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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 15 · Falange Gloriosa

Capítulo XV

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Como os exames já não estivessem longe, as aulas supletivas pululavam, o que sobremaneira exasperava o corpo docente. O próprio Cândido, modelo de paciência, tinha vagidos de indignação quando se referia às nove horas de trabalho de que estava sobrecarregado. Como desabafo a esse estado de coisas, a ideia da parede começou a tomar corpo. O Camões, o Cavagnari, o Mendonça e o Ex, também já participavam do conluio. Num sábado, nos momentos furtados às aulas para o cigarro e para a “troca de ideias” o Penedo interpelou o lente de francês. — Sr. Bias, ponha em execução a sua ideia. A continuar assim, ficamos eternamente na mesma. Mexa-se, convoque reunião dos professores… Olhe, amanhã é domingo, faça a coisa para amanhã. Como uma lesma que se enconcha retraindo os corninhos, Bias esquivou-se: — Ideia minha, não! Sou alheio a isso… Estou satisfeito; e apenas por coleguismo prometo adesão. O Cândido é quem está à testa disso; dirija-se a ele. Com uma piscadela carbonária chamaram-no; então Penedo, apoiado por exclamações aprobativas do Dr. Cavagnari, sugeriu-lhe uma porção de projetos. Concluiu aconselhando: — Convoque uma reunião para amanhã, na mata. Iremos a pretexto de convescote, e lá discutiremos tudo em segurança. Envaidecido, Cândido prometeu fazê-lo. O professor de geografia fora sempre meio desprezado pelos colegas, que o tratavam com

descaso; por isso, sentia agora grande prazer por estar em evidência, com o caso da parede. Combinaram excluir do convite o Meira, que nunca pactuaria com a ideia; o Ricardo, parente chegado do diretor; o Marolo, criatura ultramística, que só cogitava da salvação da alma; o Lago, que superpunha a todos os interesses a sua importância de catedrático; e o reverendo Gauquério, que absorvido pela cabala política, porque novembro não estava longe, e, nessa época, de mãos dadas com o Navarro, queria dar xeque-mate à câmara do Tipico. Mesmo desfalcado desses “amarelos”, conforme o calão corrente entre os conspiradores, o professorado constituiria uma facção temerosa. Depois separaram-se com coçadelazinhas misteriosas nas palmas; irradiando para os respectivos salões. À tarde, Cândido prestou contas do trabalho do dia; estavam todos avisados e prometiam ir; o Dr. Peregrino, que fora devidamente iniciado, prometera também comparecer ao lugar da reunião, furtando alguns quartos de hora à clientela. Não o esperassem, porém, à partida; chegaria quando pudesse. No dia seguinte, às onze horas, a companhia zarpava para o mato. Nada tinha de garbosa nos seus brins, que eram os mais pífios e caseiros. Entre eles sobressaía com vantagem a eterna sobrecasaca do Dr. Cavagnari. Vestiam propositalmente roupas que os espinhos pudessem rasgar sem graves prejuízos; e, para evitar motejos, qual a qual afetava mais despretensão no trajar, como homens de espírito superior que não se preocupam com insignificâncias. A este respeito chegou a travar-se uma discussão entre o Bias e o Penedo. — Eu acho — dizia aquele — que em questão de trajos a gente deve andar à vontade, inda mais para entrar no mato; por isso, procurei a roupa mais no fio que possuía. — E a minha! — replicou Penedo. — Está com dois enormes remendos no traseiro. — A minha ainda nem foi remendada. — Mas em compensação tem todos os botões. — Mas seu terno está lavado, ao passo que há dois meses o meu não vai à fonte, etc., etc.

Apesar de alguns debates como este, o jornadear fazia-se quase em silêncio. O fato é que, de caminho, tiveram de rentear o ginásio, o que os pôs aborrecidos pois lembraram-se das aulas no dia seguinte. Os únicos momentos de doce despreocupação que gozavam era no sábado à tarde, pela perspectiva de mais de vinte e quatro horas de descanso. Fora das aulas nem gostavam de ouvir a sineta soando no colégio algum repique regimental; as vibrações imperiosas que o Baiano sabia dar-lhe trespassavam-lhes a cabeça, amargando seu repouso. E assim iam andando taciturnos, levemente consolados pela esperança do ainda longínquo êxito da parede, que deveria irromper por ocasião dos exames. O Bias foi o primeiro a reagir contra aquela tristeza. Já estavam num pasto de capim rasteiro, estorricado pelo sol. Aí ele largou uma carreira para pular um cupim. Suas perninhas finas agitaram-se no ar transpondo o obstáculo; mas, por infelicidade, caiu de assento, no outro lado, sobre uma touça de juás-bravos. Entre as gargalhadas dos companheiros levantou-se corrido, com as mãos nas nádegas. — O Bias tem a mania de ser palhaço — comentou o Penedo. — Tanto lugar para pular, e ele foi escolher um espinheiro. Bias protestou com indignação, jurando que espinhos do tamanho de alfinetes não eram para brincadeiras. Aberta a válvula à alegria, as troças reinaram. Foi muito flauteado o grave Dr. Cavagnari, pelas garrafas gorduchas de vinho italiano levadas por ele nos braços com extremos de pai, e zelos de único senhor e possuidor. Depois a vítima foi o Cândido, todo a tressuar ao peso de uma grande cesta atestada de comestíveis, com que ele ia agraciar os paredistas. Os excursionistas, que caminhavam dispersos pela relva, meteram-se por fim a um de fundo pelo carreiro que guiava para a mata, pois arbustos insensivelmente já se iam adensando no percurso, indicando transição para a capoeira. A mata não tardou; e eles estacionaram, afinal, à sombra de uma grande árvore, cuja ramaria arrastava no chão, como asas de peru fazendo roda. Discutiram o local. Camões achou-o poético, mas Mendonça receava

constipações, devido à frescura da sombra. De preguiça foram ficando; e cada um tratou de arranjar assento, o que foi fácil, porque o tronco tinha sobejas e proeminentes raízes. Todos ajeitaram-se ali, menos o Bias, que, com o corpo empenado, e a mão por dentro das calças, procurava extrair das carnes os últimos espinhos que lá se tinham encravado; quando o conseguiu, pôs-se a olhar em torno buscando assento mais macio. — Sua Ex.a o Sr. Presidente pode abrir a sessão — disse o ex, formalizando, dirigindo-se ao Cândido, que se tornou de uma ligeira palidez solene. — Está aberta a sessão — avisou o presidente. — Peço a palavra! — disse o Penedo. — Sr. Bias, por que não se senta de uma vez? Dr. Cavagnari, não acha melhor abrir as garrafas depois? — Mangiam! Beviam! — exclamou o doutor, acabando de sacar uma rolha. — Tem tempo — redarguiu Penedo. — O doutor pensa que convescote é a gente vir ao mato, comer, beber e ir-se embora. Inda mais hoje que nos reúnem aqui motivos tão graves! Emborcando a garrafa número um, o italiano fez um expressivo aceno com os dedos, como quem afirma que nada mais fácil que fazer ao mesmo tempo duas coisas não incompatíveis. — Meus senhores, pedi a palavra… — ia começando Penedo. Mas gritos insólitos atraíram a atenção geral. Fora o caso que o Bias, procurando um assento macio, confiara-se a um traiçoeiro murundu de cor escura. O murundu cedeu, e grandes formigas pretas esfervilharam sob ele. Pôs-se de pé, e, aos pulos e tapas, numa dança macabra, defendia-se das ferroadas. — Que é, Sr. Bias? — interrogou Penedo, de mão na ilharga. — Alguma nova palhaçada? Creia que neste momento qualquer graça fica muito sem graça. Enfim Bias sossegou num canto; e, escutado por todos, exceto o Dr. Cavagnari, que já ia a vapor pela garrafa número dois esgazeando para os colegas o olhar embrutecido e sorrindo alvarmente, Penedo

começou tomando por tema a miséria dos ordenados magisteriais. Antes de chegar ali, tendo, em sua terra, meia dúzia de alunos avulsos, sobrava-lhe sempre com que comprar uma gravata nova, ou uns sapatos de verniz. Despediu os alunos e veio para Três Barras, acreditando, por uma carta do diretor, que ia ganhar mundos e fundos. Fez grandes despesas consigo e com a família, instalou-se bem, mas, depois de alguns meses, durante os quais Navarro negava-se a dizer-lhe quanto ganhara, revelou-lhe que seu ordenado era isso que mal dava para a comida! E, como ele, estavam quase todos. Por isso, a primeira coisa que propunha, era exigirem grande aumento de ordenado. — Vejam como estou hoje! — exclamou para remate, exibindo a fatiota coçada. — Nunca em minha vida desci tão baixo. Apelo para o testemunho dos colegas, em como ao chegar aqui era um rapaz apresentável, para não dizer galhardo! — É verdade! — confirmaram todos, olhando-o cheios de dó, porque realmente era lastimosa a sua decadência. — Proponho, portanto, em primeiro lugar, aumento de ordenado — resumiu Penedo. A proposta foi aprovada por unanimidade. Em seguida o orador apresentou uma outra. Exigiriam do Navarro completa abolição das subscrições entre os professores, fosse para o fim mais sagrado do mundo. Todos sabiam que neste terreno suas imposições aumentavam de dia para dia. Pois ultimamente cada qual não tivera de entrar com uma grande quantia para o pagamento da operação do Matias? O justo seria o Dr. Peregrino fazer a operação gratuitamente, por ser o paciente miserável. — O Dr. Peregrino é sempre assim — aparteou o Mendonça. — Quanto ao Matias, até era escusada a operação. Tratei-lhe do pé, e a ferida já cicatrizava naturalmente. O resultado foi o coitado ficar aleijado e além disso ser despedido, por não poder mais trabalhar. Encontrei-me com ele um dia destes, pedindo esmolas. Aprovada a segunda proposta do Penedo, o ex-deputado levantou-se.

— Sr. Presidente, peço a palavra! Nobres colegas, reclamo vossa atenção. Permiti que, primeiro que tudo, eu lance um protesto enérgico contra os descontos por falhas; e requeiro seja o meu protesto consignado nos termos mais veementes na ata da presente sessão. — É preciso lavrar-se uma ata? — perguntou o presidente, perplexo. — Não, explicou o Penedo. Isto é um modo de se dizer… Uma figura de retórica. O ex concordou e prosseguiu. Reclamava ainda contra o cerceamento da liberdade de palavra de que fora vítima. Como todos sabiam, encarando a missão do mestre do seu ponto de vista pessoal, compreendia-a como meio de formação de caracteres patrióticos e independentes, a fim de dar bons cidadãos ao Estado e à República. Profligava, portanto, na sua cátedra, a corrupção dos homens de hoje, ensinava os meninos a ver o que é um governo de sicários e de sevandijas. Mas vai o Navarro proíbe-lhe um dia a menor palavra sobre o assunto, e remete-o para o bê-á-bá! Pois deviam saber que ele havia sido arbitrariamente rebaixado para as primeiras letras. — Meus nobres colegas — exclamou o ex-deputado —, este incidente conduz a uma colisão entre os interesses da Pátria e as conveniências do ginásio; e quais devem prevalecer, meus senhores? Quais? Os companheiros trejeitaram vagamente, como dizendo que estavam prontos a concordar com aquilo que o coronel quisesse. E foi decidido reivindicarem para o ex-deputado a liberdade de propaganda. Seguiu-se o Cândido que pediu diminuição das horas de trabalho. Em vez de oito lecionariam, em média, quatro. — E você, Bias? Não reclama nada? Bias não ouviu; naquele momento estava de agacho junto do formigueiro, vingando-se das formigas, que esmagava, uma a uma, com um pauzinho.

A palavra passou ao Mendonça. O farmacêutico tinha porventura o que quer que fosse a reclamar; mas suas frases eram de tão difícil gestação, que nada pôde dizer. O Cavagnari nem foi lembrado; a essa hora jazia em estado comatoso, sorrindo para as filhinhas gêmeas, de que, embora vazias, não tinha ânimo de separar-se. Camões então declarou que tinha reparos a fazer sobre a disciplina do ginásio. — Pode falar, concedo-lhe a palavra — disse o presidente. — Meus caros colegas, neste momento em que… — C’os diabos! a coisa vai ficar solene — murmurou o Bias, tomando compostura. — … em que cercados de poesia nativa das florestas de nossa terra… — Psit! — fez o Bias piscando o olho aos colegas, ao passo que com o dedo indicava um ponto na mata. O susto retransiu a assembleia, cuja atenção convergiu para um estalidar de ramúsculos pisados. Perto vinha alguém caminhando para o seu lado. Assomou logo o Peregrino, e à sua vista os grevistas readquiriram calma. — Boas tardes, meus senhores! — saudou ele coletivamente. Alegres cacarejos acolheram-lhe a vinda. E, entreabrindo a asa de peru como quem soergue um reposteiro, o médico veio para o meio dos colegas. Sua giba retificada mostrava que se levantara de vez no seu próprio conceito, e que acreditava que, lá em cima, na caixa das ideias, havia muita coisa genial. — De que tratavam? — interrogou Peregrino. Penedo o pôs ciente das reclamações; e, instado para prosseguir, Camões, cuja retórica esfriara com o susto, recomeçou singelamente. — Reclamo contra a falta de castigos corporais, porque todos sabem que anarquia faz nas aulas o tal método da “paternidade”, que o Navarro vive a recomendar. O aluno aqui manda mais que o professor, e faz o que quer sem que a gente se atreva a queixar-se, para ainda por cima não tomar repreensão e desconto. Vou contar-lhes

alguns incidentes de aula, para ver-se a que ponto chega a ousadia dos tais senhores alunos. Um dia eu estava na sala, de pé, recitando para os discípulos uma passagem dos Lusíadas, quando de repente sinto um calor úmido nesta perna. Volto-me — e que havia de ver! — era o Martinho, com uma perna erguida, e a coisinha de fora, pregando-me uma mijada! Tal qual um cachorrinho num poste! Rebentaram gargalhadas, interrompendo o poeta. Muitos choravam de rir. Com essa o Dr. Peregrino ficou farto; e, arrependido de ter dado a confiança de misturar-se com os colegas, desgarrou da assembleia, e foi entreabrir a ramagem pensa, para disfarçar, contemplando a mata. — Outra, ainda pior que a primeira… — ia recomeçar o orador. — Basta! basta! — pediram muitas vozes. — Já registrei sua reclamação — disse o presidente. Mas o professor de literatura ainda tinha mais a reclamar. Em frases elegíacas relembrou que, desde a sua entrada nos colégios, o Navarro lhe embargara a tuba poética. Ora, quem pode exprimir os transes de uma alma ansiada de expansão métrica e que se vê recalcada com um tão bárbaro interdito? Reclamava, portanto, a liberdade de musa. — Já registrei também essa — disse Cândido acabando de gatafunhar num caderninho, que pusera nos joelhos. — É só? Então dou a palavra ao Dr. Peregrino. O médico não respondeu. Aspirava com ruído o ar, como a dosar-lhe a quantidade de oxigênio. Depois observou, voltando-se: — Que ótimo lugar para um sanatório! Alguns docentes levantaram-se para desemperrar as pernas, indo também admirar a floresta. — Você não vem, Cândido? — perguntou Penedo ao presidente, que se mantinha solene no mesmo lugar. — Então… posso encerrar a sessão? — Pode! — Declaro encerrada a sessão — apregoou Cândido com sua voz infantil. E levantou-se imitando os demais.

Embaixo da árvore ficou unicamente o Dr. Cavagnari. Ao movimento de retirada, ele tentou embalde levantar-se nos cotovelos; depois de alguns esforços desistiu e estirou-se de costas. Chamando o Bias sua atenção para a paisagem, ele conseguiu entreabrir por instantes um dos olhinhos diminuídos pelo vinho, sem compreender bem para que era. No decorrer da sessão figurava-se-lhe estar numa assembleia de sábios italianos, na Universidade de Milão, discutindo coisas científicas; e a beatitude feliz de sua figura provinha da satisfação de ver-se entre eminências patrícias. Fora os professores, impressionados pelas belezas naturais, trocavam impressões: — Extraordinário para um sanatório! — repetiu o Dr. Peregrino estendendo os olhos às árvores de em torno. Metido em brios pelo ciúme profissional, Mendonça fez ponto de honra em contribuir com seu reparo: — Aquele pau é quássia… Aqui há muita planta medicinal. — Não sei disso — disse o ex —, mas admiro a atitude augusta dos enormes troncos que nos cercam. Faz lembrar uma sessão na Câmara dos Deputados, no meu tempo… — e suspirou. Penedo e Cândido, que já haviam sido fornecedores de dormentes, avaliavam o rendimento provável da mercadoria, ali num raio de vinte braças. — Sr. Bias, o senhor não admira a poesia épica destas brenhas? — perguntou Camões ao professor de francês. — Não sei se têm poesia — respondeu o Bias, catando-se —; o que posso garantir é que carrapatinhos não faltam. Depois de pasmarem mais um pouco na paisagem, Cândido foi buscar a cesta das vitualhas. Os soldados do livro acometeram-na valorosamente. — Dr. Peregrino! — gritou o Bias com a boca cheia, ao médico, que errava daqui para acolá, buscando pontos de descortino. — Seus órgãos locomotores devem estar fatigados. Venha deglutir conosco algumas substâncias alimentícias! — e brandia convincentemente um pão francês, já quase a meio, no qual amiudava dentadas vorazes.

Peregrino não atendeu. Sumia por aqui, repontava do outro lado, amadurecendo o plano. — “Sanatório Peregrino”… Não! “Sanatório Dr. Peregrino”… — murmurou, desaparecendo de novo na espessura. Enfiando um olhar pela cesta, Bias viu que já ia ao cabo; e num bote certeiro aferrou a metade de um frango, que corria perigo. — Alto lá, Sr. Bias! — clamaram vozes consternadas. Mas o professor escafedeu-se com a presa, internando-se também por entre as árvores. E, pão numa mão, frango na outra, alternava dentadas entre eles, ao passo que ia andando. Para onde o levavam suas pernas? É que sabia de certo sítio além do espigão do morro, que dava vista desimpedida para a cozinha da Escola Normal. Com o estômago cheio, sentia tendências sentimentais e não desgostaria de avistar a Luciana, crioula por quem sentia umas fraquezas de coração. A meio caminho deu-lhe preguiça e voltou. Encontrou os colegas aprestando-se para levantar acampamento. Como o Cavagnari ainda não houvesse voltado do coma beatífico, Bias espertou-o de vez com uma mutuca de carvão. De regresso discutiam pelo caminho os últimos pontos a aclarar. — Precisamos combinar o modo de arrebentar a parede, lembrou o ex. — Isso é o mais simples — respondeu Penedo. — Nas vésperas dos exames vai uma comissão exigir do Navarro imediata e cabal satisfação às reclamações, sob pena de ficar em momento crítico sem a maioria dos professores. Para ele não há fugir: ou vai, ou racha! — e gracejando: — Imaginem, ele que se dá tanta importância, com que cara não vai ficar vendo os pigmeus sobranceando-o como gigantes! Todos riram gostosamente, cada um vendo em mente a futura cara provável do diretor. Discutiram mais outros pontos, entre eles o sanatório do Dr. Peregrino, que, por simples maioria de votos, foi registrado no caderninho do presidente. Fecharam a memorável discussão

combinando profundo segredo. Para este fim entraram numa moita de marias-pretas que ladeava o caminho: os conjurados um a um iam pegar na mão do Cândido, pronunciando a fórmula terrível de um juramento cujo rascunho fora improvisado, com gênio, pelo Camões; tão terrível, que, ao saírem da moita, todos se entreolhavam espantados, como se se tivessem passado ali dentro coisas pavorosas. E ninguém teve mais coragem de tocar, nem por leve alusão, no grande assunto. Dez minutos depois entraram as ruas da vila. Numa esquina uma voz lenta fez-se ouvir à passagem do grupo. — Nossa Senhora Aparecida, guarde o Dr. Peregrino! Reconheceram o Matias; estava ali como um gigante vencido, arrimado às suas muletas. Humildemente tinha tirado o chapéu; e nos seus olhos lia-se uma gratidão imensa ao médico que lhe salvara a vida. — Adeus, Matias! — cumprimentou Peregrino jovialmente, atirando-lhe um tostão. Nos dias subsequentes o relaxo entre os professores recresceu. Quem não enforcava ao menos duas aulas por dia, era apontado com o dedo e escarnecido. Cada qual timbrava em ser mais relapso que os outros. A formidável liga secreta dava-lhes ousadia para arrostar com a cólera do Navarro. Que importa se alinhassem inumeráveis risquinhos de descontos na caderneta do secretário? Aquilo era papel sujado inutilmente, como o provariam nas vésperas dos exames. E, ao pensar no ajuste de contas com o diretor, riam-se da cara que este havia de espichar. Não poderia haver no mundo um homem mais acachapado que ele, nesse grande dia! E era como se o diretor antecipadamente já previsse a derrota; nem uma censura, nem um reparo mais. A indisciplina campava-lhe às barbas, e ele fingia nada ver; não tinha dúvida de que por instinto já sentira eletricidade temerosa que se lhe condensava em torno, para no momento oportuno deflagrar em medonho trovão. Mesmo as aulas que os docentes se dignavam dar ocorriam lânguidas, sem entusiasmos, sem aproveitamento; o professor apenas

comparecia, e ficava presente durante a hora, deixando à vontade os alunos. Não raro o docente abandonava a cátedra e ia à porta da rua dar uma olhadela a um sobradinho próximo. Aqui havia outra grande causa de indisciplina. De poucos dias morava nele com a família uma moça miúda, carinha bonita e janeleira. A toda hora levantava o velilho róseo da cortina, e ia coser os cotovelos ao peitoril; olhava alternativamente para as duas pontas da rua, deitando de passagem olhares insistentes para o colégio, onde havia sempre o olhar baboso de algum magíster a requestá-la. Era a moça tão linda, o fito de seus olhos tão provocante, e tão graciosa a covinha que à custa de muita chupadela conseguira cavar-se na face direita, que os corações professorais andavam desgovernados como naus sem leme. No Penedo, malgrado os remoques dos colegas, começaram a reviver algumas de suas antigas boas maneiras; o Cândido, esposo tão submisso e inofensivo, já noites a fio sonhava que a moça, inteiramente nua, vinha oferecer-lhe a covinha ímpar para que nela depositasse um beijo; até o coronel Mercês, que tinha a zelar a sua honorabilidade de ex-deputado, fora tomado pelos amavios da vizinha; e, com o pretexto de dar lições higiênicas ao ar livre, levava a pequenada do abc para certo lugar do recreio de onde avistava o velilho da cortina. O Bias, esse não dava uma única lição, embora de corpo presente em todas as aulas; zelava carinhosamente a sua célebre voz, que havia muitas semanas não botava para fora da caixa do peito. Passava a maior parte do tempo no corredor, espiando as aulas dos colegas. Chegava a escandalizar. Quando o horário o obrigava a remover-se do Ginásio para a Escola Normal, gastava no trajeto o maior tempo que podia, seguro da impunidade por certas manhas de Sherlock Holmes. Uns quinze dias antes dos exames tinha de dar lá consigo depois da aula do meio-dia. Saindo do antigo teatro, gastou uns minutos na rua, a sondar o prédio principal. O Navarro estaria ali ou na chácara? Esta questão era capital para o sossego. Não lhe ouvia a voz. Dadico chegou à janela, espiou e retraiu-se para o interior. Queriam

ver que estava na chácara? C’os diabos! Nesta hipótese precisava não perder tempo para chegar à hora. Acabando esta reflexão, Bias estremeceu de júbilo. Através da vidraça vira o vulto do Navarro. Foi rápido, mas o professor não concebeu dúvidas. E, aligeirando as tíbias finas, tratou de pôr-se a salvo das vistas do bruto. Seguiu depressa até o primeiro arco de triunfo; ali parou, com os bofes pela boca. — Safa! um bocado de descanso não é mau. A vida deve levar- -se um pouco flauteada… Isto de a gente se matar, e de uns terem medo dos outros, é pura tolice. A vida passa depressa… Daqui a cem anos, que resta de mim? Uma caveira; do Navarro? Outra caveira; da Oleogarípia? Outra (e esta, mesmo depois de caveira, há de arreganhar medonhamente os dentes). Pois se tudo tem de dar em caveira, não é mau ir-se temperando a vida com um pouco de filosofia. Por conseguinte, nada de pressas. E Bias foi sentar-se do outro lado do arco, as mãos cintando os joelhos encolhidos. Do ponto que escolhera lobrigava, sem ser visto, através do tapume de trepadeiras, um longo trecho de rua que era trajeto forçado para quem se dirigia à Escola Normal. Embebeu a atenção numa folha que toava pela estrada, assoprada pela aragem; acompanhando o voo de um pássaro que descrevia curvas sinuosas, teve vontade de voar, num aeroplano, por cima da cozinha da Escola Normal: a Luciana ficaria embasbacada de admiração… Desceu do aeroplano mental e acompanhou as deformações de uma grande nuvem arredondada; e distraiu-se ainda em tudo o mais que descansa a atenção e embala a ociosidade. Súbito teve receio. Quem sabe se o vulto entrevisto pelas vidraças, no interior sombrio, era o Baiano? O negro tinha a tineta de imitar os modos do Navarro, e, de relance, podia dar os ares deste… Qual! Que teria o Baiano a fazer no escritório? Era o Navarro mesmo. Apesar desta segurança, Bias resolveu continuar o caminho; mais além se deteria de novo, em outra escala obrigatória. Num ponto do percurso o professor tomou compostura, por avistar o padre Gauquério que vinha da chácara, para a vila. O reverendo

estava animado e movia as mãos, conversando consigo mesmo. Passou pelo Bias sem dar por ele. O professor divertiu-se uns instantes a imitar-lhe a mímica. Chegando ao arco “Dieu et Famille”, subiu à barranca, onde se ajeitou a cômodo, tendo de olho um trecho longínquo do caminho da chácara. Puxou o relógio: doze e quarenta. — A aula começa às doze e vinte… Lucro líquido: vinte minutos. Satisfeito com o balanço, assobiou com o calcanhar contra a barranca. Quando cansou, descavalgou de um pulo ao chão. — Toca a andar mais um bocado… Parece que sinto fome! Nesse caso vamos ao almoço. Enfiou a mão no bolso para roer o seu naco habitual. Tirou de dentro uma coisa preta e melada com a forma de ovo de ema. — E esta! Um pão de sabão! — exclamou, cheio de lástima. — E eu com o estômago a exigir lastro… Se o danado do Penedo cá estivesse, havia de dizer que foi de palhaço que meti no bolso este sabão. E Bias rememorou a verdadeira causa do engano. Aquela manhã a trovoada doméstica fora mais violenta que de costume; D. Oleogarípia exigira imediatas explicações sobre certas atoardas referentes à moça do sobradinho; e, como o marido, em apuros, dera explicações confusas e insuficientes, a esposa, furiosa, pegara um cabo de vassoura, arremetendo sobre ele. Bias raspara-se mais que depressa; e, na precipitação da fuga, atafulhara o sabão no bolso, inadvertidamente. Recordando este incidente o professor ficou revoltado. Então a mulher a pensar que ele namoriscava a lambisgoia da vizinha! Que injustiça! Quando neste ponto ele era impecável e sabia ser constante à Luciana, apesar de seus rigores. Chegando a este ponto de suas cogitações, esqueceu a esposa e deu-se todo a pensar na negra. — Vamos apressar o passo — planeou —; pode ser que eu ache jeito de dar-lhe duas palavrinhas… ardentes. Peço-lhe, suplico-lhe, e — conforme as circunstâncias — caio de joelhos… Hei de lascar aquele coração de ébano!

Distraidamente pôs de novo a mão na algibeira, mas retirou-a enlambuzada. — Brrr… Emporcalhei-me! Boto fora esta imundície? Deus me guarde! A Oleogarípia me comia vivo. Imagino que já está a estourar dando pela falta… Daqui a cem anos todos nós seremos caveirinhas. Mas senti uma espécie de papel no bolso… Vejamos. Ah! a carta para a Flávia, que o Dario me deu. É urgente — disse o pirralho —, e eu que já a esquecia! Por seguro, vamos levá-la na mão, se não vai, o velho morre, e fico com remorsos. A brincar com a carta Bias continuava a caminhar. Fazia conjecturas: “Verei a Luciana? Terei coragem para ir direito ao caso? Ainda hoje será cruel?”. E fantasiava situações. Talvez a negra naquele momento estivesse no galinheiro, recolhendo ovos ou apalpando galinhas; e, nesse caso… Bias alegrinho, trauteou a “Margarida vai à fonte”. Já estava no fim da avenida. Evitando a porta principal, ele contornou a chácara pela direita. Já ouvia o trepidar de uma tampa de caldeirão em fervura. E, à porta da cozinha — oh! coincidência, alcaiota dos namorados! — dá com a Luciana destripando um frango. Os olhinhos do professor chisparam. Achado um pretexto, foi em direitura da negra com a carta na mão. Estendeu-lha, gaguejando! — É para a Flávia… — e acrescentou em tom violentamente apaixonado: — Luciana! A cozinheira, de cara fechada, atirou para o lado os debulhos do frango, e pegou na ponta da carta. Mas o Bias não largou da outra ponta. — Enjoado! — resmungou a preta, forcejando por tomar-lha. — Meu bem! — murmurou Bias, num enlevo. E a luta continuava. — Dê a carta, Sr. Bias, e venha cá, que preciso falar-lhe — disse o alegre vozeirão do diretor atrás dele. Foi como se o agarrassem pelo gasnete. Bias voltou-se perturbadíssimo, armando a cara mais apatetada que pôde. Navarro levou-o consigo, repuxando-lhe o botão do paletó.

— O senhor errou hoje a porta da rua… Sabe Deus há quanto tempo isto sucede! Mas hei de contar a sua mulher. Quem havia de dizer! O senhor, com essa cara de sonso, e por dentro do refinado finório! — Eu? eu? — perguntou o Bias parvoamente. — O senhor, sim! Mas não faça outra; podia alguma aluna ver, e que escândalo! Lembre-se também da chinela de D. Oleogarípia… Agora é que noto, o senhor está atrasado quarenta minutos. É preciso dar-me explicações… Mas depois. Estou agora preocupadíssimo com outras coisas. Encontrou no caminho o padre Gauquério? Pois acabávamos de ter uma longa conferência. Deu-me notícias deliciosíssimas. Tudo vai de vento em popa. Sr. Bias! A primeiro de novembro nossa vitória é certa. Diariamente eleitores do Tipico bandeiam-se para o nosso lado. E note-se que assim como estamos já fazemos maioria. Ah, o reverendo é habilíssimo! Tem uma extraordinária vocação política. Dispõe as pedras e arma o xeque, com uma tática prodigiosa. Pelo meu lado, presto-lhe todo o apoio, o que é a metade da vitória. Imagine que o Tipico já abandonou a partida; não tem trabalhado mais, vendo esboroado hoje por nós o que construiu ontem. Lá está ele, trancado na fazenda, com um acesso de neurastenia profunda… Mas também pode ser plano, por isso não deixaremos de esforçar-nos até o último momento, com o relógio na mão. Quem tem uma causa santa por que lidar, sente as forças redobradas. E o senhor não avalia as dificuldades que temos tido! Há quarenta anos, por carneirice, o povo acompanha o Tipico. Foi uma celeuma quando eu e o Gauquério o desafiamos a pé firme. “Como! estão loucos? Vocês não arranjam vinte votos!” era só o que diziam. E, de fato, a toda a tentativa amigável que fazíamos, respondiam: “Meu voto? Não posso! Estou comprometido com o Tipico, e o Tipico é um velho companheiro”, e tal, e coisa. “Ah, é assim?”, exclamei: — Pois bem! Sr. João da Costa, se não me der seu voto, não lhe compro mais o feijão. — Sr. Chico Peneira, de hoje em diante venda seu arroz onde quiser. — Sr. Candote, não precisa cortar mais para

os colégios; virá carne da Estiva. — Senhores pintores, pedreiros, carpinteiros, não terão mais serviço nosso quatro meses por ano. — Senhoras lavadeiras, se seus maridos e filhos não votarem conosco, tenho recursos para não repartir mais entre as senhoras os vinte contos que me ganham por ano. — Senhores três-barrenses, se não me souberem ser gratos, mudarei meus institutos para melhor zona”. Ouviu, Sr. Bias, as palavras mágicas que viraram o pessoal? Cederam à força bruta, à força dos argumentos convincentes da ameaça. E pensa que eu não a cumpria? Ora se! Mas eles o compreenderam, e ali estão, caidinhos, pedindo pelo amor de Deus uma cédula nossa para enfiar na gretinha da urna. O padre, por sua vez, berra do púlpito verdades duras contra o Tipico. De fato, que tem feito a Câmara, dele? Os porcos aí estão pelos quintais alimentando focos de infecção; a água canalizada é uma barrela intragável; quanto à iluminação, inda é a lua dos poetas que nos vale, quando pode. Mas a coisa vai mudar de rumo. Tudo tem frutificado de sobejo. A árvore aí está, vergando sob a carga de frutos: é só ir colhê-los a primeiro de novembro. E se eu lhe expusesse o que pretendo fazer… Aqui Navarro deteve-se. A irradiação que lhe iluminara o rosto ao lembrar seus projetos, mudou-se em ruga apreensiva. Bias ficou assustado com a mudança. — A felicidade nunca é perfeita, Sr. Bias! — suspirou. — Imagine que logo hoje tive grandes contrariedades… — Creia que se me atrasei… — começou, balbuciante, o professor de francês, que já tivera tempo de alinhavar mentalmente uma desculpa. — Não, não é nada com o senhor — atalhou Navarro. — Sobre seu caso, mais tarde conversaremos, quando eu estiver disposto… Já amarrei um lembrete na corrente do relógio. Agora absorvem- -me cuidados maiores. Estou perplexo, e sozinho não sei raciocinar… Uma idiossincrasia do meu temperamento! Por isso vendo-o a rondar a cozinha, lembrei-me de chamá-lo. Espere, senhor, um pouco, quero também a presença da mulher… Nesse momento chegavam ao patamar. — Adélia! — gritou o diretor, cobrindo com o brado o sussurro das aulas.

E foi entrando com o Bias para o locutório. — O caso é este Sr. Bias — expôs. — Há semanas que me absorvo na política, sem lazeres para dedicar ao ginásio. Não que o tenha abandonado — não! Minhas lutas atuais resultarão em seu benefício e é por isso que a elas me entrego. Mas não tenho tido tempo de imiscuir-me diretamente em seu funcionamento. Quando lá cheguei hoje, abriram-se os meus olhos ante as enormidades que presenciei. Vi alunos brincando em aula, professores fora dos postos. Entrei na sala do Marolo, e — que havia de ver! — em vez de ensinar contas, fazia em voz alta uma invocação ao Espírito Santo. Ah, ah! ao Espírito Santo! É inútil dizer-lhe que imediatamente lhe mostrei o olho da rua. E lá saiu ele como um padre mendicante, de alpercatas e bordão, mundo em fora… Não sei onde foi achar alpercatas. Decerto sola de chinelos velhos. Mas lá saiu… Vá com Deus ou com o Diabo para onde lhe agradar — eu no colégio é que não podia consentir mais um regente… Também o Marolo ou nada era a mesma coisa. Saindo dali fui procurar o coronel Mercês. Não estava em seu salão! Cheirei e remexi quanta sala de aula havia, sem topar com ele. Cheguei a ficar intrigado. Por fim mostraram-mo, sabe onde? No pátio, Sr. Bias! dando a aula de primeiras letras ao ar livre, Sr. Bias! Se não fosse coisa tão trágica, eu era capaz de morrer com uma barrigada de riso… Também fui enxotando logo o bando para dentro: “Chut! Chut! Para dentro, pessoal!”. E lá se foram em procissão, o galo capão mais a pintalhada… “Ah, ah, ah!” Bias estranhava esses acessos de hilaridade; era preciso que as coisas corressem muito bem ao diretor para que assim se desabotoasse em cascalhadas. Estava outro homem. — Que quer, Navarro? — perguntou a esposa, que havia abandonado a aula de trabalhos manuais. Era sempre pálida, aparência histérica, olhos mortiços. — Depois examinei-lhe os alunos — prosseguiu o diretor para o Bias. — Não sabem nada, absolutamente nada. Os que sabiam um pouco desaprenderam com uma facilidade assombrosa. O ex- -deputado ao Congresso é estupendo! Não sei até quando o tolerarei.

Digo-lhe isto sob reserva, já se entende, mas não seria mau que o senhor me intrigasse um poucochinho… A censura por linhas travessas produz às vezes mais efeito. Diga-lhe que estou resolvido a despedi-lo… Não, não diga tanto. Deixo à sua habilidade preparar- -me uma pequena obra-prima nesse sentido. Mas a realidade é esta: em vésperas de exames vejo-me sem um regente, e sem um professor de primeiras letras. Por outro lado, preciso arranjar outra coisa para o coronel… Talvez encostá-lo na mecânica e astronomia… lógica… grego… Não, não se deve desarranjar o que está feito. Não sei então… Vamos, Adélia! Sr. Bias, auxilie-me! Sugiram-me alguma coisa, um modo de desdar este nó… Tive uma ideia ao avistá-lo, na cozinha, Sr. Bias. (Sabe o que o Bias estava fazendo na cozinha, Adélia? Depois te contarei…) Conheço sua dedicação ao serviço, seu grande amor ao apostolado do ensino, e penso que o senhor não iludirá minhas esperanças, se eu lhe confiar as primeiras letras. Espere, Sr. Bias, não precisa dizer nada. O senhor quis falar que já tem todas as horas do dia preenchidas. Sei disso! Em compensação, está desocupado todas as noites. Isto não é um direito do professorado — é uma concessão minha. Nas horas vagas os senhores são comparáveis a soldados de prontidão. Se o tempo é de paz, ficam no quartel polindo as armas e escovando a farda; mas se a necessidade urge, toca a marchar! Sou o general e preciso de sua espada e do seu valor até durante as noites. É marchar — à nobre conquista da Luz. O senhor lecionará primeiras letras das 6 às 8, estamos entendidos; já vou consignar no horário. É claro que não lhe falo em aumento de ordenado. Como lhe disse, os professores são meus, e, se têm horas feriadas, é que lhas permito; além disso, sei que o senhor se ofenderia se fôssemos mercantilizar horas de ensino. Há uma coisa mais nobre que o dinheiro — é a consciência de ter praticado o bem. Cristo, o eterno exemplo, nunca exigiu salários para disseminar entre a plebe suas palavras divinas. Este ponto fica então assentado de pedra e cal, pelo unânime consenso dos povos. Veja, Sr. Bias, que estou disposto a gracejar… Fora das aulas sou o amigo; em matéria de serviço, é ali! de rijo! o diretor. Temos conversado.

Hei de dar-lhe por miúdo instruções que o senhor cumprirá à risca, em relação a essa classe que com toda a confiança lhe deposito nas mãos. Agora passemos a outro ponto. A questão está neste pé: tenho um professor de mais, e um regente de menos. Encostar o coronel na regência? É um absurdo. Não seria muito lustroso para um ex-deputado ao Congresso mineiro. Admitir no colégio outro regente… Implico com caras novas. Gosto sempre de viver em família, Sr. Bias. Dar regência ao Lago… Mas o Lago é emproado e violento. Eu não gosto de violências. O ex… Mas há de ser o coronel Mercês, que remédio! Pois não sei que fazer dele… Entende tanto de ensino como eu de grego… Digo, como eu de funilaria. Os radicais helênicos são-me familiares: fono — som, tele — ao longe, logos — discurso. Declino alguma coisa e suponho que já li a Odisseia… Hoje estou um tanto esquecido. A Odisseia é soberba, Sr. Bias, mas no original. Assiste-se ao vivo as pugnas tremendas entre gregos e troianos. Helena raptada, os argonautas em demanda do velocino de ouro… O ex-deputado absolutamente não nasceu para o magistério. O diabo é que se maçará quando eu lhe tocar na regência… Maçar-se, como! Então eu aqui não sou o diretor? Se é preciso… Em matéria de serviço sou inexorável; não peço, ordeno. Aqui, Navarro, que não gostava de medidas extremas, coçou a cabeça. — Vamos, Adélia, vamos, Sr. Bias, inspirem-me! Vocês ficam aí como dois estafermos… Mas o coronel Mercês não se melindrará quando eu lhe falar na regência? Não pode melindrar-se, absolutamente. Ele, como republicano, deve ser democrata. O trabalho não dá desdouro — seja o do humilde jornaleiro, que, armado de enxada, parte para o eito, seja o de diretor de estabelecimentos de ensino. O trabalho é sempre sublime e nobre, e o melhor brasão é uma palma calejada. Por que aviltaria ser regente de alunos? Que é o general senão o regente de seus soldados? Está aí! o argumento é sem resposta. O general e o regente se equivalem; há só a diferença de nome. Questão de rótulo! Muitas vezes um nome modesto implica funções brilhantes. Pois bem! Se a roda encrava por uma

questão de onomástica, é só mudá-lo. Será… preposto… prefeito da disciplina… Soberbo! Prefeito da disciplina! Belíssima expressão! Um homem pode com garbo dizer a outro: — Sou prefeito da disciplina no ginásio “Fiat Lux”. — Hem? Eleva, enobrece! E vocês dois às favas! Vá para sua aula, Adélia. Vamos, Sr. Bias, quero apresentar-lhe sua nova classe. É só o tempo de escovar o chapéu e descermos para a vila. Daí a instantes transpuseram, de saída, o patamar. A cada degrau da escada o diretor detinha o Bias, para expor- -lhe expansivamente seus projetos. Estava tão satisfeito por ter destrinçado suavemente aquela dificuldade! Para ele era um suplício volver os olhos para o que não fosse sua cruzada política. A vitória iminente embriagava-o. Ia tornar concretos alguns planos que havia anos acalentava, e aos quais a câmara de Tipico sempre se mostrara atravessadiça. Não queria cargo nenhum para si, mas escolheria a dedo os vereadores. A presidência da Câmara já estava prometida ao Dadico. Ia contrapor à decrepitude dos vencidos uma câmara de moços. Pois a mocidade não era o nervo do progresso? — A mocidade é o porvir — conceituou triunfante. Acabavam de descer a escada, quando correu para eles, saindo do salão de estudo, no andar térreo, a figura lastimosa de Flávia. Tinha um papel na mão, e os olhos vermelhos de chorar. — Mau sintoma! Não sei onde tinha a cabeça, que não a interceptei. — Sr. Navarro — disse ela arquejante —, meu marido está de cama, vim lhe pedir licença para ir vê-lo. O diretor respondeu incisivo: — Não pode. A senhora está ocupada e sua presença no estudo é indispensável. — Mas está passando mal, Sr. Navarro! — tornou ela. — Se não acredita, veja esta carta! O senhor é um homem de caridade, e compreenderá que não posso abandoná-lo! — Em hipótese alguma, ouviu? — replicou — tem obrigações, e não lhes pode faltar.

— Mas, meu marido… — Nada tenho com seu marido! — Então há de o coitado ficar sozinho, nesse estado? — revoltou-se a velha. — Desculpe, mas preciso ir; ele está velho, e pode morrer dum momento para outro. — Se for, despeço-a! — exclamou o diretor, irritado. — Pode despedir-me! — replicou Flávia corajosamente. — Ponho acima de tudo a vida de meu velhinho. E afastou-se, com resolução. — Alto lá! — berrou o diretor enfuriado, cortando-lhe o caminho. — Então é só ir saindo, sem mais? “Pois me despeça!” E o que a senhora me deve? Vamos primeiro ajustar as contas! Não a ponho na rua, velha astuta! Primeiro saldemos a dívida! E, se não ficar por bem, recorro à justiça! E como Flávia se arrimasse, esmorecendo, contra uma parede, ao peso desta ameaça, que para a sua ignorância era formidável, Navarro prosseguiu, encruzando tragicamente os braços: — Sim, senhora! Sim, senhora! Então é só dar-lhe a gente roupa, atafulhá-la de feijão, dar-lhe casa para morar, pagar-lhe lavadeira e engomadeira, e deixá-la sair assim sem mais? Não! Vamos primeiro fazer as contas, que lhe garanto que me deve mais do dobro dos seus ordenados! Ou tenho acaso obrigação de dar-lhe tudo grátis? Pois está enganada! mas muito enganada! E, bufando, o diretor puxou brutalmente o Bias, numa retirada que era um lance magistral. A largos passos abalaram pela rampa da avenida. Atrás Flávia ficara inerte contra a parede, a razão vasquejando, os olhos sem luz. Quando já estavam a certa distância, Navarro mais calmo, porém mal-humorado, desabafou: — É isso! Acontecem-me essas coisas exatamente nos momentos em que estou mais satisfeito. A culpa é sua, Sr. Bias! Não entregue mais cartas no colégio, a quem quer que seja, a não ser a mim. O senhor infringiu o regulamento interno. E depois de uma pausa:

— Mas viu como a velhota é topetuda? Parecia uma santinha… Minha sina é criar serpentes ao meu seio, Sr. Bias. Cada esmola generosa que minhas mãos largam, cria-me um ingrato e talvez um inimigo. Por falar nisso — que negócio de greve é esse com que há dias todo o mundo me enche os ouvidos? Bias quase teve uma síncope. Marejou-lhe na testa um suor de agonia. Mas Navarro já esquecera a pergunta; o horizonte amplo espancara dum jato todas as contrariedades, reavivando-lhe na memória os seus grandes projetos. — Hei de fazer desta vila um mimo — disse. — Meu primeiro cuidado será a questão — saneamento. Água e limpeza — eis o moto principal do meu programa. Derivarei para as Três Barras um riacho que passa alto, daqui a meia légua. Entretecerei uma perfeita rede de esgotos. Lavados, por esse permanente lençol d’água, não haverá mais fermentações malignas. Tudo será feito de acordo com as últimas conquistas da hidráulica e da higiene. A luz também será profusa. Por todos estes contornos abundam cachoeiras para a instalação de potentes turbinas. Quero que a claridade jorre, de vinte em vinte metros, de cachos de arcos voltaicos. E ainda… — E dinheiro? — interrompeu Bias, satisfeito pelo novo rumo da conversação. — Dinheiro? — fez Navarro sorrindo superiormente, como a escarnecer a ínfima objeção. — Pois não sabe que o empréstimo é a alma do progresso? A Câmara lançará um empréstimo de mil, dois mil, três mil contos. Dinheiro há sempre quem o dê, a questão é saber pedir. Mas detenhamo-nos um pouco neste lugar. Ponto de vista esplêndido, não acha? Daqui não há horizontes contingentes: o infinito por todos os lados… Veja a figura pífia do Ginásio, acolá… A Câmara vai doar-me um soberbo palacete para o “Fiat Lux”. É coisa decidida. Olhe o largo lá embaixo, coberto de capim, com animais pastando… Vai tornar-se uma linda praça ajardinada: E os casebres! que imundície! Que borrões na paisagem! O sapé será proibido a três quilômetros de raio. Todas

as casas deverão ser caiadas no mínimo uma vez no ano, sob pena de pesada multa. Hei de arrancar este morro que está às nossas costas, atulhando com a sua massa o vale, lá embaixo, para rasgar uma soberba avenida, ampla, retilínea, da estação à Escola Normal. Hei de… Era ainda tanta coisa! Navarro, transfigurado, brandia os braços, sulcando de enormes gestos todos os pontos do horizonte. E ao seu lado, com olhos só para ele, Bias sentia-se mesquinho, arrasado até o chão, e de tal arte, que ao pé dele, na sua insignificância sentia-se um átomo de poeira ao pé de uma montanha.

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Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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