Universo da obra
Universo da obra
Por esses abençoados tempos o governo resolveu lançar olhos vigilantes sobre a instrução pública, e o futuro prometia farta colheita de benefícios. Passou a ser enérgica a fiscalização técnica do ensino. Os inspetores punham em contínuo sobressalto os pacatos professores, sobre cujas cabeças parecia estar constantemente a desabar, como um raio, a demissão do nobre cargo. Navarro nunca temia esses fiscais, cuja interferência, aliás, só respeitava à Escola Normal (o Ginásio era apenas sujeito à inspeção permanente do coronel Tinoco, um fazendeiro de vistas curtas indicado pelo diretor e nomeado pelo governo da República). Nada obstante, tomava-o um pouco de inquietação quando algum ameaçava chegar, emoção que contribuía para dar mais sabor à vitória que lograva a cada uma dessas visitas. E ele buscava transmitir aos professores essa inquietação, para que se esmerassem em fazer brilhar as classes, por ocasião das visitas oficiais. Pedia-lhes igual zelo pelo ensino no “Deus, Pátria e Família” e no “Fiat Lux”, porque os docentes de um eram os de outro; e Navarro julgava indispensável deslumbrar os inspetores com o regular e brilhante andamento dos trabalhos do Ginásio. Cada uma destas visitas equivalia a um imenso cartaz que por toda Minas apregoasse o seu nome, emparelhado com a sua obra. Não temia os fiscais, entretanto. Homens formidáveis acompadrados com a inveja dos seus inimigos, já haviam arribado ali com as piores intenções. O Trovão fora um deles.
Quem o visse! Era um monte de banhas, um hipopótamo atoucinhado, afogado em papadas, todo ele a estrugir e a arrastar quando estava em jejum. Seu encontro com o Navarro foi tremendo como um estouro de granada. É que Trovão não almoçara… A fome, em irritados borborigmos, rugia nas entranhas do bruto. Passados os ecos da primeira trovoada, Navarro teve o tato de arrastá-lo para a mesa. Serviu-lhe suculentos paios, garoupas chegadas de fresco, presuntos recendentes… Trovão atafulha-se dessas coisas, roncando e fungando como um porco. Ao fim da travessa de requeijão que pôs termo ao almoço, Navarro contou-lhe anedotas desopilantes, temperadas com o efeito de um garrafão de vinho caldense; e Trovão, incapaz de comer mais, manso e desassombrado, o corpo descaído para trás, os dedos encruzados no ventre abacial, abalava os alicerces da casa com homéricas gargalhadas. Dali foram às aulas. O fiscal assistiu a tudo fingindo atenção, num abandono de si que era quase um dormitar. Um sorriso de bem-estar soerguia-lhe o canto dos beiços sensuais, e tinha o olhar diluído em untuosa ternura. O bruto cismava… Nas suas cismas sorria-lhe uma enorme posta de garoupa, afundida em pirão, reservada para o jantar. Foi-se o Trovão. E o fiscal temeroso, insubornável, e que tão prevenido viera contra o Navarro, apenas deixara nas Três Barras, como marca indelével de sua passagem, em vez de ruinarias e assolações, a memória de uma tremenda indigestão de leitoa com chouriço. Depois veio o Mesquita, outro homem temível, por ser irmão ou primo de quem quer que era que tinha interesses em conflito com os do Navarro. Cumulava ao seu cargo o de redator do Martelo, reles semanário. Felizmente passou pela vila como nuvem rósea num céu azul. Era elegante, flor ao peito, muito conversável. Foi recebido na estação entre alas de alunos e alunas que lhe despejavam na cabeça balaiadas de flores. Processionalmente o conduziram ao ginásio; e, a partir do momento em que o préstito entrou o salão do ex-teatro e leu seu nome no alto da parede, ele, que até então se mantivera contrafeito e ambíguo, deu-se de corpo e alma ao Navarro. Sentira
a impressão de haver sido perpetuado em bronze eterno… Durante os dias de exames que lá esteve, foi uma festa não descontinuada entre discursos e flores. Se saía à rua, era sobraçando ramalhetes de que pendiam fitas rabifurcadas, com palavras alusivas às suas grandes qualidades. Ouviu encantado trinta e tantos discursos encomiásticos. Para fiscalizar os exames era entronizado num estrado e submergido entre tufos de flores, tendo ainda nos cabelos e nos ombros relíquias da chuva festiva de pétalas e folhas com que ao cruzar do limiar o acolhiam as examinandas. Partiu ao espocar de foguetes, entre novas manifestações; e, entre as muitas suaves recordações que levava das Três Barras primavam as quinze assinaturas do Martelo, que Navarro tomara para si e para os subalternos. E depois de ter-se medido com homens tão temíveis, e com uma chusma de outros de menor temibilidade, quando já seu nome estava definitivamente depurado no crisol de tantos relatórios panegiristas, eis que o domina terror infantil e incompreensível à notícia de que estava a pique de surdir ali um novo fiscal, um certo Cobra, de quem apenas conhecia o nome — mas que nome! — tendo, outrossim, lembrança de lhe ter visto o retrato algures: vastas barbas cobrindo-lhe à feição de máscara a maior parte da tromba, densíssimas sobrancelhas, e dois olhos ferozes emboscados como bandidos atrás dessa abundância de pelos. Quem seria esse Cobra? Que redes ocultas vinha urdir contra seus institutos? — perguntas como estas Navarro não cessava de formular mentalmente. E o diretor tremia, e informava-se; cada novo informe, porém, vinha agravar sua conturbação. Soube que o Cobra cercava de mistério seus atos e seus roteiros; que só viajava a cavalo, para mais facilmente colher flagrantes de desleixo; e que de viagem disfarçava-se em caipira… Só apurou isso. O mais, era vago, contraditório, dubitativo. Sobre estes alicerces, nada mais natural que levantar-se o busto do fiscal com todos os traços de esfinge indecifrável, como o via o Navarro ao evocá-lo. Por isso, na secretaria do ginásio, onde reinava o afã das repartições frequentadas, havia horas em que o diretor redigia, umas sobre outras, minutas de telegramas aflitos,
que espalhava por todas as localidades da circunscrição do Cobra: “Bom Retiro — Dr. Arantes: Inspetor Cobra aí?”, “Agente correio Canaviais: Peço notícias índole inspetor Cobra”, “Coronel José Pendão — Poço Fundo: Soube inspetor Cobra esteve aí. Peço informações minuciosas seu itinerário. Resposta paga oitenta palavras”, etc. Vinham as respostas — e com elas aumentava o impreciso e a dúvida… Havia momentos em que, numa tão suplicante incerteza, Navarro reclinava a cabeça sobre o peito do Dadico, esmorecendo. Nesses instantes era como o vencido que oferece o pescoço à espada do inimigo, para pôr termo a uma resistência exaustiva e estéril. Dadico, que não conhecia bem o diretor, admirava-se desses desfalecimentos de bom augúrio. Não sabia que essas crises de pusilanimidade e desalento só o afligiam em vésperas de pleitos memoráveis, quando cogitava grandes modificações na sua vida. Nesse ano abriam-se- -lhe à vista largos e acessíveis horizontes, que o enchiam de febre interior. Planejara imensas coisas, sobre as quais se expandia confidencialmente nos ouvidos distraídos da Adélia. E era essa incubação grandiosa e secreta que lhe quebrava a energia. “O momento decisivo não vem longe — estou no meu Getsêmani” — balbuciava ele em voz débil, com a cabeça pousada ao colo do secretário amado. Nesses períodos tinha para os subalternos a ternura vencida dos fracos que imploram solidariedade… Passado o primeiro desfalecimento, viera como reação a rudeza do exaspero; o diretor levantara a cabeça enérgico, viril e tomava medidas que prevenissem os inconvenientes de uma surpresa; e, à febre das suas ordens, via-se cercado de uma agitação febril, que objetivava, em torno de si, a sua disposição de ânimo. Operários, em grande freima, rebocavam os portais de tintas novas, e remoçavam a mobília escolar; jornaleiros em mutirão melhoravam a estrada da chácara; começou a ser dado o número regulamentar de aulas de trigonometria, mecânica e outras matérias habitualmente enforcadas em benefício do ensino “prático”; afixaram-se concentrados horários
provisórios; a meninada decorava discursos; às aulas os docentes esforçavam-se mais; e, a qualquer rumor de passos apropinquantes, tomavam atitudes estudadas e arregalavam o olho para a porta, contando com o inimigo; o sono do Dr. Ercole Cavagnari, passou a ser mais sobressaltado; o Bias berrava, multiplicando perguntas a “Mr. Weber”, às quais a vozinha fina do menino prodígio respondia como um refrão; “Oui, monsieur!”. O farmacêutico Mendonça andava consternado; seus cabelos cresciam à ideia de ser precisa alguma experiência de química, de volver a lidar com os ácidos roazes, com as reações traiçoeiras do ácido sulfúrico e com as retortas explosivas; em contrabalanço, o Lago, catedrático de música e desenho, regozijava com a oportunidade de exibir certo fraque esguio e solene que andava sofrendo ásperas escovadelas. Em tudo se via inquietação, afogo, e como preparativos para grandes acontecimentos. Para pôr cobro a essa inquietação geral, o próprio Cobra comunicou o dia de sua vinda. Foi isso dois dias depois da chegada do Dr. Peregrino. Na secretaria, a sós com o Dadico, Navarro corria com a vista as cartas recebidas pelo trem da manhã; acotovelando-se com ele, o secretário fazia lançamentos no contas- -correntes. O diretor falava-lhe ininterruptamente, dando-lhe conselhos morais, que entremeava de uma ou outra breve observação sobre a correspondência. — Você sabe, Dadico, não quero a mínima quebra de harmonia quando o inspetor Cobra abicar a estas paragens, por isso, permita que, pela centésima vez, censure seu procedimento com o Lago. Você precisa desagarrar-se da Nhá Tuca, uma vez por todas. Que diabo! É o Lago quem a sustenta, logo, é dele; sendo assim, deixe-o em paz! — É nossa — fez o secretário com os olhos de rato crepitando malícia. — Vá, não graceje, Dadico; você bem sabe que, como dizem os jurisconsultos, há coisas por sua natureza indivisíveis. Repugnam à consciência certos comunismos… — O José da Exaltação pede a conta; mande-lha hoje mesmo.
Navarro passou às mãos do Dadico uma carta e prosseguiu. — Repugnam! Não tanto pela coisa em si, mas pelas consequências. Assim, conhece o gênio explosivo do Lago; e, como ele já está pela garganta com você, não é impossível que durante a visita do Cobra surja qualquer pugilato que desmoralize esta tenda de trabalho. — Por esse lado não há perigo, sorriu o Dadico; se tivesse de haver catástrofe, já teria arrebentado há muito tempo. — Dadico, não brinque! — Já foi cumprida a ordem do Soares. Arre! credite-lhe, enfim, os quatrocentos e cinquenta mil réis. — Desconfie dos mansos. Quando menos se espera, eles saem-se com alguma… Além disso, mesmo pelo lado higiênico, essas sociedades têm inconvenientes. Quem nos diz que o Lago não tem em si qualquer vírus, que, indiretamente, possa inocular? Hei de pedir ao Peregrino que dê a você algumas luzes sobre os progressos da bacteriologia e propriedades dos vários cocos… E, além disso, Dadico, Nhá Tuca é mulher do povo, talvez de pouco asseio, e com seus quarenta puxados. Que beleza você foi achar ali? Uma cara enrugada, mais própria a fazer de papão que a se pasmar em trejeitos sentimentais. Dadico soltou uma brusca e estridente gargalhada. O diretor embatucou um pouco; depois redarguiu com severidade, rompendo um novo sobrescrito. — E o lado moral da questão, Sr. Dadico? Onde fica a moral? Sócrates, o grande Sócrates, a alma pura que foi Sócrates, disse em um dos seus livros… Navarro não completou a citação. Empalideceu, cambaleou. Dadico lançou a pena e precipitou-se em seu socorro. — Que tem você, Navarro? Com uma das mãos o diretor agarrou-se à secretária; com a outra transmitiu-lhe o cartão que assim o transtornara: — Leia! — disse. E, por cima dos ombros do subalterno, releu as palavras seguintes: “Sr. Antônio Junqueira Navarro.
Cumpre-me participar-lhe que aí chegarei sábado próximo fucturo, à tarde. Serei seu hóspede por quarenta e oito horas ou mais. Sou, com estima, Seu admirador e criado. Matos Cobra” — Viu que homem? Que fera? — comentou Navarro, custando a reachar a voz. — Não vejo nada de mais, volveu o secretário, analisando as frases do recado. Absolutamente nada. E não posso compreender por que você está e tem estado tão perturbado estes dias! No Brasil não há um colégio igual aos seus. — Não é isso, tornou o diretor; não receio um exame imparcial, e sim a prevenção. Este homem está prevenido comigo! — Por quê? Qual, Navarro! Eu às vezes me convenço de que você está ficando idiota!… Por preocupado que estivesse o diretor, a familiaridade do secretário fê-lo arrugar as sobrancelhas. — Sr. Dadico — censurou — é hora de serviço, por isso, deve compreender que aqui não está o amigo e sim o diretor, ouviu bem? Meça, portanto, suas familiaridades. — Sim, senhor, queira desculpar, Sr. Navarro — respondeu o secretário com vozinha adocicada. — O fiscal está muito prevenido — prosseguiu o diretor, reatando o fio cortado. Ouça! — e em voz alta releu o bilhete, que ia comentando: — “Cumpre-me participar-lhe” (hem? quanta solenidade!) “que aí chegarei” (que tom incisivo!) “sábado próximo fucturo” (hoje, santo Deus!). “Serei seu hóspede quarenta e oito horas ou mais” (é uma devassa, Dadico! Os outros fiscais em duas horas visitam as aulas todas). E agora no fim: “Seu admirador”. Que provocação! Num grande assomo chegou o cartão às ventas do Dadico: — Leu bem? É um repto, um cartel de desafio! Em seguida, quase desfalecendo, cingiu o pescoço do secretário, a cujo ombro arrimou a cabeça. E pôs-se a gemer:
— Num momento destes é que se aprecia a amizade, Dadico; e eu que não tenho por mim nem um coração dedicado! Quanto desejava ter um verdadeiro amigo! — Pois duvida, Sr. Navarro… — Não me trate de “senhor”, Dadico; trate-me simplesmente de Navarro… Quem está aqui agora não é o diretor e sim o amigo, um amigo infeliz que precisa de conforto… Diga-me alguma coisa, Dadico… Ou não, não diga nada, porque mesmo que você fosse sincero eu não acreditaria… Que pena você ser tão interesseiro! Vá chamar o subdiretor, vá! Veio o Meira. A pedido do Navarro percorreu as linhas do fiscal, e também não notou nada de mais, a não ser um “c” desnecessário em “futuro”. A opinião do Meira fez o diretor renascer do quebranto; e incontinente, sentindo um vigoroso afluxo de energia, bradou ordens, multiplicou providências, movimentando com cada frase um batalhão de empregados e alunos. Contrastando com essa agitação anormal, havia a quatro léguas dali um quadro pacato. Por uma estrada que demandava a Três Barras, cavalgavam dois viajantes. Ao primeiro lanço, julgar-se- -iam dois matutos da mesma igualha; atentando-se, todavia, ao que abria a marcha, notar-se-ia sobre a dianteira do lombilho uma grande mala, o que induzia a crer fosse um camarada, ao passo que o ar digno e lambão do companheiro, indicava o patrão viajando incógnito. E assim era. Este último tinha tudo da fotografia que horrorizara o Navarro, dando-se desconto do cansaço que abatera um tanto sua feição bravia; as barbas davam-lhe catadura sinistra, e vez em vez seus olhos expediam fulminantes flechas para o matungo que parecia afrouxar. Quem o visse nesses momentos, havia de espantar-se da alimária não cair trespassada de cada vez que se lhe dirigiam esses olhares, terríveis. Seguiam silenciosos, hipnotizados pelo piso isócrono dos quadrúpedes.
Como o camarada fosse distanciando o patrão, cujo animal se deslocava em passo lerdo, este, com voz cava e trágica, bem conforme à sua figura, bradou: — Máksimo! (o camarada chama-se Máximo) apanhe-me uma vara, por favor. O interpelado respondeu com decisão: — Não, Sr. Cobra; já lhe dei quatro depois que saímos do pouso, e o senhor deixou cair todas. Apanhe o senhor mesmo, se quiser. O fiscal (era ele) suspirou resignado e picou o animal com o tacão das botas, à guisa de esporas, que não trazia. Não podia aceitar, por impraticável, o alvitre do camarada. Sem embargo do seu muito viajar, era mau cavaleiro, e a custo mantinha o prumo na sela. Apear, apanhar a vara, tornar a montar… operações muito complicadas para quem não se sentia naquele momento com muitas disposições para o heroísmo. As pernas se lhe derrearam em breve, com a nova ginástica. Por um motivo secreto fazia questão de não ficar muito atrás; observava com enorme concentração os mínimos movimentos do camarada percebendo assim que ele fazia o seu animal acelerar o passo, excitando-o com dissimuladas manobras que seriam imperceptíveis a um observador desprevenido. A suspeita que o patrão concebera corroborou-se. — Máksimo! — declamou — deixe-me ao menos ir adiante, para você tocar meu cavalo quando ele lerdear. — Não! — respondeu aquele com a mesma decisão. — Para quê? o senhor não sabe abrir porteira… Assim, eu vou onde vou. — Você é injusto, Máximo! — retorquiu o amo. — Quantas porteiras já não tenho aberto? Hoje mesmo uma ou duas, se não me engano. O camarada achou melhor não dar resposta; e abertamente picou o animal. “O Máximo é um autocrata” — pensou para si o Cobra, que tinha o hábito de formular sentenças sobre o caráter de seu companheiro de viagem.
Este seguia em passo estugado; e, em breve, dobrou um espigão ao longe. A horrível suspeita que invadira a alma do fiscal, então toma vulto e ele se resolve a praticar um feito heroico. Ao primeiro arbusto que o ombreia a jeito, invoca toda a sua resolução e se obliqua para ele. Cai não cai consegue quebrar-lhe um ramo que vitoriosamente desfolha. Tem a vara, enfim! E com umas lambadas esperta o matungo, que despede em perigoso galope. Quando por sua vez atinge o espigão, engasga-o um ‘‘oh!” de triunfo. O Máximo pilhado em flagrante! Pouco além seguia o camarada, baforando descuidado as fumaças de um cigarro de palha. Máximo, ao vê-lo, sobressaltou-se e esporeou o animal para manter-se a distância; com dois arrancos, porém, Cobra pôs-se-lhe de par e censurou calorosamente: — Não me pode mentir agora, Máximo! Você tem fumo… E ainda há pouco mo negou! Sabe Deus como ando seco por fumar há duas horas! O camarada, de mau modo, ajuntou nos fundos do bolso da calça uma pitada de farelo que o patrão recebeu alegremente no covo da mão; e, já sem pressa, Máximo foi trotando emburrado, não respondendo às frases cariciosas com que o Cobra, enfim bem-humorado, tentava ameigá-lo. Comovidamente o fiscal confeccionou o rolete; e no acendê-lo pôs uma tal gana, que as barbaças quase lhe foram em labareda. Tragou a primeira fumaça até o mais profundo das pacueras, saturando da brancacenta névoa as mais recônditas vesículas; aí parou de viver um momento, gozando beatamente essa primeira impressão; em seguida expeliu o fumo, que ao sair se entranhou na raiz das barbas, desprendendo-se depois por entre o pelo, em lenta fumigação. O Cobra não protestou por ver de novo o camarada tomar a dianteira. Sentia-se invadido de grande felicidade, que nesse momento se traduzia por tendências a expansão. — Olhe, Máximo — disse ao camarada, fazendo largo aceno, que este não viu por não se ter voltado —, olhe este gordural florescido que de todos os lados nos cerca! O capim recobre as ondulações
destas colinas como um tapete roxo. Que cheiro penetrante de uberdade e viço! E você não se move a toda esta poesia, Máximo… Você não tem a alma entusiasta. Isso é mau, Máximo; o homem não deve cuidar das necessidades corporais. (Repentina mudança de tom.) Mas que é isto! Um córrego espraiado… Um caudal atravessando a estrada… Cuidado, Máximo! vá tenteando o caminho para achar vau… Não! o melhor é esperar quem nos informe… (Grito de horror.) Máximo! que é isso! Vai pelo mais fundo! Aí é um pélago, talvez… Volte, temerário! Não serei eu… Lá caiu minha vara e o cigarro! E o meu cavalo que não obedece! Máximo! eu morro! E mais não disse. O fiscal, abraçando-se ao pescoço do cavalo, fechou os olhos ao mundo exterior. Sob ele, compassadamente, os jarretes do animal padejavam a água. Ainda bem que o cavalo do camarada pisou em pouco chão duro, e o seu fez o mesmo após um angustioso infinito. Cobra então abriu largamente os olhos, e, volvendo a cabeça, contemplou absorto as águas que atravessara, com a sensação dulcíssima daquele “che con lena affannata, uscito fuor del pelago a la riva, si volge a l’acqua perigliosa e guata” Do abismo seu olhar foi buscar Máximo, que filosófico lá seguia à frente, sem demonstrar a mínima emoção, como se nada se houvera passado. — Máximo, você é intrépido! — sentenciou o Cobra, cravando- -lhe nos costados olhos cheios de admiração. A perda do cigarro e da vara não molestaram o fiscal, pois a lembrança do perigo passado dilatava-lhe o coração em calmo gozo. Esvanecida essa violenta impressão, o cheiro suculento do capim- -gordura incutiu-lhe disposição para prosseguir na ordem de ideias interrompida; preferiu, no entanto, calar, por ver que Máximo continuava embezerrado. E ambos recaíram na sonolência hipnótica que provocava o balanço ritmado e o compassado patear dos animais.
De longos anos Cobra obtinha do governo empregos de viajar, sem todavia fazer uso de outro meio de locomoção que não fosse o cavalo, por mais econômico. Levado pela avareza, que das suas qualidades morais era a de mais destaque, vestia-se como um carreiro a título de incógnito, e ratinhava o mais possível nas despesas forçadas, o que o levava a nunca pagar hotel, preferindo hospedar-se com professores, sob pretexto de esmiuçar-lhes a “psicologia” profissional. Em todas essas viagens tinha o Máximo por companheiro insubstituível. Malgrado os rigores do rebelde camarada levarem o amo a defini-lo como um bruto sem entranhas, votava-lhe admiração infinita. Os mil pequenos atos do Máximo num só dia bastavam para lhe encher a vida. O camarada absorvia-lhe os pensamentos. A maior preocupação do Cobra era estudar-lhe a “psicologia”, sua expressão favorita. E, palestrando com terceiros, não se cansava de dizer com o calor de um nunca arrefecido enlevo: — O Máximo é de uma franqueza rude — O Máximo é uma alma leal — O Máximo é um valente… A maior dor d’alma do patrão era Máximo não ser um “intelectual”. Por isso, quando viajavam, o fiscal tentava embutir-lhe algumas noções gerais, sobretudo certa dose de filosofia transcendente; mas o camarada era-lhes refratário; e por vezes, no mais patético das divagações do amo, pedia a este que lhe poupasse os ouvidos. Por seu turno, Máximo não queria saber de outro patrão. Embora jurasse e tresjurasse em cada viagem que aquela seria a última que fariam juntos, esses juramentos só lhe saíam da boca. Considerava um tanto o Cobra como propriedade sua, o que lhe fazia conceber zelos das pessoas que lhe demonstrassem amizade. E, para fazer esquecer o descaso com que aparentemente o tratava, sempre que ameaçava o amo um perigo real, Máximo não hesitava em afrontá-lo. E assim, amo e servo completavam-se como D. Quixote e Sancho Pança. Decorreram longas horas silenciosas. Por volta das cinco, os cavaleiros avistaram a vila.
— Máximo — disse então o Cobra —, repare bem naquela baixada, na entrada da povoação… Está vendo? É uma boiada imensa… Vamos dar uma volta, passando mais à esquerda, por aquelas marias-pretas. — Não — respondeu, seco, o camarada —, o caminho é por ali, havemos de passar por ali. — Máximo! Máximo! Veja bem o que faz! Pese as grandes responsabilidades que recairão sobre você! Máximo foi inflexível; e o fiscal media, aterrado, a extensão da onda viva que se mexia no vargedo longínquo. Como não via chifres, alimentou a esperança de que fosse gado mocho, raça que lhe parecia menos temível. Esmurrou a anca do cavalo até este encostar o focinho no traseiro do animal de Máximo, para assim ir mais à sombra do obstinado camarada. E começou a fechar antecipadamente os olhos. — Ó Sr. Cobra — disse de surpresa o companheiro —, aquilo não é gado, é gente! O fiscal atentou para a baixada, e reconheceu, atônito, ser realmente uma multidão humana; e viu, pairando sobre as cabeças, panos grandes, imitantes a velas pandas. Ali havia letreiros ainda ilegíveis. Deviam ser estandartes. A estrada começou a descer, contornando um cabeço. Seu leito cavado pelo trânsito secular e pela erosão, entre duas altas barrancas laterais, tolhia agora a vista. Além assomaram os viajantes a cavaleiro do povo. Vinte foguetes serpentearam no ar, indo estalar no céu. Instrumentos metálicos com o som empalidecido pelo descampado tocaram o hino nacional. A vozearia da gente clamava vivas a alguém. As velas pandas — efetivamente estandartes — também davam vivas a alguém, cujo nome o Cobra não pôde ler pelo fremer entusiástico dos panos. E toda aquela multidão parecia avançar ao encontro dos viajantes… Cobra sentiu um íntimo arrepio indescritível. Aquilo seria para ele? — Máximo — gaguejou a custo —, deixe-me ir adiante, porque…
A voz negou-se a dizer mais. Batendo duro com o calcanhar na barriga do cavalo, fê-lo de um pincho passar para a frente; e com a acuidade dos sentidos centuplicada, o Cobra procurava a confirmação de sua suspeita. Agora não havia duvidar. Dentre os gritos do povo, o espipocar dos foguetes e o tarataxim dos instrumentos, vinham-lhe nitidamente os sons: “… obra!”. Num estandarte vislumbrava um “TOS”: e, quando a charanga calou, ouviu, já perto, um homem pletórico bramar, alçando os braços: — Viva o Exmo. Sr. Inspetor Matos Cobra!… — Viva! — respondeu o povo a um tempo. Estavam chegados. O fiscal fez uma careta, sorriu alvarmente, engoliu um soluço, e, forçado a apear-se — que século levou a arrancar o pé do estribo! — foi cair, acabrunhado de gozo, nos braços alentados do Navarro.
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