Universo da obra
Universo da obra
João fugia, quase correndo, como encalçado por uma matilha de cães raivosos. A espaços atirava para trás olhares repassados de terror, com receio de que o perseguissem. Sua moléstia circulatória produzia-lhe no íntimo grande revolução, que se traduzia num ofegar rouquejante. Tanto que o espigão encobriu a escola normal, moderou o andar, procurando coordenar as ideias; mas seu estado de espírito era uma espécie de exaltação mórbida, como a que causam certas substâncias letais; e suas ideias baralhavam-se em incoerências de loucura, fugindo-lhe, fluídas como entre malhas de rede a água aprisionada. Tinha raros momentos de clarividência, que se esbatiam na sua confusão como instantâneas projeções ópticas numa câmara escura. Era a escuridão, um rápido fulgurar, e em seguida a escuridão. Ora via o diretor, formidável, alto como um pinheiro, o longo braço estirando no ar um largo gesto sinistro, “vá, vá, vá…”, ora o dorso corcovado de Flávia desaparecendo no bojo da escola normal; viu num relance o uniforme azul do chefe de trem, pedindo os bilhetes (João num movimento instintivo apalpou os bolsos); ou antolhava-lhe ouvir ainda os guinchos sacudidos da locomotiva, dispersando em desabalada fuga as reses desgarradas que lhe galopavam à dianteira. — Queira Deus não aconteça algum desastre, Flávia! Procurou-a ao lado, para sentir-lhe o contato reconfortante. Ninguém… E cheio de pasmo estendia o olhar pelas plantações que margeavam a estrada.
Ninguém… e a realidade aos poucos acentuava-se, exata e implacável. Haviam-lhe tomado a Flávia; e, a ele, desterravam- -no para entre estranhos. Não tinham mais recursos para voltar, a separação era inevitável. E João, habituado a agir sob a doce autoridade da companheira, a quem entregara a vontade para que a regesse por ele, sentia-se mutilado e só. Senhoreou-o então uma sensação esquisita. Lembrou-se de certo dia, em menino, muito menino, quando uns parentes o levaram a passar uns tempos no Machado. Deixara os pais com a infantil alegria de viajar a cavalo. Mas no caminho, ouvindo a entoação de vozes que não lhe eram familiares, vendo rostos a que não estava afeito, e fatigado pelo monótono e longo jornadear, teve a impressão que devem sentir as criancinhas novas quando “estranham”. Um nó arrochou-lhe a garganta. Não era bem nostalgia, nem tristeza, e sim o amargor de um misterioso desespero que não tem as lágrimas como expansão, e que não encontra expressão correspondente na linguagem, porque a linguagem não é feita pelas criancinhas. Sofrendo a influição desse antigo estado de ânimo, João sentia-se como uma criança desamparada. — Apresentar armas! — gritou súbito uma voz de falsete. A dois passos de si, rente ao chanfrado, entreviu o Dario, minúsculo e empertigado, a mão esquerda em continência, a outra erguendo a prumo o espadim. Vislumbrou-o e passou, sem o reconhecer. E continuava a caminhar, apático, os pensamentos assombrados num nevoeiro, quando sentiu que lhe puxavam a aba do paletó. Teve um grande susto, lembrando-lhe o diretor. Era Dario. Ante o olhar amedrontado do velho, o menino soltou uma casquinada: — Ficou com medo, careca? Você pensou que eu te ia furar com a minha espada? O velho encarou-o sem palavras, e recomeçou a andar. Generosamente Dariozinho embainhou a lâmina, e pôs-se-lhe de par, tagarelando: — Você é bobo, careca! Era brincadeira, porque não sou louco. Esta espada é só para quando eu brigar com o Cerqueira. Então eu
faço assim: E arremessando-se de arma em punho contra o invisível inimigo: — Espere, Sr. Cerqueira! E dava botes, ou recuava, como um leãozinho, de acordo com as peripécias imaginárias da luta. Depois acompanhou quieto o velho. Mais adiante mostrou-lhe estripada no chão, o endocarpo amarelo à vista, vestígios de terríveis cutiladas, uma grande abóbora, que se atrevera a dizer-lhe imaginárias insolências. — Eu só espeto quando bolem comigo, careca. O chilrear do menino atraiu aos poucos a atenção dispersa do velho. Muito amante de crianças, João pousou-lhe a mão no bonezinho militar. Sensível à carícia, Dario calou-se, erguendo para ele os olhos: — Como é que você se chama? — João. O menino pensou qualquer coisa. Depois perguntou, inquieto: — Você não fica zangado quando lhe chamam careca? Triste como estava, o velho sorriu involuntariamente. — Não fico, não, meu filho. Outra pausa. E o interrogatório prosseguiu: — A velha vai ficar no colégio? — Vai. — E você onde vai morar? João teve um gesto vago. Como, porém, a pergunta lhe revocasse as amarguras do presente e as incertezas do futuro, enxugou uma lágrima. E fosse que julgasse ter ao pé um coração que o entendesse, ou necessidade de expansão à dor, pôs-se a contar a sua vida, o futuro que com Flávia sonhara, as fadigas da viagem, o grande impasse final… Concluiu vertendo amargo pranto. Por que não morrera ainda? Que destino lhe estaria reservado? Ia talvez, pedir esmolas? Pedir esmolas! Como um aleijado… Sua narração impressionou profundamente Dario, que admirado o fitava. Como nunca presenciara um velho chorar, via, com um misto de dó e comiseração, escorrerem-lhe as lágrimas pelos sulcos das rugas, indo empastar-lhe as barbas. Ouvindo falar em esmola,
ele maquinalmente, com uma espécie de temor religioso, e a encará-lo com insistência de hipnotizado, insinuou a mão no bolso do dólmã, donde tirou uma moeda. — Tome, Sr. João… Pode ficar com a pratinha. Não dou mais, porque não tenho. — Não, meu filho, não quero, recusou o velho. — Tome, tome! E como o velho repelisse a mãozinha dadivosa, Dario deu um pulo e introduziu-lhe a moeda no bolso. E teimando o menino em não aceitar a restituição, João declarou-lhe que a guardaria como lembrança. Então Dario começou a queixar-se, por seu turno. Seu pai a encher a pança na escola normal, e ele esquecido ali, na estrada, sem almoço! Estava com tanta fome! Pois o pai já não podia tê-lo deixado no ginásio, entregue ao Meira, o subdiretor? Mas qual! Chegando às Três Barras era um tal assanhamento com o Navarro, que se esquecia de tudo. — E o Navarro é um prosa! — exclamou, fazendo recair sua indignação contra o diretor. Depois sua loquacidade estendeu-se por uma infinidade de pequenas coisas. O velho já não o ouvia, imerso de novo em sua tribulação presente. A tagarelice do menino coava-se através de sua confusão como uns sons remotos, mais garganteio de ave que palavras humanas. Chegados insensivelmente ao coração da vila, João, vendo o preto velho abrir uma porta lateral da igreja, teve vontade de rezar. Entrou após o sacristão. Sob as naves as suas passadas produziram um barulho enorme. Ao menor som, ecos roncavam, trovejantes. Acostumado à modéstia da capelinha roceira onde sabia orar tão bem, o velho perturbou-se. Via-se pequenino demais no amplo bojo daquela igreja; e, ante as imagens que ladeavam o altar-mor sentiu-se como em presença de deuses estranhos, de ritos ignorados. Aquelas imagens não o reconheceriam como seu antigo devoto; as feições e proporções eram todas outras das que ele conhecera no
Douradinho, minúsculas e familiares. Latentemente se formavam impressões fortes no seu espírito. Aquele Cristo, oprimido sob pesada cruz, tinha nas pupilas fitas a ferocidade de um deus inclemente, de vagas parecenças com o Navarro, pelo magnetismo do olhar sombrio. O sangue rubro manando de suas chagas, lembrava nódoas num magarefe depois da chacina; ao contrário, no olhar da Virgem Lacrimosa revia uma tal alucinação de sofrimento, que, absorvida na sua própria dor, impotente para remover sua louca desesperação de mãe sem filho, ela jamais o volveria aos tristes que a implorassem. A suntuosidade dos ornatos, o esbanjamento dos dourados, pareciam fazer daquela igreja um templo propiciatório aos ricos e não a um frangalho de criatura como ele. Profundamente perturbado, João buscou com o olhar um lugar mais modesto, para fazer as suas rogativas; foi por fim ajoelhar-se num recanto obscuro ante o santo do seu nome, mais acolhedor e quase lamentável, esquecido como o fora num retábulo humilde, pardo de poeira, e cercado de esmaecidas flores de papel. E o velho absorveu-se em oração. Concomitantemente Dario punha o velho em grandes aflições. O circunspecto acólito de longos braços esgazeava olhos aterrados, à expectativa de algum cataclismo mandado pelo céu para castigo do travesso menino. Via sua fardinha desaparecer e repontar no mesmo instante por toda parte. O menino fazia um barulho infernal nas tribunas e no coro, boné na cabeça e refle nu, remetendo contra morcegos tontos que desencafuara não se sabe onde; a espaços emitia gritos de emoção, derrubava estantes, e se sovertia nas portas laterais. Certo instante ouviu-se o rumor surdo e rápido dos seus pés, galgando a espiralada escadaria da torre, em perseguição da caça que lhe fugia. Receando diabruras, o preto seguiu-lhe as pegadas. Daí a pouco o menino volveu, acuando com sanha um enorme quiróptero, que num voo pesado circulou a nave, e foi abater no nicho de São João. Dario emocionado tropeçou no velho. — Saia, careca! não me atrapalhe!
No momento em que suas mãozinhas ágeis se afirmavam no altar para guindar o corpo, João reteve-o, admoestando com brandura: — Não faça isso, meu filho! É falta de respeito! — Por quê? — perguntou Dario, ainda fremente das peripécias da caçada, e o rostinho a tressuar. — É pecado, meu filho! — Ah! Com a interjeição, o menino cravou-lhe os olhos límpidos, onde a admiração se pintava. A palavra “pecado” na boca do velho se revestia de uma grande força. Quantas vezes, cursando o catecismo no ginásio e nas prédicas aos domingos, a ouvira ao padre Gauquério! Mas embirrava com este desde que um dia tomara a liberdade de puxar-lhe as orelhas em aula. Chegara a tomar-lhe ódio. E nesse dia Dario alcunhara-o de padre Ganso, por causa da caseira, Maria Gansa, de quem tivera muitos filhos. O menino docilmente tirou o quepe e postou-se ante o velho na humildade de quem reconhece que cometeu uma grande falta. Mas perdeu a compostura ajuizada ao ver avizinhar-se esbaforido, as chaves tilintando-lhe na extremidade do braço, o sacristão, que inutilmente procurara alcançá-lo. O preto não se zangou; antes mostrou num sorriso bom as gengivas sem dentes. Gostava tanto de crianças! Era ele que nos seus braços de octogenário criava os rebentos da Maria Gansa, que o tratavam de tio. Fez a Dario quaisquer recomendações paternais, que este não ouviu, vivamente interessado, a seguir com o olhar o seu morcego, que abria novamente o voo tonto, indo pousar entre os círios do altar-mor. Entrementes João se erguera, reconfortado. O sacristão cumprimentou-o, e, como era afável, perguntou-lhe se haviam acertado o caminho da escola normal. Dada a resposta afirmativa, silenciaram os dois, imóveis, frente a frente. E como João notasse nas feições do preto um certo interesse, e o desejo de fazer perguntas que a discrição calava, encetou segunda vez, com malrepresadas lágrimas, a narração da sua odisseia. O preto sacristão, ou tio Roque, como era conhecido, comoveu-se ouvindo-o, pois tinha coração sensível. Não era de impostura que se
mostrava grave e circunspecto; essas maneiras solenes, dava-lhas a consciência de suas responsabilidades. Porteiro da Câmara e sacristão, uma e outra coisa de longa data, atravessara a vida ingenuamente embebido em duas adorações. A igreja e o Conselho deparavam-se-lhe como sumas potestades gêmeas, a que prestava culto igual. Ninguém como ele sabia dobrar o joelho ante os altares e conservar tão inalterável respeito nas mínimas coisas do seu ofício; trazia a igreja, para quem tinha extremos de pai, como num mimo, muito de ver; várias vezes por dia ia ver se os linhos estavam bem alvos, e o Santíssimo sem azebre; se por acaso visse neste algum tisne esverdinhado, ia cheio de unção buscar uma pouca de água benta; e com uma escova igualmente benta, procedia de joelhos à melindrosa limpeza, um olho no metal e o outro revirado para os anjinhos papudos da abóbada, como se a salvação de sua alma estivesse empenhada naquele ato. Na Câmara sua atitude era a mesma. Os fazendeiros vereadores, idosos e de longas barbas amarelentas de sarro, homens silenciosos cujas sessões eram augustas e sem palavras, e que discutiam apenas com vagos movimentos de olhos e lentos meneios de cabeça, impressionavam-no como uma assembleia de papas. Seu olhar injetado de sangue não se desgrudava deles; e sem motivo acudiam-lhe à boca os latins dos responsos; ao passo que os joelhos lhe amoleciam numa tendência à genuflexão. O asseio do prédio onde se reuniam, não lhe merecia menor desvelo, e ao tirar das escarradeiras os escarros pegajosos, fazia-o com a mesma unção com que limpava o azinhavre do Santíssimo. E assim a Igreja e a Câmara se irmanavam no seu espírito. Como eleitor, acompanhava a rotina desde tempos imemoriais. Os partidos gangorreavam; os chefes renhiam em altibaixos de predomínio; rajadas eleitorais varriam o pessoal das câmaras derrotadas; malgrado tudo, seu voto era imutável: sempre com a Câmara. E sorrindo a esta veneração e coerência, os vitoriosos o poupavam… Mas em sua vida houve um lanço de grande tribulação. Causara-o o atual vigário, o padre Gauquério, homem de gênio independente e arrebatado, fanático de tricas politiqueiras. Numa sessão agitada rompera
violentamente com o Tipico, jurando derrotá-lo com uma oposição formidável; e ao sair limpara na soleira da Câmara o pó dos seus sapatos. A essa dissidência o cérebro do tio Roque tresvariou, pois o reverendo exigiu seu voto. Caiu de cama, gravemente enfermo. Seria possível?! Duas potências divinas a jogarem as cristas?! Igreja versus Câmara?! Que seria da bela harmonia com que as grandes chaves lhe tilintavam, cônsonas, na mão? Era como se o céu fosse de súbito desabar. Extinguia-se a harmonia do globo, e caos em luta ia aniquilar a Terra. E na cama, com febre, o velho sacristão delirava; fantasmas horrendos surgiram ante seus olhos alienados; e foi para sua vida como um segundo alvorecer suavíssimo, a notícia da fusão ocorrida nas vésperas do pleito entre o reverendo e o diretório desfalcado, que, bombardeado do púlpito com extrema violência, se apressou a apresentar ao padre bases plausíveis para um acordo. A olhos vistos tio Roque medrou de novo, miraculosamente curado; e tudo continuou como dantes — as potências congraçavam, e ele continuava a alvejar o linho das aras e a votar com a Câmara. Morava numa meia-água, dependência da habitação do reverendo; servia à mesa deste, e auxiliava a Maria Gansa o meneio interno. Era adorado pelos pequenos do padre. A criançada não lhe dava tréguas, trepando-lhe ao ombro ou tomando-lhe de assalto o cachaço. Trocava a fralda aos pequeninos e lhes ensinava a andar; e era de ver a maternal ternura em que seu olhar se diluía, quando os pirralhos lhe diziam pela primeira vez: “Tio Loque!”. Quando João terminou sua narrativa, grossas lágrimas lhe desciam pelas faces. “Que fazer agora?” murmurara: “Tomar o bordão dos mendigos e ir de porta em porta, esmolando migalhas!”. Então o preto ofereceu, com sinceridade: — Enquanto o amigo não achar algum arranjo, venha ficar comigo. Meu cantinho dá para dois. O senhor há de gostar de siá Maria, que é mulher muito boa. E explicou naturalmente, como se se tratasse de coisa lícita e aprovada por Deus: — Siá Maria é a companheira do padre Gauquério.
— Mas sou um traste velho, que apenas lhe vai ser pesado… — objetou João. — Não senhor! Não se acabrunhe por isso. O senhor pode ajudar-me em muita coisa. João agradeceu efusivamente. Depois ainda palestram, combinando os serviços que o velho podia prestar. No Douradinho ajudara à missa, tempos atrás: conhecia também quase todos os toques de sino… Interrompeu-os de improviso uma bulha infernal. O altar-mor ia em despenho; círios e castiçais rolavam de cambulhada; e, bem ao alto, imagem do triunfo, Dariozinho dançava de alegria, exibindo o morcego, seguro pela ponta da asa: — Peguei! Olhe, João!… Olhe, macaco velho! Em dois pulos atirou-se abaixo para contar-lhes as peripécias da caçada. A luta fora porfiada, o bicho mordera-o, a espadinha partira-se… A este ponto o menino aplicou o ouvido a um rumor conhecido. — É o trole do Navarro! — exclamou, correndo para fora. Com efeito, acentuava-se um fragor de rodas sobre pedras, e o trote compassado de animais. Junto à igreja o veículo parou, para receber o menino. Um vozeirão interpelou-o alegremente; no mesmo instante ouviu-se o berro assustado do Baiano, cocheiro do trole, recebendo em cheio, na cara, o morcego moribundo.
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