Universo da obra
Universo da obra
Desse lugar até a chácara “Deus, Pátria e Família”, Cobra foi de braço com o diretor. Durante o caminho mostrou-se perturbado, deixando sem resposta as frases que ele lhe dirigia. Isso tornou Navarro apreensivo, supondo que o fiscal o fizesse de estudo, para dar-se ao respeito. Navarro então envergonhou-se de ter feito tão pouco; sentiu não ter podido arvorar arcos de bambus pelos dois quilômetros que percorreu o préstito. Davam-lhe instantâneo alento as lágrimas que escorriam sobre a cara do fiscal, cujas barbas orvalhadas tinham certas convulsões que denotavam soluços. Pensou todavia que essa comoção fosse comédia, pois sentia-se ainda impressionado pelos olhares terríveis do manifestado, que bem figuravam, através das bagadas comovidas, coriscos entre o aguaceiro. As próprias vestes dele lembravam-lhe Diógenes e outros filósofos célebres, a quem o excesso de ideias empecia às preocupações materiais. No relancear aquilino com que a espaços o fiscal abrangia o préstito, Navarro lia um meticuloso espírito de observação. “O homem já começou a inspecionar” — dizia de si para consigo. A verdade, contudo, é que Cobra procurava Máximo enternecidamente, para ver se também ele partilhava da sua emoção. Só sabia ser feliz a dois, e o número dois havia de ser Máximo. Mas não lhe dava com os olhos. — Máximo vai encher-se de orgulho, pensava. Decerto, vem atrás deslumbrado. Ganharei muito na sua opinião. Depois de um tempo infinito, e infinitamente doce para o Cobra, chegaram à Escola Normal. Dos dois ramos da escadaria de
entrada debruçavam-se meninas de branco, que à chegada do fiscal lhe entornaram na cabeça bandejadas de pétalas. Faziam-no, porém, de tão mau jeito e tão contrafeitas, que Navarro se possuiu de íntima fúria. Passando por elas segredava-lhes áspero: — Deem vivas! Fiquem alegres, riam-se! Foi em vão. Os rostinhos melancólicos mostravam antes vontade de chorar. Algumas furtivamente enxugavam lágrimas rebeldes. E, ao invés dos vivas ordenados, reinou um silêncio sepulcral. Havia só o tropear da multidão a desandar para a vila, e que lembrava a rumorosa abalada de um préstito fúnebre que acaba de largar o morto no cemitério. “Sou um incompreendido” — murmurou o diretor, apegando-se ao seu ideal. Mais familiarizado com o inspetor, ia-o levando de reboque para o locutório, quando o viu empacar na soleira, volvendo-se com inquietação para a turba que lhe mostrava as costas. O diretor supôs que ele quisesse falar. Bateu palmas chamando a atenção e chegou a dar uns gritos para fazer voltar as pessoas do cortejo. Enganara-se, porém, na sua suposição; Cobra apenas procurava Máximo. — Não vai falar? — perguntou o diretor, vendo-o fazer menção de entrar. — Falar? Eu?! Absolutamente! — respondeu Cobra, assustado. Nunca em sua vida fizera um discurso; e à só ideia de discursar enfrentando uma multidão, injetava-lhe no corpo todos os pavores. Era o primeiro a estranhar essa insólita negação, pois, viajando com Máximo, tinha momentos felizes, em que, sem exagero, reconhecia em si uma superior eloquência, que sentia desperdiçar nos ouvidos do seu bronco companheiro de peregrinações. — Não é nada, podem voltar! — gritou Navarro para a turba. E precipitou-se ao encalço do fiscal que fora refugiar-se na sala de visitas, onde ainda continha com as mãos os batidos do peito. Afastado o perigo, Cobra pôde respirar. Ao mesmo tempo desgostava-o má impressão que o incidente poderia dar de si ao diretor. Ah, se o Navarro o tivesse ouvido ainda naquele dia, quando ele
mais o Máximo atravessavam um gordural! Pena foi o incidente do córrego interromper a parlenga que começara tão bem. Mas no decurso de sua estada ali, havia de desvanecer essa má impressão, atestada por um risinho entre cortês e irônico que o Cobra bem viu, ao dar-lhe sua resposta terrífica. Entretanto, o diretor demonstrava-lhe certo acatamento que lhe agradava. Chegou a mandar a esposa para apresentar-lha; e após um rápido cumprimento trocado entre a dona da casa e o recém-vindo, sem dar tempo a este de formular a frase respeitosa e elegante que concebera, puxou-o para fora da sala: — Deve estar cansado, mas vamos dar uma vista d’olhos nas salas de aula, fazendo tempo para o jantar. É desnecessário dizer-lhe que, além de não ser mais hora de lições, hoje o dia foi considerado de grande gala, em homenagem ao amigo. — Obrigado. — Não tem que agradecer. É um justo tributo que rendemos a um dos mais brilhantes expoentes da raça latina. — Obrigado, obrigado. O senhor me comove… E Cobra enxugou uma lágrima. Foram a todos os salões e anexos da Escola Normal. Tendo-se senhoreado de si, o diretor dava largas à loquacidade. Via claro a ascendência que ganhava sobre o incorruptível funcionário e jurava-se que daí a pouco nada restaria de perigosa prevenção com que este abordara às Três Barras. Na sala de geografia mostrou-lhe, um a um, todos os mapas murais, indicando-lhe a posição de muitas cidades importantes. Perguntou-lhe sobre seu berço natal; e tendo o fiscal respondido que era a Mumbuca apontou incontinente. — Cá está a Mumbuca, a gloriosa gleba! veja sua terra abençoada… Vou assinalá-la a tinta cor-de-rosa para chamar a atenção das alunas… Ah, meu caro, nós aqui temos o culto dos beneméritos! Veio a lanço uma dissertação sobre o professorado. Eram apóstolos do livro, legionários da ciência, etc.
— Agora aqui, a mobília americana (deu repetidos socos em diversas carteiras). De solidez a toda prova! E com a distância regularmente positiva. O senhor vai conferir; vamos buscar a fita métrica… Com esta tenção entraram na sala de geometria. Navarro, porém, esqueceu as carteiras e fez o fiscal admirar uma figura traçada a giz no quadro negro. Explicou-lhe que naquele dia o assunto da lição fora a avaliação da área de um trapézio. — Ensino eminentemente prático e intuitivo — anotou. Dali se dirigiram ao gabinete de física e química e história natural, onde preparou em dois tempos um copo de limonada efervescente, que ofereceu ao fiscal. Por sinal que carregara muito no ácido cítrico. O Cobra provou, careteando. — Que tal? — perguntou Navarro, com um ar triunfador. — Deliciosa, saborosíssima — respondeu o fiscal, que gostou de os adjetivos lhe saírem fáceis. Há quanto tempo buscava brecha na dicacidade do Navarro para encaixar uma frase revelativa de seu talento! — Não é a minha cadeira, mas nós, os docentes, nos familiarizamos com as dos colegas, para haver uniformidade de vistas e sempre um substituto à mão… Mas beba mais, já que gostou. — Obrigado, mas acho que… — Beba! Nada de cerimônias… Navarro levantou o copo que aquele depusera e pôs-lho ao nariz. Cobra virou o resto. — Mas interrompi-o, desculpe! — O senhor ia dizendo que achava que… — Nada… Apenas que a limonada estava um tanto ácida… E o diretor com veemência: — Oh, por que não o disse? Para desfazer a má impressão, preparar-lhe-ei outra com todas as regras… Espere, é um momento. — Não, não! estou satisfeito — obstou o fiscal, aflito interpondo-se entre o Navarro e os bocais. Continuando a exibição, o diretor apontou os quadros do Museu Deyrolle, que revestiam as paredes. Tomou uma miniatura de
esqueleto de uma caixinha e fê-la dançar sobre a mesa. Passando à seção de física, armou e graduou um microscópio, obrigando o fiscal a arrancar um fio das barbaças, operação dolorosa de que foi largamente recompensado vendo-o pela ocular tornar-se em reforçada cordoalha, o que o encheu de orgulho. Entrando pela eletricidade, fez funcionar a máquina elétrica, que não deu faísca; conseguiu, todavia, carregar uma bateria de Leyde, com a qual por um triz não fulminou o inspetor técnico, que deu um berro. — Então! — disse o diretor, entusiasmado. — Forte, pois não é? E nem podia ser o contrário: aqui tudo é novo e bem-cuidado; em Minas não há um gabinete como o meu, garanto-lhe. O fiscal, em tremuras, quis responder com uma frase lapidada, mas ainda não havia recobrado bem seus espíritos. No princípio cuidara que ia morrer, felizmente dentro em pouco só lhe restava um resquício de terror retroativo. Saíram para outro compartimento. Navarro quis proporcionar ao fiscal um agradável inesperado e por isso lhe cedeu o passo: — Reservo-lhe aqui uma surpresa — disse prazenteiro, filando efeito —; vejamos se atina com ela. Enquanto o diretor revia à socapa a legenda em tinta fresca e letras góticas “Salão Matos Cobra”, estampada no alto da parede, o homenageado dava uma vista de olhos ao redor. — Não sei… Nada vejo — disse. — Ali ao alto… “Salão Matos Cobra”! O fiscal sentiu-se felicíssimo ao dar com o seu nome eternizado na história. Nem pôde agradecer. — Desculpe a insignificância da lembrança — disse Navarro —: o senhor merece ainda mais. E saiba que neste salão se leciona civismo e pedagogia. É o salão nobre. Venha, vamos continuar o giro. O diretor tomou-lhe o braço e levou-o aos outros repartimentos. Por último, mostrou-lhe as latrinas. — Desinfecção perfeita… Descargas automáticas… Água em abundância. Não tem nem longes de mau cheiro. Experimente, experimente.
Obedecendo à pressão que lhe fazia no cogote a mão robusta do Navarro, o fiscal dobrou-se e aspirou; ato contínuo torceu o nariz, enojado. — Largue-me, senão sufoco — pediu angustiado ao diretor, que ainda o mantinha curvo. — É o cheiro do desinfetante — explicou o último. — Saiamos daqui, rogo-lhe, que me sinto tontear; talvez seja influência destes vapores sulfurosos ou choque da limonada. A verdade é que não me sinto bem. Tornaram à sala de visitas. O diretor ia conduzir o Cobra para o jantar, mas um afastado tilintar de talheres fê-lo mudar de propósito. — Ainda não lhe ofereci banho — disse —, e já há de lhe estar achando a falta. Vou providenciar. O fiscal respondeu com desespero, depois de ir mais uma vez devassar a avenida fronteira: — Não pode ser agora, porque não sei que foi feito do Máximo. Sumiu com a mala. — Deve estar por perto, vou mandar procurá-lo — disse Navarro, saindo. Voltou pouco depois. — Ninguém sabe dele… — explicou. — Agora lembra-me o tipo; é um homem assim de meia-idade… — É. — Trombudo… — Exatamente, mas uma bela alma. — Acho bom avisarmos o subdelegado — observou o diretor. — Quem sabe se não azulou com os seus haveres? Há gente tão sem escrúpulos… e seu camarada tem a cara de um refinado patife. — O Máximo é um caráter probo! — exclamou Cobra, a modos de protesto. — Seja o que for, precisamos remediar — disse Navarro. Ponho à sua disposição meu guarda-roupa… Desculpe-me a ousadia, mas insisto para que aceite. Espere, enquanto mando ver o banho.
Dali a instantes veio Luciana buscá-lo; e, espichando o longo braço retinto, mostrou-lhe o quartinho, onde a água na banheira fumegava calor. Fechou-se a porta sobre a figura enxovalhada do fiscal; meia hora depois reabriu e por ela saiu-se, outro homem, vestido de sobrecasaca talar, a orla da calça enrodilhada no peito do pé, tudo bambeando-lhe no corpo por excessivamente largo. Ganhava, todavia, em imponência, o que pôde verificar num espelhinho de bolso. E, tendo perdido o acanhamento que lhe dava o seu brinzinho sujo, pôde restituir ao olhar sua expressão sinistra e redar à voz um certo tom cavernoso que muito lhe agradava. Ao sair veio-lhe ao encontro o diretor, que disse, contrariado, conduzindo-o ao refeitório: — Acabo de passar um récipe ao pessoal, por ter-nos posto refeição à parte. Minha mesa é sempre a das alunas, e tanto desejaria mostrar-lhe o passadio destas… Mas não faltará ocasião. Creia que no que como não há um prato demais ou melhor. Ensino-lhes também boas maneiras às refeições e em todos os outros atos. Sou de uma tal ferocidade nestas coisas… Hei de pedir-lhe referências neste sentido em seu relatório. — Pois não! Haviam chegado à sala de jantar. A mesa estava posta. — Sente-se, sente-se. Não o incomodam essas folhagens no ombro? Chegue-se mais um bocadinho para cá… Agora. Note as bandeirolas do teto, e aqueles escudos enaltecendo seu nome. É homenagem espontânea das alunas, creia-me. Estou alheio a tudo isto, mas aprovo. Não queria apenas que partisse de mim, que sou suspeito. Aquela recepção também… Todavia, sou causa indireta de tudo, pois há tempos tenho nesta casa de instrução salientado sua figura, e ensinado a venerá-la como o merece. — Obrigado! — soluçou o fiscal. — Nada a agradecer. Tinha, todavia, a intenção de oferecer-lhe um banquete, ao qual concorresse o mais seleto da nossa sociedade; infelizmente, não nos preveniu com tempo… Um pouco deste
paio… Agradeço-lhe o aviso, que tomei como prova de consideração. Um pastel… Ponha dois que não são maus. Escuso dizer-lhe que tive do senhor a mais grata impressão. Cá entre nós! alguns de seus colegas são de tal modo ineptos… Sirva-se de peru, não espere que lho ofereçam. Ó Luciana, você, pateta, não sabe servir… Adélia, passe-nos aquelas garrafas. Cerveja, Sr. Cobra, um copo… Depois do vinho tinto não é mau. — Aceito. — Olhe o peru. Há pouco tempo fiz demitir um. Graças a Deus o Governo atende-me sempre. “Demitido a bem do serviço público”, foi o decreto. — Não me lembra — refletiu Cobra, chupando a espuma aderida aos pelos. — Até hoje só houve uma vaga no nosso quadro, e por morte. — O senhor há de lembrar-se… Apele à memória… Não faz ano… Talvez a causa, a bem do decoro da classe, tenha sido conservada meio abafada. — É… Talvez… Sim! Parece-me… Minha cabeça anda tão aturdida! — Cansaço da viagem. Pois tenho amigos íntimos no Governo. O presidente é meu compadre e os ministros todos têm filhos aqui. Trato a toda essa corja de você… E, quando me encontro com eles começo nesse tom: “Então Senhores grandíssimos sacanas, cada vez mais avolumando esses baixos (bato-lhes na barriga) com a patriótica comedeira?”. Cobra encarou Navarro com um retraimento geral de humildade e medo. Essa atitude lisonjeou o diretor. — Quanto ao meu amigo — continuou —, não creia que vá intrigá-lo. Pelo contrário; hei de fazer-lhe elogiosas referências… Amanhã mesmo, pois tenho de escrever ao presidente… Uma carta trocista em que hei de descompô-lo a valer… Tocarei a seu respeito. Quero também trabalhar para que se elevem os vencimentos dos inspetores técnicos.
Disse-lhe pormenorizadamente todas as belas coisas que poria à sua conta. — Será imensa bondade sua — respondeu o fiscal agradecidíssimo: — O senhor merece. Na sua envergadura modesta encarnam- -se a atividade e a competência malremuneradas. Que doce prefere? Abacaxi, goiaba, laranja, pudim… Passe o pêssego, Flávia, e vá daqui levar as meninas à vila. Coloque-as em frente ao estrado da diretoria, em três filas de cadeiras. E, dirigindo-se ao fiscal: — Os alunos querem fazer-lhe uma festinha… No ginásio há um “Grêmio Literário Luís de Camões”, que festeja todas as grandes datas; e a de hoje será solenizada, pois é grande a honra que sua visita nos confere. Temos no corpo docente um descendente do grande autor dos Lusíadas, que o senhor vai conhecer… Não desmerece da estirpe ilustre. Terminado o jantar, aproveitaram o resto da tardinha para percorrer as dependências da escola; Navarro encareceu suas culturas, fazendo ver que o Governo andaria bem comprando-lhe a chácara para um campo de experimentação agrícola. Custara-lhe havia tempos vinte contos (disse-o irrefletidamente), mas já valia bem duzentos, pelo muito que a valorizara com isto, com aquilo… Que no relatório não se esquecesse de falar nisso, individuando todas as vantagens da transação. — Se conseguirmos a venda, terá uma comissão régia. Trabalhe comigo para esse fim. Sei que tem parentes, altamente colocados… — Farei o que me pede e com prazer — respondeu Cobra. — E mesmo, se me permite — tornou Navarro —, tomarei a liberdade de sugerir-lhe alguns tópicos… — Aceito — disse o fiscal —, pois em certos momentos, como agora, tenho o juízo tão perturbado, que me custa conceber uma ideia ou alinhavar uma frase. — Por esse lado, sossegue; dar-lhe-ei norma para poupar-lhe esforço… Porque o senhor está visivelmente fatigado. — É verdade, e isso é a causa desta perturbação; não vá pensar que seja o meu estado normal… Às vezes tenho ideias tão belas!
O fiscal pensou no Máximo, que bem poderia estar ali para o atestar. Mas a lembrança do camarada o entristeceu. Seu sumiço pressagiava longas semanas de birra e cara fechada. Máximo estava enciumado, redobraria seus rigores… E Cobra, suspirou para si: — É pena! Um dia tão feliz! Podia ser sem nuvens… E essas picardias me desgostam tanto!
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