardente da liberdade, e o sangue alvoroçado em esto de vida intensa, murmurou: — O mundo é imenso! E ante a imensidade tinha sensações de dono. Por sua vez, a Escola Normal ficou sem Flávia. João não se resignou a continuar na mesma vida: agora que lhe voltara alguma saúde, quanto mais pensava nas dificuldades para arrancar a mulher ao Navarro, mais se açorava em regressar com ela para o Douradinho. Navarro obrigara a velha a assinar contrato por cinco anos? Flávia, como dizia, era sua devedora? Não tinha dinheiro para o retorno? Eram tudo nicas. Ele sentia-se com forças para arrombar, matar, arrasar, contanto que a libertasse! Assim pensando, recobrava ousadias de moço e forças de homem válido. Flávia a seus olhos não era mais a buliçosa rapariga de suas doentias visões, e sim uma doce velhinha, fraca e indefesa, enclaustrada pelo demônio num inferno de torturas. Instava salvá-la, libertá-la a todo o transe! Para defendê-la, quem mais havia no mundo senão ele? A superveniência das férias acabou de incutir-lhe a grande resolução. Três Barras, com o êxodo dos estudantes e o silêncio dos repiques, tinha o ambiente repassado de melancolias outoniças. O choro das casuarinas do largo, a difusa claridade que caía do céu baço, o menear monótono do arvoredo sob as lufadas pressagiadoras das

chuvas de dezembro, a ausência do Dario, tudo agravava-lhe a tristeza. Finalmente, uma manhã em que vira o Navarro dirigir-se à estação, de partida para a sede da diocese, onde tinha vastíssimos planos a concertar com o bispo, ficara João febricitante, e resolvido a colher a ocasião pelos cabelos. Ia salvar Flávia, raptá-la incontinente, e fugiriam, sendo possível, naquele dia. No mesmo instante foi procurar o padre Gauquério. — Ah, Sr. Padre, estamos no fim da vida, queremos morrer em sossego na nossa terra! Pelo amor de Deus, Sr. Padre! — Mas que quer você? — perguntou, atônito, o Vigário. Ele balbuciou o pedido. Não tinham recursos, a viagem era dispendiosa. — Quer dinheiro? Por que não disse logo? Vamos ver quanto precisa… O reverendo foi liberalíssimo. Também andava tão feliz, que não queria ver ninguém descontente. Dissesse-o a Maria Gansa, cujas últimas lágrimas se haviam evaporado desde a vitória nas urnas. Animava a companheira com tais extremos, que era um delicioso recomeçar da lua de mel; e as carícias que prodigalizava à pequenada, mostravam que dentro de sua batina batia um amantíssimo coração de pai. O velho fez suas últimas despedidas ao tio Roque. Foi procurá-lo na meia-água, onde jazia de cama profundamente quebrantado. — Tio Roque, Deus lhe pague com uma velhice sossegada todo o bem que me tem feito… O sacristão teve forças para abraçá-lo. — Adeus, Sr. João… E para sempre, porque estou por pouco. Deus parece que atendeu ao meu pedido, e vai livrar-me logo deste mundo… — Não fale assim! — protestou João. — O que o senhor tem é só fraqueza. Isso passa, verá! — Fraqueza? — tornou tio Roque em voz surda. — Então pensa que poderei suportar a vista dos mocinhos vereadores na primeira sessão da Câmara nova? Não, não… O mundo anda

de pernas para o ar, Sr. João; penso às vezes que é a chegada do Juízo Final… João deixou-o, condoído. Só então dirigiu-se para a Escola Normal. Pelo caminho ia memorando todas as etapas dos seus sofrimentos. Lembrava-se de como caíram ali, descuidados, entre as garras de um homem sem caridade. Revia as angústias da separação, o seu delírio senil, as vergonhosas torturas do ciúme naquela idade, a longa crise cardíaca… No lugar que pisava agora surgira-lhe um dia o Navarro, armado de um podão, vedando-lhe a passagem. Se estivesse outra vez ali, naquele momento, ainda teria receios? João respondia para si que não; mas involuntariamente insinuou o olhar atemorizado por entre as magnólias da avenida. Ninguém, graças a Deus… Subindo as escadas da chácara, encontrou-se com a Luciana, que descia. — Faça o favor de chamar a Flávia — pediu. Não precisava dizer para quê. Tudo já estava há tempos combinado. — Não sei se ela poderá vir… — disse a negra. — Parece que o patrão deixou ordens para… Em todo caso, vou avisar. E a preta entrou de novo no edifício. Quem apareceu primeiro foi Adélia. Estava pálida e tinha convulsões nos dedos magros. — Vá embora — disse ao velho, com a voz sem timbre. — Não tem licença para vir aqui!… João sorriu-lhe calmamente, sem responder nem mover-se do seu lugar. Os braços de Adélia contorceram-se, num princípio de insulto nervoso. Sempre que a contrariavam vinham-lhe os fanicos. — Vá embora! — repetiu, num guincho histérico. E, muito branco, vendo o velho continuar a fitá-la sorrindo placidamente, agarrou-se ao portal: — Luciana! O éter! Nesse momento Flávia apareceu. Trazia uma trouxinha. — Vamos — disse João. E saíram, sem se impressionar com os gritos estrídulos que Adélia soltava. Era assim todos os dias, explicou Flávia, mas não havia perigo. Deixassem-na, lá, com o

seu nervoso, que por vontade dela não sairiam… Ei-los agora. Vão renteando a barranca na estrada deserta. A sua primeira tranquilidade, porém, abandonara-os; malgrado saberem o Navarro de viagem, a imagem dele revestia tudo e o fazia onipresente. Seus corações estavam cheios de susto, e as pernas trôpegas se aligeiravam por milagre. E, tropeçando e resfolgando, lá iam céleres, atirando a cada passo olhares esgazeados por cima dos ombros. Chegados ao povoado buscaram a estação pelas ruas mais escusas. Enfim, já tranquilo, João quis mostrar-se amável: — Dê-me sua trouxinha, Flávia… Flávia entregou-a sorrindo: — É justo que quem a trouxe também a leve… João olhou-a embevecido. Era tão suave o sorriso de sua companheira! E agora era para nunca, nunca mais se separarem. — Flávia, disse então, estou sentindo a mesma comoção que tive ao furtar você a primeira vez, há quarenta e seis anos; parece-me que ainda somos noivos… — João! — censurou docemente a velha. O marido calou-se, mas um sorriso malicioso que lhe aflorou aos lábios indicava que ainda tinha mais que dizer. Flávia viu-lhe o sorriso. — Em que está ainda pensando? — perguntou com amuo. — Estou pensando que esta noite vamos dormir juntos… — João! — atalhou a velha tapando-lhe a boca com a mão. Nada mais disseram, mas o velho conservou-se sorridente o resto do caminho, ao passo que Flávia disfarçava um inexplicável enleio. Chegaram à estação muito cedo, hora e meia antes do trem, e foram esconder-se num ângulo da saleta de espera. Então puseram-se a evocar o futuro. Iam, pois, rever o Douradinho, o velho casarão de vidraças partidas, os antigos conhecidos! Como estariam estes? A Maria talvez já estivesse de filho; quem sabe se o vigário sarara do reumatismo? O Anastácio prometera-lhes uma leitoa; haviam de reclamá-la… E Flávia acompanharia de vela acesa a primeira

procissão, para cumprir uma promessa pela saúde do velho. Fulano e sicrano haviam de mandar as crianças à sua escola, outra vez… E o momento da chegada, o Lava-Pé de águas claras, a capelinha, os abraços nas comadres e nos compadres, sorriam-lhes antecipadamente. — Veja se o trem já apontou, João… — dizia a velhota a cada momento, ansiosa pela partida. Afinal ouviram-lhe ao longe a surda trepidação, seguida de um longo apito. Enfim! Pouco depois, em ruidoso matracolejo e esguichando vapor, o trem parava na plataforma. Azaranzados, tontos, dando-se uma pressa desnecessária, os velhos foram-se enfiando pela portinhola. Dentro deixaram-se cair, de fôlego curto, num banco. Dois minutos depois o trem partia. Nesse momento, um indivíduo de enormes bigodes, que havia desembarcado, chegou-se à janelinha do carro e exclamou para o João: — Ó vovô, olhe a trouxinha! Já ia esquecendo da outra vez… — Muito agradecido! — disse João, tomando-a. — Não há de quê! — respondeu alegremente o sujeito. — Boa viagem! — Flávia — disse o marido para a velhota —, olhe, olhe lá! Foi aquele moço que mandou recomendações a você no dia em que desembarcamos… Lembra-se? E chegaram-se os dois curiosamente à janela. Não, não era conhecido, disse a velha. De longe o sujeito dos bigodes ainda lhes acenou com a mão, sorrindo.

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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