Universo da obra
Universo da obra
A concorrência às festas do Ginásio era sempre maior que as da Escola Normal; sem embargo disso, o dezenove e o vinte foram dois dias de grande agitação na vilazinha mineira. Chegara o paraninfo das normalistas, o Dr. Romero Fagundes, deputado excessivamente cortês que abraçava a todo o mundo e se aprazia em encarecer as mínimas coisas da vila, falando em aura de progresso, alevantamento da lavoura, futuro próspero, etc. Não podendo ficar nas Três Barras mais de vinte e quatro horas, ia partir, “em obediência às injunções do seu cargo”, na manhã do último dia de festas, aproveitando o especial encomendado para o bispo. Também o Dr. Fagundes tivera as honras de chegar em especial. Desde a madrugada desse dia havia nas Três Barras desusado movimento. De quarto em quarto de hora estouraram no alto do morro baterias de bombões; a banda do Lago e mais duas de localidades próximas percorriam as ruas três-barrenses à espera da ida à estação. Mas como melancólico indício do como seria efêmera essa pletora de vida, pequenos carregadores trançavam em numerosas turmas, levando a despacho as malas dos colegiais. Às nove e meia grandes grupos começaram a concorrer para a estação. Foram as bandas, foram os meninos do Ginásio uniformizados de azul; grande parte do povo se incorporara à procissão adornada de opas e tocheiros que ia receber sob o pálio a eminentíssima pessoa de D. Sério. Houve ainda o alvo préstito das alunas da Escola Normal, embraçando corbelhas de pétalas.
À chegada do trem ninguém podia mexer-se na plataforma; o povo ainda transbordava dela para todos os lados; quem o enxergasse de longe veria um largo borrão preto à frente da estaçãozinha, alastrando até por cima dos trilhos. Para não morrer entalado, cada um precisava estar constantemente acotovelando os vizinhos dos lados, empurrando os da frente, e dando coices nos de trás. O trem veio parando de mansinho, para evitar desastre. Nesse momento, Navarro, trepado numa cadeira, e as mãos solidamente aferradas ao ombro do Dadico e do padre Gauquério para resistir aos estos da onda humana, trovejou uma oração que soçobrou no meio da algazarra. Cada qual espichava mais o pescoço para ver o bispo e seu pessoal no fé em deus. Nesse momento houve vários pequenos desastres causados pelas tochas, que, na febre da hora, os portadores esqueciam. Um deles inadvertidamente despejou uma plastrada de cera derretida na calva do coronel Tinoco, que deu um urro de dor; houve um princípio de incêndio nas abas do fraque do Lago, que esmurrou sem piedade uns dois ou três narizes mais chegados; mais tarde suspeitou do Bias, e dizem que teve com este um tremendo pega. — Deputado… Bispo… Lei… Religião… — fazia ouvir a intervalos a voz do diretor. Quando terminou, os demais oradores inscritos para o ato desistiram da palavra. Então de mansinho o fé em deus recuou, para desatravancar o local… Nesse momento aumentou a força repulsiva da multidão, que começou a desnovelar-se ampliando-se para todos os sentidos; da beirada da plataforma, perdendo o equilíbrio, despencavam na linha cachos de homens. Reproduziram-se os incidentes cômicos; entre eles viu-se o Dr. Cavagnari tombar de quatro, e o Bias cair sobre ele às cavaleiras. Com essa dilatação abriu-se facilmente entre o povo, um aceiro, por onde passou o Navarro, de braço com o bispo. Os curiosos puderam então observar a este melhor. Era um mastodonte chato e corpulento, de bochechas hemisféricas. Nos seus lentos movimentos de cevado a quem as banhas
pesam, havia um quê de manipanço ou ídolo chinês pedindo incenso e adoração. Pelo caminho Navarro dizia-lhe amabilidades. D. Sério apenas raro em raro respondia com um arreganhar de dentes que era um modo de sorrir sem quebra de dignidade. Foram acolher-se ambos debaixo do pálio, e a procissão partiu. Constituía o séquito do bispo uma dúzia de bigodes rapados e narizes pontudos vestidos de batina. Dentre eles um desgarrou-se, avistando o Meira. — Sr. Meira, como tem passado? — perguntou em tom familiar. — Ó Marolo! — exclamou o subdiretor abraçando-o. — Então está fazendo carreira! — Sim, senhor… Felizmente… — Por que você não diz “sim, senhor, com a ajuda de Deus”? — gracejou o Meira. Olhando para o bispo com um temor significativo, Marolo deu a entender que se sentia coagido. E cochichando ao ouvido do Meira contou-lhe que D. Sério o havia admitido com a cláusula de rezar o menos possível. E era-lhe uma tão penosa privação! — Sr. Meira, veja se o Sr. Navarro me deixa voltar para o colégio… A procissão seguiu até o Ginásio onde o almoço esperava D. Sério. Ao meio-dia o estouro de cento e cinquenta bombas anunciou o princípio da sessão. O salão do ex-teatro, alargado com a retirada dos biombos, encheu-se num instante. Para aumentar a concorrência, pouco depois da chegada do especial o trem de carreira despejara na vila mais uma torrente de pais que vinham buscar os filhos. Aos fundos do salão levantara-se um palco para a representação do “Amor à instrução”. A assistência, todavia, admirava-se: ainda não se viam nem o bispo, nem o Navarro. Quando fariam sua entrada? Súbito uma deliciosa surpresa. O pano dos fundos ergue-se lentamente, exibindo no palco todas as sumidades. Por trás de longa mesa formavam uma grandiosa linha humana o Navarro, o bispo e os dois fiscais. Rosas em profusão, iluminação rica, malgrado inda ser dia, tapetes e colgados vistosos, davam àquele fundo de cena a aparência de uma abside de novo estilo. Navarro deu um sinal, e a assistência rompeu em ruidosas palmas.
Começou-se pela colação de graus aos bacharelandos, a que deu realce um sermão de D. Sério apropositado à cerimônia. Seguiram- -se discursos de docentes, alunos, espectadores, intervalados de recitativos em francês. O coronel Mercês disse inconveniências contra o governo, e Luís de Camões celebrou nossa ornitologia, nossa flora e nossas bacias hidrográficas não deixando de bater para as Índias nas naus do Gama: de espaço em espaço ia implantando “quês” guturais que lá ficavam, como marcos miliários, assinalando a rota percorrida; o Dr. Peregrino fez uma científica conferência sobre a medicina; e assim corriam as horas. A assistência não revelava fadiga; tudo corria com uma lentidão solene que lembrava missas cantadas em dias dúplices, contribuindo para essa impressão a presença de D. Sério. Todavia, não foram recebidas com desagrado as palavras do Navarro suspendendo a sessão para o jantar. Este delongou-se até a noitinha, porque o imenso refeitório apenas comportava a quarta parte do povo. À espera do seu turno, os professores ajuntaram-se na secretaria, transformada no momento em salão para a música. Era sobremaneira incômoda a companhia das bandas, pelo estridor dos instrumentos. Acrescia que desde a manhã se revelara grande rivalidade entre as três. Quando uma preparava as partituras para tocar, outra rompia num dobrado interminável; então a primeira espinhava-se, e simultaneamente tocavam músicas diversas. Era coisa horríssona e de arrebentar tímpanos. O Lago, como galo do terreiro, tornara-se o maior perturbador de ordem. Os docentes mostravam-se satisfeitos; Penedo, principalmente, irradiava no seu terno novo. Já não praguejava contra o Navarro injúrias de carroceiro; ressuscitara o seu antigo e impecável garbo; sua voz áspera retomara modulações veludosas; e, esmerando-se no gesto, amanhava frases primorosas, relevando-as às vezes com um pico de ironia. Certo momento dizia para o Lago: — Esta é a festa das harmonias; ao blandífluo sopro do seu trombone, conjugado com as encantadas vozes das bandas que ressoam neste âmbito, aliás demasiadamente limitado, casa-se bem a harmonia das cores variegadas dessas bandeirolas álacres, e o pulsar
de centenas de corações unanimemente felizes. É a harmonia dos instrumentos, das cores, das almas, e também do azul sem mácula deste céu primaveral. — Tudo pode ser — sobreveio o Lago para acintar —, menos o que diz das outras bandas. Por exemplo, o instrumental daquele freguês parece de lata; faz um zé-pereira, um inferno, e seu chefe pasma-se de gozo, como se estivessem assoprando música de anjos. Um sujeito de cabeleira de maestro e olhos de tigre, pulou para o Lago: — Alto lá, siô banda de cana rachada! Vou-lhe dizer as verdades… Não o pôde, porque a banda número três iniciou uma marcha Nabucodonosor que ordinariamente durava três quartos de hora. — É desaforo! — rugiu o Lago para os companheiros — a vez não era dele. Vamos nós — o hino nacional! Um, dois… — Tarataxim, tarataxim, tarataxim, xim! — começou a banda. — Canalhada! — berrou o maestro de cabeleira — a “Ronda infernal”! Um, dois… Prorrompeu a Ronda. Penedo, perdendo a linha, fugiu ao pandemônio. Horrorizados, os outros professores acompanharam-no. — Que coisa medonha! — comentou Penedo, quando se viram em respeitável distância. — Hoje não se tem sossego em parte alguma. Ó Mendonça, eu achava bom você levar para lá os ingredientes do laboratório e fazer umas experiências químicas, para ver se nos enxotava aqueles filhos de Euterpe. — Quem sabe se já podemos jantar? — sugeriu o ex para torcer o assunto, que visivelmente pusera o Mendonça de cara enfunada. — Vamos ver, acordaram todos. De passagem resolveram uma excursãozinha pela copa. Aquilo ali devia estar entupido de garrafarias. Ao entrar, deparou-se-lhes um espetáculo grotesco. O Dr. Cavagnari estava lá dentro, espapaçado no chão de pança para o ar, a sugar uma botija. Fazia-lhe companhia uma parelha de patrícios na mesma postura; e expandindo saudades da cara pátria, de vez em quando rolavam e se abraçavam uns nos outros, exclamando:
— “Ó Firenze, la bela città… Pátria del Dante!” Nesse momento o Navarro aproveitava-se do intervalo livre para cumprimentar pais chegados de fresco. Rodeava as mesas sulcando o povo, dando pastelões num, cochichando uma anedota a outro, distribuindo safanões aqui, palmadinhas acolá. Vendo o Décio, agarrou-lhe violentamente o braço. — Senhor tratante, não me quis ainda cumprimentar! E eu que o procuro há duas horas para dizer-lhe uma coisa importante… — Não tenho podido até agora abrir caminho para ir até você, Navarro — disse o Décio. — Mas que tal achou minha última correspondência no Estado sobre a vitória da sua Câmara? — Simplesmente sublime, meu grande escritor! Mas falemos no meu negócio. Você vai entrar numa irmandade que D. Sério está criando. Já lhe dei seu nome… D. Sério é muito meu amigo. Estamos concertando juntos grandes planos para o futuro… Está dito, você entra. São cinco mil réis por mês. — Sim — respondeu Décio abstrato, mordendo o bigode louro, e a piscar desesperadamente. Navarro seguiu o seu caminho, e Décio ficou murmurando consigo: — Sublime!… Ele achou sublime!… — Cá está o Dr. Trapézio! — trovejou Navarro, tomando de assalto em violento abraço o engenheiro anguloso, de nasóculos, pai do Dario. — É verdade — respondeu o doutor, comovido. — Sabe que não perco ocasião de vê-lo… Muitas novidades por aqui? — Muitas, todas enormes — respondeu Navarro. — Primeiro que tudo uma certa irmandade que D. Sério quer criar… Vem cá, deixe-me apresentá-lo ao bispo. — Ó Navarro! quem sou eu! — protestou o engenheiro. — Além disso, ainda estou em trajos de viagem, pois acabo de chegar pelo trem da tarde… — Nada, nada. Venha cá… Entregou-o ao bispo e foi atirar-se sobre um português de Contendas.
— Um abraço, meu caríssimo Sebastião! Outro abraço! Mas você, Sebastião, meu Sebastião, D. Sebastião… Sabe a história de D. Sebastião, seu Patrício? Não sabe? O rei que se mete para a África, que some em Alcácer-Quibir, e depois os sebastianistas a esperar… Hei de contar-lhe toda a história logo mais… Meus filhos! Navarro pusera-se de cócoras, para cingir os rebentos dum sujeito de orelhas cabeludas. — Um abraço bem apertado, meus filhos… Voltem logo para matar as saudades de seu velho diretor… — e enxugou uma lágrima. — Seus meninos são inteligentíssimos — acrescentou, voltando-se para o pai. — O senhor acha? — Vai ver… Diga-me cá uma coisa, André… — O André é o outro — explicou o pai. — Esse é o Olavo. — É isso, é o Olavo! Diga-me uma coisa, Olavo: que é um substantivo? Não se lembra? Adiante, Sr. André, dê-lhe quinau! — É a palavra que designa! — falou André, triunfante. — Bravos! — aplaudiu Navarro. — Viu que presteza… Seus pequenos são extraordinários! Mas, com licença, coronel, vou ali cumprimentar um amigo… O pai ficou envaidecido por tê-lo o diretor achado com cara de coronel. Matutou consigo que infelizmente era apenas capitão, e assim mesmo nem tirara a patente. Aquele ano ia lutar, para chegar a major. Com empenhos talvez que… Navarro já estava apertando de rijo a mão do negociante apalermado. No princípio do ano viera matricular o filho do compadre no “Fiat Lux”; e ficara tão deslumbrado pelo que vira e ouvira, que não trepidara em cometer de novo as oitenta léguas a cavalo, para ver, mais uma vez, o grande educador. E em lugar do compadre viera buscar o menino. — Ex.mo Sr. Navarro… Queria fazer-lhe uma consulta… — Pois não! Diga. — Aqui vê o senhor um prospeto do seu Ginásio… Encontramos nesta página a palavra “ensinameutos”, que foi causa de muita
discussão na botica de sô Quinca. Certa gentinha dizia que a palavra estava errada: eu sustentava que o senhor não escreveria um erro… Eu queria uma explicação. — Ah, ah, ah! — gargalhou Navarro. — É um pastel tipográfico, meu caro amigo! — Eu bem dizia que não podia estar errado! — murmurou o amigo do compadre, enquanto o diretor se afastava. E, puxando de um caderninho, registrou: “Ensinameutos — pastel tipográfico”. Todavia, surgiu-lhe uma nova dúvida; e, para não esquecer-se, acrescentou um lembrete: “Será coisa que se coma?”. À noite, quando se reinstalou a sessão, havia ainda mais expectante atenção que durante o dia; foi iniciado o programa, fazendo-se ouvir o “verbo flamejante” do diretor. Alguns redatores de jornalecos do interior, já haviam aparado os lápis para colher as notas predominantes do discurso. A solenidade agora era talvez maior, realçada pelas luzes coloridas que se coavam de centenas de lanternas venezianas suspensas de ramagens e tufos de bambus. Ao fundo do palco as sumidades haviam retomado seus lugares. E os discursos prosseguiam, inúmeros, sem fim… Quando as últimas palavras do último aluno se desvaneceram entre palmas frouxas, sobreveio um grande silêncio. Uma como paralisia geral petrificara a assistência. Era a grande hora. “Ele” já havia feito um movimento imperceptível em sua poltrona. Ia levantar-se. Ia falar. Os corações pararam de bater. Houve uma suspensão da vida durante alguns segundos infinitos. Como um sol majestoso lento e lento sobe no horizonte, o busto do Navarro foi emergindo dos tufos de flores que ornavam a mesa. Acabou de subir. Estava de pé, imóvel. Passou-se outro infinito. É que agora já começara a falar! Seus lábios pareciam mover-se, e um sussurro conhecido já adejava pelo ambiente. Ei-lo que se volta para o bispo. Decerto invoca-lhe a atenção. E o sussurro acentua-se, as palavras desarticulam-se mais nítidas, num crescendo tumultuoso que dá arrepios de antecipado entusiasmo:
— … eminente entre os eminentes, sábio entre os sábios, virtuosíssimo, reverendíssimo bispo de nossa bem-aventurada diocese, representante direto do papa nesta festa sagrada do Livro e do Trabalho… Volta-se para os fiscais… para o povo… E, súbito, violento, rubro, estupendo, dando um formidável murro sobre a mesa, prorrompe numa explosão de efeitos. Aos jorros as palavras borbotam- -lhe impetuosas, ardentes como estilhas de metralha. O mundo podia acabar. O que tinha de melhor já fora visto. Navarro pairava no sublime. Depois não lhe custou pouco descer dos altos páramos a que se havia alcandorado. Com jeito e cautela, e por transições sábias, foi descendo. Um degrau, outro degrau… Por fim, já conseguia falar num tom médio razoável. E disse que, naquela tenda da instrução, todos os atos eram praticados “ao pleno esplendor da luz meridiana”. Era por isso que ele exigia a presença de dois fiscais naquele solenidade. O Cobra estava até ultrapassando suas funções, que eram adstritas à Escola Normal; mas, na pessoa augusta e enérgica do coronel Tinoco, encarnava-se ali a Nação Brasileira, a Terra de Santa Cruz, a República dos Estados Unidos do Brasil, sancionando com a sua chancela oficial o julgamento das exigentes bancas examinadoras. E este julgamento era encorajador. As provas foram brilhantes, motivo por que se congratulava com os seus queridos alunos e respectivos pais, bem como com os intrépidos legionários da ciência, seu competentíssimo batalhão docente. Esta frase marcial fez Navarro improvisar uma belíssima alegoria. Figurou com as duas mãos dois exércitos inimigos; um era o do Livro, etc. O Livro vencia no fim, etc., etc. De épico, o diretor transladou-se ao patético. Despediu-se dos alunos, seus filhos diletos, almas de sua alma, estrelas encravadas no Saara do seu árduo destino. As frases que se seguiram foram lancinantes. Muitos choravam. A voz do Navarro pegou-lhe com os soluços; e teve de interromper-se largo espaço, a cara rubicunda encoberta com um lenço. — Mas que fazer! — tartamudeou quando pôde. — São os martírios do nosso Calvário. Debandar para o lar, e do lar para
as conquistas do Porvir — eis o roteiro da mocidade. E seguem risonhos, sem olhar para trás, só divisando a faixa rósea que os atrai da orla do horizonte; não sabem por isso que para trás deixam corações debatendo-se em dor, asfixiados em soluços, e que, ainda assim, sem embargo dos soluços e da dor, encontram forças para erguer a mão e abençoá-los de longe; “Ide-vos, esperanças de nossa alma; ide-vos, sorrisos de nossa vida; vosso quinhão é de glórias, o nosso de amargurado abandono!”. O pranto da assembleia recresceu. O juiz de paz de Santa Rita de Cássia, a quem tanto havia indignado o rigor dos exames, revoltou-se de novo; e, assoando as lágrimas que lhe haviam entrado no nariz, desabafou surdamente com os vizinhos: — Isto nunca foi discurso! Isto é um dilaceramento bárbaro!… — Janguta — disse uma mulherzinha descabelada para o marido —, empreste-me seu lenço. O meu já está que é uma sopa. — Não posso! Preciso dele! — soluçou Janguta. Felizmente Navarro mudou de tema. Ali já não estava o pai; agora era a vez do missionário; o homem cedia o lugar ao apóstolo; o coração que soluça, ao braço que constrói; e o olhar que baixara magoadamente às afeições terrenas, volvia-se para o alto, a buscar exemplo no céu. Na sua vida havia predestinação; algo indomável que rugitava no imo de sua alma, impelia-o para um grandioso Gólgota. — Não preciso lembrar todo o meu passado de dedicação e amor — continuou ele —; minha história por aí voa, aos quatro ventos, gravada indelevelmente nos corações infantis que formei; não escrita com palavras e sim com um largo transbordamento de benefícios. Sinto em mim força sobeja para regenerar a humanidade. Desbarate-se, embora, na luta ingrata, todo o vigor da minha natureza, e a miséria de um irrisório capital que consegui amealhar em tempos mais prósperos! O bem é o lema de minha consciência. Que importa a ruína se pratico o bem? Os tempos são péssimos e meus recursos estreitos. Sinto-me no cairel de um precipício. Quem não ouve cada dia a fragorosa derrocada de algum estabelecimento de
instrução? Que de ruinarias e assolações por toda parte, quantos escombros de institutos de ensino! Mas apenas aos covardes cumpre recuar. A mim, não! Farei como os moços que só olham para a frente. Para a frente e para o alto — é o moto da minha bandeira. E, no final da luta, espezinhado embora, exangue, semimorto, que meu olhar ainda uma vez se volva ao azul infinito, a dar testemunho a Deus de que, se nada mais pude fazer, é que o esforço humano fraqueja onde só tem eficácia a Onipotência Divina! E Navarro calou-se. Ah! quem o vira então, transfigurado e volvido para o alto, num último e supremo gesto de invocação ao céu! Era bem o gigante exausto que pede forças para suportar nos ombros a bruta carga de um mundo. E assim, em magnânimo desprendimento das prosperidades materiais, e pedindo a Deus o martírio, havia em toda a sua pessoa uma tão bela expressão de incorruptível e sublime Apóstolo do Livro, que olha sempre para o alto, e para mais alto ainda, em poderosa elação para o infinito das perfeições inatingíveis, que toda a assembleia pasmou, eletrizada; e, após a fascinação de um instante, trovejaram as palmas da mó de braços erguidos em frenesi, a consagrar, numa espontânea apoteose de aplausos, o Benemérito e o Mártir.
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