Universo da obra
Universo da obra
Os professores iam ser convocados para uma reunião à tarde, porque, no dia imediato as aulas deveriam recomeçar a funcionar regularmente, e o Navarro queria dar instruções ao seu estado-maior. O local da reunião era defronte do edifício principal do “Fiat Lux”, no prédio de um antigo teatro, cujo imenso salão fora dividido por baixos biombos em seis salas de aulas, que comunicavam com um longo corredor lateral. Esses biombos desmontavam-se por ocasião de festas ginasiais, para aumentar a latitude do espaço reservado aos assistentes. No prédio principal, de enormes dimensões, havia outras salas de aulas, e eram ainda nele a secretaria, o refeitório, os dormitórios, e demais anexos do internato. Naquele dia ainda o salão do ex-teatro apresentava o desmantelo em que o deixaram os últimos festejos do fim do ano; por isso, uma turma de empregados, dirigida pelo subdiretor, retirava o palco armado aos fundos, bem como ornamentos destroçados que se amontoavam a esmo, e a poeira de milhares de pés, ao passo que eram recolocados os tabiques divisórios. O Baiano, negro membrudo e espécie de factotum do colégio, cocheiro de trole, cozinheiro e muitas coisas mais, desenvolvia ali grande atividade. Estimulava os companheiros com pragas e motejos, fazendo de patrão. Baiano tinha o fraco de imitar o Navarro, e procurava adquirir-lhe até a entonação da voz. Meira observava-o sorrindo.
— Procure o Marolo outra vez — disse o subdiretor a Ricardo. — É preciso fazer a convocação dos professores. Ricardo, trepado numa cadeira, ocupava-se em arrancar da parede uma grande galeria de aquarelas e desenhos que a empapelavam num vasto trecho. Aquilo era o “salão” do Lago, trabalhos achavascados por ele, aos quais os alunos apunham a assinatura, apresentando-os como provas de exame. Esses trabalhos eram preciosíssimos, porque, apenas com modificação de data, serviriam para futuros atos. Todavia, não honravam muito o professor, que tinha mais habilidade no trombone que no pincel. Figuravam aí touros com fisionomias humanas, homens de orelhas de burro, árvores que pareciam espanadores, e passarinhos com pescoços de cisne. Os pais achavam interessantíssima aquela exposição e em fim de ano era um divertimento a que se entregavam sem ironias; reuniam-se em magotes defronte de um trabalho, a trocar palpites: — Aquilo para mim é um pato. — Não é pato, é bezerro. — Engana-se, meu amigo; é um banco de carpinteiro. — Oh! é uma mesa, é claríssimo. Não vê aquelas cadeiras em roda? — Continuo a sustentar que é um pato. — Não pode ser, porque tem quatro pernas, etc., etc. Às vezes a discussão acalorava-se tanto, que faziam apostas, e mandavam chamar o professor de desenho. O Lago vinha, e de pronto cortava o nó górdio: — É um rancho, meus senhores, um rancho sertanejo. E, extremamente satisfeito pela atenção que mereciam seus trabalhos, o professor iniciava-os minuciosamente no valor de cada traço. Mais umas tachinhas arrancadas, e Ricardo desceu da cadeira sobraçando o maço de desenhos. — Guardo-os na secretaria, e de lá vou ver o Marolo — disse, saindo. Dessa vez veio acompanhado do regente. Fora encontrá-lo na horta, ajoelhado num canteiro de couves, onde já havia tempo esquecido se achava, a desfiar suas contas.
Como se tivesse estado a dormir, chegou esgrouvinhado com a súbita interrupção do seu arroubo místico. — Tome esta lista de professores — disse-lhe o Meira — e vá prevenir a cada um que esta tarde, às seis horas, há reunião da congregação. E como Marolo fosse saindo: — O Dr. Cavagnari já chegou? — Não senhor… Não o vi desembarcar. Perguntou-lhe ainda pelo Dadico, secretário do ginásio, que fora passar as férias no Rio. Também não havia chegado. — Está bom. Pode ir. Compassado e solene, com um crucifixo a bater-lhe no colete esgarçado, Marolo afastou-se a passos lentos. No vasto salão atordoavam as marteladas nos biombos que se repunham. Nos intervalos de silêncio o Baiano, essencialmente tagarela, dizia graçolas ou fazia comentários. E ao mesmo tempo ia consumindo as relíquias das festas dos exames, festas que eram ainda atestadas por tudo naquele local. A cada ângulo havia tufos de folhagens ressequidas; correntes de papel de cor cruzavam-se diagonalmente no forro; bandeirolas multicores debruavam o alto das paredes; de distância em distância, com aparência de lanternas japonesas, pendiam do teto pinhas de papel de seda; nas paredes caiadas escudos alardeavam palavras pomposas: “Glória à Instrução!” — “Viva o Ex.mo Dr. Presidente do Estado!” — “Salve, nosso Diretor!”. E impiedosamente as correntes eram dilaceradas; as ramagens caíam barulhosas, num chocalhar de folhas secas; fieiras de bandeirolas obliquavam-se para a poeira; e tudo era carregado, às braçadas, para fora. Como Baiano se preparasse para arrancar em enorme escudo da parede, o Meira deteve-o: — Esse não. É o nome da sala. — “Salão Mesquita”… — leu o preto. — Mesquita… ah, já sei, o fiscal da Escola Normal que assistiu aos exames… Eta mocinho preparado!
“Preparado”, para o cozinheiro, era sinônimo de elegante. O Mesquita foi poupado; menos sorte tiveram as outras legendas, que arrancadas uma a uma, juncavam o assoalho. Depois Baiano tomou da vassoura e pôs-se a varrê-las, de mistura com o cisco. Nunca foram tão enxovalhadas as máximas sublimes e os nomes venerandos! Impelidas pelas vassouradas ainda do meio da poeira enunciavam preceitos pedagógicos ou gritavam vivas aos pais dos alunos; mas o sacrílego Baiano sufocava-lhes o brado último, metendo-as para a frente, de envolta com o lixo. — “Deus, Pátria e Família!” — “A criança é o porvir.” — “Luz, luz a jorros!” — gritavam inutilmente, debaixo das varinhas da inclemente vassoura. Depois, quase finda a limpeza, Meira afixou no corredor um horário organizado pelo Navarro, e que era encimado pela seguinte distribuição de matérias: CORPO DOCENTE: 1 — Antônio Junqueira Navarro — Geometria e Trigonometria. 2 — Dr. Cantídio Peregrino — História Natural. 3 — Luís de Camões — Português e Literatura. 4 — Coronel Inácio Pereira (ex-deputado) — Aritmética e Álgebra. 5 — Cav. Ercole Cavagnari (doutor em ciências pela Universidade de Milão) — Inglês, Grego e Alemão. 6 — Rev. Álvaro Gauquério — Latinidade e Religião. 7 — Farmacêutico José Nunes de Mendonça — Física e Química. 8 — Alcindo Penedo — Civilidade, Astronomia e Mecânica. 9 — Augusto Meira — Educação Moral. 10 — João Bias Brochado — Francês. 11 — Cândido Rodarte — Geografia, Psicologia e Lógica. 12 — Ricardo Siqueira — História Universal, História do Brasil e Curso de Adaptação. 13 — Policarpo do Lago — Música e Desenho. 14 — Fortunato Marolo — Contabilidade e Primeiras Letras.
À tarde, à hora designada, já a maioria dos docentes estava sentada em carteiras, num salão do antigo teatro. Do alto do estrado o Navarro presidia à reunião. Às seis e um quarto ainda faltavam dois professores, o Bias e o Cândido; por isso, o diretor não abria a sessão: torcia com impaciência as guias do bigode, e seu carão anormalmente congestionado ameaçava tempestade. Logo naquele dia, na primeira reunião a que iam os dois professores novos, já estes teriam má impressão da disciplina interna? — Seis e um quarto… — começou o diretor. — Nesta casa nunca houve exemplo de tal anarquia. Navarro esforçava-se por conter dignamente sua cólera. Reparou então que o Penedo não se sentara como os outros. Saboreou-se a contemplá-lo um instante, todo de branco, dos sapatos à gravata, com impecável estampa de militar, realçada pela cinta esbelta. Depois lembrou-se de que a autoridade deve ser exercida desde o primeiro dia e observou: — Faça o favor… Sente-se. Penedo obedeceu a contragosto, ajeitando-se com cuidados infinitos na exiguidade de um banco. — Já sabe — disse Navarro, continuando a dirigir-se a ele —, já sabe que está como catedrático de mecânica, astronomia e boas maneiras… Não? Pois já consta do quadro do corpo docente. O senhor deve entender bem de mecânica, pois noto-lhe assim uns ares de engenheiro. Penedo respondeu com uma visagem ambígua. — E o coronel Mercês — prosseguiu o diretor apontando para este — foi designado para reger a cadeira de aritmética e álgebra. — Confesso que não conheço uma palavra de álgebra, disse o coronel; mas em aritmética desafio a quem faça mais depressa, de cabeça, uma conta de rebate. — É o que queremos. Nosso ensino deve ser prático, exclusivamente prático. E mais uma vez, atendendo ao fim que nos
reúne aqui… — Mas o Bias! e o Cândido! isto toca às raias do banditismo! Meira, tome nota lá uma falha em cada. Terão desconto de vencimentos. O subdiretor ficou suspenso por ouvir um tropel. Eram os dois retardatários que chegavam. O Bias era um magricela arruivascado, orçando pelos vinte e oito anos. Havia muito lecionava ali. Os colegas invejavam-no, porque o diretor a cada passo citava-o como modelo. Seu rosto tinha uma expressão variável de papalvo e finório; às vezes seu olhar acendia-se em fosforescências felinas; mas em presença do Navarro mantinha-se embaciado e humilde. Casara havia três anos com uma criatura despótica que lhe batia de chinela, ao chegar, com um trejeito abobalhado. Ninguém lhe deu resposta. Um pesado silêncio de reprovação acalcanhava os recém-vindos. Bias então foi sentar-se com açodamento; e, na carteira, para não ficar sem fazer alguma coisa, pôs-se a coçar desesperadamente as pernas, às mãos ambas. Seu companheiro postou-se à sua ilharga, como a buscar proteção. Cândido Rodarte era baixo, de ombros muito distantes um do outro, entre os quais assentava uma cabeça globulosa, que, no occipício, era chata como uma prancha. Tinha os olhos à flor do rosto e com a inexpressão de olhos de boneca. De mimetismo fundamental, ressentia-se dos modos e das opiniões dos companheiros. Vendo naquele momento o Bias inquieto no assento, como um macaco sobre um formigueiro, não soube que atitude tomar, por isso cravou-lhe um olhar interrogativo. Bias deu-lhe um beliscão que o fez afastar um pouco e amuar. — Seis e vinte — recomeçou o Navarro, depois da terrível pausa — e por especial obséquio eu lhes revelarei o ponto pela primeira e última vez. Risque lá, Meira. A sessão podia agora ter início; mas o diretor tardava a entrar na matéria, contemplando o humilde rebanho que se postava em ordem à sua frente. E essa contemplação exasperava-o, por causa da expressão abatida do seu estado-maior.
Todo o princípio de ano era de ver os professores chegando um a um, moles, descorajados, ante a árdua labuta a recomeçar, à só perspectiva das sete ou oito aulas diárias a que quase todos eram constrangidos, parte no Ginásio, parte na Escola Normal. Nos fins de ano o diretor envergonhava-se de ter de exibir aos pais professores de rosto macilento e expressão desalentada. Esperava que durante as férias se revigorassem, mudassem de aspecto, se aprovisionassem de entusiasmo para o ano todo e voltassem a ocupar alegremente seu posto de combate. Expectativa vã! Parecia que tornavam ainda mais cabiscaídos e sorumbáticos. Que lhe adiantava escolher seus auxiliares entre a mocidade resistente? Um belo dia demitiria a todos em massa, e poria ali gente viçosa e risonha. E Navarro exacerbava-se à vista desse museu de desânimo e miséria moral, alinhado defronte, nas carteiras colegiais. Todavia, o silêncio de expectação e respeito que aguardava suas palavras lisonjeou-o; e o novo olhar com que correu o banco, foi o do chefe obedecido e temido que passa em revista suas tropas fiéis. Na primeira fila viu a batina do padre Gauquério e a sua envergadura enérgica de apóstolo belicoso; ladeava-o o Dr. Peregrino, de óculos escuros, e um pouco humilhado por ver-se ali, na sua dignidade de médico, nivelado com os outros lentes. O farmacêutico Mendonça, inimigo de Peregrino, por ciúmes de ofício, fora pôr-se bem longe deste, no último banco, em companhia do Meira e do Ricardo. A fisionomia do lente de física e química era terrosa, e no seu todo mostrava um quê de alheado, desde que, em aula, quando fora mostrar aos alunos uma reação que apenas conhecia de teoria, se dera uma explosão que o cegara quase de um olho; também desde essa época cobrara tal horror ao laboratório, que passara a ensinar tudo pelas figuras do livro, deixando as retortas e balões se cobrirem de poeira, e os ácidos roazes comerem pacatamente as rolhas, nas prateleiras dos armários. Nem gostava de os ver; quando isto sucedia, botava-lhes de revés uma olhadura feroz, repassada de ódio implacável. “Para ensinar não precisa droga” — respondia ele ao Navarro, com sua voz fina e mole, quando o diretor o mandava ensaiar experiências vistosas para os fins de ano.
Em todo caso, como era mister obedecer, limitava-se às inócuas colorações do tornassol. À frente, e cheio de si, ainda se estadeava o Lago, professor de música e desenho. Andava sempre de fraque e não abria a boca sem proferir algum disparate gramatical. A coisa que o desvanecia mais era dizerem-lhe: “Você, Lago, que é um catedrático…”, “Você na sua cátedra…”. Ao ouvir estas belas frases, seu pomo de Adão empinava e a cabeça tomava-lhe uma inflexão imponente. Narrando incidentes de aula, o que fazia a qualquer pretexto, não deixava de começar: “Ontem, quando eu estava na minha cátedra…”. Mas a aula de desenho e música era tão pobre, que o assento do lente era um tamborete manco que ficou célebre, e batizado solenemente como “a cátedra do Lago”. Tinha uma rapariga nas Três Barras; e era notório que o Dadico, secretário do Ginásio, o atraiçoava. O Lago sabia-o e não havia dia em que não proferisse terríveis ameaças contra ele. Na segunda carteira o ex-deputado cortava aparas de fumo, preparando um cigarro. Renteava-o Luís de Camões, professor de português e literatura, poeta inspirado, e redator do Lábaro da Instrução, órgão de propaganda dos colégios. Seu pai, de uma insignificante família das Três Barras, era homem lido, e tinha a mania de dar aos filhos nomes de sumidades. Além do vate português, gerara ainda um Victor Hugo, um Napoleão Bonaparte e um Rui Barbosa. O menos obtuso de todos era seu Camões, que por admirável coincidência se revelou desde criança com enorme vocação para a poesia. Ao entrar para o “Fiat Lux”, Navarro sequestrou-lhe a lira, achando que a preocupação das rimas podia prejudicar o ensino; Camões, porém, não se compôs totalmente com a ordem, e desabafava, no Lábaro, cantando em ditirambos líricos a disciplina interna do ginásio e os méritos do diretor. Não havia rima em “arro” que ele não tivesse ensanchado numa quadrinha gamenha. Nas festas dos colégios era orador crônico. Na mesma fila viam-se o Bias, o Cândido e o Penedo. Para trás, junto com os restantes, adivinhava-se, por um balbucio de preces, que estava o Marolo a passar as contas.
Depois de estender um olhar de dono sobre o rebanho atento, Navarro começou: — Eu dizia que só admito ensino essencialmente prático. Que importam os programas, as álgebras, as trigonometrias, o diabo? São coisas inventadas por meia dúzia de ociosos que vivem pairando nas abstrações e teorias, e nada entendem das verdadeiras necessidades da vida. A maioria de nossos amigos são fazendeiros; e eles preferem, com razão, que seus filhos façam com facilidade uma conta de juros ou brilhem na sociedade entabulando com as pessoas cultas palestra em francês, a resolverem uma equação de muitas incógnitas ou a dar a demonstração de um princípio de física. Quero a prática. A prática é tudo! Concilia-se a exigência dos programas com o nosso programa real, exercitando os alunos em meia dúzia de pontos fáceis para os exames oficiais e só. Mas… Navarro súbito calou-se, fazendo pairar um silêncio tremendo sobre o coronel Mercês, que alisava uma palha. Era um crime, naquele momento. E resolveu esperar, até que o faltoso desse pela culpa. Por fim, vendo que o silêncio não produzia efeito, pois o ex-deputado continuava a passar a palha contra o fio do canivete, interpelou-o, rebuçando a observação com ironia: — Eu não sabia que o coronel fumava! — Fumo — respondeu este com ingenuidade — e muito, mas preciso escolher. Sou muito exigente até na qualidade da palha. Tenho em casa um rolo de fumo especial que mandei vir do Poço Fundo com receio de não encontrar aqui da mesma qualidade. Hei de dar-lhe uma prova… — Obrigado — disse o diretor com frieza —, mas não aceito. — Experimentando há de gostar. É um fumo e companhia! O coronel enrolou o cigarro e acendeu-o. Navarro, com interna fúria, calara-se de novo, rufando com força os dedos na mesa. Com exceção do ex-deputado, todos os mais sentiam o trágico daquele silêncio. Depois de um certo espaço, o diretor resolveu-se a um ataque direto:
— Não proíbo o seu cigarro, coronel. Pode fumar tranquilo, que não o multarei por isso hoje. Façamos de conta que estamos aqui em família, porque não temos conosco o Dadico para lavrar a ata. O ex-deputado, que puxava com inocência as primeiras fumaças, exclamou num sobressalto: — Hem? Como é? — Queria dizer — tornou o diretor — que as sessões da congregação devem ser augustas, revestidas de toda a solenidade, tal a importância da nossa missão. Assim, em tese, não aprovo o seu cigarro, coronel Mercês, nem o seu fato branco, Sr. Penedo! Este recebeu impassível a admoestação, ao passo que o ex pediu desculpas, enfiando atabalhoadamente o toco na caixa de fósforos. O diretor protestou. Desculpas? Cabia antes a ele pedi-las. Pois não era atrevimento fazer reparo no procedimento dum antigo e impertérrito batalhador do Congresso Mineiro? Mas relevasse-o, por favor! É que na sua pessoa havia uma dualidade em conflito — o diretor e o amigo. Ali dentro, naquele âmbito sagrado, estava o diretor rígido; lá fora, encontrariam o amigo de coração de trapo, etc., etc. (Gestos adequados.) Mas ali mesmo, na sua investidura de diretor, recomendava aos docentes que imitassem o caráter do coronel e o asseio do Penedo. Ai, que este último ponto era de uma importância capital! Com recomendações especiais apontava-o como modelo ao Bias, que, apesar de indefesso soldado do livro, trazia às vezes a gravata torta e o colarinho sujo. O Camões também tinha a zelar os louros do seu ilustre antepassado (pois não podia deixar de haver parentesco entre ele e o autor dos Lusíadas); seu exterior devia rimar com a beleza e suas qualidades interiores; assim, tratasse da caspa com loções antissépticas, lavagens frequentes da cabeça e pente fino. E, para justificar a observação, Navarro apontou a farinha branca que se lhe acamava sobre os ombros. Enquanto Bias se coçava, e Camões, desempoando-se, se desvanecia pela referência à sua linhagem hipotética, o diretor procurava entre a soldadesca do seu batalhão, um que precisava também recomendações especiais.
— E o Cavagnari? — exclamou, depois de o procurar baldamente. — Ainda não chegou? — Não, respondeu o Meira. — É de gloriosa! — tornou Navarro, indignado. Arrostando o perigo de uma explosão do diretor, Bias observou com a voz aflautada, acendendo para ele os olhinhos brilhantes: — Decerto encontrou patrícios, e ficou nalguma bodega cozendo o vinho, à hora do trem. — Sr. Bias! — censurou Navarro, carregando o rosto. O diretor não gostava dessas alusões ao vício do italiano. O indiscreto sabia-o, mas gostava de bulir às vezes — inofensivo mosquito — com o leão majestoso, e já se lhe ia tornando sestro meter alguma graça, sempre sem graça, no meio dos mais sérios assuntos. Fulminando por aquela interjeição, apagou o olhar astuto; e, abaixando a cabeça com humildade hipócrita, tomou um ar emparvecido. Sua atitude corrida desarmou o diretor, que, esquecendo o italiano, se dispôs a desenvolver o primitivo tema: — O colarinho alvo e as botinas lustrosas estão muito no prestígio pessoal. Os senhores conhecem os versos de Gonçalves Dias “O talhe de um colete, os pontos de uma luva”, não conhecem? — Enganei- -me, isso é de Bocage. — De Guerra Junqueiro — arriscou Luís de Camões. — De Bocage! — insistiu o diretor, enrugando os sobrolhos. — Tenho a certeza que são do Junqueiro, na Velhice — retorquiu o catedrático de literatura, que gostava de zelar da integridade de seus poucos conhecimentos. Navarro inclinou a cabeça com gentileza: — Respeito a opinião de um descendente do grande épico dos Lusíadas, mas não me convenço. Se Bocage disse isso é porque não pode deixar de ser verdade. Recomendo-lhes a leitura desses versos. Procurem-nos no quinto ou sexto volume… — Ou no sétimo, opinou o Bias, com espevitamento. — Não! não subam além do sexto! — acudiu Navarro, alarmado. — Abro apenas exceção aqui para o meu amigo, o padre Gauquério…
Houve hilaridade nas carteiras. — Obrigado, já li — respondeu o vigário com tédio, num bocejo. — Tornando à vaca-fria, procurem-nos por ali que os encontrarão. E Navarro declamou: “O talhe de um colete, os pontos de uma luva, substituíram hoje as regras de Lombroso. Saia um homem à rua com um guarda-chuva velho. Que dirão logo: — Aquele sujeito é um sacana!” — É mais ou menos isto, não me responsabilizo por alguma traição da memória. Ah, meus amigos, houve tempo em que eu desafiava a qualquer um… Basta que lhes diga que cheguei a saber de cor o testamento, protestante fanático… Hoje meu coração ampliou-se, e acolho a todas as religiões como bênçãos do céu. — É verdade, antes que me esqueça, reverendo, o Manequinho é protestante, não precisa, portanto, inscrevê-lo no catecismo. Mas malhe com ele de rijo no latim… O pai dele é latinista. Declinações, verbos, regência, Horácio, um pouco de Tito Lívio… — e como um maestro brandindo a batuta, a cada pausa a mão do Navarro traçava um gesto oblíquo. Manequinho lembrou-lhe o Sebastião, outro aluno que reclamava cuidados especiais. Agora suas palavras iam com vistas ao subdiretor. Não era possível repetirem-se os escândalos do último ano. O menino, afilhado do ministro da Fazenda, conservava-se ainda bronco como viera. Faltava sistematicamente a todas as aulas, e, quando o tratavam com mais rigor, fugia para o mato e lá se ficava entre as brenhas, como uma besta-fera. Para capturá-lo, era preciso organizar- -se uma verdadeira montaria. Onde estava o Meira, que não punha cobro a esse abuso? Inda bem que o Sebastião não saía nas férias, e seu eminente padrinho apenas tinha notícias suas pelas cartas dele, Navarro, e pelas boas notas (uma falsidade necessária, no caso) dos boletins mensais. Providenciasse o subdiretor sobre isso, para no fim do ano não serem forçados a trazê-lo a pau e corda para a sala dos exames. Felizmente, já passara os do primeiro ano, mas que exames! A banca, solene, ali à frente do rapaz, e ele que cosia obstinadamente a boca, sem proferir palavra, à parte alguma injúria imunda…
— E um menino assim foi aprovado? — perguntou o ex, em grande admiração. Navarro respondeu, descarregando-lhe um olhar prenhe de magnetismo: — O Sr. Coronel Mercês, o senhor é pai? Sabe então que lira melindrosa é um coração de pai? Se lhe reprovassem um filho — vamos! diga lá! — esse golpe não iria fazer sangrar o seu coração amantíssimo? Ainda não se convenceu? Mas ponha o caso em si. O senhor na sua nobre investidura de deputado… O coronel teve um movimento de quem ia protestar contra a comparação. — Mas suponhamos! — prosseguiu Navarro, ordenando-lhe silêncio. — O senhor está na sua eminentíssima situação. Os jornais da oposição babam fel e pus sobre seu nome, atassalhando-lhe a honra ilibada; as preocupações públicas absorvem-no; no seu caminho, e por todos os lados, os abrolhos enristam-se para o ferir. E então, onde vai o senhor beber alento para arrostar essa dolorosa Via da Amargura de todos os dias? Não é no sacrário do lar, no carinho da esposa, no sorriso dos filhos, e — por que não o dizermos também! — daqueles que levou à pia batismal no sublime papel de padrinho? Não é nesse conchego abençoado que vai retemperar para a luta cotidiana o gume gasto de sua espada? Imagine agora, nesse lugar de amor e de paz, uma granada a estourar de súbito, na notícia da reprovação de um ente querido! Compreendeu, coronel? Agora já concorda? Há certas aprovações que são meritórias obras de caridade. Deus nos livre de, por uma veleidade estulta, fazermos perder a rota a quem tem, nas suas mãos, o leme de nosso governo. O próprio Deus, que é infinitamente justo, é também infinitamente bom! A este ponto, Navarro, num gesto patético de invocação ao céu, ergueu a fronte extática e as mãos eloquentes para a manga de gás que lhe ficava sobre a cabeça; incontinente, porém, e sem modificar a atitude, mudou de tom para observar ao subdiretor: — Ó Meira, por que não mandou limpar este vidro?! Está indecente, com titicas de moscas!
— Foi esquecimento do Baiano — respondeu o Meira. — Falarei com ele sobre isso. — E se outra vez se esquecer, multe-o! — disse o diretor volvendo à postura natural. Daí Navarro passou ao objetivo principal da reunião. Recomendou aos professores que iniciassem ativamente o ensino, pois daí a dois meses viriam os exames da segunda época. Estendeu-se sobre disciplina — já sabiam — nada que descontentasse o aluno. O Meira os iniciaria no método da “paternidade”, o mais eficaz. Ao Dr. Peregrino, recomendou que, em história natural, exercitasse os alunos de preferência no estudo do corpo humano. Nomes dos ossos, colocação das vísceras principais — rins, fígado, estômago, coração; umas tinturas de medicina caseira não seria mau, embora em detrimento da mineralogia e da geologia; ao Camões, pedia bem decoradas as definições do João Ribeiro, de modo que de pronto o aluno pudesse responder a qualquer pergunta (batuta do maestro), “Que é artigo? adjetivo? elipse? zeugma? cacófato? pleonasmo?”, e, bem assim, meticulosa correção das cartas para os pais, dando-lhes redação elegante, e exigindo letra ótima. O coronel Mercês já sabia: as quatro operações, sistema métrico, juros; ao padre Gauquério: os mandamentos, os mistérios, pecados mortais, declinações, gêneros, conjugação, regência, ablativo absoluto; ao Mendonça: ar atmosférico, água, oxigênio e experiências vistosas, abstendo-se o mais possível do tornassol, que já estava muito visto; ao Penedo, boas maneiras aos alunos, modo elegante de sentar, tirar o chapéu, comer, andar; ao Bias, cartas em francês, conversação, saudações; ao Cândido, noções sobre cometas, principalmente o de Halley, que estava na atualidade, os rios maiores do mundo, etc. E, como estas, fez recomendações aos demais docentes. Concluiu insistindo com o Meira para mandar limpar as moscarias. — Isto não tem propósito! — reforçou ele. — Os pais a chegarem, e se um deles dá com uma imundície destas, que não irá dizer da nossa limpeza, ou antes, da nossa porcaria? Indignou-se por mais algum tempo sobre este ponto, e depois ficou refletindo, para ver se nada havia omitido.
— Sinto que tenha ainda qualquer coisa para dizer-lhes… — murmurou cogitativamente. — Ah, é sobre o fiscal. Pelos meados do ano, ou talvez antes, deve chegar de visita à Escola Normal. É um tal Cobra, mal-encarado de retrato, e dizem que muito exigente. Desejo não só agradar-lhe, como deslumbrá-lo; mas, homens como esses, estão sempre prevenidos para achar tudo péssimo, portanto… Bias, cujos olhinhos acesos simularam um grande pavor, insinuou uma de suas perguntinhas engraçadas: — Esse Cobra então é muito bravo? O diretor prorrompeu, encolerizado: — Ó Sr. Bias, quem falou em bravo? Que nos importa que seja, ou não? Pensará que estou com medo? O senhor parece bobo! Mal-assombrado, Navarro tomou bruscamente o chapéu, e, sem despedir-se, desgalgou do estrado, encaminhando-se para o corredor. Da porta voltou-se, como para dizer alguma mais pesada: mas, como garras retráteis que se encolhem, já as feições do Bias assumiam uma humildade rastejante. De relance, o Navarro viu-o tão acachapado, que se limitou a dizer jovialmente ao professorado: — Está encerrado o despacho presidencial, meus senhores. Salud! Apenas se afastou dispuseram-se os “magísteres” a partir. Bias começou então a dar pulinhos pela sala, indo de um para outro. No momento em que o Lago ia a sair com toda a sua importância de catedrático, Bias agarrou-lhe no rabo do fraque, convidando: — Vamos dançar um maxixe, colega! O Lago, pouco amante de intimidades, repeliu-o, furioso: — Mais amor e “menas” confiança, siô traste.
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