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Falange Gloriosa

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Falange Gloriosa

Capítulo 16 · Falange Gloriosa

Capítulo XVI

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Em casa do reverendo Gauquério, o único feliz era ele. E “em casa” é um modo de se dizer, porque esse lugar era o em que menos ele aparecia. Se o padre apeava do cavalo vindo de alguma excursão de propaganda pelas fazendas, era para ao mesmo instante tornar a montar. Não lhe sobrava um minuto para dar umas carícias à Maria Gansa, que passava o dia a levar o avental aos olhos para nele embeber as lágrimas. De alma amorosa e sensível desabafava com o tio Roque, dizendo que tinha medo de finar-se de melancolia, ou de endoidecer. Tio Roque ouvia mudo, pondo-lhe os inexpressivos olhos toldados pela idade. Na crise mortal por que passava seu espírito só sabia rezar; e rezava assim: — Ó Onipotente Deus, S. S. Virgem Maria, meu São Roque, ó anjo Gabriel! Fazei que os olhos do padre Gauquério se abram à luz da verdade! Fazei que ele vença a tremenda tentação, e não lute mais contra a Câmara! Ou então chamai ao vosso seio esta alma atribulada. Amém. Enquanto rezava, tio Roque sentia conforto; mas ao terminar, seus pensamentos desciam de novo às coisas da terra, e a razão turvava-se-lhe, excogitando: não era certa a queda dos antigos camaristas? E não havia um tanto de santidade nos velhos vereadores roceiros, silenciosos e solenes, que durante as augustas sessões olhavam lentamente uns para os outros, a passar a mão, alto a baixo, pelas imensas barbas encardidas? Iam ser expulsos da Câmara para todo

o sempre, cedendo o seu lugar a uma dúzia de mocinhos escanhoados e bilontras. Isso não seria obra do Maldito? Assim pensando, tio Roque se enchia de novas aflições, e buscava um recanto de sossego, para recomeçar a súplica: — Misericordioso Senhor Deus, meu São Roque, Virgem Maria pura antes do parto, no parto e depois do parto, anjo Gabriel! Antes que meus olhos vejam um tal sacrilégio, tirai-me por piedade esta vida que já vai longa! Levai-me para o vosso seio antes de primeiro de novembro. Amém. Com a taciturnidade do tio Roque a pequenada da Maria Gansa não vinha mais em alegre investida cavalgar-lhe o cogote; e os dois últimos gêmeos, que já começavam a falar, ainda não lhe diziam: “Tio Loque!”. À falta dos brincos que o negro inventava, tornaram- -se manhosos e birrentos, infernando a vida da desconsolada mãe, que não deixavam chorar em sossego. João, esse estava desde muitas semanas prostrado na enxerga. Vivia ali, só, esquecido, apenas alegrado pelas visitas do Dariozinho. A caseira do padre, sem cabeça para nada, raro lembrava-se de levar-lhe um chá. O que sofria era uma nova e longa crise de sua opressão de peito. Tinha palpitações e falta de ar. Se o Dario estava presente, mandava abrir a rótula da meia-água, e aspirava, aliviado, o ar de fora; e, nos seus acessos fortes, se ninguém podia valer, quente, boqueando febril, com o anseio do peixe que a rede colhe, e que, levado para um novo elemento que não é seu, debate-se numa supliciante asfixia; ofegava, quase desmaiando, horas a fio; e, quebrando o silêncio espesso, só havia na penumbra do quartinho os sinistros sons que lhe saíam do interior do peito, e que lembravam um surdo e permanente galope de cavalo desbriado, crinas ao vento, numa planície sem fim. Flávia, nunca a esquecia João, mesmo nos paroxismos da dispneia. Via-a com diferentes olhos, conforme a sua sanidade mental no momento; e seu duplo modo de vê-la, era entremeado, na moléstia, por intermitências de delírio. Em todo caso, a prostração aumentava-lhe os espaços de lucidez, porque, vivendo da memória,

acudia-lhe a lembrança de outras crises idênticas no Douradinho; durante elas, a velhota pouco lhe saía da cabeceira, mimando-o como a uma criança; entrava a toda hora no quarto, maternal e incansável, interpelando-o jovialmente, multiplicando-se em cuidados; ajeitava-lhe os travesseiros, inventava mezinhas milagrosas; e, pisando de manso, ia de porta em porta tapar as correntes de ar. E quantas vezes, nos momentos de delírio, ele gemia escandalosamente alto, exagerando os sofrimentos, só para tê-la à cabeceira, alisando-lhe maciamente os cabelos com a mão abençoada! E agora sentia a falta dessa mão carinhosa, tão eficaz para alívio de todos os seus padecimentos. João ditara diversas cartas ao Dario, pedindo a Flávia que nas folgas do serviço fosse vê-lo; não recebera nenhuma resposta. Já suspeitava que não chegavam às suas mãos. Naquele dia escrevera-lhe de novo e, ao contrário do que costumava fazer, pedira que a carta não fosse entregue ao Navarro, e sim a ela, diretamente, por intermédio de um dos professores. O Demônio, que assim chamava ao diretor, procurava, decerto, mantê-la sequestrada e incomunicável. E sabe Deus quanto ela não devia sofrer, longe do seu companheiro, adivinhando, com a sua intuição de esposa amorosa, os transes por que passava! O velho tinha a certeza de que ia morrer agora; e, se morresse, não seria melhor para Flávia? Depois de viúva, Navarro vê-la- -ia com melhores olhos e ela, por sua vez, ficaria sem cuidados. Nada perderia vendo-se livre do marido, um imprestável trambolho importuno e gemente, um fardo de miséria bem digno de que um pé caridoso o empurrasse para um buraco de cemitério. Então o velho pedia a morte. Mas, figurando-se morto, via Flávia continuar na clausura, sob a guarda do Navarro, o cérbero incorruptível. As imagens da lucidez misturavam-se neste ponto com os vapores da demência. Ela estava prisioneira, porque Navarro a queria para si. Amava-a e tinha zelos do marido. Deixando-a só, ela ficaria indefesa. Não! ele não podia morrer. Devia conservar a vida para salvá-la daquela horrorosa prisão. Embora velho, não

poderia ainda socorrê-la? Não tinha ainda dez dedos para estrangular algum Demônio que se lhes metesse de permeio? Ele devia viver para salvá-la a todo o transe! Quem seria tão afoito que quisesse enfrentar sua grande cólera? E o enfermo sentava-se repentinamente no leito, com crispações poderosas em todos os músculos; circunvolvia rápido o olhar, buscando o temerário que procurava resistir; e suas pupilas dardejavam selvagem na penumbra do quarto. Como! Ali não havia mais ninguém? O que tomara por inimigos eram as escassas réstias de luz que se intrometiam pelos resquícios das telhas e junturas da rótula. E, recobrando-se do delírio, recaía no travesseiro, gemendo: “Quem me acode com um pouco de ar, santo Deus!”. Delirando, o seu desespero crescia. A velha companheira cedia o lugar à noiva travessa. Eram moços. Estavam num domingo, e nesse dia o olhar dela esquivara-se ao seu, na capela do Douradinho. Seria que o desprezava? Sim, não tinha dúvida; pois não ia casar-se com o Joca? Era coisa sabida, voz geral. E todo o mundo tinha gosto em ir magoá-lo repisando a notícia. Ele indignava-se: — Já sei, Dario, já sei, mamãe. Gente, que gosto têm vocês em me virem repetir isto? Nada mais natural! Eu sou pobre, o Joca é rico. Casem-se e sejam felizes! — Mas não hão de casar! — rugia em seguida, num acesso violento. — Não ouviram? Mato, espedaço quem me tomar a Flávia! Ela é minha, minha, minha!… E assinalava a posse às punhadas no peito descarnado. — É minha! minha só! Ah, meu Deus, não haverá uma alma caridosa que me escancare essa janela? Quero ar! O delírio continuava. O Joca levava Flávia para a Escola Normal. João ia matar a ambos, mas de caminho Navarro embargava- -lhe o passo, ameaçando-o com uma tesoura de podar. — Ah, não me querem dar a Flávia? Pois hei de arrancá-la dessa prisão, porque ela é minha, minha só! Saia da frente, demônio, que não temo a sua grande espada! Venha, Flávia. Como?! Não me acompanha por bem? vai à força! você é minha!

Arrebatava a moça e fugia com ela. Tinha-a, enfim! Que montava o mundo a persegui-los? Ela estava ali ofegante, contra o seu peito, e não havia força que lha arrebatasse. E, acossado por uma legião de demônios desgrenhados e ferozes, corria, corria… Quem era o cavaleiro temerário que, rédeas soltas, o chicote silvando no ar, fazia o seu cavalo galopar por uma planície tenebrosa? Que fantasma negro fugia rápido, na escuridão da noite, crinas revoltas, impetuoso como um tufão? O estrépito era incessante, onde batiam os cascos surgia um rasto de faíscas, e a terra, sacudida por eles, produzia um oco reboar, como percutida no mais profundo das entranhas. E o galope infernal a restrugir sem fim, no âmago das trevas… Aí João espertava. Via-se sentado, anelante, a abraçar violentamente o próprio peito. Que era feito da Flávia? Ah, fora um pesadelo. Mas que surdo galope ainda lhe feria os ouvidos? Buscava-lhe a causa nas sombras do quarto, descobrindo, enfim, que era o próprio coração a bater-lhe descompassado no peito. — Não há ninguém que tenha caridade desta criatura, santo Deus! — gemia ele. Nesse dia houve alguém, e esse alguém foi Flávia. Abriu maciamente a porta, e entrou pé ante pé. — A Flávia! Não estarei sonhando? — estertorou o velho. Silenciosa como uma aparição, ela não respondeu. Agachou-se sobre a enxerga, desfez os caroços da palha; ajeitou-lhe o travesseiro nas costas, arranjou melhor a coberta; em seguida, relanceou o quarto, procurando o que quer que fosse; dirigiu-se para uma tripeça tosca, onde havia uma caneca coberta com um pires; destampando-a viu-lhe o conteúdo, um chá caseiro já mofado; volveu de novo o olhar em torno, e depois embebeu-se a contemplar a tramela da rótula. De repente, em pranto convulsivo, correu a abraçar-se com o marido. — Meu velho! coitado do meu velho! — soluçou entre torrentes de pranto. — Ah, Flávia, sofro muito! — gemeu o velho, estreitando-a. Ela continuava a soluçar; e suas lágrimas foram tão ardentes que parecia chorar sangue.

— Coitado do meu velho! — repetia a cada instante por entre o ralo dos soluços. Depois, mais calma, sentou-se-lhe ao lado, tomando-lhe a mão entre as suas; mas atentando para os mulambos que se amontoavam no chão, para as paredes de ripas à mostra, para a telha-vã, prorrompeu de novo em pranto: — Coitado! nesta miséria, neste abandono! atirado para um canto, como um trapo à toa! E eu que não tenho nada, nada para aliviar você! — Tem, Flávia, sussurrou o velho. Basta ficar comigo… Não me abandone mais, sua falta já me fazia louco… Olhe, já melhorei. Já estou rindo… Não chore! Sorria, de fato, contemplando-a embevecido. Não era aquela a sua Flávia? Não a tinha ali agora para todo o sempre? Sentia a suavíssima felicidade que sucede aos arrufos dos namorados levado pelo giro habitual de suas ideias, perdia outra vez o senso da realidade. Então recriminou-a. Para que o desprezara tanto tempo? Por que essa volubilidade que o fazia sofrer? Ele estava pronto a tudo esquecer, o que não obstava a que tivesse o direito de, pela última vez, chamar-lhe ingrata… — João! — Sim, ingrata. Pensava que ele não sabia? Na igreja correspondia-lhe aos olhares amorosos? E não se lhe esquivava se lhe queria falar? Ele sabia de tudo, mas tudo perdoaria… — João! E o doente reiterava os queixumes, ao passo que Flávia o ouvia sorridente, acariciando-lhe os cabelos brancos. Quando terminou ela pôs-se a explicar-lhe. Se na igreja era tão atenta às orações, é que pedia por ele. Na Escola Normal não tinha licença para sair, e trabalhava das cinco da manhã à meia-noite. Não havia lá tarefa de que ela não participasse. E as exigências do diretor, o homem de cem olhos, ubíquo, onisciente, que tinha a habilidade de aparecer de improviso onde o serviço era casualmente remanchado! Se lhe sobrava um momento de folga, em que pudesse respirar, era a ele,

João, que dirigia o pensamento; imaginava o que não estaria sofrendo, só, no meio de estranhos. Não podia ir vê-lo, porque, como disse, não tinha licença para sair. Mesmo naquele dia, sabe Deus que ameaças terríveis do Navarro ela afrontara, para conseguir chegar até o seu querido velho! A explicação era tão simples, a verdade tão evidente, que suavemente caiu a venda dos olhos do marido. Quem estava a seu lado não era mais uma criação doentia do cérebro, e sim a boa companheira de sua vida; era ela quem naquele momento lhe sorria, encarquilhando o olho murcho. E teve imensa piedade da pobre velha, que parecia ter ficado tão mais velhinha, depois de poucos meses de clausura. Que podia agora fazer por ela? Estava de cama, enfermo e abandonado. Fazê-la aquinhoar da sua miséria? Mil vezes não! Ao menos no colégio não passaria necessidade; e, se morresse, ela não ficaria em desamparo. Então a realidade impôs-se-lhe. Ela devia voltar. E a lembrança de que ali estava, desobedecendo ao Navarro, aterrorizou-o. — Flávia, volte agora para o colégio! Você já me viu, e eu já matei as saudades. Volte, volte depressa. — Voltar? — exclamou Flávia. — Então hei de deixar você aqui sozinho? Não! Quero ficar à sua cabeceira, e, enquanto eu tiver vida, o diretor não há de arrancar-me daqui. — Vá! — tornou João com os olhos cheios de terror. — Olhe, só com a sua vista já melhorei, não preciso mais de você. Se ficar, é até pior para mim. Vá, vá! Quero ficar sossegado. Suporte mais um pouco o colégio. No fim do ano estarei bom e libertarei você. Então voltaremos para o Douradinho. Nossa casa ainda não foi vendida; para o mais, todo o mundo nos estima e nos auxiliará. Flávia sacudiu a cabeça, em dúvida. — O diretor não me deixará sair — disse, abatida, evocando o incidente daquele dia. — Vou contar um sonho que tenho tido — tornou João. — Muitas vezes parece-me que somos moços e estamos no Douradinho. E sonho que a torno a raptar, e que vamos, você nos meus braços,

galopando no meio da escuridão, numa planície interminável. Será um pressentimento? Olhe, antes do fim do ano, é preciso que eu veja você outra vez, para combinarmos uma porção de coisas… Enlevado em doce devaneio, João sorriu; súbito, porém, tornou- -se agoniado e novamente encheram-se-lhe os olhos de pavor: — Mas vá! o diretor já deve estar à sua espera. Volte depressa, correndo! E, como Flávia ainda quisesse resistir, ele pôs-se em pé, roxo, esquelético, sinistro como a morte. — Vá! Vá! — gargarejou, num estertor. — Eu vou! — exclamou aterrorizada a velha, receando piora — vou já, mas deite-se primeiro, meu velho… Assim… Eu vou, já disse, vou já!… Beijou-o na testa e saiu soluçando. Dali passou pelo médico; e, de regresso para o colégio, prometia-se voltar breve a vê-lo, custasse o que custasse.

Falange Gloriosa

Sinopse

Leia gratuitamente Falange Gloriosa, de Godofredo Rangel, romance brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir de fonte institucional da Academia Mineira de Letras, com paratextos modernos removidos do corpo principal, para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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