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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 8 · Falange Gloriosa

Capítulo VIII

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“Venha toda urgência. Meninas doentes. Fiscal a chegar.” — foi o teor de um telegrama transmitido pelo Navarro ao Dr. Peregrino, que ainda se achava no Rio. No dia seguinte, à hora do almoço, ele descia impaciente a alameda da Escola Normal. Esperava o médico que naquela manhã devia ter desembarcado, conforme sua resposta: “Sigo noturno”. Como o trem já passara havia uma boa meia hora o diretor não se cansava de puxar o relógio, desesperando de vê-lo chegar. Navarro estava contrariado, contrariadíssimo. No colégio duas doentes passavam mal. Não queria chamar o Dr. Ponciano, porque de antemão já lhe ouvia a velha cantilena: “É o tifo”. E saindo dali não deixaria de espalhar a coisa aos quatro ventos, com grandes inconvenientes para a reputação dos colégios. Inda mais agora, que estavam de relações cortadas. Na véspera Navarro tratara de isolar as doentes, pois uma vizinha de leito amanhecera com violentos sintomas, o que indicava possibilidade de contágio. O diretor repisava consigo: — Tifo não pode ser! Só na cabeça do Dr. Ponciano… Ademais, o tifo na Escola Normal “Deus, Pátria e Família”… Impossível! absurdo! — Qualquer febrezinha passageira… (E o Peregrino! Teria perdido ontem o trem?!) A Flávia, com seus chás caseiros, não conseguiu dar melhora às meninas. A experiência dessa gente velha não sei para que presta, que nem lhe serve para arranjar mezinhas que curem uma… influenza maligna, talvez. Não será outra coisa… (Quase onze horas!)

Então, lembrou-lhe a visita que aquela manhã fizera às meninas, em companhia da regente. Achara a Matilde, uma das enfermas, muito desfigurada, sem dar acordo de si; inquieto, perguntara à Flávia: — Está fraca, não é? É só abatimento, e talvez um pouco de mamparra, não é? Flávia chamara-o ao corredor, e, com os olhos marejados, disse-lhe baixinho: — Esta morre… Não passará de hoje ou de amanhã, coitadinha! E contou que a doente às vezes delirava, chamando pela mãe. Estava tão acabadinha, que era de cortar o coração! E, dizendo isto Flávia soluçava. — Então, a senhora acha… — Não passa de amanhã, Sr. Navarro… Assim Deus me desminta! Telegrafe à mãe… O diretor desesperara: — É absurdo, D. Flávia! Seria um alarma inútil! Ela não pode, absolutamente, morrer… Não sei que gosto tem em agourar! E Navarro, a quem a possibilidade dessa morte subvertia as ideias, afastara-se agitado, monologando alto, sem reparar que Flávia, aflita, cruzara o dedo sobre a boca, pedindo silêncio. — É gosto de agourar — repetiu Navarro. E continuava a descer a avenida, entre o desfilar de copas cônicas de magnólias, sondando com a vista, até onde esta alcançava, a estrada que levava à povoação. Uma figurinha apressada assomou ao longe. Pondo a mão em pala sobre os olhos, Navarro reconheceu o Cândido. — Como tarda o Peregrino! Esperava-o com ânsia, e ao mesmo tempo um tanto irritado. A reprovação já sabida do Peregrino no concurso de obstetrícia era de abalar-lhe a reputação. Navarro pensava, com raiva, que decerto o Dr. Ponciano se estaria lavando em água de rosas. E o pior é que isso poderia ter ficado mais ou menos abafado, se não fosse a criancice do Peregrino, que no dia imediato ao do malogro distribuíra a todos

os jornais verrinas contra a banca examinadora. Tanto se opusera o diretor a esse malfadado concurso! Mas o Peregrino embirrara, e a birra deu nesse fiasco. A essas reflexões Navarro teve a acentuada sensação de um vácuo em torno de si. Ninguém podia compreender, ou ajudá-lo a sentir o seu ideal. Porque Navarro tinha um ideal. Cada vez que lhe faltava alento para vencer as contrariedades e os grandes obstáculos que dia a dia precisava transpor, para não quebrar de uma linha a sua nota vencedora, concentrava o espírito numa visão interna que era um surto à região confortadora da fantasia. Então, via seu ideal. Era uma forma materializada, confusa e luminosa, que vagamente lembrava sua própria pessoa, aureolada de resplendores, e refestelada num trono de ouro; os pés pousavam numa grande bola coberta de riscos encruzados, que talvez fosse a Terra; em torno, constelações submissas giravam em cadência nas suas órbitas; e a Forma, com uma batuta de diamante na mão, em largos gestos que também lembravam os seus, regia a harmonia das esferas. Era talvez a reprodução de um anúncio de cerveja que o impressionara há tempos, com a substituição do copo espumante pela batuta. Que significava essa visão? Como traduzir-lhe o sentido alegórico? Navarro ignorava. Todavia, era certo que o enchia de conforto. Um tanto supersticioso nos momentos sentimentais, confiava no seu ideal como Napoleão em sua estrela. Queria iniciar nesse culto os professores, para que comungassem todos na mesma adoração e compartissem dos mesmos benefícios, decifrando, de parceria, sua face enigmática e apocalíptica; mas julgava-os indignos de tanto, sem dois escrópulos de imaginativa, incapazes da elevação espiritual que demandava essa contemplação transcendente. Nem a Adélia, sua mulher, em cuja presença raciocinava melhor, como se telepaticamente ela lhe incutisse mais clarividência, nem a Adélia o confiara. — Bom dia, Sr. Navarro — articulou Cândido, passando. Estava aflito, suado, anelante, porque faltava um minuto para a sua aula. Navarro sorriu ao ver o afã do avarentozinho que não queria ter desconto. Respondeu ao cumprimento e perguntou pelo Peregrino.

— Disseram-me que desembarcou — respondeu Cândido. — Ah! O diretor, que instintivamente havia travado com a mão o braço do docente, não o quis soltar antes de uma necessária admoestação. — Inda não soou o sinal da sua hora, mas o senhor já está infringindo o regulamento, Sr. Cândido. Quantas vezes lhes tenho recomendado que cheguem com antecedência, para descansar um pouco, antes do trabalho? Venham devagar, a passos medidos, porque andar assim pondo os bofes pela boca e com um sol destes é para dar insolação… Nunca me esqueço de zelar pela higiene dos meus professores. Além disso, lecionar cansado é lecionar mal; os alunos aproveitam menos. Poupem energia, acumulem energia, para mais facilmente levarem de assalto a fortaleza da ignorância. Navarro largou-lhe o braço. Afastaram-se, cada um para seu lado. — O Peregrino chegou… graças a Deus! — disse Navarro consigo, fitando de novo a estrada ao longe. Em pouco viu o médico apontar. Enfim! Foi-lhe pressuroso ao encontro, e no abraço reforçado que lhe deu, parecia querer traspassar-lhe seus encargos de consciência pelas doenças no colégio. O médico correspondeu-lhe seca, friamente. Estava contrariado de ter apressado o retorno. Navarro, que o sentia necessário a si, tomou a empreita de fazê-lo voltar às boas; e, ao passo que retomavam o caminho da Escola Normal, disse-lhe: — Meus parabéns, doutor; li seus artigos que foram uma bofetada naquela cáfila de ineptos. Creia que todos aqui esposamos a sua causa. — Não cheguei a fazer nada — respondeu Peregrino. — Foi pena chamar-me, porque eu já estava disposto a quebrar a cara de todos os examinadores. E, com a voz cortada de ira, passou a narrar as peripécias do concurso. — É revoltante! — exclamou Navarro, estreitando novamente o jovem sábio. Peregrino prosseguiu, em tom exaltado. Dizia injúrias aos examinadores, e ameaçava, com grande inquietação para o Navarro,

publicar suas provas no Jornal do Comércio. Suas roucas invectivas assustaram uma codorna, que de uma touça próxima ergueu o voo pesado e rasteiro, com ruidoso tatalar de asas. Quando o viu mais calmo, Navarro observou, mudando de tom, fazendo renascer em si o diretor: — Chamei-o com urgência, e o doutor ainda não me pediu explicações — prova do seu alto interesse pelos nossos institutos! — Já sei — respondeu o médico, impaciente. Seu telegrama foi explícito. Precisa dos meus serviços. Ao dizer estas frases, Peregrino contrapusera à circunspeção do diretor a majestade do sábio que se reconhece indispensável. Seu espinhaço, que na cólera retomara certa curvatura, que lhe era habitual — e que todos os dias tentava corrigir andando quarenta minutos com um bastão preso às costas pelos ângulos internos dos cotovelos —, seu espinhaço reergueu-se, solene, e rugas de gravidade estudada arregoaram-lhe a testa alta. Navarro saboreou-se de vê-lo assim e perguntou-lhe, já desarmado, torcendo o assunto: — Por lá, muitas novidades na ciência, doutor? — Muitas. Vi aplicar-se um novo anestésico que suplantará o clorofórmio: a estovaína, injetável na medula. Coisa simplesmente pasmosa! Faz-se a raquiestovainização nos primórdios de todos os trabalhos cirúrgicos: tira a sensibilidade, mas o doente ouve, vê e fala. Trouxe até algumas ampolas. Ato contínuo, Peregrino mostrou ao Navarro maços de revistas e folhetos embolsados no jaquetão, referentes ao novo preparado: e discorria entusiasticamente, relendo fragmentos de impressos. — Depois voltaremos a este assunto — atalhou Navarro, como chegassem ao patamar do colégio —; hei de mesmo sugerir-lhe uma conferência a respeito, na festa dos exames, perante os pais… — Caiamos agora na realidade triste. Uma negra esgalgada e velhusca atravessava o pátio com um caldeirão à cabeça. Navarro perguntou-lhe: — Como vai o Matias, Luciana?

— A mulher disse-me que o pé ainda não acabou de sarar, mas que daqui a uns dias já pode trabalhar. — Um estrepe arruinado. Quase bateu as botas, e, se morresse, me causaria grande transtorno. É um Ursus! Ninguém como ele para tirar um eito. O doutor, porém, conhece-o… Entremos. Atravessaram todo o edifício. Num recanto afastado encontraram a alcova onde as três doentes foram isoladas. O silêncio, ali seria absoluto, se não fosse um zumbido remoto de enxame humano, vindo amortecido das aulas, no andar térreo, e a nota confrangedora de choro de crianças tristes, saídas dos leitos próximos. Ao transporem os umbrais do aposento, quaisquer outros corações menos preocupados que os dos dois visitantes se teriam perturbado. O insulamento daquelas três enfermas, sem uma pessoa que vigiasse à cabeceira; o ambiente carregado de penumbra densa, de mistura com o fétido lúgubre da doença, que lembrava o bafio de uma sepultura; o soluço das duas doentes, o estupor da sua companheira e o estranho brilho febril, no meio da sombra, dos seus olhos de criança, olhos que tinham medo e imploravam proteção, tudo fazia daquela alcova esconsa um lugar de melancólico abandono, um quarto de despejo dos tristes e infelizes que importunam, um desses cárceres como só os pode conceber a imaginação infantil, onde os tutus das histórias das pajens trancam as criancinhas que fazem manha. Ao entreabrir uma folha de janela, por cuja fresta um raio de luz baça caiu sobre as formas esmirradas deitadas em três leitozinhos estreitos, ao ver a consumação aterradora da doença que em poucas horas dava a corpos cheios de saúde o aspecto macerado, e as órbitas deprimidas e feições escaveiradas que tinha diante dos olhos; ao pensar no abalo que cada caso mortal não deixava de trazer ao colégio, e no Cobra prestes a chegar — Navarro sentiu uma surda irritação. Não podia admitir que sua vontade, irresistível e dominadora quando se tratava de rasgar uma aberta entre os interesses alheios para conduzir avante os seus por ela, fosse quebrar-se assim, estupidamente, contra a fatalidade. Quase julgava as doentes responsáveis pela sua enfermidade; e vinha-lhe um desejo irritado e

irreflexivo de sacudir raivosamente aqueles corpinhos débeis, ordenando-lhes que sarassem incontinente. Com especialidade, exasperava-o o pranto inconsolável e doído da Matildezinha. — Que quer? — perguntou-lhe com aspereza. — Por que está aí nesse nhe-nhe-nhem sem fim?! — Mamãe! Onde está mamãe?! — soluçou a menina no delírio. E, com os olhos carregados de febre, procurou-a aos lados da cama, supondo que talvez já estivesse ali perto, e pudesse acudir à invocação. E, como a não visse, pôs-se a chorar de novo, “Mamãe!”, traduzindo nas inflexões com que amiudava esse apelido, um desespero de criancinha abandonada. E tudo nela reclamava a ausente; o corpinho magro, torturado de aflição, com as costelas frágeis em relevo, parecia suplicar um regaço de mãe, onde pudesse aconchegar-se para sofrer menos; os bracinhos descarnados torciam-se na ânsia de se abraçarem a um pescoço adorado, onde com esse gesto estava habituada a encontrar refúgio quando tinha medo; e seus ouvidos tinham saudade das doces toadas maternas que outrora a acalentavam, quando era bem pequenina. — Vamos — disse Peregrino, que rapidamente observara os sintomas. Saíram silenciosos. Navarro, inquieto do que podia ouvir, não teve ânimo de pedir o diagnóstico ao médico. Só ao chegarem à secretaria deserta o diretor perguntou, em voz um tanto incerta: — Então, doutor? Peregrino não deu resposta. Limitou-se a pedir o vaporizador de desinfecção. Enquanto este funcionava, Navarro observava os movimentos inconscientes dos lábios do médico, temendo que dali saísse a palavra fatal: “É o tifo”. Estava acorrentado às distraídas contrações dessa boca, que desejaria se conservasse eternamente muda. E ao mesmo tempo, o silêncio pesava-lhe horrivelmente. Não deixou de ter um sobressalto quando o médico sussurrou em quase solilóquio: — É pena! ter-se-ia feito uma brilhante amputação. Emudeceu de novo, quedando-se como indeciso; mas, de improviso, voltou-se resoluto para abrir a porta:

— Vamos ver o Matias — disse. — É inútil — observou o diretor com uma apreensão. — Está quase bom, não precisa dos seus valiosos serviços. — O senhor não entende de medicina — retorquiu o médico, lançando-lhe um breve sorriso de desprezo. Faço questão. Ele pode necessitar dos meus serviços, e para mim é um dever prestar-lhos, máxime tratando-se de pessoa miserável. Ante a insistência do médico, Navarro deu de ombros, conformado. E saíram do gabinete. Daí a instantes atravessaram o pátio da Escola Normal, rumando a um casebre pouco afastado. Encontraram o Matias sentado num tamborete, o pé direito envolvido em faixas, descansando sobre o joelho esquerdo; estava a galhofar com a mulher, que a dois passos lhe pregava botões nas roupas velhas. Contrastava com a criatura pequenina que era ela a constituição hercúlea do jornaleiro. Matias era resistente, e algumas semanas de doença não o abateram; os músculos do braço ainda semelhavam cabos retorcidos, subjugados num invólucro de couro curtido; e a robustez do peito cabeludo, e o surdo rugitar de vida intensa que lá dentro barulhava, lembravam rumores de usina no âmago de maciça edificação de pedra e cal. E sobre esta compleição de gigante, uns olhos submissos de animal domesticado. Marido e mulher pararam de rir vendo os visitantes. A última, levantando-se, foi-lhes ao encontro. — Ah, Dr. Peregrino! senti tanto o senhor ter viajado… Meu marido esteve por uma dependura. — Não parece — gracejou Navarro, medindo o corpanzil do brutamontes. — Estou quase bom, sô Navarro, mas andei apostado com a morte. Desta não me levou e agora — se Deus for servido! — não me levará tão cedo. Peregrino que com mostras de descontentamento atentara na visível robustez do enfermo, mandou que lhe mostrasse o pé doente. — Sim, senhor, sô doutor. Desate aqui, Maria. A cabocla tirou os panos com cuidado. Navarro sopitava a impaciência que tudo isso lhe causava, quedando-se também a ver, como

se a sua condescendência pudesse atenuar o diagnóstico das meninas doentes. Desnudado o pé o Dr. Peregrino sofregamente esquadrinhou a inflamação, que ainda porejava pus pela fenda aberta com o bisturi. À proporção que o exame prosseguia, Peregrino tornava-se mais displicente. Essa expressão e o demorado do exame alarmaram o casal, que não lhe desfitava olhos de ansiosa expectativa. — Não sei… Pode ser… — disse por fim o facultativo descurvando-se e volvendo as costas ao paciente. Foi à porta do casebre como distraidamente e com o ar de quem tivera uma decepção. Com um gesto maquinal apertou contra o corpo o bolso do jaquetão e nesse ato sentiu o fortalecedor contato do maço de revista e monografias. — Quem o lancetou? — perguntou de chofre, voltando-se para Maria, que cuidadosamente reembrulhava a ferida. — Foi o Sr. Mendonça… pessoa que, sem desfazer do senhor, foi de muita caridade conosco. Podemos dizer que, com a ajuda de Deus, ele tirou meu marido da cova. — É verdade — confirmou Matias, cheio de agradecimento ao farmacêutico. Peregrino sentiu crescer-lhe no íntimo o ódio que votava a seu concorrente. — Não fosse ele, você já estaria bom — disse ríspido —; essa lancetada é que podia e ainda pode levá-lo à sepultura. Mostre-me o pé outra vez… A mulher atendeu-o, espantada por aquelas palavras, desfazendo novamente os atilhos. Peregrino outra vez se curvou sobre a ferida, tão atento e tão de perto, que parecia querer comer o pé. Premia os rebordos da chaga, fazia-lhe esvurmar o conteúdo, enquanto Navarro, contrariadíssimo por aquela inútil perda de tempo, tilintava a corrente do relógio. — Não faça barulho — ordenou severamente o sábio, reduplicando de atenção. A corrente parou de tinir. Por fim, de permeio a um silêncio sepulcral, Peregrino ergueu-se, desfechando uma risadinha sarcástica.

— É o que pensava — disse —; vai gangrenar. Se não operar, tem pouco tempo de vida. Maria quis emitir uma exclamação que se lhe prendeu na garganta. O camarada arregalou uns olhos espantados que pareciam ter medido, naquele instante, a profundeza de uma cova. E o médico, tomando com hábil indiferença o braço do Navarro puxou-o para fora. A mulher quedara-se no mesmo lugar em alheação de estuporada; a terrível notícia fora como uma navalhada indolor que entalha a carne, sem ao princípio se fazer sentir; súbito a carne reage, golfa sangue, os nervos gritam; assim foi, quando, rápida como o golpe, clareou-lhe na consciência a realidade terrível. Desatou a correr até alcançar os visitantes, e, apegando-se ao braço do doutor, rolou-se- -lhes aos pés, num grito lancinante: — Dr. Peregrino, salve meu marido! O médico repetiu a risadinha satânica: — Ora! Pois não o tratou o Mendonça? Chame o Mendonça! — Salve meu marido! — repetiu a cabocla escabujando de desespero. — Deixe-nos! — disse o diretor, ajudando o Peregrino a libertar-se da mulher. — Nada de espetáculos. O doutor tratará do Matias, afianço-lhe. E, como Maria pedisse ao médico a confirmação dessa promessa: — Pois sim, disse ele, comovendo-se, mas será preciso cortar a perna. E, enquanto a mulher levantava as mãos ao céu, asseverando que preferia ver o marido sem as pernas e os braços a vê-lo morto, afastaram-se os dois. Entraram segunda vez na secretaria e aí trancaram-se. — Mas a estovaína… — ia começando Peregrino, com entusiasmo. — Doutor, atalhou o Navarro — nem por sombra pense em amputar a perna ao Matias. Não vê logo que a ferida está cicatrizando? Um camarada de mão cheia ficar inutilizado!

— O senhor não entende de medicina — replicou secamente o médico. — Não entendo, mas há coisas que entram pelos olhos; e em certas enfermidades o melhor médico é a natureza. — É um erro — observou o diplomado condescendendo em argumentar —; é um lugar comum inepto e boçal. Combati essa ideia na minha escrita no concurso. Vai ver que se prova a coisa pela razão. Se a natureza efetivamente curasse, qual seria então a utilidade da medicina e dos médicos? Em consequência deveríamos suprimi-los, o que é um absurdo; logo… — O doutor argumenta como um Rui Barbosa — disse Navarro. — Todavia, afinal, tratemos do assunto que nos interessa. Vendo-o assim despreocupado, suponho que achou as enfermas apenas com alguma influenza forte… com qualquer infecçãozinha benigna, não é? — Têm tifo — respondeu o médico, como distraído. — Tifo! — o diretor deu um pulo. — Está gracejando, decerto? — Têm tifo, todas — afirmou Peregrino em tom categórico. — Não resta a menor dúvida. Os sintomas são infalíveis: estupor, delírio, erupção. Desfiou em cargas cerradas outros indícios. Abatidíssimo, Navarro deixou-se cair numa cadeira. — Era a ruína, a derrocada de seus estabelecimentos — gemia. O médico não se comoveu. Resolvera abrir luta com o diretor, não se curvando mais às suas exigências. Os nasóculos pretos que lhe davam um semblante amadurecido, já os suprimira de vez. A uma insinuação do Navarro, que continuava a descabelar-se, declarou que, de modo algum, trocaria dessa feita o diagnóstico para fazer valer o seu trabalho e não tomar a pecha de ignorante. Tinha muitos inimigos que lhe invejavam o renome. — Mas o doutor não calcula que alarma isso vai dar! Já estou a ver uma chuva de telegramas aflitos e de pais inquietos a vir buscar os filhos! — Embora! A sinceridade antes de tudo.

— Doutor — tornou Navarro aceitando a luta —, nunca o supus um ingrato. Há quanto tenho-o como companheiro e amigo? Quem lhe dá bons ordenados e grande prestígio nestas redondezas? O espinhaço corcovado do médico tomou prumo e ele impou de dignidade para protestar. — Está enganado! Prestígio dá o meu nome aos seus institutos. Minha presença aqui é um favor. — Mil perdões — conveio Navarro, mordaz. — Nem por um momento me acudiu à memória que tenho diante de mim uma notabilidade clínica encanecida na ciência, um sábio que revolucionou a medicina e lutou com uma congregação. Os jornais do Rio não falam de outra pessoa… na seção livre. Peregrino titubeou sob a afronta inesperada. Esperava a cólera do diretor, mas não se prevenira contra o sarcasmo. Navarro viu-o hesitante, interdito, sob o golpe habilmente desfechado. Receou, todavia, que Peregrino, num acesso de brios, quisesse romper com ele; e não desejando inimizar-se com um participante dos segredos da administração interna dos colégios, fez-se de repente quase terno. Segurando familiarmente um botão do colete do seu interlocutor, disse-lhe com entoação suasória: — Venha cá, Peregrino, preste-me atenção. Vou falar-lhe como um pai a um filho. Você é um grandessíssimo criançola, desculpe-me a expressão. Isto por exemplo, de julgar-se sábio… Afinal, eu é que sou culpado de entrarem essas caraminholas na cabeça dos meus professores. Elevo-os quanto posso perante os meus amigos… Você quando veio para aqui, salvo algumas fumaças de médico novato, era mais modesto. Mas em presença dos pais pus-me a falar a seu respeito com o encarecimento com que falava dos outros professores, dando-o como um gênio, um médico prodígio; os pais acreditaram, cercaram-no de consideração e… lá se foi seu bom senso. Não contesto que tenha um talento invejável; mas, apesar de tudo, não passa de um mocinho de vinte e poucos anos inexperiente e cheio de ilusões… que acaba de fazer o curso…

Peregrino abriu a boca para protestar; Navarro intimou atenção, repuxando-lhe fortemente o botão do colete. — Inexperiente, sim… — confirmou com dureza amiga. — Pois não sabe que é o longo tirocínio que faz o bom médico? Hoje não se admite mais ciência infusa. Por isso você não pode ter dessas exigências comigo. Ainda mais, consulte a memória e verá como sua clínica tem sido desastrosa. — É falso! — exclamou Peregrino. — Apele à memória, insisto… — e, contando nos dedos: — O Antônio Dutra morreu, o Anastácio morreu, o Frederico morreu… Era um nunca acabar. Peregrino, esmagado, deixou descair as costelas. As palavras do Navarro punham-no estupefato. Pois o diretor que o havia revelado a si próprio, que espalhava seu nome pelas cercanias, em cujos encômios ele, Peregrino, hauria forças quando a confiança em si desfalecia; Navarro, que ele acreditara que admirasse seus predicados de cientista; a voz profética que lhe mostrava o futuro aos pés do Gênio da Medicina encarnado nele, Peregrino, acabava de confessar que todas as suas palavras laudatórias foram mero reclamo! Livre, nesse momento, da catarata da enfatuação, o médico via quão sensatas eram as observações do diretor. A enumeração dos seus “casos fatais” tirava-lhe o resto de aprumo. Facilmente sugestionável por tibieza de temperamento, máxime agora com tais carradas de razão, Peregrino quase se convenceu da sua nulidade. Ouviu como num sonho a proposta que Navarro em seguida lhe fez: — Voltando ao nosso ponto de partida — se o doutor me garante que as doentes saram, publique o diagnóstico, mas depois da cura. Assim será de vantagem para nós ambos. — É impossível — gemeu o Peregrino. — A Matilde não escapa. Quanto às outras, tenho esperanças. — Mas enquanto não se realizarem essas esperanças, vá dizendo aos que perguntarem que se trata de gripe ou influenza… Está combinado?

Peregrino moveu debilmente a cabeça, assentindo; e, empunhando a pena que o Navarro lhe oferecia, receitou, caprichando a letra. — Para que fazer letra ininteligível? — perguntou amargamente para si; ele era um homem vulgar. Adeus, rabiscos corridos com que procurava arremedar a grafia diabólica de algumas notabilidades! Todavia, aproveitou a ocasião para se despicar do Mendonça; em cada receita incluiu de sobrepensado alguns símplices que não vinham bem ao caso, mas que sabia não existirem na farmácia o professor de física e química; em consequência, as receitas seriam aviadas noutra. Concluídas, Peregrino entregou-as ao Navarro com um gesto abatido, e foi tomar o chapéu. — Doutor, você vai maçado comigo! — disse Navarro, segurando a mão que lhe dizia adeus. — Acredite que, se o diretor é às vezes rabugento, o amigo é sempre o mesmo — profundamente dedicado. Espero que nada perderei de sua amizade. Peregrino quedou-se mudo e cabisbaixo como a estátua da desilusão. Doendo-se de vê-lo assim, Navarro bateu-lhe ternamente na corcova; e disse-lhe à guisa de consolo: — Tenha a certeza de que, se ainda não o julgo um gênio, tenho muita fé no seu futuro. Reconheço que tem seus méritos, e, para provar, entrego-lhe o Matias. Meu grande amigo ainda pode ser algum dia um Pasteur, um Oswaldo Cruz… O diretor largou-lhe a mão e ele saiu. No caminho seu alquebramento moral tornou-se, se era possível, ainda maior. Do seu arcabouço murcho e curvado, descaía o jaquetão com a expressão desalentada das roupas nos cabides. Nunca ele suporia que a grande conta em que se tinha era arraigada aos louvores do Navarro. Suas últimas palavras ainda lhe voltavam, como um requinte de ironia: Ele era um “moço de talento”, um “futuroso”… Com uma clarividência cruel buscou à roda o que o fazia considerar-se sábio; e, em tudo, na veneração que os pais lhe tributavam, nos elogios dos jornalecos mineiros, no acatamento com que sua palavra era ouvida, via o dedo oculto do Navarro. O grande respeito com que o acolhiam em casa dos doentes, e que era para ele como um eloquente

testemunho do seu valor, do quanto se tornara indispensável sua ciência, não era uma ansiedade natural, a homenagem habitual ao médico, de que aquinhoavam seus colegas de classe? Não se dirigiam à pessoa, mas à profissão. Fazendo-lhe fosquinhas dançava-lhe diabolicamente na cabeça a meia dúzia de fórmulas que sabia de cor e receitava para tudo. Do tropel irrompiam por meio delas frascos de preparados que prescrevia por serem novidades ou pelos rebarbativos nomes científicos. E do meio delas e deles saía a gargalhada histérica das receitas erradas, das doses mortíferas propinadas por inadvertência. Tudo lhe chamava o mesmo o apodo: — Homem vulgar! Nulidade!… Por uma correspondência secreta, o quebranto moral comunicou-se ao físico, e ele parou. Faltavam-lhe forças para caminhar e para pensar. Quedou-se bestificado e vazio… Viu-se a meio caminho da vila. Olhando o chão, interessou-se distraidamente por um marimbondo-cavalo que arrastava uma tarântula morta; linha a linha subia o barranco, puxando a pesada aranha; de repente despencavam ambos de cambulhada, tornava a subir, lentamente, puxando com esforço…

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Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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