Universo da obra
Universo da obra
No ex-teatro, onde funcionavam as principais aulas do ginásio, os biombos foram eletricamente arreados, o que reduzia o recinto a um imenso salão. Podiam ser sete da noite; por isso, o acetileno já esguichava de dezenas de bicos, extravasando a luz farta por entre ramagens e ornamentações de papel. As sanefas de bandeirolas multicores projetavam no teto sombras repicadas, e as folhas dos bambus, um inextricado de pontas de lanças. Ao fundo do salão um dossel acolhia sob suas dobras de veludo longa mesa elevada por um estrado revestida de toalha rendada. Atrás da mesa quatro poltronas de alto espaldar, ainda vazias, ladeavam-se, solenes como tronos; sobre ela, vasos empenachados de ramalhetes enormes; outros ramalhetes das mesmas dimensões jaziam a esmo entre os vasos, deixando pender para a frente brancas fitas com inscrições a ouro. No salão, entre o sussurro das pessoas que se haviam antecipado à hora designada, ouviam-se as múltiplas passadas dos que iam chegando. Defronte da mesa, uma larga faixa de vestidos brancos e cabelos soltos, indicava as meninas da “Deus, Pátria e Família”; em filas de cadeiras, atrás delas, mulheres, moças, crianças da vila; depois, numa série de compridos bancos, os alunos do ginásio; por último, os demais convidados, de pé. Estes invadiam também a passagem lateral entre os bancos e filas de cadeiras de um lado e a parede do outro. Os alunos eram disciplinados por Meira, Ricardo e Marolo; o primeiro transitava continuadamente entre os bancos dos fiscalizados, pedindo silêncio a um, modos a outro; Ricardo buscava imitar
o Meira; Marolo, porém, remanchava; e, imóvel, os olhos espasmódicos para o teto, desunhava-se a ocultas no rosário de irmandade que lhe pendia sobre o colete. Cada um dos meninos trazia à lapela um distintivo; eram todos sócios do “Grêmio Literário Luís de Camões”, por força dos estatutos do ginásio; e cada um pagava mensalmente a este cinco mil réis, para gozar essa regalia forçada. Era presidente perpétuo do grêmio o poeta e professor de português xará do grande gênio. Por isso, Luís de Camões tinha um assento nobre reservado atrás da mesa. Volta e meia ele ia procurar a poltrona presidencial e sentava-se um instante; mas, inquieto, abandonava-a outra vez e punha-se a passear ao longo da parede, lançando em torno olhares absortos, muito pálido, e mastigando em solilóquio coisas incompreensíveis. Por intervalos detinha-se no caminho a encarar no retrato de Camões, que da parede lhe correspondia com um olho só; depois deste breve e mudo colóquio, recomeçava seu febril vaivém. Muitos olhos quedavam-se a contemplar-lhe o corpo chupado, a cara comprida e em retângulo, de ligeira expressão cavalar, devido ao nariz muito longo e de igual altura no seu percurso, desde o ponto de pega inicial no alto da fronte, até a boca, onde ia morrer. Naquela noite, aproveitando-se a oportuna reunião, ia-se conferir o grau de presidente honorário do grêmio ao coronel Tinoco, fazendeiro três-barrense e fiscal permanente do ginásio, nomeado pelo Governo federal, por proposta e empenho do Navarro. Andava ele arredio do ginásio desde os últimos exames; por motivos guardados sob hermético sigilo amuara com o colégio, e talvez mesmo o hostilizasse, pois andava muito ligado ao Dr. Ponciano; o que resguardava o Navarro de qualquer traição possível era depender esse cargo de fiscal da existência do “Fiat Lux”, de sorte que, com a supressão do ginásio, o Tinoco veria do mesmo passo suprimidos os seus vencimentos de três contos e seiscentos por ano. A causa do seu agastamento era insuspeitável. Seriam os escândalos nos exames? A má administração interna do colégio? Intrigas de algum desafeiçoado? Mistério imperscrutável! O fiscal reservava
para si os seus motivos reservados. Malgrado tudo, sua vinda a empossar-se do honorífico grau, importaria reconciliação muito desejada pelo diretor. A ele prometera vir, e era esperado, não obstante ainda não haver chegado até as sete horas. O Bias, o Cavagnari, o Mendonça, o Cândido, o Penedo e o reverendo Gauquério já lá estavam. O último, afastado dos colegas, discutia calorosamente política, numa roda de magnatas rurais; os demais ficaram no recanto destinado aos professores, próximo à entrada. O Navarro gostava de pô-los o mais longe possível de si, para furtar-se ao desprazer de ter diante dos olhos as figuras pífias do seu “estado-maior”. Os catedráticos, entanto, gostavam daquele acantoamento esconso, para dar largas à língua, e chupar em secreto algumas fumaças no decurso das solenidades cívicas do grêmio camoniano. Todos eles procuravam ser pontuais nas festas do ginásio, para evitar o desconto do dia. E essa comunicação era tão observada que o Penedo e o Cândido tomaram falha por não terem ido à recepção do Matos Cobra. Se ali ainda estavam, é que pairava sobre suas cabeças a ameaça da falha dupla — outra instituição apavorante em pleno vigor no ginásio. Verificava- -lhes o comparecimento e permanência no local o secretário Dadico, que de tempos a tempos, sob pretexto de dar uma piada, mas realmente com o fito de espionagem, vinha imiscuir-se no grupo magisterial. Atirado em uma cadeira, sobre cujo respaldo descansava a nuca, dormitava nesse recanto o poliglota Ercole Cavagnari, que a intervalos despertava a meio, em sobressalto, e com um sorriso babão, dizia palavras inglesas italianizadas, supondo achar-se em aula. Os vizinhos, riam-se; e ele, antes de dar pelo engano, recaía na primitiva postura, sonhando com o Dante e com a torre inclinada. O Penedo discreteava a meia voz com o ex-deputado Mercês. Beirando este, a quem agora o ligavam laços de profunda solidariedade, o farmacopola Mendonça escutava e aprovava em silêncio, com sua eterna inibição de exprimir- -se por palavras. Um pouco arredados, dizia ao Bias o Cândido, que fora ferido no seu fraco de avarento:
— Desaforo, você não acha? Por uma nuga, desconto! Ando cheio de tudo isto. Se aguento o Navarro é porque tenho mulher e filhos; senão… Cândido fez um trejeito ameaçador; mas, mesmo em cólera, tinha um arzinho inofensivo de soldadinho de chumbo. Bias retorquiu repreensivamente, para enfurecê-lo mais: — Seu ponto foi justo. Você devia ter ido ao encontro do fiscal. Não sabe que é do regulamento? — Mando o regulamento a… — Cândido deteve-se, para observar o Penedo. Este também tomara falha, e, no entanto, praticava sem despropósitos com o ex. A essa vista, Cândido, dominado pela sua natureza, que o constrangia a imitar sempre, levantou os ombros e concluiu, já calmo, com um sorriso superior: — Não me importam quantos regulamentos haja no mundo. — Você não é medroso — disse o Bias, arregalando para ele um olho de emparvecida admiração. — Acha que não sou? — Acho. Sou meio analista… Não admira que a ideia de parede tivesse sido sua. — É mesmo, foi minha — respondeu Cândido aceitando o tema insidiosamente oferecido. — Por sinal que me esqueceu desde aquele dia. — Não quis fazer propaganda? — Não… tenho certo acanhamento de pôr-me à frente. Acharia melhor que fosse você. — Eu?! — recuou o Bias assustado. — Com este meu gênio mole! Ah, se eu fosse… enérgico como você… enérgico e resoluto… Você tem qualidades que invejo, Cândido. — Você… acha? — perguntou o professor de geografia impando de satisfação infantil. — Sou meio analista, como disse. — E se eu ficar assim… enérgico com o Navarro, e os outros professores ficarem do meu lado, pensa que ele nos perdoará as faltas?
— Ora se! Olhe — pode-se conseguir supressão dos descontos, ordenados nas férias, melhoria de vencimentos, diminuição de serviço, e mais tanta coisa! Cândido Rodarte ficou deslumbrado, e nesse momento leu apenas sinceridade na expressão astuta que assumira o rosto do Bias, ao observar o efeito que suas palavras causaram. Perguntou-lhe como devia começar. Então seu colega desenvolveu um singelo plano para o início da campanha; devia convidar os professores para uma reunião secreta, longe da vila. Podia adotar o pretexto de um convescote. Lá, então, exporia tudo. — Mas primeiro é preciso apalpar os ânimos… meter mais alguns no segredo… Boa ideia, dê uns toques no Penedo, agora; ele anda pouco satisfeito… Inda mais hoje que tomou desconto! Aceitando o alvitre, Cândido dirigiu-se para o lado do professor de civilidade. Penedo parecia melancólico e apresentava no todo visível decadência. Não era mais o rapaz garboso que chegara às Três Barras; já não exibia gravatas raras, nem recendia a perfumes preciosos; mesmo sua roupa de festa, muita esgarçada e esmaecida, podia trocá-la sem prejuízo pelo terno de sobrecasaca do doutor Cavagnari. Não apurava na atitude, nem nas boas maneiras; no seu olhar havia um quê de nostalgia, como a do galo altivo ao qual embotaram as esporas, arrancaram as penas do rabo e caparam… Suas frases lapidadas, de torneio arredondado e arrebiques floridos, trocaram-se em impropérios plebeus. Em vez de repisar a miúdo a “doçura do céu azul” e o “manto aveludado das nossas relvas”, como fazia dantes, realçando as frases com gestos de primor, as palavras que mais frequentes lhe saíram da boca, eram “canalha” e “safado”, com vistas ao Navarro. À chegada do Cândido, ainda o Penedo e o coronel Mercês palestravam. O ex-deputado ao Congresso, ladeado por seu amigo Mendonça, cuja cor terrosa tinha cambiantes lívidas sob o brilho das luzes, referia-se à manifestação ao Cobra, com isenção que recobria um travo de inveja:
— Para que estas festas? Não significam coisa alguma… Minha presença aqui não quer dizer adesão… Vim forçado. Ah, Sr. Penedo, não tenho mais ilusões sobre estas homenagens; no meu tempo, cada vez que meu modesto nome tinha a sanção das urnas, havia festejos cem vezes mais imponentes… Oradores de talento me saudavam em termos entusiásticos. A multidão entupia a rua, defronte de minha casa… Mais tarde o governo mudou e a opinião com ele. Vi-me só. Corja de hipócritas! Nesse instante, Cândido fez um sinal misterioso a Penedo, chamando-o de parte. Para atendê-lo, este virou as costas ao seu nobre interlocutor; viram-lhe então no posterior, por baixo do paletó encolhido, dois remendos enormes que ele procurava ocultar, pondo as mãos nas costas. Triunfante na sua roupa reformada e pisando duro, entrou o Lago. O professor de desenho e música enveredou de cabeça erguida para o canto do professorado. — Saparia, boa noite! — saudou coletivamente. — Creio que já é hora de trazer a banda… — O catedrático! De fraque novo! — disse o Bias, vindo-lhe saltitante ao encontro. — Não gosto de confianças! — vociferou o Lago, formalizado. — Veja lá! Desprezando o aviso, o Bias com uns pulinhos lépidos conseguiu pegar-lhe na aba do fraque. O catedrático, enfuriando-se, rechaçou- -o com um safanão. — Você não aprende, traste! Espere mais outro… — mas o Bias, levípede, furtou o corpo à segunda arremetida. Com a mesma imponência, Lago afastou-se para buscar a banda colegial que ainda se exercitava ao longe. Coincidiu com uma piscadela sorridente, que Cândido mandou ao Bias, para anunciar-lhe a rendição provável do Penedo. Fez, por fim, sua entrada, o Dr. Peregrino. Só tirou o chapéu, e com impertinente vagar, ao atingir o cantinho do professorado. Este seu passo era uma honrosa condescendência, pois de ordinário
não gostava de confundir-se com o pessoal docente, procurando, de preferência, auditório de pessoas gradas. Notaram que não arvorava ao nariz seus óculos escuros, o que significava rebelião ao Navarro. Com o rosto assim a descoberto, davam-lhe uma expressão de ganância e rapacidade os olhos redondos muito chegados um do outro e fundos como olhos de coruja. Foi logo dizendo alto, a reclamar as atenções até aí esfaceladas em grupinhos: — Já sabem, sem dúvida, da operação do Matias? É um caso cirúrgico sensacional. Fiz-lhe ontem amputação da perna, aplicando como anestésico a estovaína. Desejaria que lá estivessem para ver o operado conversar tranquilamente durante a intervenção. Nem um gemido! O clorofórmio vai-se. Tinha sido ele um dos primeiros cientistas do Brasil a praticar a raquiestovainização. — Você foi de muita caridade — disse o Bias, dirigindo-lhe os olhinhos acesos. — Raros médicos seriam assaz desprendidos para fazer desinteressadamente uma operação tão importante. — O senhor é um idiota, Sr. Bias? — replicou-lhe — pouco pedi, só meio conto; o Matias deve-me ficar infinitamente agradecido não só pela modicidade dos meus honorários, como porque — falando em tese — um médico faz sempre jus à gratidão prestando seus serviços, porquanto poderia deixar de prestá-los, e o doente, assim, morrer à míngua. — O Matias nunca lhe poderá pagar isso — objetou-lhe Penedo. — É um jornaleiro: só faz para comer. — Nesse caso, pagará o Navarro. É o patrão, e, por conseguinte, o diretamente responsável. Ainda ontem tivemos uma forte “pega” a esse respeito; por fim o Navarro concordou. Parece mesmo que vai entender-se com os senhores a esse respeito. Estas últimas palavras coaram frio no tutano dos docentes. A vigésima subscrição daquele ano, porventura? Peregrino ainda insistiu sobre a operação. Contou-lhes os pormenores, com amorosa minúcia, sem perder uma expressão técnica. Os docentes ouviam-no constrangidos e desatentos; felizmente para o narrador, ele não dava por esta circunstância. Aquele
momento de expansão do facultativo revelava sua satisfação íntima. Peregrino estava certo da sua força, não precisava mais da opinião do Navarro para se crer sábio. Após a terrível dúvida, daquele dia de crise, fizera uma rigorosa análise introspectiva que decidira a seu favor; a convicção resultante estabelecera- -se-lhe no íntimo como rocha indestrutível. Ele era um sábio. A própria dúvida que num momento de alheação pessimista concebera sobre seu valor concorria para convencê-lo. Todos os gênios não têm instantes em que sucumbem ao desalento? Foi uma crise sintomática, nada mais. Terminada a exposição, e antes de retirar-se do recanto comprometedor, inda Peregrino falou num tom de volubilidade bem-humorada: — Ando numa tal azáfama, depois que regressei do Rio… É um nunca acabar de chamados. Coronel Mercês, o senhor é o meu cliente mais importuno! Como vai a bexiga? Precisa convencer-se de que é indispensável uma operação… Afirmo-o com a minha autoridade de médico. Os extremos recursos para os casos extremos… E o seu é grave, muito grave; o senhor tem família grande, sua vida é-lhe preciosíssima. E, com estas frases agoureiras, afastou-se dos colegas, para historiar noutra roda a operação do Matias. O Mendonça e o ex, emparceirados, acompanharam-no com um olhar oblíquo. Só então os companheiros notaram a profunda perturbação que as palavras do médico deitaram no antigo congressista. Ficou esgazeado, impressionadíssimo. Sentindo nascer em si facilidade para exprimir seus pensamentos, Mendonça pôs-se a consolá-lo: — O senhor é um tolo, não se impressione. O Dr. Peregrino o que pretende é aterrorizá-lo. Ele cobra mais caro uma operação que um tratamento, por isso vive a apavorar os clientes para que se deixem operar. Creia que o que o senhor tem é um simples estreitamento. Não se deixe mais explorar: largue os remédios dele e esqueça suas palavras sobre a necessidade de rasgar a bexiga.
Resolva-se a usar a sonda. Com um pouco de prática se habilitará a manobrá-la, sem a intervenção de ninguém. Em seguida o farmacêutico perdeu de novo a palavra, mas seus olhos de peixe morto tiveram um clarão vingativo. Então os colegas compreenderam que o Mendonça estava tão camarada do ex-deputado pelo desejo de arredá-lo do Dr. Peregrino. O coronel Mercês ficou mais confortado com essas palavras, que o farmacêutico desfiara numa entoação uniforme e apagada. E, ainda a tremer, e quase com as lágrimas nos olhos, expandiu-se com os outros professores: — Este nosso colega vive a tomar da boca dos meus filhos o pão que tão laboriosamente ganho aqui. Devem lembrar-se de que cheguei às Três Barras sofrendo muito das urinas. Por causa dos elogios do Sr. Navarro, resolvi tratar-me com ele. Não calculam que consequências fatais teve esta resolução! Exige que eu ingira quanta droga se apraz propinar-me. É receita sobre receita e eu a piorar depois que sigo as suas prescrições… Chamei-o só uma vez, mas depois do primeiro chamado ele tem-me aparecido em casa a todo o instante. É cedo, é à hora do almoço, é à noite, a todas as horas, enfim. Vai cinco, seis vezes por dia visitar-me. No princípio eu recebia-o com agradecimento. Achava no seu proceder a prova de muita dedicação à sua arte e de amizade particular. Imaginem, porém, minha surpresa ao receber ontem a primeira conta: de cada um desses passeios que fazia arbitrariamente, sempre que lhe dava na telha, leva-me dez mil réis! Quis reclamar, por intermédio do diretor; mas este, depois de conferenciar com o Dr. Peregrino, disse-me que eu não tinha razão, e que por cima era um ingrato. E agora, desde que chegou do Rio, é sempre isso que os senhores ouviram: o doutor trata de impressionar-me, exige que me deixe operar… Bem sabe como sou nervoso. Inda se eu tivesse certeza de que é só por ganância que me dá esses conselhos!… Mas, por mais que reaja, suas palavras deitam-me n’alma uma dúvida horrível! Um rumor de muitos passos aproximou-se na rua. Era a banda do Lago. Entrou no salão, rompendo um dobrado com tal reforço de
zabumba e pratos, que atalhou cerce todas as palestras. Os músicos aboletaram-se à ilharga do professorado. Por causa dessa vizinhança incômoda, o Bias apelidara de “inferno” o cantinho dos docentes. O professor de francês, depois que a banda se instalou ali, morria de riso vendo o Lago de fraque e trombone inchando muito as bochechas para o instrumento roncar com mais fúria. O diretor da banda não decaía da sua imponência, mesmo ao desempenhar essa função pouco estética; e, tão conscienciosamente se havia, que seu trombone e o bombo abafavam os outros instrumentos que, entre esses roncos e ribombos, figuravam tíbios e quase afônicos, como vozes a distância. Muitos aproveitaram esse embargo dos colóquios para observar a sala. Alguns olhavam com interesse uma inscrição colocada ao alto da parede, nos fundos, “Salão Matos Cobra”, e perguntavam para si mesmos se a memória não os enganava, ou se se lia antes “Salão Mesquita”. Também prendia a curiosidade de grande parte dos presentes a figura do Marolo. De pé, uma mão meio levantada, outra descaída, a atitude impassível, o olhar místico e parado para o forro, lembrava o São Sebastião furado de setas, da matriz; só faltava ficar nu, e ter uma árvore amarrada às costas, para completar-se a semelhança. Pelo hábito de conviver com os santos, ia adquirindo posturas de imagens bentas. Com isso ganhava prestígio entre as beatas; ali mesmo, na sala, achavam-se algumas que não o desfitavam, sentindo na alma certa compunção destoante da profanidade da festa. Cessada a música, todos espiaram curiosamente a porta, reconhecendo a voz trovoante do Navarro. De fato, ele assomara ao limiar com o fiscal Matos Cobra pelo braço. Com um olhar agudo o diretor percorreu a sala, procurando alguém. — Como! — tonitruou por fim — o coronel Tinoco ainda não veio? Quer, sem dúvida, que eu vá oferecer-lhe meu braço amigo… Vou buscá-lo. Deu uma vista d’olhos ao professorado, fazendo uma visagem descontente ante a figura capadócia do Penedo. Com um valente soco amistoso no ombro do Dr. Cavagnari, cortou-lhe abruptamente a soneca. O ilustre italiano, atabalhoado,
tomou atitude mais acadêmica na cadeira, e regougou, maldesperto, com a boca em ó: — Zi dógo — il cane! E riu-se alvarmente aos circunstantes, que tomava por alunos. — Doutor! — e um segundo murro do Navarro pô-lo de pé e definitivamente desperto. — Apresento-lhe o D. D. Inspetor Matos Cobra. Sr. Cobra, este é o Dr. Cavagnari, poliglota versadíssimo em todas as línguas vivas e mortas. — Cavaliere Ercole Cavagnari, dottore per l’Università di Milano — disse o ilustre italiano, curvando-se em palaciana mesura. — Entrego-lhe este meu amigo por alguns instantes — disse-lhe Navarro. — — Apresente-o aos colegas e principalmente ao Luís de Camões, que ele deseja muito conhecer. Onde está o Camões? Pst! — Navarro fez-lhe um aceno de apelo, e, sem mais esperar, saiu do recinto, atirando de passagens o sobretudo ao nariz do Bias, para que lho segurasse. Os professores estranharam as excêntricas vestimentas do inspetor. Suas barbas de bandido, com a sobrecasaca do Navarro a descer- -lhe aos tornozelos, davam-lhe ares de um padre turco. Quando se avizinhou o presidente do “Grêmio Literário”, que atendia ao “pst”, Cobra foi-lhe ao encontro. — É o Sr. Luís de Camões? Aperto-lhe comovido esta mão que tem sangue do grande épico — e comprimiu-a em ambas as suas. — Creia que sou um sincero admirador dos Lusíadas. Camões, pálido e meditabundo, agradeceu distraidamente, em nome dos manes do seu avoengo. Cobra ainda explicou que não era competente, nem poeta, mas que tinha a alma entusiasta pelo belo. Dissesse o Máximo, seu camarada que sumira no reboliço da festa. A natureza e a poesia encontravam nele um fervente admirador, nele Cobra, porque seu camarada era um insensível; em compensação, tinha ricas qualidades de caráter. — Um pouco seco, meio selvagem às vezes, o que não o impede de ser um homem probo, concluiu o fiscal.
O presidente do grêmio respondeu-lhe com frases vagas que demonstravam a desatenção com que o ouvia. Estava febricitante, e muito absorvido pelos seus próprios pensamentos, para poder encarrilhar um diálogo. Não se contendo mais, esquivou-se; e, num movimento de retirada: — Desculpe, mas é preciso que… E afastou-se preocupado, sem concluir. Bias segredou aos companheiros: — Luís de Camões vai botar o verbo. Está pálido, cismático… e além disso empacou num “que” — e arremedou, com voz de papo: — É preciso que… Os docentes riram-se. Nesse momento o Dr. Cavagnari, que tudo ouvira enciumado, dirigiu-se ao fiscal: — Il Dante é più grande da Camões. — Também admiro muito a Divina comédia — disse o Cobra, satisfeito por mostrar erudição. — Il Dante é um gênio! — exclamou o Dr. Cavagnari. — Nel mezzo del cammin… Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate! — berrou da porta uma voz conhecida. Era o Navarro. Entrou ovante, com o coronel Tinoco por um braço; prendeu com o outro o do Matos Cobra; e, rebocando a ambos, caminhou triunfante para os fundos, batendo sonoras palmas, para chamar a atenção. Rumorosamente todos os assistentes puseram-se de pé.
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