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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 14 · Falange Gloriosa

Capítulo XIV

14 de 21 ≈ 23 min de leitura

Eram quase sete horas. Ricardo acabava de conduzir ao refeitório a turma submetida à sua vigilância, para o café matinal. Lá deixou- -a entregue, como as demais, aos cuidados do Marolo, que vigiava, e do Baiano, que servia, e foi procurar o Meira na secretaria. Este acabara de verificar as últimas contas dos fornecedores do “Fiat Lux”, após o que se quedara pensativo à espera da visita que os filhos, raro em raro, tinham permissão do Navarro para lhe fazer. Quedara-se pensativo e melancólico, porque nesse ano já se sentia mais fatigado que nos anteriores. A velhice parecia vir a galope; e ele se lhe esquivava sem tréguas, abaluartando-se na sua vontade onipotente contra seus frequentes assaltos. Precisava ainda lutar. Bem que o José, com os seus dezenove anos, já estivesse encaminhado num ofício, tinha ainda oito filhos menores a reclamarem- -lhe os cuidados. O mais novo, Titi, contava pouco mais de ano… E o Meira engolfou-se, inquieto, a sondar o futuro. — Bom dia, Sr. Meira. — Bom dia, Sr. Ricardo. O subdiretor havia retomado sua feição tranquila e doce, ao volver-se para o moço que o procurava; e, fitando-lhe o olhar bom, ficou calado, à espera de que o trazia ao escritório. — É para tratar da disciplina — respondeu Ricardo à muda pergunta. — Não sei mais conter meus meninos em aula, nem na regência. Vinha aconselhar-me com o senhor sobre o que devo fazer.

A expressão do Meira tornou-se repentinamente grave e desgostosa, ouvindo Ricardo tocar no eterno e insolúvel problema da disciplina. — O mesmo dá-se comigo… Mal posso contê-los. Que fazer? É ter paciência, aconselhar, e talvez que… Um véu de desânimo pareceu toldar-lhe um instante a vista; mas, readquirindo presto sua força tranquila, falou com alguma febre, como se procurasse convencer-se a si mesmo: — Os meninos não são maus, coitadinhos; é que já dobraram o semestre e sentem a proximidade das férias, que estão por dois meses e pouco… Bem lhes procuro falar ao coração; mas andam com a cabeça no ar, saudosos e talvez também cansados. A disciplina… Com paciência pode-se obter tudo. É preciso não desanimar, Ricardo… Dentro de todos nós existe sempre uma provisão de força inextinguível. Ricardo ouviu-o com respeito; mas no íntimo sentia a inutilidade das palavras do subdiretor, que já lhe não traziam conforto, como dantes. Nem todos sabiam, como o Meira, seguir uma inquebrantável linha de conduta. Essa reserva inesgotável de forças, Meira notava-a no seu caráter de exceção e, por isso, a atribuía à generalidade dos homens. E agora, nas suas palavras, Ricardo sentia uma como quebra de tranquilidade. O próprio subdiretor via a ineficácia dos seus esforços. E essa ineficácia parecia ir em progressão de tempos àquela parte, pelo que se passava no espírito dos alunos. Muitos estavam no colégio havia anos, e no trato dia a dia com o subdiretor, vendo-o sempre bom, extremoso, atribuíam a pobreza de espírito o que era manifestação de bondade. O Cerqueira, aluno velho no ginásio e chefe dos insubordinados, metia à bulha, na sua rodilha, o gênio inofensivo do subdiretor, arremedando-lhe a voz e repetindo-lhe as palavras: “Seja bom, meu filho… Pense no seu pai que espera tanto de você e tantos sacrifícios faz para vê-lo estudar…”. O arremedo, temperado com a entoação gaiata, provocava a hilaridade e fomentava a indisciplina. E, se os alunos em presença do Meira, tinham alguma compostura,

era o produto do hábito, respeito involuntário, ou atitude hipócrita. Quando em falta, estavam sempre prontos a fazer-lhe todas as promessas de bom procedimento futuro, dispostos, aliás a quebrá-las, mal o Meira voltasse as costas. Nas aulas, então, o descalabro era completo. Navarro indignava-se com os professores, se lhe iam pedir remédio à situação. — Quando o professor é bom, não há alunos maus; o professor impõe-se na razão direta do seu mérito. E aconselhava o método da “paternidade” acrescentando: — Apenas permito que longe em longe censurem os alunos mais rebeldes — mas, já se sabe, com toda a urbanidade, em tom de gracejo delicado e algum tanto respeitoso. Todavia, evitem essas censuras, principalmente no segundo semestre… porque não quero que se apartem tristes de mim. Tenho para os rapazes um coração de pai — ou, para dizer em tom camoniano (ouviu, Sr. Luís de Camões?) meu coração é uma delicada lira cujas cordas são os meus educandos. O Meira também. Tomem o Meira como exemplo, e apliquem-lhe o método. Mas o Navarro não sabia ser coerente. Se entrava no estudo e via o subdiretor a esforçar-se pacientemente para obter silêncio, prorrompia em cólera: — Que anarquia, Santo Deus! Ó Meira, você não tem energia? Por que não os põe de joelhos? Fica aí feito padre a dar conselhos, e esses demônios a grazinarem… Os senhores vão calar-se, não? De joelhos, todos, já! Lá o Sr. Cerqueira não obedece? Já! Senão, meto- -lhe a vara, patife! E amanhã quero duzentas cópias da lição de hoje. Dias depois, se o Meira, obedecendo-lhe à ordem, punha alunos de joelhos, Navarro, se assim os encontrava, trançava os braços, teatral: — Bonito, Sr. Meira! Meu colégio como casa de suplício… Sim senhor! Devia ter nascido na inquisição. Que espetáculo edificante! E, braços cruzados, passava alguns instantes a revezar olhares magnéticos entre o subdiretor e os genuflexos; por fim desatava em trovões seu assomo malcontido:

— De pé! já! Para seus lugares! Não admito que se maltratem meus queridos alunos! E sobre estas palavras saía de golpe, com a juba revolta, e a catadura de um leão enfurecido. Uma feita Navarro fez fiasco. Foi com o Sebastião, afilhado do ministro; sempre rebelde às aulas, vivia gazeteando-as; além do mais, fujão. Como o ministerial educando não se desasnasse nunca, bronco, mal-educado, eterno escândalo nos exames, o diretor acusava o Meira, tachando-o de mole. Tomou de uma vez por empresa corrigi-lo. Começou com carícias e presentes e concluiu com remessas de bolos que o bicípite hostil de Baiano reforçava de bom grado, devido ao hábito do paciente, grande esganado, de ir fossar- -lhe nas panelas. A catequese fazia-se na secretaria. Um dia Navarro saiu dali furioso, para curar o nariz, que o Sebastião lhe destroçara com um rijo soco. E dessa data em diante abandonou a empreita. Incapaz de expulsar um aluno, muito menos um afilhado de ministro, decidiu que o mocinho poderia viver à sua guisa. Por isso, não era raro o Sebastião passar um dia inteiro sumido, ou mesmo não aparecer à noite, sendo preciso, para capturá-lo, organizarem-se grandes batidas, nos arredores. E só o traziam a pau e corda. Ricardo, a quem Navarro já não era infalível, decaído do prestígio com que o aureolavam suas impressões de criança, teve um sorriso, lembrando-se da acusação de mole feita ao subdiretor. Frouxo o Meira, que ele via ir incansável de aluno a aluno tentando conquistar-lhes o coração, ameigando-os como filhos, não na execução de uma tática hipócrita, mas obedecendo ao impulso de sua natureza; o Meira, que após a labuta do dia, transnoitava-se nos dormitórios, indo de leito em leito, com pés de lã e o rosto amenizado por um sorriso bom, reunindo no silêncio fecundo das horas do repouso, cabeças sôfregas em torno de si, a quem lembrava historietas, explicava apólogos, e dava conselhos, procurando antes formar o homem rijo na luta pela vida, que o animal domesticado! O mocinho via a injustiça da acusação, e ao mesmo tempo memorava quanto a longanimidade daquele homem suportava. Via-o segregado da família,

malgrado seu coração extremoso. Longe dos filhos, o não poder dirigir-lhes a educação havia de doer a um homem dedicado a formar a dos filhos dos outros; e Meira não tivera um protesto quando Navarro lhe negara o colégio para seus pequenos, que agora cursavam a escola pública da vila. Mas um tropel álacre e barulhoso veio despertar a ambos de suas reflexões. Como uma onda invasora de sol, os filhos do Meira, sorridentes e tagarelas, irromperam pela secretaria: — A bênção, papai! — Sua bênção, papai! — Bom dia, papai! Estava ali meia dúzia dos seus pequenos; até Titi, o caçulinha, vinha visitá-lo; e do colo da menina mais velha emitia uns gritinhos alegres, que na linguagem inata dos nenês, deviam representar também uma saudação. Como todos queriam atirar-se-lhe ao peito ao mesmo tempo, Meira abriu jovialmente os braços e estreitou num bolo a miuçalha que lhe oferecia os bracinhos. O amplexo foi demorado, e talvez com a demora quisesse o pai dissimular comoção. Por fim desabraçando-se dos filhos, pôs-se a acarinhá-los à vez, achegando de si as cabecitas irrequietas, que, com deleite, se pousavam no seio do pai querido, que viam tão pouco! Indagando dos faltosos, soube que não puderam vir. Depois perguntou pelas lições; os que estudavam prorromperam num animado concerto e chilros e gorjeios, cada qual querendo falar primeiro. O Meira tapou alegremente os ouvidos: — Não! cada um por sua vez, senão ensurdeço. Então Luisinha, a mais velha e mais loquaz, começou a contar novidades da escola, o que a mestra disse e não disse. Tão sôfrega dava conta das novidades, que a voz se intercortava. Outros atalharam-na, julgando-se com o mesmo direito à expansão. A hora era tão breve! Em pouco recomeçou o concerto de gorjeios. — Lá você, Laurindo, por que está tão quieto? Diga também alguma coisa.

O menino contorceu o corpo, enleado. — Sabe por que ele está descochado, papai? — tagarelou Luisinha. — Foi porque tomou castigo! — Mentira! — redarguiu Laurindo, furioso. — Tomou! tomou castigo! A Maria me disse! — E a irmã dava com o punho na mão, para reforço… — Então? — interveio o Meira, zombeteiro. — Já vê que não pode negar… Sempre torcendo-se desapontado, e enrolando a ponta do paletó, o menino resolveu então confessar a verdade; e começou pelos remotos antecedentes do caso. Ele se relacionava com um certo canarinho que não saía da horta. Tinha a cabeça vermelha, e de manhã à tarde vibrava como um endemoninhado, e, como por acinte, balançando-se num galho de amoreira. Se o Laurindo passava por ali eram surriadas cristalinas de acirrar a cobiça; e o passarinho a balançar-se no galho, como em desafio… As atalaias com o alçapão tomaram-lhe um tempo imenso. Mas o tratante caiu! E já desembaraçado, fôlego partido, e esquecendo a punição para só pensar na presa, Laurindo desfiou os prodígios do canário, prometendo ao pai trazer-lho na gaiola para admirá-lo também. Renteando-lhe a calça, Meira notou que o Pedro lhe dizia há muito tempo o quer que fosse que ele não conseguia ouvir. Era um fedelho de cinco anos, de calcinhas compridas e barriguinha gorda, todo empertigado de importância por já frequentar a escola. Meira deu-lhe um piparote no umbigo: — E você, barrigudinho, que está dizendo aí? — Eu já sei a “uva”, disse o pirralho compenetrado. — Não sabe não, papai — ele decora tudo! — relatou a impiedosa Luisinha. — Perguntando salteado ele não responde! O pai pô-lo sobre o joelho; então Pedro sussurrou-lhe ao ouvido que “a viúva viu o ovo e o vovô viu a uva”. Meira aplaudiu-o fazendo-lhe cócegas na barriguinha, com o que ele perdeu a gravidade e riu até chorar. Por fim foi a vez do mais novo.

— E você, Titi? Ainda não me deu um abraço, siô maganão! Meira tomou nos braços o pequerrucho, que do primeiro movimento lhe repuxou os bigodes com as mãos ambas. Depois, barafustando, quis tomar uma caneta na secretária. — Não pode, meu filho! Faz dodói… A insistência do pirralho pôde mais que a meiga resistência do pai. E já de posse da caneta, e com o gesto firme de quem tem consciência do que vai fazer, molhou a pena, que em seguida, entre a alegre celeuma dos manos, passou e repassou uma folha de papel, sem tirar traço. Com o insucesso arremessou a caneta e quis introduzir o dedinho no tinteiro. — Não! Não pode, meu filho — protestou o Meira. Se podia! Molhou o dedo quantas vezes quis, tirando com ele largos traços, o que o enchia de júbilo. Depois desviou-lhe a atenção movediça a bengala do pai a um canto. Novamente alvoroçado, Titi reclamou: — Upa! upa! E, indicando-a com o dedo, fazia muxoxos de instigar cavalo. Súbito trovoar fez-se ouvir nos corredores. Eram os alunos que, findo o café tornavam para o estudo, a buscar os cadernos e livros para as aulas matinais. Foi pronta a debandada dos pequenos visitantes, já habituados à estreiteza da hora. Como um bando de rolinhas assustadas precipitaram-se para fora, não vendo a consternação do Titi, cujo último pedido fora esquecido. — A bênção, papai! — Sua bênção, papai? — Adeus, papai! — Adeus, adeus, meus filhos… Olhe, Titi, não faça beiço… Dê- -me um beijo e leve o cavalo para fazer “upa! upa!”. Saíram os filhos. No escritório, onde apenas ficaram o subdiretor e Ricardo, ecoava duramente o tropel de cento e tantos alunos, que em confusão e tumulto passavam perto, no corredor.

— Está bem… Vou vigiar os meninos, porque o senhor e o Marolo têm aula agora — disse Meira saindo adiante do moço. Ricardo foi postar-se à porta do seu salão. Ia dar História do Brasil, uma aula suplementar extraprograma arranjada pelo Navarro para preencher a única hora vaga que lhe restava. Ouviu na rua vozes de outros professores, que também esperavam o toque da sineta em palestra, defronte do antigo teatro. Passadas ungidas lento e lento aproximaram-se: apareceu o Marolo, que num compartimento próximo ia dar contabilidade. Na sua figura arroubada e no compassado dos seus movimentos, havia algo da nostalgia dum santo arreado do andor, e forçado a caminhar por seus impolutos pés. Defrontando sua porta, ficou imóvel, concentrando-se em oração. Invocava o Espírito Santo, o que era o seu meio de transfundir conhecimentos e manter disciplina. Se os alunos se portavam bem, atribuía-o à influência miraculosa, e rendia graças ao céu; se assim não sucedia, rendia-as do mesmo modo, aceitando a insubordinação como provação terrena. E evangelicamente compunha-se com os reiterados descontos que o Navarro lhe infligia pela sua sacrossanta incúria. Um minuto, no mais, e ia ouvir-se o toque da sineta. Ricardo sentiu a alma turvada, ao sondar a úmida penumbra onde ia lecionar. Sua sala lembrava um porão ou um cárcere. As paredes porejavam umidade salitrosa e bafio de bolor. Como luz, tinha apenas os frouxos raios que se infiltravam por uma exígua abertura ao alto; por ela se intrometia uma rama verde batida de sol, que vinha mover saudades da luz e da liberdade que campavam lá fora, paredes-meias com o soturno calabouço. Inda se lhe fosse permitida a soledade! Embora prisioneiro naquele ambiente estagnado, sua imaginação tinha o mundo inteiro para bater asas às soltas; o que ele temia, era o trabalho sugador da vida e o bando endemoninhado dos alunos. Nesse momento um profundo arrepio regelou-lhe a carne. A sineta ia soar. Era como se possuísse a dupla visão: via nitidamente o Baiano encaminhar-se para o sino, imitando no andar ao Navarro, a quem tomava por cópia, até no badalejar longo e impertinente

para as aulas. Fez o último passo… Tomou da corda… O coração de Ricardo atirou um pinote, advertindo-o. E o repique soou longo, irritante, frenético. Que profundo exaspero suas notas bimbalhantes não levantaram no espírito do moço! Significavam para ele a voz do árduo dever, o rebate da escravidão. Sua vida era um doloroso agitar-se recortado de toques de sineta, que lhe separavam em pedaços iguais o sofrimento sem fim. A sineta era a voz exigente do Navarro, seu dedo imperioso apontando para a escureza tétrica do salão de aulas, o azorrague sibilante do feitor: — Anda! trabalha! E ali ficou, o coração batido de agoniados estos, esperando com a fisionomia contraída, num ricto de dor que era quase um sorriso, a vinda dos alunos ainda rumorejantes ao longe. — Anda! trabalha! — dizia ainda o eco da sineta martelando-lhe o cérebro em pancadas duras. Naquele momento ele revia em largos traços todas as etapas da sua evolução íntima, laivada de tragédia, que, principiando na bondade e dedicação da criança ignorante, terminava no desespero, depois de evoluir pela revolta, pelo desânimo e pelo terror. Primeiro incorporara-se nele apóstolo afervorado que baixava das abstrações pedagógicas para fazer-se mestre; o ideal largara dos seus altos termos, como a águia cansada de se pesar no inacessível éter, e viera abater num corpo adolescente; mas, depois que a realidade começou a enfocar-se-lhe à vista, a ave remontara de novo às alturas. Onde havia um santo, nasceu um revoltado. Então julgou-se desquitado com o Navarro da sua obrigação interminável. E tudo se dera por força do inconsciente. O Meira ali estava sempre, pondo como um bordão, a todos os desânimos do moço, a lembrança de seu dever. Seu dever! Ricardo via-o nítido, quase tangível, concretizado em preceitos claros, como num catecismo. Devia ser bom, manso, paciente, resignado, submisso… Ele o quisera ser; a princípio vinha a cada falta pungi-lo o remorso, cravando-lhe as aceradas úngulas na

consciência. Em exame introspectivo reconhecia que devia ser bom e não o era, devia ser manso e não o era também; fazia protestos de corrigir-se; obrigava a renascer em si a ardência da extinta flama; todavia, sua vontade guiada por potestades incógnitas embarrancava-se em profunda impotência. E exclamava consigo que bem podia o trabalho ser sagrado, como dizia o Meira; sem embargo, não o achava menos cruel. Depois veio o lento e incoercível vasquejar deste último bruxuleio, o preceito esquecido sem causa, as presas do remorso rebotadas. E o dever faliu, lançando o moço no marasmo de um profundo quebranto espiritual. Sucedeu ao desânimo o terror. Navarro aguilhoou-o com um novo golpe. Foi num dia em que apareceu a fiscalizar-lhe a aula. Variou perguntas, partindo das capciosas às corriqueiras. Houve um fracasso estrondoso. Nesse dia, perante a classe, o diretor o descompusera, congestionado de cólera, ameaçando despedi-lo. O gesto amplo com que deu relevo à ameaça, gesto de escancarar as portas de par em par para a expulsão do moço, soçobrou-o a ponto de suas ideias girarem vertiginosamente, como a água de um sorvedouro. Empalideceu, apoiou-se a um portal. Vira, talvez, nesse momento, em cores carregadas, o desconhecido temeroso da vida, cujas ondas vinham embater-se nas quatro paredes do colégio, onde uma nesga de paz se filtrava, defendida da sanha exterior pelo peito possante de Navarro. E, mais tarde, quando Ricardo evocava essa visão, que o confrangia até a medula dos ossos, tremia como em presença de um fantasma ameaçador. E, acovardado, vendo que não havia fugir ao ergástulo que o emparedava, aforçurou-se no desempenho do cargo. Trabalhou com fúria, sem ideal, sem prazer, trabalhou por puro medo; e, sem fito na existência, Ricardo tinha uma sensação singular — a de não existir; ele era uma sombra imponderável que flutua e não vive, a roda inconsciente de um mecanismo, girando sem cessar na mesma órbita, mas uma roda sofredora, a que cada movimento fazia estalar de dor. Por fim, a crise desfechara num misto de indiferente embrutecimento, e surdo desespero. O desejo do aniquilamento, alternava-se nele com um entranhado rancor; e, de longe em longe,

propendia ao devaneio, sonhava, como libertação, a fuga para meios estranhos, ou, num retrocesso de troglodita, a libérrima e solitária existência da fera, nas florestas. Entrementes, chegara a sua turma; e ante ele desfilavam, entrando no salão, caras vadias, cínicas, hostis, escarninhas, entre as quais sobressaía a sisudez de menino modelo do Weber. Passara o Cerqueira, machacaz espadaúdo, de olhar insolente, andar gingado de valentão; o Martinho, com a sua carinha implicante de menino que se ufana em ser desbriado; o Samuel, que, olhando o mestre, em cochichos malévolos com os companheiros, fazia prever uma consultinha de algibeira; o Dario e o Oscavo, eternos travessos, que fechavam o comboio saltarilhando. Seguiu-os Ricardo, lentamente. Para ele o ar daquela sala era espesso e difícil de romper como um fundo de água salobra. Quando o professor subiu ao estrado, entre a bulha ensurdecedora dos alunos que se sentavam, chegou em berreiro um retardatário. Era Napoleão Bonaparte, irmão de Luís de Camões; vinha mancando e trazia um olho inchado, crescido como uma laranja, efeito de tremendas murraças do Sebastião, que, graças a Deus, ainda aquele dia havia fugido às aulas. Houve risota geral à sua entrada, pois raro era o dia em que o lorpa, de natural poltrão e choraminga, não chegasse mais ou menos avariado. Sentou-se atrás, numa carteira vazia, onde se pôs de cotovelo especado na carteira e as mãos frouxamente abertas sobre as orelhas, como duas aranhas enormes trepando-lhe em simetria ao alto da cabeça, e lançava de esguelha olhares apavorados para o Martinho, que se lembrara de ir ladeá-lo. Feita a chamada, e para evitar a inutilidade de tomar uma lição que, à exceção do Weber, ninguém saberia, Ricardo começou a prelecionar. Com exclusão também do Weber, que, correto, e sem pestanejar, fazia prodígios de imobilidade na primeira linha, também ninguém o ouvira; suas palavras não tinham mais a força comunicativa que dantes convergia para si, como um só todo, o espírito dos alunos. Mesmo assim, abstraindo da desatenção da sala, Ricardo prosseguia expondo e explicando. Fazia-o distraidamente

acudindo-lhe precisos, pela força do hábito, os acontecimentos e os comentários; e todo ele se voltava para o exíguo respiradouro do alto da parede, por onde a rama, verde e banhada de sol, se oferecia como a salvadora mão da própria natureza, para libertá-lo do lôbrego encerro daquelas paredes avelhentadas e exsudando bolor. E aquele sol, e aquela verde mão convidativa, punham em tumulto, no seu interior, um mundo de aspirações insaciadas. O que havia em si de embriões de sentimentos, rebulia em perturbadores assomos de seiva nova, germinando poderosamente, fecundadas por aquela nesga entreaberta ao mundo exterior. E a sua fantasia alava- -se, mostrando-lhe prados inundados de sol, sombras misteriosas de florestas propícias ao repouso, doces idílios entretecidos de flores, voluptuosidades mordentes, com o sabor agreste de frutos bravos. Guinchos estrídulos despertaram-no. — Sr. Ricardo, me acuda! Olhe o Martinho! Era o Napoleão, com o olho inchado, a escabujar entre as duas mãos do vizinho, que lhe submetia as orelhas a dolorosa esfregadura. E o carrasco, sem parar, fitou no mestre os olhos descocados, à espera de censura. Gostava tanto que lhe chamassem sem-vergonha! — Tenha modos, menino! — exclamou Ricardo. Martinho delambeu-se com o pito; mas apenas resolveu-se a largar a vítima, quando viu o professor fazer menção de precipitar-se em seu socorro. Então, fugindo às gatas, Napoleão embarafustou-se por baixo da mesinha do professor, onde ficou com ares de macaco acocorado, de cauda revirada para a barriga. E dali mesmo lançava olhares esgazeados ao Martinho, que lhe fazia com a mão sinais de ameaça. Desse momento em diante, quebrou-se o encanto dos devaneios de Ricardo; e até o fim da aula prelecionou embrutecido, sem expressão, o olhar desatentadamente cravado no Weber, que, fatigado da sua imobilidade, dormia, e que, correto, mesmo ao sono, não aluía uma linha da sua atitude de menino de gravura. Ao soar mudança de aulas, os alunos atiraram-se de roldão para a porta. Apenas ficaram o Samuel, e a rodinha acaudilhada por ele,

na qual figurava a figura insolente do Cerqueira. Ricardo esfriou, vendo-os caminhar para seu lado, calculando que seria mais uma das insidiosas perguntas para desmoralizar. — Que deseja, Sr. Samuel? — inquiriu com aspereza. — Sr. Ricardo — perguntou o mocinho em voz fina e melíflua —, venho pedir-lhe uma explicação. Que diferença há entre “peão” e “noete”? — Não sei! consulte o dicionário — respondeu, seco, o professor. A essas palavras, o grupo saiu precipitadamente entre risotas. Da porta o Cerqueira fez da mão porta-voz e gritou: — Não sabe! Chii! Que fiaaasco! E todos gargalharam prolongadamente, afastando-se: Ricardo supôs que não houvesse mais ninguém na aula; mas o seu pé esbarrou numa coisa trêmula, debaixo da mesa. — Quem é? Ah, o Sr. Napoleão! Vá embora, menino, vá estudar! Ficando só, encostou-se abatido na mesa, esperando a segunda turma do dia. Não sentia agora desespero, nem aspirações conturbadoras; invadia-o apenas um imenso quebranto. Ah! pudesse passar a vida toda derreado numa cadeira, no silêncio e na solidão! Para ele seria a suprema ventura ficar assim indefinidamente, brutificado e sem ideias, a alma apresada pela mão grifanha do tédio. E ouvindo naquele instante, rumorando ao longe, a nova turma de alunos, sentiu-se sacudido como por um engulho convulsivo, pelo desejo físico de vomitar das entranhas numa pasta de vômito, como se ali os tivesse, ao Navarro, aos alunos, ao resto do mundo e a si próprio.

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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