Universo da obra
Universo da obra
Três dias depois, por volta das onze horas, o desocupado que se postasse com um óculo de alcance, ao alto da torre da matriz avistaria muito ao longe, na estrada de rodagem, dois pontos animados encaminhando-se para a vila. Eram dois cavaleiros, e isto a distância não lhe permitiria reconhecer. O da frente, caboclo tostado, gingava o corpo pachorrento, sem pressa, ao compasso do andadura do animal; parecia mal-assombrado de feições e cosia-se em profundo mutismo. Cavalgava atrás dele um homem alto, cujo chapeirão desabado lhe encobria o rosto até o nariz; e do nariz para baixo também não se poderiam devassar as feições, pelas abundantes barbaças que tapavam tudo. Vez em vez essas barbaças agitavam-se, e saía de suas profundezas uma voz cava e rouca, que gelava, arrepiando os cabelos de quem a ouvisse. A lentidão da viagem impacientava o homem, e nele a impaciência era medonha de ver. Como seu animal dava indícios de afrouxar, picava-o de esporas com frenesi assassino, e como de cada vez que isto sucedia o cavalo tivesse um sobressalto, o cavaleiro atracava-se-lhes às tábuas do pescoço com tal sanha, que parecia querer estrangulá-lo; por um prodígio o animal continuava vivo; e, seu passo recaía sem demora no seu lerdo revezar de patas. O viandante curioso que se atrevesse a embeber o olhar sob aquela aba descaída, recuaria inevitavelmente de pavor vendo a parte superior do rosto; os olhos faiscantes em órbitas fundas, lembravam feras emboscadas em lapas; e sua fosforescência sinistra completava o símile.
Quando as casas de Três Barras começaram a aparecer muito remotas, para além de uma baixada ainda encoberta, o das barbas perguntou em voz alterada ao companheiro da frente: — Máksimo! você não ouve um vasto sussurro de multidões ao longe?… O interrogado não respondeu; e o fiscal (não era outro, como o leitor perspicaz já terá adivinhado), aplicando o ouvido, reiterou a pergunta: — Não ouve um rugir longínquo de aclamações? — Não senhor, Sr. Cobra — respondeu o mestiço de mau modo. — É a barriga do meu cavalo que está roncando. — Você é pirrônico, Máximo! Não ouve porque não quer ouvir. Importunado por essas observações, o sisudo camarada berrou a cantarola: “Lá no mato tem um bicho que rói, rói… Teu amor tem um luxo que dói, dói!” — Cale-se, cale-se, Máximo! — gritou o patrão. — Não vê que assusta meu animal? De fato, o cavalo levantara as mãos, querendo refugar e enovelar-se. O quadrúpede, que ele comprara de pouco, depois de rigoroso exame de suas qualidades de sociabilidade e pacatez, sofria de acessos súbitos de neurastenia, e qualquer bulha tirava-o do normal; umas vezes pulava, outras dava para empacar e parecia um penedo; outras desgarrava da estrada, galopando com o cavaleiro entre espinhais e cipós. Por isso, Cobra esmerava-se em esmiuçar-lhe a “psicologia”, e só viajava quando o bucéfalo mostrava certos sintomas benignos, que seu dono descobria concentrando sobre ele toda a sagacidade fiscalizadora que a profissão lhe granjeara. Mas, tirante aqueles senões, o animal era exemplo de mansidão evangélica. — Já proibi terminantemente que você cantasse em viagem, tornou o fiscal vendo tudo restituído à normalidade. Deu-lhe essa mania só depois que comprei Incitatus! Até parece acintoso… Está ouvindo, Máximo? Após uma pausa, supondo ter usado demasiado rigor com seu silencioso camarada, Cobra prosseguiu, abrandando a voz:
— Desculpe o tom em que falei, Máximo, mas é também para seu bem. Só sabe essa cantiga, e os dizeres dela não são côngruos. De fato, que tem de comum um bicho roedor com os castos amores de uma donzela? Além disso está errada; a palavra “luxo”, na acepção em que você emprega, não é autorizada pelos clássicos, por nenhum clássico! E o “tem” impessoalizado da oração principal? Depois desta rápida preleção, Cobra esqueceu o incidente, volvendo de novo às delícias do momento. Uma suavíssima emoção senhoreou-o, e sob seu influxo pôs-se intimamente a monologar: — Afinal de contas, a glória é isto. No fim de uma vida obscura, mas honesta, cheguei a conhecê-la. Mas, não sei por quê, esta comoção suprema tem seus toques de melancolia… Todavia sinto-me feliz, muito feliz, apesar de um tanto inquieto. Essa inquietação evaporou-se ao atingirem o cimo do último cabeço; dali abria-se a vista para a baixada remota, onde havia o rebolir de uma turba imensa e confusa. — São eles, Máksimo, são eles! — exclamou em grande exaltação, esticando o dedo. Colhendo as rédeas, o camarada voltou-se para o fiscal: — Patrão — avisou —, aquilo é gado; se tem medo, tomamos o desvio das marias-pretas. — Gado! — tornou Cobra, animadíssimo. — Não, não é! Não se lembra de que da outra vez pensamos o mesmo? São eles! Olhe os estandartes enfunados como velas… Escute esse rumor de vivas… Não vê mãos que se agitam? Braços nervosamente erguidos para o ar? Vamos depressa, Máximo! Dê uma lambada neste estafermo, e ceda-me a dianteira. Daqui até lá são só porteiras de empurrar, e essas eu sei abrir. — Aquilo é criação — avisou o caboclo em última instância. — Ousa replicar-me, Máximo! — irritou-se o fiscal. O camarada obedeceu. Aplicou um rijo açoite no traseiro do Incitatus. O quadrúpede, atirando um pincho, despediu descabriado, num terrível acesso de neurastenia. O fiscal, aos berros, seguia agarrado ao seu pescoço. Se Incitatus afrouxava, outra chicotada.
— Máximo! Proíbo que faça isso! — bramava o fiscal. Como resposta, novo açoite, seguido de novo pincho. O caminho fugia sob os pés dos animais, e as porteiras eram atiradas violentamente contra os moirões. O trajeto assim percorrido foi enorme. Na descida chegou a ser vertiginoso. E Cobra via que era levado implacavelmente para o meio de uma imensa boiada, que ocupava o vargedo. Mugidos de touros minacíssimos já se cruzavam em desafio sobre sua cabeça. Cornos estralejavam em luta, patas pesadas sacudiam duramente o chão, levantando ecos soturnos. E os cavalos, galopando, abriam caminho por entre a massa movediça. A cólera do fiscal demudou-se em terror, no meio da manada. Terminado, porém, aquele momento horrível, foi com admiração profunda que encarou o varadouro retilíneo cavado pelo galope no meio daquela mole viva; cravava alternativamente o olhar na bicharia e no camarada temerário. E via a este tão impassível, com a sua catadura habitual, que apenas teve palavras para admirar: — Máksimo, você é heroico! — Eu bem dizia que era gado, Sr. Cobra — limitou-se o camarada a responder. Cravando os acicates no Incitatus que parecia derreado, o fiscal reabriu a marcha um minuto interrompida. Depois de uma empinada ladeira entraram na vila. Cobra enchia-se de pasmo. Por que não fora o colégio, em préstito, esperá-lo? Extraviara-se carta em que designara o dia e a hora da chegada? Talvez a faina dos exames? A verdade é que pretendiam fazer-lhe recepção festiva. Isto inferiu vendo por toda parte arcos de bambus e fieiras de bandeirolas ao vento. Inquiria cada papel de cor gulosamente, procurando seu nome; nesta esperança enfiava incansável o olhar por aqui e por ali. Nada! Nem uma inscrição, nem um viva — mutismo absoluto. Talvez o Navarro, com fino tato, quisesse assim significar que a maior eloquência era a do silêncio… O Cobra sorriu superiormente, por ter encontrado a chave do enigma. Não era outra coisa! E, não menos fino, suas primeiras palavras ao Navarro, reforçariam: “Agradecido! Compreendi”. Cobra tornou a sorrir com os seus botões.
Esse momento foi um dos mais felizes da sua vida; e, nessa disposição assuntava: — Pelas janelas tanta gente me espia indiferente, como a qualquer cometa agalegado a chegar com as canastrinhas. Tinha bem vontade de parar e dizer por experiência a um desses curiosos: “Sabe quem sou? O fiscal Matos Cobra!”. Ficaria pulverizado de espanto… Mas nem o suspeitam. Boa gente! Por mera vadiação assentou de perguntar a um moleque, que tocava com uma varinha um arco de barril: — Para que são estas bandeirolas, crioulinho? — Para esperar sô bispo que vem depois d’amanhã — respondeu o moleque, segurando a roda. — Ah!… O menino seguiu rodando o arco. Cobra ficou desapontado; e esporeando cautelosamente Incitatus, remoeu consigo: — Que lhe faça bom proveito… Já conheço o vazio de todas as aparências e prefiro a obscuridade. A glória! uma palavra oca, nada mais. Seria bem melhor que o preço dessas bandeirolas revertesse em esmolas aos pobres, e que os braços que cavaram os buracos para os bambus fossem cavar a gleba produtiva… A verdadeira glória é um caráter obscuro, mas probo. Espiando Máximo nesse instante, Cobra viu-lhe no olhar brilhante uma expressão de satânica ironia. Sentiu-se humilhado; mais tarde, porém, havia de reabilitar-se; no decurso de uma das futuras viagens faria daquelas reflexões o tema de uma judiciosa dissertação moral. Não tardou que apeassem à porta do ginásio; e, enquanto Máximo cuidava das cavalgaduras, o fiscal foi bater palmas. De dentro vinha o vozear de muitas pessoas falando ao mesmo tempo. — Entre! — gritou da secretaria o diretor. Cobra entrou. Navarro não estava só; os professores achavam-se todos ali, de pena em punho, debruçados sobre uma porção de mesinhas dispostas ao acaso. Havia ainda o fiscal Tinoco e outras pessoas. Pelas
mesinhas alastrava-se uma baralhada de livros de atas, montões de provas e mais papelada, em aparente confusão. Navarro, com uma caneta molhada atrás da orelha, ia de mesa em mesa azafamado. — Ah! é o Sr. Cobra! — limitou-se a exclamar, estendendo-lhe o dedo mínimo. — Caiu em má hora, meu amigo; estamos de serviço até o pescoço. Sente-se por aí, se puder… E, em frases breves, interrompendo-se a cada passo para fazer observações aos professores, explicou ao fiscal o de que se tratava. Estavam no último dia de exames. Se bem que pelo regulamento os exames normais que o Cobra vinha fiscalizar devessem ter início depois de vinte de novembro, já antecipadamente os haviam concluído. Houve uma fraude sem monta — posdataram as atas para evitar nulidade. Em todo caso, por deferência a ele, Cobra, constava dos livros a sua presença a tudo. Daí a instantes, ou à noitinha, conforme combinariam depois, o fiscal iria assinar as atas e rubricar as provas, que se achavam na Escola Normal. — É uma faina incomportável — prosseguiu o diretor —; desde a madrugada estamos aqui julgando as provas ginasiais e rematando as últimas atas. — Coronel Tinoco! a linha não é essa… Veja a cruzeta… Entra pelos olhos! — Aqui nesta casa trabalha-se, meu amigo! Imagine que amanhã chega o deputado Dr. Fagundes e que depois de amanhã vem D. Sério… Precisamos ultimar o serviço hoje. “T” grande, coronel Tinoco! “t” grande! É até falta de dignidade assinar o nome com minúscula! Estava nesse instante acurvado sobre a mesinha do fiscal federal. Duas ou três pessoas cercavam ainda este, pondo-lhe as provas debaixo do nariz, apontando-lhe a linha, e lembrando-lhe as letras do nome. O coronel Tinoco fungava e tresfolegava, levando um tempo desesperador a fazer com mão trêmula cada rubrica. Na sua calva lisa, desprotegida da gorra, marejavam grossas gotas de suor. No final de cada rubrica ele enxugava-as com o lenço, e aproveitava esse intervalo para desoprimir-se, puxando o ar até o fundo dos pulmões.
— Os exames ainda não estão concluídos e as atas já vão ficar prontas e assinadas — continuou o diretor. — Tudo isso é a previdência e a firmeza com que todos aqui trabalhamos, Sr. Cobra. O professor conhece bem o aluno, e pode prever, sem nunca se enganar, que nota vai tirar. — Sr. Bias, você raspou demais esta prova; acabe de corrigi-la e leve-a ao estudo, para o menino copiá-la sem erros. — Dê distinção com louvor ao Cerqueira, Sr. Cândido; não quero que o rapaz saia daqui descontente. Afinal de contas é um moço, merece alguma consideração. — Sr. Penedo, encoste só plenamente no Martinho. Quero que isso fique como exemplo, porque esse menino nunca pegou num livro. Pode até servir-lhe de estímulo para o ano. — Somos aqui de uma energia, Sr. Cobra! Mas o senhor ainda está de pé… — Dadico, vá procurar-lhe uma cadeira. — Estamos aqui em família, Sr. Fiscal, e dessa família consideramos o senhor um dos membros; desculpe, por isso não dar-lhe toda a atenção que merece… — Eu fiz parte da banca de português, Sr. Camões? Então dê-me o livro para subscrever a ata… Que diabo! O senhor assinou Luís Eufrásio Macedo de Camões. É muita coisa. Meu nome junto do seu faz figura pífia… Doravante suprima o Eufrásio Macedo. Inda o sublinha com esse risco colossal que me inutilizou a linha. Se eu fosse assinar primeiro, garanto-lhe que teria a civilidade de deixar-lhe uma linha em branco em cima. É isto uma coisa de nonada, mas “ex-digitus”… — Sabe traduzir a frase, Sr. Cobra? — Justos céus, Sr. Camões!… Que cabeça louca a sua, Sr. Camões! Pois não sabe que em português o Sebastião não devia passar? Não sabe que nem chegou a fazer prova escrita? O senhor ainda desmoraliza este honrado teto, Sr. Camões! Abatidíssimo, e com as mãos na cabeça, Navarro caiu debruçado sobre o livro das atas. — Sr. Camões! Sr. Camões! — gemia, esmagado. — É fácil pôr aqui um “em tempo” e sana-se tudo — sugeriu o professor. Impetuosamente Navarro levantou-se, agarrando o livro: — Veja isto! Veja isto, Sr. Camões! — e defronte à cara do faltoso o seu dedão epiléptico folheava as páginas. — Veja este capricho,
esta limpeza! E o senhor quer pôr aqui um “em tempo” horrível, dependurado como uma hérnia embaixo das assinaturas. Tenho horror a tudo que é postscriptum e apêndice. Que fazer agora? E ainda por cima, lasca distinção e louvor no Sebastião! O senhor vai cavar a minha ruína, Sr. Camões! Acalmado pela explosão, Navarro pôde então explicar ao Cobra: — Desculpe-me este assomo, meu amigo; mas em questão de consciência sou assim. Mas há contingências em que o espírito mais são se vê obrigado a capitular. Agora, por exemplo, sou forçado a deixar um equívoco nesta ata. Em todo caso, há ainda remédio; vou mandar fazer um simulacro de exame para reparar a cincada do Sr. Camões. Seja testemunha de minha inteireza de ânimo, Sr. Cobra! E, suspirando resignado, chamou o secretário: — Traga a máquina, Dadico, vou ditar-lhe uma carta, para o padrinho do Sebastião. Em pouco estava já o secretário com os dedos sobre as teclas, datilografando o nome do destinatário. — “Paz e sorrisos no sacrário do lar” — redigiu Navarro. — “Flores e triunfos na egrégia pasta de V. Ex.a Vitória! Tenho a comunicar a V. Ex.a que o seu M. D. Afilhado, graças aos profícuos e humildes métodos de ensino empregados nesta tenda de trabalho, acaba de sair aprovado com distinção e louvor em todas as matérias do segundo ano ginasial…” Nesse momento já a animação era menor na secretaria do ginásio. À proporção que findavam o seu trabalho, os professores iam-se retirando; e pouco depois da saída de cada um, ouvia-se o tropel de uma turma de alunos seguindo para as orais. À saída do último docente Dadico empilhou metodicamente no armário-arquivo os livros das atas e as provas. Assobiando de alívio, o fiscal Tinoco, passou o lenço uma última vez no suor do cocuruto, e saiu, derreado. Enfim desimpedido, Navarro chamou o Cobra: — Sente-se mais perto, caro e ilustre amigo, temos que conversar… Diga-me uma coisa. Pôs em movimento sua parentalha graúda para o governo ficar-me com a chácara?
Navarro perguntara-o com indiferença, mais por vadiação. — Está tudo pronto — respondeu o Cobra. — É só o senhor indicar os avaliadores, e dentro de trinta dias efetua-se a transação pelos duzentos contos. O diretor deu um pulo da cadeira. — É certo o que me diz? — Aqui estão as cartas — disse Cobra, desembolsando um maço de papéis. — Veja. O diretor pegou-as com frenesi e à sua leitura as feições purpurejaram-lhe. No fim depôs o maço e disse calmamente: — Dadico, vendi minha chácara. Preciso que me dê outro palacete para a Escola Normal. Ou melhor, dê-me um palácio só e imenso, dividido em dois lanços independentes, um para o Ginásio e outro para a Escola. Hei de escolher estilo… — Pelo nosso orçamento não há mais verba — objetou o secretário. — Reforçaremos o empréstimo municipal. Encarrego-me disto. — Então está dito — disse o secretário, tomando as cartas com vivo interesse. — Dadico — tornou Navarro enternecido, apertando-lhe o braço —, hoje acabo de crer na sua amizade. Não me hei de esquecer de você, meu grande amigo, e não é impossível pô-lo ao meu lado, como sócio. E voltando-se para o Cobra: — Terá a sua comissão régia, meu amigo; verá que não sou ingrato… Como! Recusa?! Mas o que não pode recusar é um certo refresco químico celestial que lhe vou preparar… — Não! obrigado! — foi dizendo o Cobra, pensando com terror na limonada. — Uma “Antarctica” ao menos. Dadico, cerveja “Antarctica” e copos. Um minuto depois, soabria-se um abismo lôbrego entre as cerradas barbas do Cobra. Por onde num átimo sumiram dois ou três copos espumantes. — Agora vá embora — disse Navarro impelindo-o para a porta —; preciso dar providências sobre a transação… Vou ver as orais; temos
para elas método próprio, em que só os curtos de inteligência achariam o que censurar… Depois me dará sua impressão sincera. É no outro prédio. Cobra saiu. Antes de chegar ao antigo teatro, já ouviu uma ampla vozeria que bem podia figurar o hino sacrossanto do trabalho ou a balbúrdia do Juízo Final. Entrou, e permaneceu algum tempo em cada uma das salas de exames. Já havia uma boa porção de assistentes; eram pais que começavam a chegar e que, sucessivamente, com o coração aos pulos, temiam pelos rebentos quando eram chamados, e de olhos úmidos de doce emoção se orgulhavam depois do ato, por vê-los garbosamente atravessar a prova dificílima. Em cada sala havia um só examinador, que era o lente da matéria. No compartimento do Bias achava-se o Cobra. Em companhia de outros espectadores, estava ali o pai do Weber, um vendeiro bronco e achaparrado. No momento em que o Weber foi chamado, houve na assistência um certo risinho de motejo, que parecia dizer: “Inda mais este pirralho! Que pode um coisinha destes saber?” Tirou-se o ponto. E incontinente Bias rompeu em perguntas cerradas, sucessivas, estonteantes: — Aimez-vous de haricots? Avez-vous soif? Aimes-vous votre père? votre mère? votre soeur? votre frère? Era vertiginoso. O pai tremia como um covarde; e o filho, calmo, quase risonho, também vertiginosamente respondia: — Oui, monsieur! oui, monsieur! Foi um torvelinho de perguntas e respostas, mas passou como um torvelinho. — Basta, Sr. Weber! Pode sentar-se. E o menino foi cair triunfante nos braços paternais, que os soluços convulsionavam. Os assistentes olharam o vendeiro com inveja, por ter tal filho; apenas um deles, juiz de paz em Santa Rita ficou mal-encarado, como se se lhe revoltassem os sentimentos de justiça; de indignado nada mais quis assistir, e retirou-se da sala, dizendo acintosamente em tom meio alto:
— Isto nunca foi exame! é carnificina! Aos poucos os pais foram seguindo-lhe o exemplo. Bias que examinava maçado aluno por aluno, suspirou de alívio vendo ali só o Cobra. — Meninos, agora todos à minha frente, enfileirados. Vamos! Todos obedeceram. O professor contentou-se com fazer uma pergunta a cada um. Quando não acertavam mandava adiante. O seguinte errava ou acertava, seguia-se o turno do imediato. Chegando ao último, Bias despediu-os com um gesto: — Estão todos aprovados! Podem retirar-se. Cobra correu as outras salas onde o espetáculo era idêntico. Por último dirigiu-se ao salão de física e química. Aí a assistência era maior, por causa das reações. Muitos examinandos já haviam causado estupor mudando o cor-de-rosa do tornassol em azul e vice-versa. Era coisa tão prestigiosa que aos olhos estarrecidos dos pais tocava à nigromancia. Mas nem por isso o Mendonça se mostrava calmo. Vendo-se obrigado, por ordem do Navarro, a variar as reações, sua cor terrosa tomava tons creme, só de pensar nas misturas traiçoeiras. A par desse terror a presença dos assistentes agravava-lhe a inibição mental. Sentia-se meio apatetado, sem exata consciência do lugar e da hora. Que saudades não lhe acudiam do remanso pacato de sua botica, onde apenas o rodeavam bocais inofensivos e pomadas familiares! À entrada do fiscal, Mendonça dizia aos pais: — Querem ver como o menino misturando estas duas drogas a mistura fica verde? Estavam ali defronte dois provetes de conteúdo branco. Com um garbo de prestidigitador o examinando despejou o conteúdo de um vaso no outro. Mas a mistura continuou branca. Em regra, saindo-se do tornassol, as experiências de química falhavam. — Uai! Não quis ficar verde! — admirou-se o Mendonça. E foi seu rosto que esverdeou de desapontamento. O examinando seguinte foi encarregado de fabricar pólvora — os ingredientes já ali estavam pulverizados de antemão. Guiado pelo
professor, o menino pesou, numa balança de precisão, as porções relativas dos mesmos, sem desprezar infinitesimais. Depois misturou tudo. Na hora de deitar fogo, houve um pequeno recuo da assistência. — Jogue de longe o fósforo acesso e corra, menino! — determinou. Assim foi feito; mas o fósforo se enterrou chiando no meio da pólvora, sem atear-lhe fogo. Outros tiveram o mesmo insucesso. Foi preciso o aluno agachar- -se bem perto e demorar a chama sobre a pólvora. Desprendeu-se então uma fumacinha do meio do montículo preto, desvanecendo o fabricante e o mestre. — Veja, papai! está pegando fogo! — exclamou o examinando para um dos espectadores. Era a pura verdade. A fumacinha começou a aumentar, espalhando na sala um forte cheiro sulfídrico. Das bancas vizinhas vieram uns professores protestar, porque o cheiro ia alastrando por todas as aulas, por cima dos biombos. Penedo chegou a dizer para o ex: — Este Mendonça, quando se mete a fazer experiências, é insuportável! É capaz de infeccionar toda a atmosfera terrestre… O Navarro devia proibir esse abuso. E a pólvora a não querer mais acabar de pegar o fogo. O ar foi-se tornando tão irrespirável, que os pais se puseram a desertar a sala, e o próprio Mendonça se viu obrigado a achavascar os últimos exames. Daí a minutos não havia mais ninguém no ex-teatro. Estavam findas as orais. Após a peleja exaustiva, os soldados do livro iam descansar as armas fatigadas, e cingir os louros da vitória.
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