Universo da obra
Universo da obra
Ninguém sabia ao certo que espécie de criatura era o Navarro, nem donde viera. Da sua vida conheciam-se apenas os últimos dez anos que passara no Sul de Minas. As versões que corriam sobre seu passado eram contraditórias, e, aliás, não passavam de meras conjecturas. Ele próprio concorria para aumentar a incerteza, ora dando-se como carioca, ora como paulista. Segundo suas narrativas não havia profissão que não tivesse exercido nem ponto do globo que não tivesse percorrido. O Dr. Ponciano, que fora médico e lente dos seus colégios, e que depois que cortara relações com o Navarro se limitava a clinicar na vila, teve um dia a pachorra de orçar o tempo que o diretor assim empregara a correr terras. Tomou em conta a idade de quinze anos com que aproara à Espanha, para cursar a Universidade de Salamanca; os seis em que a frequentara; os oito com que se distinguira numa cadeira; os três duma travessia da África; cinco em que negociara especiarias na Oceania; três de cativeiro entre os antropófagos de Mato Grosso; dez de estadia em Minas; e, desprezadas outras parcelas de alcance, obteve um total de cinquenta e oito anos. Ora, Navarro quando muito raiava pelos quarenta… O que se sabia de certo, é que, umas semanas antes de chegar às Três Barras surgira em Belo Horizonte resolvido a montar lá dois importantes estabelecimentos de instrução; apenas chegado à Capital, sondara o azul do céu, tomara os ventos dos quatro pontos do horizonte, hesitara, refletira; e adotando afinal o alvitre de ouvir uma cartomante, resolveu, a mando da cabala, zarpar para alhures.
Todavia, não o fez antes de ter pedido e obtido uma audiência especial do presidente do Estado, para apresentar-lhe suas homenagens de “indefesso patriota e incorruptível zelador do nome de Sua Excelência. Procurou também vários deputados e senadores, e afinal dispôs-se a partir… Ainda não o fez. Queria ir casado. E não lhe custara decidir-se por uma rapariga escarnada, pálida, olhos mortiços. Chamava-se Adélia. Vinte dias depois já não era solteiro, e desembarcava com a esposa em Três Barras. Guiara-o para ali grande convicção de êxito, depois de ter examinado uma ruma de relatórios e guias de estradas de ferro. Julgara a posição estratégica. Ao desembarcar impressionou-o bem a topografia montanhosa do lugar. Era de efeito. Rimava com seus planos. Os três-barrenses olharam embasbacados aquele homem bem- -composto, de presença e abdome ministeriais, que vinha quebrar a monotonia de sua vida ramerraneira. E ninguém adivinhara que aquela personalidade que não parava de apregoar contos e grandezas, estava metida no seu fato de casamento, por ter o restante da roupa no fio. Sem demora Navarro lançou os fundamentos do ginásio e da escola normal. Não houve embaraço que a um seu aceno não se removesse; prédios, dinheiro, crédito ilimitado, tudo foi-lhe fácil. Com seus modos magnéticos e dominadores não se baixava a pedir auxílio; antes, crescendo e assoberbando-se ante fazendeiros ranhetas em quem o seu influxo movia rasgos de incompreensível liberalidade, esperava que o auxílio subisse até ele, como oblação merecida e devida. Obteve uma esplêndida chácara para a escola normal, e grandes prédios para o ginásio, sem discutir preços nem condições. Depois disso, seu primeiro cuidado foi reformar tudo, demolindo, reconstruindo, pintando e aformoseando. A esse tempo já milhares de impressos, encontradiços como anúncios de pílulas digestivas, infestavam Minas, transbordando para os Estados limítrofes, a lançarem por toda parte, em altos pregões, o seu nome de educador e a fama dos seus institutos. E ainda não tinha nem um professor, nem um aluno…
Em pouco, tudo lhe sobejava. Pedidos de cátedras choviam às dezenas. Entre os que se apresentavam havia nomes conhecidos no magistério. Navarro, porém, corria com olhares distraídos o maço de cartas deprecativas e mal lhes respondia com evasivas. Guiado por secretos intentos e por seu faro de conhecedor, era em torno que buscava os seus auxiliares. Pesquisando aqui, indagando além, e atentando mais para os encalacrados de dívidas e carregados de filhos, foi reunindo, um a um, os seus docentes. E justificava a escolha com abundantes frases filantrópicas: — Não quero medalhões, prefiro os gênios ignorados que por aí andam, sem azo para aparecer; e, quando o seu mérito obscuro se encarna na penúria, tornam-se duplamente dignos de serem os eleitos… Esse ato caritativo deu brado pelas cercanias, onde o seu nome começou a ser celebrado como o de um benemérito. Feita a seleção do corpo docente, ou do seu “estado-maior”, conforme dizia, restava um problema de maior tomo: a escolha de um diretor interno para o “Fiat Lux”. Aqui iam culminar as mostras de tato que dera Navarro. Resolveu dentro de si este problema muitas semanas, sem optar por nenhum dos inúmeros nomes que se ofereciam. Queria um homem excepcional, que, rebuscando em torno de si, ele não desesperava de encontrar, empregando o mesmo método de que usara para reunir os professores. Por fim, pôs sua mira numa espécie de rústico que, de camisa e calça de riscado, cavava a terra, de sol a sol, num sítio dos arredores. Primeiro hesitou; depois observou-o, conversou-o, informou-se, e um dia foi arrancar-lhe das mãos a enxada laboriosa, trazendo-o para o colégio. Tinha o seu Homem, e esse Homem era o Meira. Mais uma vez seu sagacíssimo faro não se desmentira. Meira tinha do rústico apenas o aspecto. Pertencia a boa família decaída de fortuna e tinha história edificante. Primeiro lecionara; mais tarde, carregado de filhos, viu-se forçado a escolher meio de vida mais produtivo, e fez-se agente comercial. Angariando logo vastos créditos, pela honestidade inquebrável do seu caráter, teve dias prósperos,
conseguindo formar um bom pecúlio, que depois comprometeu, negociando por conta própria. Os filhos aumentavam à medida que ele ia caminhando para um beco sem saída. Faliu desastradamente, por fim, e essa falência marcou-lhe a reputação de nódoa inapagável. A injustiça dos que não o conheciam bem tachou-o de improbidade. Então tresvariou; bebeu, jogou, e, um dia que a família passou fome, deu um tiro na cabeça. Quando se restabeleceu do suicídio frustrado, tomou da enxada; e, pés descalços, foi lavrar um pedaço de terra obtida de empréstimo. Explicava-se por esse passado dramático a sua perpétua taciturnidade, e uma grande cicatriz na testa, um pouco à esquerda, disfarçada sob tufos de cabelos grisalhos. De um homem destes, Navarro podia esperar toda a dedicação. Meira tinha a religião do agradecimento; por isso resolveu sem hesitação fazer pelo seu benfeitor todos os sacrifícios. Começou por separar-se da família, medida que Navarro achava necessária. Morava no colégio, ficando a mulher e os filhos em casinha à parte. Meira só se reunia a eles nas férias. À altura destes sacrifícios, praticou muitos outros. Ao ver sua família forrar-se à miséria negra em que sua má estrela a lançara, entranhado da resolução de ser grato, não houve tarefa sob que seus ombros vergassem; tornara-se uma poderosa máquina de trabalho, graças à sua vontade onipotente, que lhe redobrava a capacidade de esforço. Eliminara seus sofrimentos pessoais do rol das coisas atendíveis; nele só havia o esforço e o desejo de esforçar-se mais, reagindo contra a sua compleição combalida de quase velho; rechaçava pertinaz as investidas da velhice, que o ameaçava com os seus primeiros alquebramentos. Mourejava infatigavelmente todo o ano, só tomando breve fôlego nas férias; então furtava alguns dias para prodigalizar à família carícias atrasadas e capitalizadas. Não precisava de mais para ganhar novos alentos para a luta. Esses dias de folga figuravam uma aberta fulgurante de sol no pardacento uniforme da sua vida. Via o seu caro ninho cheio de conforto; a casinha era alegre, a despensa farta, e os pequenos tinham agasalhos: aí estava tudo o que anelava, o único fito da sua existência. E, nesses dias sem sombras, os carinhos da esposa, a algazarra infantil
dos filhos viçosos, a visão do lar feliz restaurado, espancavam do seu espírito sombrio todos os fumos de remorso que lhe restavam, por haver tentado um dia abandoná-los, num gesto de louco, que aos seus olhos punha na coerência da sua vida sem mácula a nota estigmatizante de uma traição. Com um auxiliar irrivalizável como o Meira, também graças ao seu espírito de propaganda, era fatal que Navarro visse seus colégios lançar sólidas raízes, desde a sua fundação. A primeira turma de alunos quase atingiu a um cento; a segunda excedeu-o, e as seguintes aumentavam, em contínua progressão. De preferência notava-se essa crescente onda de prosperidade no “Fiat Lux”, que, além de obter logo as regalias da equiparação, tinha como alma obscura e todo-poderosa o subdiretor. Um dos segredos desse prestígio estava na sua doçura de caráter, que o fazia tratar os alunos como pai carinhoso. Esse tratamento não era artimanha hábil, e sim a espontânea efusão de uma bondade inata. Meira estimava sinceramente os seus alunos e não se limitava à só tarefa de os disciplinar; procurava incutir-lhes altos e estoicos sentimentos em que mais tarde se encastelassem, quando tivessem de superar crises como aquela que o levara a desvairar, com a arma assassina na mão, e o pensamento num covarde aniquilamento. Vendo regressar ao colégio, cada ano, a maior parte dos alunos do ano anterior, Navarro entusiasmava-se com o que dizia ser o “método” de seu substituto, e tentava encorajá-lo na mesma via: — Isso! Proceda sempre do mesmo modo… Abrace os alunos, faça-lhes carinhos. Confesso que o senhor tem certa habilidade para fazer-se estimar. O subdiretor contava como auxiliares, na disciplina, Marolo e Ricardo, sobrinho do Navarro. A principal ocupação do primeiro era tratar da salvação da alma. Passava os dias a desfiar as contas do seu rosário, e, relativamente aos encargos de regência, nada via nem ouvia, sempre alheado, como um espírito imaterial, limitando-se, quando a indisciplina da miuçalha era excessiva, a invocar a profícua intercessão do Espírito Santo. Sua utilidade real era
para levar recados (recados curtos e simples) e, além disso, dar ao ginásio, com a sua presença compungida, um certo cunho de religiosidade que agradava ao diretor. A diligência de Ricardo contrastava com a imprestabilidade do Marolo. Malgrado sua compleição franzina e tolhiça, e sua pouca idade, era o braço direito do Meira, cujo esforço procurava imitar. Não se limitava a colaborar na regência dos educandos; tinha a seu cargo diversas cadeiras, e era uma espécie de substituto geral dos outros docentes e do secretário Dadico. O pai do mocinho, José Siqueira, fazendeiro nos sertões de Minas, era viúvo, e irmão da esposa do diretor. Ao tempo da fundação do “Fiat Lux”, inda era remediado, e foi então que mandara Ricardo para lá. Poucos anos depois, entretanto, uma colheita perdida, complicada com uma hipoteca no vencimento, deu-lhe forte xeque à fortuna. Desesperado com esse desastre ao cabo de cinquenta anos de trabalho, deu de mão a todas as preocupações, do que lhe resultou ruína total. Estas novas ele próprio comunicara ao diretor numa carta que respirava desalento. Se ainda lhe restavam forças para pegar na pena, dizia, era porque ia deixar um filho na miséria, e queria dar-lhe um pai na pessoa do Navarro. Esta carta viera recoberta de outra tarjada de negro, comunicando a morte súbita de José Siqueira. Mataram-no os desgostos. Dias depois do seu recebimento, o diretor chamou de parte o órfão que vestia luto, e disse-lhe: — Seu pai, antes de morrer, escreveu-me esta carta. Leia-a. O menino obedeceu. Em seguida Navarro tomou-lha das mãos e guardou-a na pasta dos seus documentos preciosos, dizendo: — Viu aí que seu pai confessa dever-me dois contos e tanto. Ora, como ele morreu, é você quem arca com a responsabilidade da dívida. Vamos ver se também é um ingrato. Seu pai foi pouco escrupuloso, o que eu não esperava, pois o tinha em conta de homem sério. Também não é só dizer “tome lá, meu filho, aguente como ele”. Um presente de grego depois de um calote!
Ricardo ouviu, cabisbaixo; as últimas palavras o aterraram, porque o diretor as pronunciara com cólera, como se fosse investir com o túmulo do cunhado. O tio empurrou-o para fora do escritório: — Vá, vá para o estudo, e trate de tirar esse luto, para o colégio, por contrapeso, não ganhar aspecto fúnebre. E o moço não notou que dessa época em diante o diretor, sempre tão exuberante de carícias aos alunos, e que, como aos outros, o abraçava a cada passo, dando-lhe palmadas amistosas nas costas, parecia não dar mais pela sua existência no colégio. Ricardo não se magoava com a falta desses mimos porque, de natural humilde, julgava-se indigno deles. Outrora, quando os partilhava, era como se recebesse um dom celeste e inapreciável, pois o diretor tinha a seus olhos prestígio de deus que rege universos. Nas contendas entre alunos de que o Navarro tivesse conhecimento, embora fosse ele a vítima, se o diretor lhe dissesse que era o culpado, bastava isso para que convicto e submisso fosse pedir desculpas aos que o insultavam ou feriam. E, como após a morte do pai aquele sempre lhe negasse razão, Ricardo racionou consigo que era um menino ruim e mal-educado; e depois disto esteve sempre pronto a sofrer com paciência as troças e maus-tratos dos colegas. Todavia, o que lhe dava mais alento para suportar a nova situação, era o Meira. O subdiretor estimava-o sempre, e parecia dedicar-lhe ainda mais afeto depois da sua desgraça. Ricardo achava uma grande doçura no avizinhar-se dele, no ouvir-lhe os conselhos sussurrados em voz mansa e paternal. Acolhendo-se à sua sombra quando estava triste, sentia-se banhado de um doce influxo reconfortador. Era em obediência a seus conselhos que procurava distinguir-se em todas as classes. A figura de destaque que fazia no meio de uma centena de colegas atraiu a atenção do Navarro, que esperou, desde então, tirar algum proveito do sobrinho. Um dia, para ensaiar, confiou-lhe uma dúzia de alunos miseráveis, admitidos gratuitamente, a pedido de pessoas influentes, esmolas que junto aos pais o diretor encarecia, como prova de seus sentimentos altruísticos. Entregando a Ricardo essa turma, colhia
também a vantagem de não sobrecarregar as classes dos que pagavam. O mocinho aceitou com júbilo o encargo, embora, como bom aluno, sentisse ter que deixar de estudar desse dia em diante. Ao diretor pouco importava que aquelas crianças aproveitassem ou não; mesmo assim, em certa hora de folga, teve a excêntrica fantasia de ir examiná-las. Chegou de surpresa em plena aula e logo abriu a boca, estarrecido: ao quadro negro um fedelho de nove anos resolvia sem hesitar, um problema de juros. Olhou atônito as mãos dos outros petizes onde contava encontrar cartilhas de abc, e nelas viu folhas de jornais em que estudavam, à míngua de livros; o menos idoso leu-lhe correntemente um artigo sobre a fixação do câmbio. Em geografia fizeram prodígios; afinal, para acabar de encher-lhe as medidas, um dos pirralhos deu-lhe, sem hesitação, a fórmula da área do trapézio. O trapézio! a base, o eixo, o núcleo dos ensinamentos do Navarro na sua cátedra de geometria, o trapézio que tanto confundira o engenheiro, pai do Dario! Sem dizer palavra, rebocou dali Ricardo para a sala de História e Geografia. — Precisava de um professor destas matérias — disse. — Nomeio-o catedrático das mesmas. Esforce-se no ensino, para que um dia comece a pagar-me o muito que me deve. E mandou chamar as classes para o catedrático de quinze anos marcar-lhes lição. Passada a primeira ebriedade do júbilo da promoção recente, Ricardo reflexionou melancolicamente: — O tio Navarro disse: “para que um dia comece a pagar”… Então minha dívida ainda está inteira e não será tão cedo, talvez, que eu comece a amortizá-la… Seu raciocínio, entretanto, ficou nisso; nem de leve pôs em dúvida o espírito de justiça do diretor. O que este dizia era a verdade e a razão. Como inexperiente, formulava uma falsa ideia sobre a permanência das dívidas e os pagamentos humanos; assim o tio Navarro lho fizera concluir; e assim deveria ser.
Ricardo esteve à altura de seu acesso; dedicava-se ao trabalho, procurando salientar-se na nova graduação. Sobrava-lhe ainda entusiasmo para o estudo solitário; e horas mortas, repartindo olhares desvelados entre os livros e os leitos do dormitório à sua guarda, preparava a preleção do dia imediato e recapitulava lições de outrora, com a leve nostalgia de não ser mais aluno; e, antes do sono cerrar-lhe as pálpebras, evocava a reconfortativa figura do Meira, para que sua imagem lhe ficasse assistindo à cabeceira, transfundindo-lhe novas energias durante a noite. Todavia o mocinho tornara-se menos feliz. Agora que já não jazia na espécie de insulamento em que era deixado com a sua turma de meninos pobres, sofria a miúdo a fiscalização vigilante do Navarro. Ora, Ricardo acalentava a veleidade de querer agradar-lhe com o seu trabalho, o que ia tornar-se um pungimento constante para a sua sensibilidade refinada. Porque Navarro, se deixara transparecer admiração no gesto brusco com que o promovera, teve mais tarde o tino de ocultar o que sentia. Cada vez que surgia a inspecionar a aula do sobrinho, este fitava-lhe o olhar palpitante de quem perscruta uma relevante sentença na fisionomia de um juiz; e a sentença aí lida era sempre desfavorável; Navarro afetava para ele, como para os demais subalternos, um eterno descontentamento que seu espírito prático achava de subido valor para quem dirige homens, a fim de poder extrair de cada um o máximo de atividade e zelo. Ao finalizar a inspeção, se não silenciavam deixando apenas falar por si sua expressão displicente, dizia ao sobrinho que os alunos estavam fracos, e naturalmente porque o professor não se esforçava. Então Ricardo sentia ferver-lhe no íntimo o recrescido vigor de uma seiva estuante. O tio não ficara satisfeito? Pois bem! Redobraria de esforços, saberia um dia contentá-lo! E dava-se ao trabalho com maior aferro; inaugurava aulas suplementares em horas de repouso; recorria a métodos excepcionais para os alunos exceções; conseguia triunfar da má vontade e da inibição intelectual. Podia vir agora o diretor! Ele se encarnara no “sacerdote do magistério”, compreendia enfim o que devia o “apóstolo da luz”,
tinha consciência dos milagres que obrava, embora desfibrando-se de sua carne e dando o rutilo vital de seu sangue. Esperava-o a cada hora, fremindo de emoção, antecipadamente certo da vitória. Ia deslumbrar! Chegava o grande dia. O diretor vinha… Mas não havia brilho que lhe alisasse as rugas da fronte, nem milagre que lhe espontasse as palavras ferinas. Pintar o amargor dos primeiros desânimos do moço é folhear um livro torturante. Como começaram a apontar-lhe n’alma? Eram a exaustão de um físico depauperado, arcabouço sem vísceras, que revertera seu potencial em energia radiante? Talvez o alquebramento do viageiro sedento que no deserto vê a miragem de palmeiras e cascatas furtar-se-lhe à aproximação, negaceando-lhe de novo em remontados horizontes? Ou seria antes a visualidade desanimadora da realidade entrevista? Pois Navarro, malgrado o progresso dos alunos, queria absurdamente mais progresso, progresso indefinido; e, para desconcertar o professor feliz que assistia confiante ao seu meticuloso interrogatório, engendrava perguntas ambíguas, capciosas, em cujas malhas apresava os alunos incautos; e saía sobre o fiasco, com a visagem contrafeita de quem não se impressionou bem. Era visível seu expediente. Depois desse vislumbre da realidade, Ricardo não se aforçurava menos no cumprimento do dever; no entanto, carecia de um esforço crescente para se conservar na mesma altitude; e, sem embargo de sua ardente vontade de pagar ao Navarro o muito que lhe devia, no que envolvia ao mesmo tempo um preito de amor ao seu querido morto, começava a sentir descorajamento e tédio da sua dedicação estéril, e um como fermento de protesto. Algo de instintivo e indomável dentro de si queria rebelar-se enfim, sendo preciso, para sopear-lhe os assomos, a mão firme que obriga a mola de aço a manter enroscadas suas espirais elásticas. Por esse tempo Meira foi encontrá-lo um dia deitado, depois da hora regimental do levantar; não dormia; seu olhar vago espraiava-se por visões misteriosas, e estava tão embebido nelas, que estremeceu num sobressalto, sentindo a mão que lhe pousava na cabeça.
— Cumpra o seu dever — sussurrou-lhe o subdiretor. Ricardo volveu-se receoso para ele, esperando repreensão; mas a fisionomia do Meira, iluminada por um sorriso bom, apenas exprimia a tolerância e bondade de quem conheceu dolorosas crises espirituais. Desde esse dia Ricardo compreendeu o subdiretor; e, estimando-o como a um pai, começou também a admirá-lo, como a um ente de estatura moral acima do vulgar. Viu a firmeza inquebrantável de sua conduta, a par da bondade sorridente dos seus olhos; e adivinhou que nos passos apagados e na figura mansa daquele homem, se encarnava uma força sobre-humana. Pela primeira vez lembrou-lhe a cicatriz da fronte e deu sentido à frase “tentou suicidar-se”, que os alunos repetiam à boca pequena. Que padecimento terrível não teria sido o daquele homem, para levá-lo a tal extremo! E esta ideia sugeria-lhe a da luta feroz que se devia travar lá fora, além das quatro paredes do colégio, luta em que mourejadores como o Meira iam de vencida. Dava-lhe susto só o invocá-la, terrível e desconhecida, impiedosa e exterminadora. O tio Navarro fora realmente bom, dando-lhe guarida contra a borrasca exterior! A esses pensamentos, buscava imitar a gratidão do subdiretor. Mais do que nunca procurava acolher-se à sua sombra de doçura e do amor, para recobrar o alento que lhe ia faltando; e Meira, que por uma secreta correspondência d’almas conhecia a crise íntima do moço, caritativo e perturbado com a lembrança do próprio passado, desvelava-se por ele, como por um doente solitário e em transe.
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