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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 7 · Falange Gloriosa

Capítulo VII

7 de 21 ≈ 19 min de leitura

A vida do velho João corria mansa e melancólica em casa do padre Gauquério. Estava ali como em família. A Maria Gansa estimava-o, a miuçalha adorava-o e o próprio reverendo, de gênio violento e lunático, não o tratava mal. Era até provável que não tivesse dado pela sua presença ali, absorvido por qualquer de suas habituais ideias fixas. João receava-se um tanto dele, embora sem motivo. Durante o dia, o velho, assediado pela pintalhada do padre, fazia- -lhe brinquedos a canivete, ou lecionava primeiras letras aos mais velhos; à hora do sino arrastava-se até à igreja, e trepava arquejando as escadarias rangedoras da torre. Conhecia os dobres, mas a mudança de sineiro foi estranhada nas Três Barras. Notaram a nostalgia dos seus toques, ainda os mais repicados. E nesses momentos não faltava quem murmurasse: — Dobre a finados… Quem morreria? — Como tem morrido gente estes dias! — admirava-se outro. Depois que se elucidou o caso, acharam graça; e muitos, chufeando João, perguntavam-lhe se aquilo não era um modo ardiloso de remeter os seus suspiros saudosos à velhota distante. Ao entardecer, quando ia tocar às ave-marias, João aprazia-se em demorar-se no alto da torre. Ia sentar-se num rolo de cordoalhas que ali estava, há cem anos, a um canto, esfazendo-se de podre. Com aquele cabo de quase um palmo de diâmetro, fora guindado o sino grande, na terminação das obras da igreja, e nunca tivera outra serventia. Nas largas janelas o último vasquejar da tarde enquadrava-se

em retângulos purpúreos. Aves noturnas, preparando-se para a saída, mexiam-se nos desvãos do telhado, atirando ao chão caliça e poeira. Do velho madeirame carunchoso, das paredes escalavradas, das vigas lascadas de raio, desprendia-se um olor de mofo centenário, que era como a alma daquela velhice, alma cheia de evocações de eras antiquíssimas. O velho João cismava, vendo os retângulos sanguíneos distinguirem-se em tonalidades crepusculares. Caía a noite… E solene, pesado, suspenso sobre o abismo, o sino grande era um borrão negro, com o perfil duro recortando-se no último livor da tardinha. E o velho João cismava… Súbito um grande ruído. Algo gigantesco espanejara-lhe a cabeça, atirando-se no vácuo. Era uma coruja. E, com o coração ainda arfando do susto, João ouvia-lhe fora o guincho estridente, já longe, perdido na escuridão exterior, ao passo que o sino grande, roçado de passagem pela asa potente, emitia um surdo ronco brônzeo. Sua soledade melancólica na torre alegrava-se amiúde com as visitas do Dariozinho. Iludindo a vigilância do “Fiat Lux”, o pequeno travesso irrompia a toda hora pela igreja, desde a invenção da caçada aos quirópteros. Ainda no patamar inferior lançava para o alto o seu grito de guerra: “Esperem aí, morcegos!”. E seus passinhos rápidos subiam velocíssimos a escada em caracol. Chegava em cima arquejando, suando, armado de uma lasca de bambu aguçada; e, belicoso como um guerreiro, começava o assalto. Às vezes sua efervescência amortecia, percebendo lágrimas nos olhos do velho; apiedava-se perguntando-lhe pela Flávia, e buscava alegrá-lo com sua tagarelice de passarinho solto. De chofre vinha-lhe a fervura da luta, e, impetuoso, chuçava os esconderijos dos morcegos, soltando gritinhos de emoção quando algum, atordoado, levantava o voo. Seus trinados alegres esbatiam uma réstia de sol na alma entenebrecida do velho. E, durante as correrias do menino, seguia-o como lho permitiam as pernas perras, para evitar a tempo alguma travessura perigosa. À noite João repousava na meia-água do tio Roque, onde fora posta mais uma enxerga. Dormia mal, passando o mais do tempo a banzar na sua vida. Embalavam-lhe a vigília os roncos do

companheiro de quarto, que assumiam variantes entre o grunhido e o rugido. Invejava-lhe mesmo o sono, malgrado seus pesadelos noturnos, pois tio Roque era sonâmbulo, e a espaços resmoneava em toada de ladainha trechos de antifonário ou fragmentos de atos municipais; acordava rara vez, e o lapso de lucidez era apenas o bastante para verificar, fazendo-as retinir, que as chaves da igreja e da Câmara não lhe haviam sido escamoteadas de sob o travesseiro. O pensamento único de João, nas suas meditações na torre e nas noites maldormidas, era a mulher que lhe haviam arrancado. Depois do dia da chegada, vira-a pela primeira vez, no domingo imediato. Foi na igreja, à hora da missa. Fora dos seus hábitos religiosos, o velho descurou das rezas, passou o tempo todo a contemplá-la. Via-a de mãos encruzadas no peito, orando, como remoçada por um vestido novo de ramagens cinzentas, e pelo coque grisalho enrolado cuidadosamente na nuca. Flávia não desfitava o altar, salvo para observar, a espaços, se se portavam bem as colegiais uniformizadas à sua frente, sob a sua vigilância. João tristemente notou que nem um relancear ela circunvolvera, a fim de procurá-lo. Ele ansiava por um seu olhar, como em solteiro, quando a capelinha de sua freguesia natal foi cúmplice dos olhares amorosos nela permutados. Agora como que sentia uns longes de ciúme de tanta devoção, e daquele vestido novo com que a via pela primeira vez. Pensou em falar-lhe à saída; a essa hora, porém, tinha de subir à torre, para o toque final. Com mais esse espinho na alma acabrunhada, João esperou o domingo seguinte. Nesse dia, antes da terceira entrada para a missa chamada “entradinha”, postou-se à janela ocidental da torre. Daí aparecia-lhe quase toda a vila, em amplo descortino. Dentre as estradas que a ela confluíam de todos os quadrantes, colhendo de caminho os afluentes de carreadouros e trilhos, lembrando no conjunto lineamentos cartográficos de bacias fluviais, seu olhar foi buscar uma rubra faixa, desgarrante, em harmoniosa curva para a escola normal. Sua vista frouxa via nítido, por concentração de vontade; chegava a entrever o letreiro “Deus, Pátria e Família”, estampado no primeiro

arco de triunfo; e afirmava-se no ponto extremo, onde o boleado do morro ocultava a estrada, observando cada nuvem poenta que ali se intumescesse, desnovelando-se em destaque sobre as lavouras marginais. Finalmente surgiu a turma das alunas; e seu olhar acompanhou até perto a longa mancha de uniformes, que figurava a distância, com o empastado das visões remotas, uma lagarta azul a colear preguiçosa entre a barranca e o fofo debrum da viçosa sebe. Antecipando-se um pouco à hora costumada, deu João a entradinha; em seguida, com o coração aos pinotes, desceu para o adro, onde ficou à espera arrimado ao portal da entrada. Ao avistar Flávia, a emoção pôs-lhe um tremor nas mãos. Viu-a ao lado das alunas, que em boa ordem se encaminhavam para a porta. Passando por ele, algumas meninas sorriram-lhe, como se o conhecessem de muito; outras repuxaram-lhe o paletó, cumprimentando-o familiarmente: “Bons dias, Sr. João!”. Ele não correspondia, embebido na mulher. Quando esta se avizinhou, ele sussurrou comovido: — Flávia… A velha roçou-o, sem o ver, passando adiante. — Flávia! — repetiu, tocando-lhe no braço. Desta vez ela ouviu-o, e deteve-se para falar-lhe; mas tal hilaridade levantou entre as alunas a expressão comovida de João, que a regente teve de admoestá-las a que soubessem entrar com respeito na casa do Senhor. E, preocupada com a disciplina, deixou o velho só, sem nada dizer-lhe. Absorvido pelo alvoroço do encontro, João nada compreendeu, a não ser que Flávia o abandonara à porta da igreja. E nesse abandono viu apenas desprezo. Desse dia em diante o seu íntimo viver foi uma tragédia. João ressentia antigos estados d’alma. Abalado pelos anos e pela separação, em seu espírito gerou-se mórbida revivescência de antigas impressões. Antolhava-se-lhe que estava a quarenta e cinco anos atrás, e que era noivo. Como certos pólipos vivazes, que, subtraídos ao seu meio normal, volvem, após largo período de morte aparente, à primitiva atividade, também

velhíssimas sensações, há muito deslembradas, tumultuavam-lhe no espírito, como se um longo trato de tempo não se interpusesse entre os dois períodos. No seu coração renovava-se uma dor moça e pungente, que gemia: “A Flávia não me ama!”. Pelo mesmo prisma coava-se seu olhar, quando, fitando-a obstinadamente, em vez das cãs de sexagenária, lhe via as negras tranças de rapariga de quinze anos, trêfega e caprichosa, que com um muxoxo sabia incutir-lhe louco desespero, para balsamizá-lo súbito com o feitiço de inesperado sorriso. O passado transpunha decênios, para consubstanciar- -se com o presente. E via tudo tão claro, e tão próximo, que o que era lembrança apagada lhe parecia atualidade tangível. Ainda era rapazote imberbe, ao tempo em que começou a gostar de Flávia. Todo o dia, aos fundos da casa, punha a cara entre as achas da cerca para vê-la passar na turma das companheiras, rumando à escola, ou de regresso, depois da hora das lições. Ela sorria-lhe, ele sorria-lhe. E, depois que passava, de distância em distância Flávia voltava-se para sorrir-lhe de novo, ternamente. Mas não era apenas para ele que Flávia se voltava e sorria… João conhecia os rivais e provocava-os. Esmurrara muitos narizes de competidores. Essa mobilidade que perseverou na moça-feita era para espicaçar-lhe a afeição. Em pouco João tornou-se apaixonado. Amava sofrendo, pois a criança travessa que fora Flávia, fizera-se rapariga irrequieta e enigmática, talvez disfarce de volubilidade. O espírito da moça tinha a mutabilidade dos florões hexagonais do calidoscópio. Se num dado momento João cria no seu amor, um instante depois via-se esquecido ou desprezado. Mas a família dela, não vendo com bons olhos as pretensões do rapaz, tratou de arredá-lo de ao pé de Flávia. Desde esse tempo a moça, talvez por espírito de contrariedade, talvez de pena, começou a manifestar-lhe aberta predileção. Sem embargo disso, falou-se um dia no casamento dela com um comerciante de Paredes, boquejando-se que a moça não se punha por fora do arranjo. Sabedor da nova, na primeira oportunidade, João interpelou-a com veemência: — Você vai casar-se? É verdade?

— Que ideia! — disse Flávia, troçando. — Com quem? — Com o Joca! (Era o nome do negociante.) A moça deu uma risada, sem outra resposta. Mas João tomou o caso em tal desespero, que Flávia, envaidecida de tanto amor, lhe perguntou com faceirice: — E se fosse verdade? — Não sei! não sei! — repetiu ele, dementando. Então a voz dela adoçou, para dizer-lhe: — Eu gosto é de você… Mas o papai não quer! — Fuja comigo! — exclamou o namorado, com o olhar fuzilando resolução. Flávia fitou-o num sobressalto. Um tal amor fulgurava nos olhos do rapaz, que a balança pendeu de seu lado. O ardor cavalheiresco que ele pusera naquele proposta repercutiu vivamente na alma da moça. Fugir era para seu gênio caprichoso uma estouvice apetecível. — Pois fujamos! — respondeu, resolvida. Em duas palavras combinaram o lance; e a desoras, na noite desse mesmo dia, quando todos os conchegos douradinhenses repousavam na treva e no silêncio, uma forma assustadiça tirava com mão trêmula a tranca de um portão. Abriu-se a saída… E do outro lado, na rua, um vulto travou-lhe do braço e com sofreguidão conduziu-a à casa do pároco. Ao lhes abrir a porta, o sacerdote arregalou olhos de assombro; mas vendo os fugitivos a um tempo trêmulos e risonhos à sua porta, por aquelas horas perdidas da noite adivinhou o caso antes de contado; e depois de um breve sermão sobre a doidice dos moços daquele tempo (eterna cantilena dos velhos em todos os tempos), casou-os de afogadilho, atropelando o latim e o cerimonial, com a falha de quem lhe arde a casa e corre às latas d’água para impedir a catástrofe. Só então pôde respirar; e, como com o sermão preliminar e o conjugo vobis já tinha a consciência desafogada, passou a ser o mesmo homem simples e alegre do costume; botando-lhes olhinhos maliciosos, pediu pormenores e regalou-se com a narrativa circunstanciada do fato. Depois esfregou as mãos, contente e paternal, encorajando-os: ficassem tranquilos, tudo se

arranjaria, os pais haviam de perdoar. Ele próprio, com lençóis perfumados de alfazema, preparou-lhes a cama nupcial. E, no quartinho asseado, o resto da noite correu-lhes felicíssimo e sem cuidados, salva a suspeita bem-fundada de que o vigário os espiava pelo buraco da fechadura. Com essa intervenção, tudo logo esqueceu. Durante quarenta e cinco anos de casados a felicidade igual do João era comparável à preguiça remansosa de um rio que, sem pressa, flui à sombra de salgueirais. A menina petulante não lhe entrara a casa; portas a dentro havia a impecável caseira, afetuosa, diligente, guardando apenas da noiva a risada jovial, que cantava como ouro puro. Felicidade não exprime bem o que sentiam; completavam-se, viviam uma vida única. Por isso, depois que lhe arrancaram Flávia, João sentiu-se desfalcado de um pedaço de si mesmo; era como o adormecido há séculos que, chamado, à vida num meio estranho, relanceia para as cercanias olhares esgazeados, procurando avivar as ideias entorpecidas para compreender. E suas ideias antigas voltavam, sugerindo- -lhe sensações antigas, transplantando-o ao passado. Quem se lhe esquivara à porta da igreja não era a Flávia de outrora, versátil e enigmática, a negacear-lhe carinhos? Não era a rapariga cruel que se aprazia com vê-lo sofrer? E, como a serpente que hipnotiza a vítima e brandamente a enlaça com uma rosca, outra rosca, e, por fim, num violento ato de posse, a constringe entre os convólvulos de aço como coisa definitivamente sua: assim, com pés de lã, um terrível ciúme entrou no coração do velho. O desespero abriu-lhe as portas e ele entrou. Tê-lo-ia Flávia esquecido? Amaria agora algum outro? Eram perguntas que a sua demência lhe revolvia no íntimo. Amar a outro! João media o absurdo da hipótese, rebatia-a; mas a dúvida tornava, insistente, aferrava-se-lhe ao espírito, com obstinação monomaníaca. Nos momentos de lucidez bem via que tresloucava; essa convicção, porém, não o libertava do obcecante desvario, que já se lhe implantara no cérebro, com a inexpugnabilidade da ideia fixa. Tudo concorria para isso. Às vezes um simples gracejo,

dito inadvertidamente, impressionava-o, e ia lavrar-lhe por dentro, agravando-lhe o desespero, como a faúla fugaz que ateia um incêndio. Certa vez Dariozinho disse uma frase brincalhona: — João, a Flávia nunca te vem visitar… Quem sabe se arranjou algum namorado? — Que namorado? — volveu o velho, fixando-o agudamente, como para extorquir-lhe algum segredo terrível. E embora o menino desfechasse uma risada, confessando o gracejo, João ficara apreensivo, certo de que lhe ocultava alguma coisa. O desejo de ouvir de sua boca a verdade atenazava-o dolorosamente. E não poupava artimanhas para decidir Dario a dizê-la; uma vez ou outra tornava, fingindo indiferença: — De quem estará gostando a Flávia, meu filho? O menino reiterava a risada, mas a dúvida persistia. Na manhã de uma noite tristemente desvelada, João levantou-se, trazendo embutida no espírito uma grande resolução. Ia ver Flávia. Queria uma explicação decisiva, para atalhar seus sofrimentos. Na chácara não havia o diretor. Flávia estava lá — nada mais ele sabia. De caminho, a frescura da aura matinal varreu-lhe as nuvens do espírito, como uma lufada depois da tempestade, leva do azul os últimos farrapos de nimbos. Possuía-o agora a emoção de um namorado que vai matar saudades da noiva. Como doce música ouvia o sussurro acariciador da aragem, arrepiando os renovos da sebe, que ia passando à sua esquerda. As trepadeiras ainda estavam úmidas de orvalho. Ele deteve-se em certo ponto para colher dentre os festões viridentes uma corola campanulada. Ia levá-la a Flávia, como um singelo mimo de namorado. E sorria inconscientemente, sem saber por quê. Ao transpor o segundo portão, quase deu um grito de terror. Surgira-lhe de rosto um homenzarrão refeito, sem paletó, de camisa arremangada, vermelho e suado. — Que quer? Que vem fazer aqui? Era o Navarro. Na sua mão uma tesoura de podar investia ameaçadora com o intruso. Aos lados da avenida juncavam o chão galhas cortadas de fresco.

João recuou titubeando e fugiu. As coisas tremendas que o diretor lhe gritava chegavam-lhe aos ouvidos como um reboo sem sentido. O trovão, quando ronca no céu, também não precisa palavras para aterrar. Volvendo a espaços para trás o olhar desvairado, açodava-o a figura gigantesca postada além, no portão, como o anjo defendendo a entrada do Paraíso, e de cujas mãos algo expedia relâmpagos — talvez a espada flamante. Nesse dia, ao chegar a casa, arquejante, o coração a saltar-lhe do peito, atirou-se aos pés do padre Gauquério que gesticulava, agitado, na sala de jantar. — Por caridade, Sr. Padre! Eu quero ver minha mulher! Defronte do reverendo a forma chata do sacristão escutava de cabeça baixa. Falava-se de coisas de tanta monta, que o padre arredou distraidamente o velho: — Sim, sim… Depois conversaremos… E o vigário continuou a gesticular e a falar com tio Roque, enquanto João, com clarão de esperança, esperava. O reverendo estava indignado com o Tipico, chefe político e agente executivo. Na última sessão da Câmara ele, e a mais gentalha sua, haviam tido o atrevimento de rejeitar vários projetos do padre Gauquério. Eram medidas de saneamento, de embelezamento, assunto que havia longamente debatido com o Navarro. Pois os camaristas, instigados pelo Tipico, não lhos puseram todos abaixo, sem discussão, sob pretexto de que o Navarro, sugerindo essas ideias, só visava à melhoria de seus colégios? E o pior é que, dando a razão do malogro ao diretor, este remoqueara de seu prestígio. — Pois o diretor não poderá pensar, com toda a razão, que sou um dois de paus, tio Roque? Então quem manda aqui há de ser sempre essa oligarquia de capadócios? Não! Comigo hão de ver… E o reverendo enrubescia de ódio, lembrando-se novamente dos motejos do diretor, que habilmente achava meios de o escandescer ao rubro. Não! ele, Gauquério, tão certo como Deus é Deus, jurava que havia de arrasar a Câmara! Ia começar imediatamente. Cabisbaixo e consternado, tio Roque continuava escutando.

Nesse dia nem nos seguintes não houve ensejo de João fazer ao padre seu pedido. Porque, com a cabeça atafulhada de coisas, como o reverendo andava, não tinha ideias para mais nada. Vivia a gesticular pela casa, sem se deter um instante, a planear a campanha contra o Tipico. Parecia aguilhoado por uma legião de demônios. Seu próprio gênio mudava-se; não fazia carícias aos pequenos, e tratava brutalmente a Maria Gansa, sua terna companheira, que vivia com os olhos vermelhos de chorar. Tio Roque então dizia à meia voz, explicando a metamorfose: — Isto passa, Sr. João… O senhor verá. É a tentação! O sacristão benzia-se, lembrando-se dos evangelhos. — É a tentação… Cristo também foi tentado por Satanás. Mas o padre Gauquério vencerá! Não lhe contaram que já houve uns tempos em que ele andou brigado com a Câmara? A essa recordação um véu opaco toldava a inteligência de tio Roque. Rememorava o cataclismo que o prostrara há velhos tempos, em semelhante conjuntura. A luta das Potências, só de lembrá-la, punha-lhe as ideias num caos. Morreria, decerto, se esses tempos voltassem. — Mas o padre Gauquério vence. Deus está com ele. O senhor verá que ele vence! E, concluindo estas palavras, com que o preto procurava confortar-se a si mesmo, revirava para o alto os seus olhos arraiados de sangue, em muda súplica. E as semanas dobravam-se com o mesmo tom uniforme de sofrimento para o velho João. Cada vez mais se radicavam na sua alma as visões retrospectivas; e, frequentemente desesperando, ele deprecava ao céu que lhe pusesse termo à vida atribulada. Para que viver, se estava tão só? Quem havia no mundo que pusesse olhos piedosos na sua miséria? Quanto à Flávia, essa… acabou-se. Ali existia “alguém”, um “outro”, a embevecê-la… A esta ideia um tumulto crescia-lhe na alma. Num rugido de revolta queria avançar contra o mundo inteiro para retomar sua Flávia; ou então, abatido e fraqueando, bambeavam-lhe as pernas, e suas mãos trêmulas tateavam o espaço, buscando um ponto de apoio…

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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