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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 17 · Falange Gloriosa

Capítulo XVII

17 de 21 ≈ 14 min de leitura

Navarro convocara uma reunião da congregação para o dia 15 de novembro. Era mais uma das célebres “sessões de conselhos”, consoante diziam os professores. Nessas reuniões instruía-os sobre o modo de se haverem nos exames, bem como o general na iminência de uma batalha decisiva, reúne os soldados e arenga-lhes, para incutir coragem e tornar certa a vitória. Chegara a época em que a bomba devia explodir, segundo o acordo dos paredistas. Prouvesse a Deus, todavia, que o estouro esperado não se resolvesse no fiasco de um traque chocho! Porque o entusiasmo dos docentes arrefecera consideravelmente, desde que o Bias revelara que o Navarro já “sabia”. Essa revelação tirou-lhes o melhor do espetáculo; era certo que o diretor não ia alongar a facha em desapontamento surpreso, ao receber o ultimato; ao contrário, topariam com um homem prevenido. Não restava dúvida de que haveria luta intensa, cujo êxito era sobremaneira incerto. Com isto, o corpo docente tremia; e, se não recuara, foi por não ter encontrado um providencial eufemismo que acobertasse a vergonha de uma retirada. Bem que, desinfluídos, todos mostravam-se ainda muito isentos. — Eu não tenho medo do Navarro — dizia o Cândido na noite de quatorze para quinze, em casa do ex-deputado. — Nem eu — bazofiava o Penedo, sem entusiasmo. — E, se ele me disser alguma liberdade, sou capaz de dar-lhe um soco no nariz. O corpo dos grevistas tinha-se reunido em sessão magna, naquele lugar. Foi designada a meia-noite para o conciliábulo. A essa hora,

através da escureza densa da rua, via-se a intervalos aparecer cosido com as paredes, e caminhando a pé cauto, um vulto humano embuçado num xalemanta, ou mesmo num cobertor; ao defrontar a casa do ex, atirava-se sem fôlego pelas escadarias acima. Algum mais receoso assobiava das trevas um sinal convencionado, uma espécie de canto de saci, só se aventurando a entrar quando das profundas entranhas da casa lhe respondiam com um trilo de inambu, o que significava não haver novidade. E a porta engolia mais um. Por fim encontraram-se todos reunidos, inclusive o Dr. Peregrino, que, por amor ao seu sanatório, seria capaz de descer a todas as vilezas. O Bias também lá estava, indefectível, malgrado D. Oleogarípia proibir-lhe terminantemente que desertasse o lar conjugal depois das ave-marias. Os conjurados, para maior segurança, tinham-se reunido no quarto de despejo, que era um cubículo sem janelas no âmago da casa. A um canto, discretamente velada por uma trouxa de roupa suja, uma lamparina fumacenta alumiava escassamente a quadra. Um bacião de folha e um grande tacho, ressoando quando falavam, davam a todas as palavras um sinistro timbre sobrenatural. No momento em que Cândido declarou com a voz incerta que estava aberta a sessão, os paredistas alinharam-se em semicírculo, voltados para ele. Então, impressionados pela calada da noite, a que a solenidade do momento dava relevo, pelo aspecto lôbrego do cômodo e pelos clarões vasquejantes da lamparina, todos ficaram desfigurados, arregalando olhos de pavor uns para os outros. Para maior garantia o ex foi dar volta à chave e, tirando da roupa suja uma saia, dependurou-a sobre o buraco da fechadura. O silêncio que se seguiu era de coar arrepios. Ninguém ousava falar, nem achava o que falar. Como nos pródromos de uma evocação espiritista, só havia a muda expressão dos bugalhos ressaltados, circunvagando inquietos. O Bias não desfitava o seu olhar de um nó furado, numa tábua do forro. Puxando o paletó do ex, perguntou- -lhe, por fim, apontando o buraco: — Não haverá perigo? — Perigo! — exclamou o ex, surdamente. — Nenhum!

— Os senhores parece que estão receosos! — interveio Penedo. — Por mim não me temo de nada. — Nem eu — falou o Camões. — Eu muito menos — tornou outro. Todos queriam mostrar-se impávidos, e assim reacharam a voz. Um timbrou em falar com o tom natural, e seu exemplo foi logo seguido pelos demais. Em pouco, a coparticipação na culpa e a comunhão do perigo trouxeram uma certa tranquilidade. E entraram pela ordem do dia. A matéria à discussão era pouca, quase tudo já fora resolvido; restava apenas assentarem alguns pormenores somenos. Primeiramente discutiu-se quem passaria a limpo a lista das reclamações. Cada um alegava ter a letra péssima. — A minha é a pior de todas, mas não desgostaria de servir de secretário — disse Peregrino, cortando cerce a dúvida —, pois desejo desenvolver alguns considerandos sobre o meu sanatório. Tomou da pena e redigiu-os; depois Cândido pôs-se a ditar o conteúdo do caderninho, e ele a escrevê-lo. Foi bom isto assim em voz alta, porque Camões notou que havia ali defeitos de estilo e erros de português. O poeta filava-os à passagem, endireitava os aleijões e mandava a frase retocada continuar o seu caminho. — “No nosso penoso emprego de professor”… — ditava o Cândido. — Espere — atalhou o censor —, em vez de “penoso emprego” é melhor “árdua tarefa”. Escreve lá: “Na nossa árdua tarefa de docentes”… E a letra do Dr. Peregrino ia correndo epiléptica, inda pior que nas receitas. No fim, ele mostrou a todos os presentes: — Está ininteligível — disse, envaidecido. Os colegas foram de encontro, achando-a ótima. — Ótima! não digam isso — protestou ele. — Vejam, por exemplo, este “mais”. É um rabisco com um pingo em cima. Aprovados o texto e a letra em última discussão, restava só assinar. Peregrino sugeriu que a ordem das assinaturas fosse prefixada pela sorte.

— Pela sorte? — motejou o Penedo, rindo forçado. — Do que é que o doutor tem medo? — Medo de quê? — secundou outro com um riso amarelo, que procurava ser humilhante para o facultativo. — Pois se não querem — redarguiu ele —, vamos assinando sem mais. — Tome a pena, Sr. Penedo. Mas o Penedo já preparava apressadamente os papelinhos. Estando prontos, meteu-os no covo de um chapéu com um jeito esquisito, que levantou suspeitas. Estas suspeitas depois se confirmaram, porque seu nome saiu por último. — Agora, Cândido, vá tirando e lendo em voz alta. — Dr. Cavagnari! — fez o presidente, desenrolando um papelinho. — Ecco! — exclamou o poliglota. — Cosa? Non capisco! — É fácil “capiscar”, sobreveio Penedo, com aspereza; é só ir pegando a pena e lavrando o nome. Nada mais. O professor acompanhou estas palavras com uma mímica tão expressiva, que não houve refugir. E o doutor, dando ao rotundo abdome uma compostura digna da Universidade de Milão, assinou em primeiro lugar. — Dr. Peregrino! — leu de novo Cândido. Aprumando-se com altivez, o médico foi assinar. — Não sei que comi hoje — dizia o Bias ao Mendonça, apertando o ventre. — Estou com uma cólica! — Luís de Camões! — apregoou Cândido. — … parece que tenho nos intestinos um formigueiro a morder, ferroar… Que será? — Decerto foi alguma misturada — aventou o Mendonça, satisfeito por ser consultado em face do seu rival. — Tome um pouco de magnésia. — Coronel Mercês! — Parece que me espetaram uma faca na barriga, e a estão a revolver, a revolver lá dentro… E Bias fez um gesto de quem roda cambito.

— Faça lavagem com uma infusão de ipecacuanha, para experimentar. — Cândido! Sou eu… Dê-me a pena, coronel. — Ai! — gemeu o Bias. — É o mesmo que se me tivessem amarrado um barbante na tripa e o estivessem puxando, puxando. Com licença, é muito urgente… Abriu a porta e sumiu no corredor. O farmacopola pôs a cabeça na fresta, e falou para fora: — Veja a cor da obra… Porque talvez seja caso de sal amargo. — Bias! — leu o presidente. — Não foi o Bias quem saiu? — Ele estava muito incomodado — explicou Mendonça. — Agora mesmo eu estava-lhe até receitando — e olhou para o Dr. Peregrino. Esperaram o fugitivo. Tardando muito, o coronel foi procurá-lo. Remexeu a casa e não o desencafuou. Como o plano fosse patente, os paredistas, entre grandes indignações, resolveram passar sem ele. O ex-deputado chegou a requerer que se consignasse na ata um voto de qualquer coisa contra o desertor. Terminadas as assinaturas, discutiram o modo de entregar a mensagem. Os debates foram demorados e renhidos. Camões propôs ir um dos grevistas à Escola Normal, enfiar sub-repticiamente o papel debaixo da porta, e raspar-se a toda. No dia seguinte, ao amanhecer, seria encontrado. A ideia sorriu-lhes um momento; depois foi rejeitada, pois de noite andavam soltos em roda da chácara três cachorrões que a tornavam inacessível. Penedo achava melhor um deles ir altivamente à presença do diretor e entregar-lhe, em mãos próprias, a lista de reclamações. — Excelente! magnífico! — acudiram unânimes como os ratos votando o guizo. Mas era preciso escolher o portador. — Eu não me ofereço, porque tenho medo de esbofetear o Navarro — disse o Penedo. — Por mim já me conheço, sou de um gênio endiabrado — falou o ex. — Como sabem, tenho a zelar um passado modesto, mas

glorioso; e não responderia por mim se o diretor me viesse com alguma indireta menos delicada. Os outros fizeram observações do mesmo teor. E cada um tinha orgulho em revelar-se ali, aos demais companheiros, com essa feição bravia que uns não conheciam nos outros. Ouvindo-os, gerava- -se a convicção de que naqueles cidadãos pacatos, maleáveis e submissos, havia outros tantos criminosos natos, com avitas ferocidades do homem da pedra lascada. Era o sangue do ex-gorila que bramia nas veias do ex-deputado? Despertava no Luís de Camões a têmpera dos velhos guerreiros lusitanos? E na lesmice do Mendonça surdia porventura o antropófago pré-histórico? Problemas em que a razão se obumbra e soçobra! O certo é que não sairiam nunca da indecisão se uma ideia brilhante não chispasse da imaginativa virgem do Cândido Rodarte: — Vamos pôr o Dadico como intermediário! Estupendo! A ideia foi incontinente considerada como resolutiva da situação. Era simples como o ovo de Colombo, e não podia haver melhor. O secretário do Ginásio estava em posição excepcional de graça aos olhos do Navarro. No primeiro de novembro se travara o esperado recontro eleitoral, resultando a estrondosa derrota da Câmara velha. Todos os barbaças venerandos que havia anos sem conta tinham o monopólio da Câmara lá estavam acantoados pelas fazendas, neurastênicos e hipocondríacos. Dadico fora eleito presidente da Câmara nova. Agora ele e o Navarro não se largavam, como complementos vitais um do outro. Por isso a importância do secretário tornara-se formidável: um pedido seu seria de grande peso. — Vamos ao Dadico! — clamaram todos. Ei-los que vão, em grandes passadas, hermeticamente rebuçados nos xalemantas e nos cobertores. Sendo o Dadico solteiro, não punham escrúpulo em incomodá-lo a tais desoras. Defrontando sua casa, Mendonça separou-se do grupo, dizendo: — Vou verter água ali no beco e já volto. Pelas fisgas da janela os professores viram luz no quarto. Animados por esta circunstância, bateram resolutos à porta. Dentro houve

rebuliço; exclamações surdas, passos correndo, e o barulho de um corpo pesado engatinhando atabalhoadamente para baixo da cama. Batem de novo. O estalidar de gatilhos aperrados, a janela que se entreabre, mostrando um nariz e um cano, a janela que estronda fechando-se de novo, frases abafadas: “Nhá Tuca! É o Lago! Com vinte capangas!”. E novas carreiras. Subitamente, a voz do secretário berrou no beco: “Não me mate!”. Os docentes correram para lá, e viram o Dadico, que, saltando o muro da horta, havia caído nos braços do Mendonça. — Sr. Dadico, que é isso! Não lhe queremos mal! — reconfortava-o o farmacêutico. — Mas o Lago! — O Lago não está aqui, Sr. Dadico! São todos amigos dedicados. O secretário passou então do terror a um riso louco, irreprimível, interminável. Só depois de muito tempo pôde dar uma explicação aos colegas. — Não estranhem meus modos. Não sei se lhes contei que sou sonâmbulo… Estou acordando neste momento. Imaginem que eu sonhava que os vereadores da Câmara velha tinham vindo assaltar- -me a casa. Nisto ouvi um batido forte na porta… Então, sempre sonhando, perdi a tramontana e fugi. Mas que há de novo? Ainda estão em greve? Custa-me reconhecê-los na escuridão, com esses biocos na cabeça… Aquele lá é o Cândido? Por que foi ficar tão longe? — Sou eu mesmo — respondeu Cândido, impressionado. — Ouvi você falar em sonambulismo, e isso me pôs nervoso… Já está bem acordado? — Já — respondeu Dadico, rindo-se. — Levei um susto! Dizem que os sonâmbulos matam, inconscientemente… E eu que vi você com uma garrucha na mão… Por sinal que você também estava sonhando com uma tal Nhá Tuca. — Talvez… — respondeu Dadico com um riso de descocha. — Mas vou recebê-los dentro de casa… Podem esperar à porta, que entrarei pelos fundos, por causa da chave. Dadico pôs-se a custo em cima do muro. Daí hesitou em pular para dentro.

— Que diabo! É alto demais. Nem sei como pude trepar aqui. — O sonâmbulo, dormindo, faz coisas de que não é capaz no estado normal — explicou Cândido, cheio de admiração. Depois de hesitações infinitas, o secretário encomendou a alma a Deus e atirou-se. Instantes depois, enfiando umas calças, foi abrir a porta aos docentes. — Que há de novo? — repetiu recolhendo-os à sala de visitas. Então, Luís de Camões, fazendo-se boca dos demais professores, começou com eloquentes preâmbulos. E preferindo de momento a avena à tuba avoenga, falou sobre os chilros maviosos da nossa fauna alada e o luxuriante das selvas pátrias; abandonando, afinal, pela realidade triste, as etéreas regiões da poesia, foi cair no assunto. Então explicou o que havia e entregou a lista. — Pois não! Contem comigo — prontificou-se Dadico, guardando o papel. — Mas não é só entregá-lo ao Navarro, assim sem mais nem mais — disse o Penedo. — Interesse-se por nós, advogue a nossa causa como companheiro, como irmão… Nossas condições são tão precárias! Estamos todos endividados até a ponta dos cabelos. Mas diga você, Camões; você sabe melhor externar o nosso pensamento… Tomando a palavra tão gentilmente oferecida, Camões aproveitou-se dela para esboçar um ligeiro patético sobre o lar em miséria, as criancinhas sem pão. Vendo que o Dadico se mostrava visivelmente comovido, redobrou de eloquência. No fim, o secretário, com lágrimas nos olhos, prometeu tudo. Então os paredistas saíram. E, de júbilo, resolveram passar pelo Bias, para dar-lhe a grata notícia, perdoando-lhe a deserção. Mas, chegando a sua casa, nem tiveram ânimo de bater. De dentro vinha um berreiro e bulha insólitos, uma das costumadas trovoadas conjugais. O Bias dava gritos horrorosos. Decerto, D. Oleogarípia ajustava com ele suas contas, por ter-se escapulido à meia-noite do tálamo conjugal. Os docentes afastaram-se, penalizadíssimos.

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Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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