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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 12 · Falange Gloriosa

Capítulo XII

12 de 21 ≈ 19 min de leitura

Ao cindir a multidão para conduzir a seus assentos as duas figuras principais da festa, Navarro observou satisfeito a enchente obtida aquele dia; viam-se ali numerosas famílias da vila, que concorriam pontualmente à intimação recebida à última hora, sob a forma de um convite. Assim como o diretor exigia nessas solenidades o comparecimento dos professores, também pedia que os três-barrenses viessem dar- -lhes mais brilho. Os faltosos eram por ele censurados como espíritos antipatriotas e retardatários, e podiam contar com a má vontade do diretor quando tivessem negócios que dele dependessem. Dando a cada um de seus gestos e atos um efeito teatral, Navarro subiu o estrado; e, tomando para si e para o Camões as poltronas extremas, instalou ao centro da mesa os dois fiscais. Estes contrastavam sobremaneira entre si. O Cobra era medonhamente cabeludo, ao passo que o coronel Tinoco, velho de expressão apatetada, era quase completamente despido de pelos. Teria uma calva absoluta se não fossem umas farripas encardidas que lhe restavam no occipício. Seus beiços rapados, convergindo para a frente, pareciam repetir eternamente as últimas sílabas do seu próprio nome: “Noco, noco”… Do seu lugar lançava às vezes olhares de soslaio para seu vizinho Cobra, como se não simpatizasse com ele. Cobra, por seu turno fitava intrigado o barrete de linha que lhe tampava o cocuruto e que, com uma borla ao alto, fazia o coronel Tinoco semelhar-se a algum monarca bárbaro com coroa real.

Esse gorro chamou a atenção como novidade; e para os mais argutos e bem-informados foi uma revelação, pois denunciava os motivos reservados dos arrufos do Tinoco com o Ginásio. Lembravam- -se de que, quando apareceu a fiscalizar nos últimos exames, eram só risadas e remoques, da parte dos alunos. Um peralta chegou a amassar com cuspo uma pelota de papel, plantando-lhe um fio de linha com uma figura recortada do Malho, na ponta; pilhando-o descuidado — zás! — atirou-lhe pelas costas. O coronel Tinoco deu um pinote e um berro, forcejando, entre gargalhadas, por despegar sem dor a bola, que se lhe grudara nos fios posteriores. Depois que o conseguiu, lançou-a longe, com fúria, e saiu resmoneando injúrias. O aparelho, arremessado a esmo, foi grudar-se no teto, deixando balançar do fio um barão do Rio Branco, que ali ficou muitas semanas a pernear com o vento. No dia seguinte o coronel, a muitas instâncias, ainda voltou, para rubricar provas e assinar atas; depois encafuou-se hostilmente em sua fazenda. Entretanto, a solenidade da sala era tamanha, que contivera os risos. Essa solenidade ainda acresceu, quando Camões se levantou na presidência, declarando que… (fez pausa), a sessão estava aberta. Fez ainda com a boca uns trejeitos em seco, como se fosse continuar, mas não emitiu mais uma palavra. Estava trêmulo e sem saliva. — Água! — estertorou afinal, à ventura. O Baiano ouviu-o e retirou-se para ir buscá-la no outro prédio. Enquanto isso, Camões continuava de pé, mastigando em seco para si várias frases do discurso preparado, que não vinham ao caso. Fugira-lhe o princípio da arenga. Ele sofria desses traiçoeiros lapsos de memórias. — Água! — articulou de novo, suando frio. Tornou-se palpitante o caso. Legiões de cabeças inquietas voltaram-se para a entrada a ver se vinha o preto; duas ou três pessoas chegaram a sair, aflitas, para apressá-lo. Um século depois o Baiano apontou com um cristal rebrilhando numa bandeja. Os corações dilataram-se, os peitos desoprimiram-se, ao passo que,

de longe ainda, o corpo dobrado sobre a mesa, Camões estendia um braço convulso para a água inspiradora. Todos se regalaram ao vê-lo sorver o primeiro gole. Já livre do lapso, o orador pôde começar; e começou dizendo que aquela reunião tinha um duplo fim: festejava a vinda do D. D. Inspetor Matos Cobra, bem como solenizava a cerimônia do revestimento do fitão simbólico no presidente honorário do Grêmio, o abalizado coronel João Simplício Tinoco. Enveredando enfim para matéria de sua predileção, falou sobre a riqueza da flora brasílica e sobre a vastidão do Amazonas — o gigante dos rios. Achou pretexto para citar Victor Hugo, e levemente tocou na descoberta da Índia, para apropositar referência ao seu ilustre bisavô. Também a cada instante achava jeito de encaixar um “que”, que dizia de um modo sacudido, imitante a tosse, a projetar o queixo para a frente, realçando-o em seguida por uma pausa. Ao terminar houve aplausos. E, enquanto Camões caía no marasmo apático que o prostrava cada vez que acabava de discursar, Navarro fez sinal a uma menina, que foi cingir a tiracolo o peito do coronel Tinoco com um largo fitão bicolor. Nesse momento soleníssimo algumas pessoas, notaram certo repuxar escarninho das barbas do Cobra. O tratante ria-se, por trás delas, do seu venturoso colega! Prorrompeu em triunfo o hino nacional. No silêncio que se sucedeu a suas últimas notas palpitaram os corações dos circunstantes. O Navarro iria tomar a palavra? Esta pergunta agitava-se com império no íntimo de todos, e fazia o assunto de todas as palestras, porque a fama do Navarro como orador era estrondosa, e cada uma de suas metáforas cheias de imaginação não se perdia; eram ouvidas com religião e decoradas, para depois serem plagiadas ou encarecidas pelos seus admiradores. Para atalhar a toda dúvida, Navarro, ainda sentado bateu palmas. Ia falar. O falario difuso do auditório baixou a um silêncio respeitoso. Lento e majestoso, o diretor ergueu-se. E, curvado sobre a mesa, à qual se apoiava às mãos ambas, como um inválido, esperou que se

evaporassem os últimos ecos do sussurrar da sala. O silêncio recresceu. A expectação era fremente. O Navarro ia falar! Cobra espichou ingenuamente o braço peludo para tirar uma flor de ramalhete. Navarro deteve-lhe a mão a meio caminho. O braço recuou, enfiado. — Exmo. e D. D. Sr. Matos Cobra, competentíssimo Inspetor técnico do Governo do nosso glorioso Estado de Minas Gerais — começou num sopro quase imperceptível, e ainda curvado. — D. D. Coronel João Simplício Tinoco, provecto e incorruptível delegado federal junto ao Instituto Ginasial Equiparado “Fiat Lux”… — prosseguiu no mesmo tom. — Belíssimos e puríssimos corações de minhas alunas e de meus alunos… Senhores professores. Distintos três-barrenses… Num tom de voz inaudível e lento, e como em segredo, penetrou na oração, fazendo prolongadas pausas, que pareciam embaraços de principiante. Quantas vezes ouvira fazer assim a grandes oradores! Aos poucos, porém, a voz foi-lhe crescendo, as pausas diminuindo, o corpo alteando-se, até que, numa explosão inesperada e de grande efeito, mostrou-se ereto, rubro, gigantesco, gesticulando como asas de moinho e atroando como trovões emendados. Estava ali o Navarro! As orelhas se acabanavam, as bocas engoliam. Referiu-se amplamente aos seus estabelecimentos: “Neste instituto”, “Nesta casa”, “Nesta tenda de trabalho…”. Com as duas mãos investindo-se crispadas, figurava duas hostes inimigas em porfia; uma eram os Soldados do Livro, capitaneando a Mocidade Estudiosa; outra, as Trevas da Ignorância. O talento, que eram as armas da primeira, enristava-se contra a rotina, apanágio da contrária. Depois de um prélio renhido em que o sangue espadanava e cabeças rolavam sem corpos e corpos sem cabeça (no sentido figurado), a Luz destroçava as Trevas, “hasteando alto o farol da regeneração”, graças a ele, Navarro. — Muito bem! — Então, continuou o orador, pela trilha rósea da esperança, seguirá a mocidade, adubando a seara do porvir.

— Muito bem!! Muito bem!! Acrescentou novos conceitos ricos de tropos encapsulados. Em seguida, baixando de sublime, passou a referir-se, em termos elogiosos, ao Governo de Minas, pedindo ao Cobra que fosse levar a este, na urna inspirada da memória, as palavras que lhe acabava de ouvir, pálida oblação a essa plêiade de homens extraordinários que dirigiam os destinos do Estado. — Comedores! Uma súcia de comedores! — aparteou o ex- -deputado, perdendo a calma, pelas lisonjeiras referências a um governo que o despossara de seu nobre mandato. Navarro encarou-o fixamente, para frisar sua reprovação. Depois repetiu, com entonação severa: — Homens mais que extraordinários, mais que dignos da gratidão de todo o mineiro que se preza de honrado. Estrangulado de ódio, e não se atrevendo a interrompê-lo mais, o coronel Mercês desabafou, ameaçando: — Hei de tomar a palavra! Eu também hei de falar! Navarro prosseguiu. Depois de hora e meia de estilo puxado, declarou peremptoriamente que ia entrar no tema principal. E, sem mais, afundou na pré-história. Meia hora depois chegou à Grécia e Roma; em seguida, arregimentando as forças para um poderoso arranco, atravessou a voo largo a Idade Média, indo aterrar na Renascença. Arriscou a cabeça na Revolução Francesa, bandeou-se com os inconfidentes, bateu-se em Waterloo ao lado direito de Napoleão, acompanhou a este no seu desterro. Finalmente, invocando de novo os eminentes homens do governo, exclamou arroubado, fazendo com a mão um largo gesto de quem descreve círculos ou mexe tacho: — Fazei-vos em coroas, almas refulgentes que invoquei! E vinde, na aurora puríssima desta consagração, aureolar de chispas e perfumes estas duas frontes augustas! Isto dito, lançou as coroas imaginárias aos fiscais comovidos, num duplo gesto de magnetizador; uma mão pairando sobre cada cabeça.

O que se seguiu não agradou tanto aos manifestados; Navarro pôs-se a cotejar-lhes as virtudes, dizendo de um o que afirmava do outro. Comparou-os a dois astros gêmeos dos jardins da probidade, a duas flores irmãs vagando nos páramos ideais do talento, etc. Os fiscais visivelmente desadoravam o paralelo. Por quê? Problema! Havia talvez ali um ódio de raça, a surda hostilidade do pelo contra a pele, da calva contra a gaforinha. Daí ao fim pouco distou. E, tal um crescendo de acordes originados de longínquos compassos, ameaça terminar e ameaça ainda, e afinal põe estrepitoso remate a uma sinfonia, assim, mais meia hora de grandíloqua peroração, e o diretor concluía com uma série de vivas aos fiscais, aos homens do Estado, ao Mérito e à Instrução, os quais ruidosamente reboaram, de envolta com tempestuosas palmas. — Peço a palavra! — rugiu então o coronel Mercês, galgando o estrado. Entrementes, uma onda humana arrebatava o Navarro, e levava-o de peito em peito através do salão. Afetando desprendimento, mas na realidade muito sensível a elogios aos seus dotes de orador, ia debulhando frases a esmo: — Ah, meu amigo, fiquei rouco… — Obrigado, reverendo! É bondade sua… — Qual! — São ironias… — Estou fatigadíssimo e suando… — Estive infeliz, reconheço-o… — Navarro, então, não o posso abraçar também? — gritou Dadico, que lhe viera no sulco. Dê-me essas costelas… — Sempre ao meu lado nas grandes ocasiões — disse-lhe Navarro, estreitando-o efusivamente. — Então, que tal? — Você é um sacana para falar, Navarro! Hoje houve momentos em que me contive para não o mandar à… — Obrigado, obrigado, Dadico! — respondeu o diretor com enternecimento. O sucesso o embriagou mais uns instantes. Quando recobrou os sentidos, viu que a onda de admiradores o havia lançado no cantinho dos professores; e aí deparou-lhe o Bias metido em seu sobretudo.

— Céus, Sr. Bias! por que foi vesti-lo! Tire-o depressa, depressa… Meu Deus, vai ficar imprestável! O senhor tem um cheirinho enjoado… Que disse! Um sobretudo de cento e cinquenta mil réis! Enjoado, amontoou-o no antebraço esquerdo; e ia começar uma preleção sobre as miríficas propriedades de um banho com sabão de cinza, quando deu pelos berros que do alto do estrado o ex-congressista ejaculava: — Governo de comedeiras!… Governo de patifarias!… Navarro, possuído de cólera, protestou em altos brados: — É falso! Não apoiado! Não apoiado! Casso-lhe a palavra! E como o ex prosseguisse, mais exaltado com os apartes, o colarinho solto, a gravata ao léu, apocalíptico e esculhambado, o diretor fez um sinal à banda, que prorrompeu de novo no hino nacional, a peça mais barulhenta do repertório do Lago. Vociferando que se consignasse na ata o seu protesto por essa arbitrariedade, o ex desceu do estrado compondo às tontas as avarias dos trajos, e retirou-se altivamente do recinto, como o fizera em idêntica emergência no Congresso mineiro. A uma piscadela do Navarro, Dadico puxou do canhenho, registrando uma falta contra o desertor. Então iniciou-se o que se poderia chamar a segunda parte da festa, parte maçante, durante a qual a assistência começou a debandar, toda reservada às saudações de alunos. Falou primeiro uma menina, gesticulando monotonamente — levava as mãos à pastinha, e dali as divergia, como espichando fios de cabelo. Embaraçou-se em certo ponto do discurso, sendo preciso que o Navarro lhe soprasse o resto. Sucedeu-lhe outra que, com gestos de tocar manivela, recitou um francesinho esganiçado. Matos Cobra escutou-a com uma atenção enorme, com lentas inclinações de cabeça, para fazer crer que estava compreendendo. Quando a menina terminou, ele levantou-se e agradeceu em voz cavernosa: — Seus bondosos conceitos muito me penhoram, prendada menina. E tornou a sentar-se, solene. A esse ponto o Navarro cutucou-o, explicando:

— A menina recitou o “Vase brisé”, belíssima poesia. — Belíssima, na verdade, na verdade — assentiu o Cobra calorosamente. Uma terceira aluna passou a dizer uns versos do Camões, com rimas em “obra” e em “oco”, nos quais o Tinoco andava às voltas com o Cobra. Depois veio o turno dos rapazes. Falaram vinte e oito, pois a oratória no “Fiat Lux” era tida em grande apreço, ocorrendo ainda que a fama do Navarro como orador estimulava as ambições dos novatos. Cada um em geral sabia de cor um ou mais discursos, para diversas solenidades. Os de melhor memória deram seu recado depressa, engolindo a pontuação; outros iam tropeçando, gagos, mas chegavam ao fim; muitos se ambasbacaram no meio e, entre galhofas paternais do Navarro, foram sentar-se. O Cobra ficou desvanecido com o primeiro, ouviu os imediatos, aturou os seguintes e começou a cochilar com o décimo terceiro. Ao vigésimo espertou num pincho. — É o Máximo, enfim… Lá embaixo… — exclamou. Alvoroçado saiu de seu trono e meteu-se por entre os assistentes, que já rareavam. Viram-no depois perto da porta, a conversar com um caboclo mal-encarado. Não se sabe por miúdos o que disseram; o fiscal, porém, voltou descorajado. — É o Máximo mesmo — explicou, satisfazendo o olhar interrogativo do diretor. — Disse-me que sumiu porque não gosta de folias… Como é severo! Quer por força partir amanhã de madrugada. — Não pense nisso! — exclamou Navarro. — Não o deixarei ir sem visitar as aulas em seu funcionamento. Vai passar comigo uma semana, no mínimo. — Bem o quisera! Tenho gostado tanto daqui! — suspirou o fiscal. E, muito abatido, acrescentou: — Chegou a ameaçar-me de partir sozinho, com a mala… E o Máximo, quando diz que vai, vai mesmo! O Máximo é sistemático! Depois de muito insistir, o diretor viu que a partida do Cobra era irrevogável. Então providenciou com afã: — Dadico, traga-nos canetas, tinta e papel, muito papel. Já há pouca gente, por isso escreveremos aqui mesmo…

E, quando vieram os objetos pedidos: — Coronel Tinoco, troque de lugar com o Sr. Cobra, para ele ficar mais perto de mim… Está dormindo, coronel? Coronel! Coronel! É para trocar de lugar com o seu colega. Mas lá caiu seu gorro… Deixe-me apanhá-lo… Isso! Agora nós, homem inexorável. Para facilitar-lhe o trabalho, vou rascunhando o relatório, e o senhor vai passando a limpo, sugerindo o que faltar. Quero que mo deixe assinado, para evitar demoras. Pelo primeiro correio seguirá para Belo Horizonte. Pôs-se a escrever. A pena corria-lhe rápida, gatafunhando páginas sobre páginas. Detinha-se apenas quando o fiscal pedia elucidação de alguma garatuja. — Ex.mo Sr. Fiscal Matos Cobra — gania o vigésimo primeiro orador. Mas ninguém ouvia mais. No recinto agora permaneciam quase que exclusivamente alunos, regentes e professores, e esses mesmo limitando-se fazer ato de presença. Enchia o salão o sussurro de difusa palestra. E o vigésimo primeiro orador, pálido de emoção, lia o discursinho de estreia. Tinha presença de espírito — e, entre pausa e pausa, a imaginação voava-lhe como um pássaro sedento de azul, que bate as asas contentes no céu. Via sua terra natal, e os queridos velhos a soletrarem a carta em que lhe daria notícia do grande acontecimento. Que alegrão, iam ter! Não deixariam de chamar a vovozinha: “Venha ver a carta!”. O Bituca fez um discurso no Ginásio, perto do diretor e de uma porção de fiscais do Governo! “Mas com os anos a avó tornara- -se incrédula, haviam de trazer-lhe os óculos para verificar por si que não a enganavam; e depois, como tinha a comoção fácil, choraria de saudade e de orgulho do seu netinho predileto”. E o orador a falar e a sonhar… Muitos dos espectadores também sonhavam, olhos escancarados no vazio. Era a melancolia de fim de festa que se inscrevia em tudo. A luz do acetileno, já sem força, bruxuleava: fora preciso um reforço de velas na mesa da presidência. Cansada, a música emudecera.

Por sua vez, a voz dos oradores ia-se repassando de uma dolência elegíaca; sem aplausos e sem ouvintes, lembravam dementes a monologar no ermo. Principalmente nos bancos das alunas crescia uma tristeza inexplicável. A velha Flávia embebia furtivas lágrimas na manga do paletó. Houve até um momento em que o Navarro julgou ouvir pranto. Furioso, largou da pena, ordenando: — Calem-se! Querem passar o dia a chorar? Amanhã conversaremos! A essas palavras os prantos recrudesceram. Havia ali uma dor malcontida, que se desembargava afinal. Fora de si, o diretor prorrompeu: — Saiam, saiam!… Estão expulsas da festa! Era o que queriam. Pois não lhes dariam ao menos a liberdade de chorar a Matildinha? Pobre pequena! Haviam-na levado ao cemitério aquela madrugada. E naquele pranto desafogado que agora, na lufa-lufa da retirada, talvez também chorassem por si mesmas, sem o saber, na possibilidade de passarem pelos mesmos transes. Não valera à doentinha a angústia desesperada com que chamava a mãe para salvá-la. Não lhe valera a ânsia aflita com que invocava a todos os recantos sombrios da alcova em que a encerraram: “Mamãe! Mamãe!”. Chorava mais, vendo seu apelo sem resposta. E perguntava a Flávia, quando a via perto, comovida, a acariciar-lhe a cabecinha: — A mamãe não vem? Diga! Ela não vem! — a correspondência era censurada, os pais nada podiam saber. — Vem, vem, minha filha… E a criança, em súbita calma, esperava, sem dar pela presença do médico quando ia vê-la por desencargo de consciência, nem pelo desespero do Navarro, que à volta dele esbravejava surdamente no corredor, ouvindo que ainda não havia melhoras. A esperança, porém, durava pouco, e recomeçava o doloroso reclamo: — Mamãe! mamãe! A mamãe não vem? Flávia respondia-lhe, com os olhos aguados de pranto: — Vem, vem, minha filha… Espere um pouco, ela já vai chegar… Já ouço um tropel subindo a escada…

Quem veio foi a agonia; e a doente, no ralo supremo, ainda interrogava ansiosamente a sombra, olhos perdidos de desesperação, aqueles mesmos olhos com que as criancinhas em transe imploram asilo no colo materno. E morrera… Foi à meia-noite; mas o caixão em pouco ficou pronto (o Baiano também carpintejava) e às três horas seguiu o enterro. E as alunas evocavam o desfilar na treva. O amiudar dos galos parecia apelos excruciantes de criancinhas sem mãe. As orvalhadas da noite, gotejando dos ramos pensos sobre a estrada, tinham a friez indiferente do pranto dos estranhos. Na igreja, o escasso bruxuleio dos círios projetava lúgubres clarões nas trevas densas, um zumbir monótono de latim, algumas aspersões, e seguiram… No cemitério, um cômoro de terra mexida de fresco ficou marcando sua jazida. Pobre Matildinha!

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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