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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 6 · Falange Gloriosa

Capítulo VI

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Os exames de segunda época correram suaves e benfazejos como bênçãos do céu. Turmas de candidatos à madureza acorreram de todos os pontos cardeais e fizeram ato sem desastres nem contrariedades. Estavam tão azeitadas as engrenagens do “Fiat Lux”, que o examinando passava docemente entre elas, e saía intacto e com certificado de habilitação em todas as matérias. Nem uma reprovação. Na primeira época, em novembro, ainda se admitia que um ou outro aluno fosse “cortado”, com a condição, porém, de perder uma única matéria, para curar-se o aleijão na segunda época, o que o regulamento, nessa hipótese, consentia. Alguns dias depois de findos, pelas dez horas, um grupo de professores aguardava, no trecho da rua comprimido entre o prédio principal do ginásio e o do antigo teatro, o toque da sineta para a entrada das aulas. Faziam roda à figura gigantesca do Navarro que lhes dirigia suas habituais recomendações para o bom andamento do ensino. Quem os lobrigasse de longe, ao ver os grandes gestos do diretor, e ao lhe ouvir o troar da voz, no meio daquele círculo de homens cabisbaixos, e em cujo dorso a humildade acentuava corcovas, suporia o diretor no paroxismo da cólera, se não reconhecesse a santa exaltação que o transfigurava, ao tratar de matéria concernente à sua superior missão de educar. Os professores chegavam sempre com antecipação. Um quarto de hora antes do sinal para as aulas, já estavam agrupados, à porta do ginásio, rindo-se cada um interiormente da pressa dos outros.

É que o Navarro, desde o princípio do ano, se mostrava excepcionalmente enérgico, e por um retardamento de dez minutos descontava o dia. A vigência dessa penalidade era fora de dúvida porque, com exclusão do Bias, todos já haviam tido dolorosa experiência pessoal. O pior é que a vítima só era avisada do desconto no dia imediato, do que resultava dar gratuitamente, sem o saber, as restantes aulas do dia condenado. A inflexibilidade da regra provava-se por um fato recente: Luís de Camões acabava de perder seu irmão, Victor Hugo, um rapazola palerma que se resolvera a morrer, talvez por palermice, talvez pela indigestão de bananas que diagnosticara o médico. No dia da morte, e no do enterro, o poeta não comparecera ao trabalho, e teve desconto de dois dias de vencimento. Por sinal que, embocando a tuba avoenga, Camões azorragara o Navarro em objurgatórias rimadas, que circularam em secreto entre os professores. Até aquela data era o Bias o único imune. Sua pontualidade chegava ao exagero; uma hora quase, antes do sinal, já o viam no espaço intermédio aos dois prédios do “Fiat”, passeando filosoficamente para cá e para lá. Nesses momentos solitários de espera, muita gente achava graça em seu cacoete de enfiar a mão no bolso da calça, dali levando-a à boca, de instante a instante, com um gesto maldisfarçado de quem cofia o bigode. O Navarro louvava-o pela pontualidade, ao passo que os demais se remordiam de inveja: — Façam como o Bias, imitem-lhe a dedicação ao trabalho! porque precisamos rasgar o tumor maligno da ignorância com o bisturi dos nossos esforços, para semear na ferida as sementes da instrução. O Bias é um belíssimo exemplo de apóstolo da luz. Mas a causa suspeitada da pontualidade do elogiado eram as tempestades domésticas que o esperavam no lar, à hora do almoço. D. Oleogarípia, sua esposa, levantava-se tarde, e de humor endiabrado. Ao ver entrar o marido, já ia avançando com as mãos grifenhas para os seus bigodes cor de milho, ou, se não havia pretextos recentes, serviam os atrasados e prescritos. Ao desencadear da tempestade,

o marido esquivava-se à sanha da metade, fugindo precipitadamente de casa, não sem antes dar jeito de atafulhar na algibeira da calça um pão comprido. E ia roê-lo às esconsas, à porta do ginásio, fazendo tempo para a aula. Mas a sineta badalou as quatro pancadas regulamentares. Navarro, sacrificando a última frase, enxotou os subalternos: — Para os postos, para os postos! O grupo bipartiu-se indo a maior parte dos docentes para o ex- -teatro. O prédio fronteiro vomitou longa fita de alunos, a dois de fundo, que levou um minuto atravessando a rua. No corredor, os professores ladearam, dando-lhes passagem, resolvidos a conservar-se ali um instante ainda, a saborear um último cigarro, fumado às pressas, o qual, nesse momento, com sacrifício do tempo das aulas, tinha o sabor especialíssimo dos frutos proibidos. Esse furtozinho era lícito, porque o Bias, o mais esforçado dos lentes, apontado como espelho, não se forrava à mesma fraude. Estavam ali o Cândido, o ex, o Mendonça, o Penedo, o Bias, e mais um homúnculo rotundo, nariz empelotado, maxila quadrada e rosto de um colorido avinhado; era o Cavaliere Ercole Cavagnari, doutor em ciências pela Universidade de Milão, poliglota emérito, uma das aves raras do colégio, que acumulava as cátedras de grego, alemão e inglês. Como muitos homens de grandes conhecimentos, era incurioso da casca externa; e sua profunda ciência revelava-se no seboso do terno de sobrecasaca (único que lhe conheciam desde que aproara ali), no encardido dos miúdos dentes em serrilha, e na sem-cerimônia com que arrotava os gases se suas digestões laboriosas ao focinho do mais grado interlocutor. Homem de poucas palavras, falava quase sempre em monossílabos, suprindo com a propriedade da mímica a deficiência da dicção; e sua linguagem mista lembrava o esperanto, com predominância do italiano. Apesar de conhecer de raiz todas as línguas vivas e mortas e com especialidade os dialetos da Baixa Itália, a sorte lhe fora tão esquerda na cara pátria, que tivera de emigrar numa terceira classe, de tafulho com colonos que se destinavam

aos Estados Unidos. Ali permaneceu onze meses, mas o Navarro, porventura tendo ouvido mal, apregoava que foram onze anos. — Não foram onze anos e sim onze meses — corrigiu uma vez o Dr. Ponciano, quando a sua incompatibilidade de gênio com o Navarro ainda não os havia levado ao extremo de cortar relações. — Onze anos — confirmou o diretor fechando a cara para convencer com a força moral. — Onze meses — turrou Ponciano. — Chame o Cavagnari e pergunte. Navarro enfuriou-se, afinal: — Dr. Ponciano, o senhor é pirrônico! Pois mesmo que o fosse, para um espírito esclarecido como o doutor Cavagnari, onze meses não equivalem a onze anos? a onze séculos? O Dr. Ponciano respondeu com uma gargalhada franca, desencadeada, que depois pagou com o desconto do dia. Foi por discussõezinhas tais que ele abandonou o colégio, ocupando-lhe a vaga o Dr. Peregrino. Fossem onze anos ou onze meses, o certo é que para o Dr. Ercole Cavagnari a língua inglesa não guardava segredos. E era de ver o denodo com que em hora de lição se batia com os alunos para transmitir- -lhes seus grandes conhecimentos; e necessitava toda a energia, porque muitos habitualmente cochilavam na aula, ao passo que a maior parte ria do professor, quando este se esbofava para explicar: — Zi daime — il tempo; — zi dógo — il cane! Depois de esgotar muito tempo nesta luta ingrata, o doutor acabava por se rir como os escarninhos, e depois por cochilar, como os demais; e durante a pesada sonolência do vinho, que o fazia derrubar a cabeça sobre o ombro, vinham-lhe sobressaltos de sono alegre; abria um olhinho escasso, e com um riso parvo, declamava, arredondando a boca em ó: — Zi dógo — il cane! — Dio cane! E ria-se mais, recaindo em seguida na soneca. Só no fim da hora era despertado bruscamente pelo toque da sineta. Malgrado estes senões, o Navarro tolerava-o, não só pelo seu vasto cabedal de conhecimentos, como porque, à força de propaganda,

muitos italianos punham os “bambinos” no “Fiat Lux”, só para que fossem lecionados por tão alta notabilidade patrícia. No corredor os docentes fumavam, conversando, ou melhor, trocando ideias, conforme a gíria introduzida pelo Penedo. — Então o Peregrino te escreveu? — dizia o ex, dirigindo-se ao professor de salamaleques. — Recebi carta hoje. Comunica-me que em poucos dias começam as provas do concurso de obstetrícia. Recomenda-me em termos calorosos que acompanhe o andamento dos trabalhos no Jornal do Comércio. Está certo da vitória… — Dizem que o Navarro se opôs muito ao concurso, com receio de algum fiasco — observou Cândido, erguendo para Penedo os olhos infantis. — O Peregrino bufou! — Fiasco! — admirou-se Penedo com irônica seriedade. — Haverá quem duvide de que na envergadura ronceira do Dr. Peregrino, e atrás da competência dos seus nasóculos pretos, não haja a sapiência dum Fajardo, dum Francisco de Castro! — Pois estou louco para que volte, disse o ex, porque tenho piorado muito nesta vila. O clima é péssimo. — Fale baixinho! — segredou o Bias oficiosamente. Se o Navarro ouvisse… — É péssimo! — repetiu o coronel Mercês. — Pois não vê que aqui estamos como num vale, montanhas de uma banda, e montanhas de outra? O ar que passa no meio forçosamente há de ser encanado! O farmacêutico Mendonça, de rosto terroso e inexpressivo, tinha as ideias tardas e a dicção dificultosa; a esse ponto tomou a palavra, que lhe saiu quase fácil: — O Dr. Peregrino acabará com o senhor, coronel Mercês; seus doentes pioram sempre. Formou-se o ano atrasado, ainda não tem prática nenhuma. — Isso de doente piorar é sorte, Sr. Mendonça, porque na Academia os médicos estudam seis anos e ficam conhecendo todas as doenças. Mas, enquanto o Peregrino não vem, aqui o Dr. Cavagnari

há de receitar-me alguma coisa… Se prefiro o Peregrino não é por desfazer no senhor, doutor; e sim porque já comecei a tratar-me com ele. Depois das aulas posso procurá-lo? — Non sono clínico! — rebateu o Dr. Cavagnari, como ofendido. — Ah… Pois eu pensava. É advogado? — Avvocato!? — bradou o doutor, com indignação. — É então engenheiro? farmacêutico? dentista? — Ma! ma! — articulou o Dr. Cavagnari, a quem a fúria tirava as palavras. — Mas então é doutor em quê? — indagou o ex, estupefato. Furibundo, o doutor levou os dedos apinhados ao nariz do ex, berrando: — Dottore in scienze… per l’Università di Milano!!!… — Mas em que ciências — redarguiu o ex com impaciência. — Físicas? Matemáticas? Sociais? O doutor ficou fora de si. Pôs-se na ponta dos pés para ficar nariz contra nariz com o ex; e repetiu com fúria, a mostrar a serrilha dos dentinhos encardidos, espirrando-lhe perdigotos na cara: — En scieenze… En scieeenzze… O ex recuou, dando-se por satisfeito. Atrás dele o Bias encostava o nariz nos joelhos, torcendo-se de riso. — Que mamute intratável! — murmurou o coronel Mercês, dando-lhe as costas. Nesse momento a grande algazarra dos alunos soltos nas aulas abafou todas as palestras do corredor. Alguns lentes entraram nos compartimentos respectivos a pedir silêncio. Houve um arrefecimento na fervura. Os docentes então volveram ao lugar primitivo. À ilharga do ex, Mendonça, que não o havia abandonado, retomou o seu assunto. Sua voz era frouxa, e as ideias vinham-lhe habitualmente tardas, a fórceps. Muitas vezes começava uma frase na intermitente oclusão cerebral. Nesse dia os professores admiraram-se de ver como suas frases moles se iam emendando umas nas outras, formando uma coisa lânguida e sem fim, que lembrava o lento desnovelar-se de uma meada bamba. Esse milagre só lhe sucedia quando o pungiam ciúmes de ofício.

— O Dr. Peregrino — dizia — é presumido e ganancioso. Não tem escrúpulo de matar os doentes; pelo contrário, aproveita-se dos insucessos para cobrar mais. Não ouviram contar a história da mulher do Pereira? O Sr. Navarro não gosta que se fale nisto, mas a verdade deve saber-se. Embora consternados ante essa obstrução de seu precioso tempo furtado, os professores viram-se forçados a escutá-la. A senhora do Pereira tinha sempre os partos difíceis, porém sem acidentes. Questão de esperar um pouco e espremer muito, e o filho ia nascendo normalmente. Chamaram o Dr. Peregrino para o último. Apenas este viu a doente começou a falar a priori, sobre incapacidade da bacia, necessidade de operação cesariana. Quando o marido soube que se tratava de abrir o ventre, opôs-se tenazmente. Então Peregrino mostrou-se ofendido e quis retirar-se, predizendo morte infalível. Ouvindo-o, a mulher rompeu em gritos de horror, pedindo a operação. O marido, por sua vez, perdeu também a calma e concordou. E a operação fez-se… A criança foi retirada morta, porque desastradamente o médico ferira-a em lugar mortal; e uma hora depois também a mãe expirava… O Peregrino apresentou ao espólio crédito de cinco contos. Por aí coronel julgasse… O ex mostrava certa incredulidade. — Não sei… — disse ao Mendonça. — Sou levado a não fazer mau juízo dele por isso. A medicina é coisa tão difícil, que nós não podemos emitir opinião sobre fatos como esse. O “Nós” ofendeu o Mendonça, que tinha em muita conta sua competência na matéria. E disfarçadamente foi-se escoando para o seu salão de aulas, onde começou a chamada com a sua voz vacilante. Entretanto, abordado pelo Penedo, o Dr. Cavagnari afirmava-lhe, com toda a convicção, que “il greco é una língua morta”. E, como o Penedo lhe falasse sobre Homero, patrioticamente desconversou: — Il Dante é più grande da Homero! Il Dante é un gênio! Il signore Navarro conosce il Dante. Domandate a lei… E era a pura verdade. Cada vez que o diretor se achava de veia, dizia ao Cavagnari, aplicando-lhe rijo pastelão no cachaço:

— E o Dante, hem, doutor? “Nel mezzo del camin di nostra vita… Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!” — Il Navarro conosce il Dante! — repetiu o doutor com veemência. — Mas fale-me sobre Homero… — insistiu Penedo — o senhor ensina o grego, conhece-o, portanto, no original… — Il greco é una língua morta! — repetiu o doutor com um momo de desdém. O Bias, que novamente se estorcia de riso por trás do Cavagnari, ainda não acendera o cigarro, o que era indício de que podiam tranquilamente conversar. O ex então comentou, dirigindo-se ao docente modelo: — Estes furtozinhos às aulas são de muita justiça, não acha, Sr. Bias? O senhor, que é exemplar, também não os dispensa. Mas aproveito a ocasião para perguntar-lhe uma coisa: por que razão as horas aqui são tão compridas? — Não acho — disse o Bias compondo a cara com seriedade. — É incrível! Tenho um relógio que é um cronômetro. Quando bate a sineta, ponho-o nas dez em ponto; mas ao toque das onze, ele marca onze e um quarto! Todo dia adianta hora e meia. E o mais admirável é que no dia imediato confere matematicamente com o toque das dez! — Seu relógio é maluco — observou o Bias, reprimindo o riso. — Não pode ser outra coisa… E o coronel quedou-se cismativo, imerso em vaga desconfiança. A esse ponto, um aluno tossiu significativamente na aula de francês. Bias, em sobressalto, aplicou o ouvido finíssimo ao que quer que fosse lá fora. — É o Dadico! — disse consigo. E ao tempo em que o ex se voltava para os colegas, repetindo acaloradamente o caso do relógio, Bias escafedeu-se de sorrate para seu compartimento. No mesmo instante ouvia-se sua voz, de uma bela potência, “voz de aula”, consoante ele dizia, a começar a chamada pelo fim:

— 39… — Presente! — 40… 41… 42… disse “presente”? Levípede e sorridente, o secretário entrou no corredor. Chamava-se Damião, mas tratavam-no por Dadico, alcunha “de querer bem” que o Navarro lhe pusera. Todos (com exceção do Lago, por motivos particulares) o estimavam pelo seu gênio de tico-tico feliz; por isso, acercando-se dos professores, acolheram-no prazenteiros, já preparando antecipadamente a palavra que deixariam cair como saudação. Todavia dessa vez o secretário tinha pressa. — Penedo — disse —, o Navarro quer ver a carta do Peregrino. Dê-ma, se não tem segredos. — 45! — berrou o Bias do outro lado do tabique. — Bem! Agora a lição. “Monsieur Weber, voulez-vous des haricots?” — “Oui, monsieur” — respondeu uma vozinha tíbia. — Obrigado, Penedo. Que letra danada a do tal Sr. Dr. Peregrino! Bem mostra que é médico. “Au revoir.” Bias ouviu o tropel regressivo do Dadico amortecer logo na rua. Só então tomou fôlego. Uf! De que escapara! E seus colegas, que não desconfiavam da espionagem do secretário… Decreto porque a figura deste não era para incutir receios. Pequenino, saltitante, menineiro… Bias conhecia-o a fundo. Perto do Navarro tinha modos de cãozinho alegre que abana o rabo, a língua pronta para lamber, e o lombo tolerante aos pontapés do dono. Era rapaz vivíssimo, todo movimento e eletricidade. De gênio insinuante e confiado, ia tratando a todos por “você”, à primeira vista. Gabava-se de conviver mão por mão com o Navarro. Perto de testemunhas, achava pretexto para dizer ao diretor injúrias amistosas: — Você, Navarro, é um refinado tratante! Este Navarro é um cão! O diretor ouvia-o complacente, quase terno. Estimava sinceramente o secretário pelo esforço que este punha em agradar- -lhe. Tivesse qualquer motivo de prazer, o Dadico era o primeiro a levar-lhe parabéns; estivesse adoentado, o Dadico inquietava- -se, queria chamar o Peregrino; perto dos pais, o secretário fazia

humildemente ao diretor consultas sobre matérias que lhe eram familiares, proporcionando-lhe ansa de largos e retóricos desenvolvimentos. Navarro gostava dessa reptante sujeição, e apenas de longe em longe murmurava para si, com um toque de melancolia desbotando-lhe o sorriso: “Candongueiro!”. Mas era tão doce ser enganado por aquele tico-tico interesseiro, que o diretor se abandonava às suas carícias, fazendo-lhe até, por várias vezes, grandes favores pecuniários. — Concedo o que você me pede — dizia nessas ocasiões —, mas não vá pensar que me deitou poeira nos olhos. Sei que não passa de um grandessíssimo bajulador. Dadico retorquia emproando-se com fingidas indignações. Navarro escutava-o atento, e no fim batia-lhe no ombro: — Você é de uma lábia prodigiosa; mas eu ainda sou mais fino, porque percebo seus manejos. Enquanto fazia esta evocação, Bias repousava sua voz de aula, que lhe fazia mal aos pulmões. Do corredor vinha-lhe o vozear dos inadvertidos docentes que prolongavam o precioso furto de tempo. A espaços as orelhas do Bias, essencialmente móveis, se aprumavam, tentando ouvir ao longe. Súbito, outra tosse de aluno. O professor estremeceu, e compôs-se no estrado, recomeçando: — “Mr. Dàrio, aimez-vous les oranges”? — “Oui, monsieur” — respondeu uma voz de falsete. — “Mr. Weber” — tornou o Bias — “dites-moi une chose…”. Estrondaram no corredor as passadas duras do Navarro, e o seu vozeirão estrugiu, repassado de cólera: — Meus senhores, que escândalo! que escândalo!!!… Bias, cujos olhinhos vivíssimos e irrequietos tinham a singularidade de quando o queria, olhar simultaneamente para todos os lados, entreviu-lhe no corredor a atitude magistral. Navarro parara e encruzara os braços, como o Napoleão do poeta, encarando com os docentes apanhados em ridículo flagrante de debandada inspirada por um tardio instinto de conservação. Os lentes detiveram-se, perturbadíssimos. Durante a pesada pausa que se seguiu, e que era

como um ribombar silencioso, só se ouvia o Bias a cerrar em perguntas em francês, que os alunos estribilhavam intercadentemente com vozes aflautadas. Aos fundos um discípulo do Mendonça recitava, monótono, a lição de química. Colhido em falta, os professores remissos aguardavam, de cerviz curvada, a trovoada. Mas da apóstrofe o diretor passou ao patético. Depois de um tempo interminável destrançou lento e majestoso os braços, e com um sorriso amargo declamou, indicando aquelas aulas: — Ouvi, senhores, ouvi… (Navarro esbanjava o “vós” nos momentos solenes.) São professores que se esforçam… Como é edificante! São mãos generosas a atirar aos sulcos sementes às mãos- -cheias, para a frutificação da seara de amanhã! Imobilizou-se na postura de vidente inspirado que devassa o futuro, o olhar para o além, e a mão prestes a ceifar as espigas sagradas. Imobilizou-se assim muito tempo, porque na realidade o diretor estava de serviço até o pescoço e procurava meio de resolver em duas palavras o incidente. Por isso, quebrou subitamente a atitude sublime, limitando-se banalissimamente a puxar o relógio: — Dez horas e doze minutos… Passem bem. Sem mais, deu as costas ao grupo, desandando. Era o clássico desconto, não tinha dúvida. — Sr. Navarro! — chamou Cândido, em voz chorosa. Volvendo-se da porta, o invocado atendeu-o com uma palidez excessiva: — Que é, Sr. Cândido? Que deseja de mim? Cândido, fazendo caramunha, suplicou-lhe que não lhe descontasse o dia. Ele recuperaria de qualquer modo o tempo perdido, prolongando, por exemplo, a última aula. Gaguejava ao falar, porque, visceralmente forreta, a perspectiva de desconto consternava-o até às lágrimas. — É só? — perguntou Navarro em seguida, como estranhando ser incomodado por tão pouco. Vendo o diretor inflexível, e fazendo nova menção de retirar-se, Cândido sentiu ferver-lhe no íntimo certo briozinho de colegial

que lhe repassava o fundo do caráter. Gostando de imitar os companheiros, por sua vez tinha-lhes inveja se ficavam com a melhor. E com um rompante de soldadinho de chumbo, exclamou: — O senhor há pouco estava elogiando o Bias; no entanto ele esteve conosco até o Dadico chegar. Navarro teve o sorriso superior de quem está bem informado. Tomou o Cândido pelos ombros quadrados e rebocou-o à aula de francês. Com a mão fez ao Bias sinal para que desse tréguas ao seu berreiro. O professor levantou-se, e cedeu a cadeira ao Navarro que lha reclamava. O diretor sentou-se, e, apontando o dedo a um mocinho, ordenou: — Levante-se! Quando o rapaz obedeceu, os docentes, que se apinhavam à porta, olharam o Bias com uma espécie de dó repassado do prazer maligno de vê-lo diminuir de prestígio. Cândido atirava a espaços aos colegas o olhar triunfante de quem salvou a pátria. Todos compreenderam que iam ter ali a habitual devassa, instituição temível em que os alunos eram inqueridos sobre as faltas dos professores. E admiraram-se de ver a grande serenidade do Bias. De fato, o professor de francês nem pestanejava; tinha, aliás, a consciência tranquila: confiava plenamente nos alunos, que lhe pagavam em cumplicidade as boas notas das lições. — Diga-me uma coisa — começou Navarro. — O Sr. Bias esteve conversando no corredor, depois da chegada dos alunos? — Não, senhor, respondeu o mocinho. — Pode sentar-se. Agora o senhor… Outro… Acolá, você… O seu companheiro… Os alunos levantavam-se sucessivamente, reforçando todos a resposta do primeiro. Foram cargas cerradas. Apenas um vadio da classe, que na véspera ganhara nota baixa, hesitou um momento. Bias mandou-lhe uma promessa numa piscadela, e ele depôs como os demais. O professor caluniado nobilitava-se brilhantemente; mas em vez de com o triunfo mostrar altanaria ou procurar despicar-se, tomara o porte do merecimento modesto.

Ao final da devassa, Navarro encarou o intrigante com sobranceria esmagadora. Cândido não o pôde suportar: — É tudo falso, Sr. Navarro! Estão de combinação… Pergunte ao Dadico e verá. O diretor fez aceno a um menino: — Vá chamar o Dadico, providenciou calmamente. Segundos depois chegava o secretário. Interrogado, declarou que estivera no corredor às dez e pouco e que nesse momento o Bias terminara a chamada e começava a lição. Então Navarro, sem dizer mais palavra, levantou-se ruidosamente da cadeira e saiu com as feições de quem ficou enjoado de tanta baixeza moral. Nem respondeu aos vagidos de desespero com que o Cândido procurava retê-lo. Os professores multados quedaram-se interditos no corredor. Penedo propôs o alvitre de ir cada um para sua casa. A proposta foi acolhida friamente: era muito arriscado. Num momento em que o Bias os espiava maliciosamente através da porta, Penedo disse-lhe com ironia: — Admirável, Bias! Você é extraordinário! Há de ensinar-me um dia seu truque… Depois o grupo ficou ainda resmoninhando frases surdas, sobressaindo a voz do Dr. Cavagnari, que, engasgado de indignação e apinhando os dedos, exclamava: “Ma!… Ecco!…” Em seguida todos divergiram melancolicamente para os respectivos salões, única solução que achavam: as chamadas. A voz de aula do Bias foi logo abafada pelos berros exasperados que passavam por cima dos baixos biombos; as vozes dos lentes formavam uma balbúrdia ensurdecedora a que o Navarro chamava “Hino do trabalho”. Bias em pouco, preferiu repousar sua voz. Ficou à escuta. Seu corpo magricela sacudia-se em frouxos de riso, ouvindo do outro lado o Cavagnari repisar, furibundo: “Zi dógo, il cane! cane! cane!”. Uma espécie de altercação na aula do Cândido deu-lhe curiosidade de ir ver. Desenvencilhando-se de alguns pirralhos que se amontoavam no seu estrado para reclamar contra notas anteriores, saiu pé ante pé

ao corredor, recomendando previamente aos alunos que ficassem quietos. Aí acendeu o cigarro ainda virgem, chupando-lhe as fumaças com regalo. A porta mais próxima era a do italiano. Bias divisou- -lhe o abdome esferoidal, e a gesticulação enérgica contra a indisciplina e a desatenção. A sala seguinte era a do Cândido. Espreitando de fora, viu ali dois alunos de joelhos e três de pé. — O Cândido está hoje rigoroso — monologou. Nesse momento ele gritava a outro aluno: — Fique de joelhos, Sr. Martinho… Não ouviu? — Ouvi, sim, senhor — respondeu uma voz cantada. Cândido bufou: — Você não tem vergonha, menino? — Não tenho, não, senhor — cantou a mesma voz. Fora de si, o professor levantou-se, para castigar o cínico. Precipitou-se sobre ele, que lhe escorregou das mãos como uma gota de azougue. Então atirou-se em sua perseguição, entre a hilaridade da classe. “Pega! pega!” — gritavam-lhe alguns, pelas costas. Mas o Martinho escapulia-se como um camundongo por entre os colegas, que lhe facilitavam a passagem. E certo momento em que o magíster procurava desentaliscar-se de entre duas carteiras, Martinho sentou-se à sua mesinha, fingindo-se de professor, a garatujar, o livro da chamada. Cândido, quase a chorar de raiva, saiu para invocar a autoridade do Meira. No caminho o Bias abraçou-o pelas costas, perguntando em ar de remoque: — Aonde vai com essa pressa, colega? Surpreso de vê-lo ali, Cândido esqueceu o Martinho, e disse, despeitado: — Você bem fresco aqui, e ganhando o dia, e eu a lutar de graça com os meninos! Vou fazer como você, quero ver o que o Navarro pode dizer-me! E Cândido pôs as mãos nos bolsos, assumindo um ar isento. — Bem feito o seu desconto, para não ser intrigante — disse- -lhe o Bias. — Intrigante é você! — replicou o Cândido ofendido, só sabendo, até para injuriar, repetir as palavras alheias.

Bias sorriu-se do abespinhamento do colega e, mudando de assunto, perguntou: — Quando o Navarro saiu, que é que vocês ficaram resmungando no corredor? — Estávamos resolvendo o que devíamos fazer. O ex (Cândido pronunciava “eks”, com a ênfase do Penedo) propunha um voto de protesto contra a arbitrariedade. Outros queriam que fôssemos para casa; mas, por fim, conformamo-nos. Você só que é feliz, Bias… Comecei hoje a compreender suas manhas: aquelas tossinhas de alunos… aquelas mentiras… Vocês têm combinação! Foi o Penedo quem deu com a coisa. Bias ouvia-o como absorto. Em seguida, sugeriu: — Vocês são uns bobos. Todos deviam unir-se e exigir do Navarro que cancelasse o ponto. Podia-se até fazer greve para mudar muita coisa: diminuir as horas de trabalhos… aumentar o ordenado… Você, que é inteligente, de certo já pensou nisso… — Creio que pensei… Tive mesmo essa ideia. — Imagine, por exemplo no fim do ano, nas vésperas dos exames. Os professores, todos unidos, vão ao Navarro: “Sr. Navarro, queremos isto assim; ou nos concede tudo, ou não examinaremos ninguém!”. Hem? Que responder a isto? E o chefe pode ser você: não só porque teve a honra de conceber a ideia, como por causa desses seus modos insinuantes… enérgicos… Os olhinhos do Bias fuzilavam. — Eu tenho esses modos… enérgicos? — interrogou Cândido, lisonjeado. — Se tem! Enérgicos e insinuantes… Depois das aulas toque no assunto com os lentes… Toque de leve e não diga que conversamos a respeito. Talvez seja melhor eu ficar por fora, por causa de certa prevenção dos colegas contra mim… E, em regra, aquilo em que me meto não vai adiante. Mas vamos lecionar um pouco; pelo meu relógio são dez e meia… Grita bastante do seu lado, que eu farei o mesmo do meu, para vermos a fúria do Cavagnari… E o professor de francês imitou, comicamente:

— Zi dógo! Ecco! — Até já, Cândido. — Até já. Cândido encaminhou-se para a sua sala. Bias seguiu-o um pedaço, de mansinho, para pregar-lhe um rabo de papel. Depois voltou aos pulinhos alegres, reencetando na aula com Mr. Weber um interessante diálogo interrompido: — “Mr. Weber, voulez-vous des petits-pois?” — “Oui, monsieur!”

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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