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Rei Negro

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Rei Negro

Capítulo 1 · Rei Negro

Capítulo I

A casa, antiga e vasta, acaçapada no planalto, com um

largo alpendre sobre atarracados pilares, abria-se em inúmeras portas e janelas, recebendo pelos fundos o ar da mata que lhe ficava à encosta, tão perto que, a lufadas mais rijas, revoos de folhas acamavam-se-lhe no telhado denegrido e hirsuto de ervas.

À frente, no lançante do morro, o jardim verdejava escalonado em taludes, florido e copado de arvoredo alegre. Bastas roseiras embrenhavam-se umas achaparradas, outras híspidas, expluindo em viço agreste, estirando varas que se emaranhavam nas árvores, cingiam-nas, insinuavam-se-lhes nas franças entremeando-as de rosas.

O chão, em volta dos jasmineiros, era uma alcatifa aromal mosqueada de abelhas. Papoulas plumejavam, cravos abriam-se em sangue, em borlas de neve; bogaris branqueavam em flocos, e a grama dos tabuleiros, muito verde entre as áleas sinuosas, dava aos olhos uma impressão macia de úmida frescura.

Larga alameda de bambus, oscilando flexuosamente com estralejado sussurro, abobadava um caminho sereno, alfombrado de folhas. Na transparência do ar azulado cruzavam-se, de contínuo, libélulas e borboletas, e sempre, docemente, soava um esvaído e trêmulo murmúrio d’água. Sebes de cedros, tosadas à altura do homem, muravam as trilhas, formavam tapigo à orla das rampas. Caramanchéis em cúpulas ou à feição de cabanas ofereciam, nas horas cálidas, agasalho e frescura, e, embaixo, rente com os espinheiros, desgrenhadas casuarinas desferiam gemidos eólios.

Um veio límpido descia da mata em fio serpentino, cascalhando, borbulhando nas pedras até gorgolejar num tanque ourelado de avencas e samambaias em volta do qual ererês domésticos galravam.

De manhãzinha e à tarde era um soturno, merencório arrulhar de pombos, e, não raro, garças imóveis, como de mármore, refletiam-se n’água alvoroçando-se com o ladrar arremetido dos cães e partindo tumultuosamente, com estrondoso ruflo de asas, em largo voo branco em direção aos banhados.

Da varanda alpendrada a vista abrangia um raio amplo e exuberante de terras lavradias: chãs e relevos, desde a porteira, no alto da estrada íngreme e esbarrondada, entre barrancas, até a serra longínqua, esbatida em névoa, no azul.

O rio recortava a planície em sulco luminoso – a trechos desaparecia, rebrilhava adiante, sumia de novo em densa massa de bosque, fulgia além, mais largo e ofuscante, e perdia-se.

Vizinhas da casa, como uma póvoa feudal, espalhavam-se as construções agrárias: paióis e tulhas, o moinho, o engenho d’água, chiqueiros, o aprisco e, ao alto, o curral murado de taipa cuja terra, revolta e vermelha de estravo, parecia encharcada de sangue. Claros cinéreos de queimadas, repontados de tocos, abriam cicatrizes entre as balsas. Palhoças, ranchinhos apareciam em maciços de árvores, com a roça de cana ou de milho a transbordar das cercas de pau a pique. Os terreiros de tijolo sobrepunham-se em socalcos e, amplo como um pátio de presídio, com o reforçado portão de tranca cadeiada, o quadrado da escravatura tresandava a espurcícia.

Portas apenas desabafavam as moradias. Era imundo e lôbrego. O ândito de terra escura ressumava umidade. As paredes escalavradas mostravam as ripas. Molambos trapejavam em cordas tendidas de muro a muro; tinas guardavam barrelas escuras, e empoçada em regos entupidos de lodo, onde fermentavam fezes, uma água pastosa tinha arrepios de vermina.

Pelos cantos cães morrinhentos dormitavam enrodilhados, galinhas arrufadas cacarejavam passeando ninhadas; leitões grunhiam fossando a putrilagem, e crioulinhos tolhiços, avergoados de magreza, iam e vinham banzeiros, coçando perebas; pequeninos, nus, engatinhavam lambuzados, com o ranho a escorrer-lhes das ventas, ou em bolo, sevandijados, refocilavam, patejavam na estrumeira borrifados de lama sob o voo zoante das moscas.

No tempo das águas o pátio alagava-se em atascadeiro, e os negrinhos refestelavam no enxurdo espojando-se, trambolhando, patinhando no lameiro nauseante.

Cedo, antes do sol luzir, com a bruma ainda solta, a sineta soava a despertar. Abriam-se as senzalas lufando do interior fuliginoso e morno o acre fortum e a fumaraça espessa dos brasidos que ardiam à noite fazendo um ambiente de estufa onde, em promiscuidade sórdida, rolavam corpos seminus, lustrosos de suor, adultos e crianças e, por perto, cães cainhando baixinho com o pruir da lepra, galinhas acochadas no choco, sem falar nas enormes ratazanas que chiavam famintas, passando de uma casa a outra pela buraqueira dos muros.

Ao toque de matinas a negrada saía para a forma arremangada, estremunhando, com bocejos de bruma fétida. O feitor passava a revista, e o bando trasmalhava grazinando – ia ao café aguado, sorvia-o gulosamente, e, ainda esmoendo restos de broa ou mandioca, cada qual tomava a enxada ou o cesto e lá iam à carpa ou à colheita humílimos, submissos como animais.

E começava o labor na fazenda. A grande roda do moinho ringia rolando no vão sombrio e limoso onde o ribeiro escachoava engasgado; chiavam os carros. No curral os bezerros berravam abarbados com o muro, farejando o cheiro de leite ordenhado. Enchia-se a escura e espaçosa cozinha, onde as negras borborinhavam, e de todos os recantos saíam animais ao cibo: varas de porcos, aves, sujos carneiros em lotes e grandes bois de carro, de olhos piscos, morosos, ruminando, jungidos à canga para o serviço.

E Manuel Gandra, de brim, botas de couro cru, chapéu de palha de largas abas, descia vagarosamente as escaleiras do jardim, com olhares de dono, detendo-se aqui, alhures, a examinar uma rosa mais repolhuda, a escutar, enlevado, o gorjeio de um pássaro, ou, chamando negros, mandava varrer as aleias, tosar a grama eriçada, podar um arbusto, fincar um esteio, atar um amarilho. E assim, distraído, saboreava o café levado por asseada mucama, em bandeja de prata sortida de guloseimas, desde os sequilhos, em forma de amêndoas, até os gordos abananados bolos de mandioca-puba.

E ali ficava até a hora do almoço, interessado nas flores, abençoando velhos negros que passavam arrastando os pés inchados e esponjosos ou moleques que lhe saíam à frente com ar idiota, maltrapilhos e sujos, ramelentos, estendendo a mão magra em gesto simiesco, com o corpo negro gizado de arranhaduras, como manipanços de basalto lanhados a buril.

A lavoura não lhe dava cuidado – sentia-a medrar nos outeiros encarapinhados pelos cafezais, nas chãs de milho e cana, nos aclives que o mandiocal alastrava, nas grotas onde os inhames, de largas folhas brônzeas, escondiam aguaçais, nos pastos verdejando macios, a perder de vista.

A terra, a água e o sol lá estavam cercando de fecundidade as raízes, e os negros auxiliavam a natureza capinando as roças, lançando fogo aos maninhos, derrubando os capoeirões para aproveitar o terreno em semeaduras prósperas, ou, com um canto triste, guaiado, raspavam os ramos lustrosos dos cafeeiros, enchendo as peneiras de bagas vermelhas, desenterravam a mandioca, cortavam a cana, quebravam o milho; e os carros desciam com um chiado crispante e os terreiros cobriam-se de café para a seca ou os paióis atestavam-se de cana ou de milho para a moagem, para a debulha.

Terminada a faina do beneficiamento, era só reunir a tropa, jungir os bois à canga e partir. E começava o desfile.

De madrugada, ainda com a névoa enflocada em rolos espumosos, tiniam campainhas, estalavam relhos. Tropeiros girogiravam aforçurados reunindo a récua; montavam e, com alegre alarido, punha-se o comboio em marcha com rumoroso sacolejo de cargueiros, seguindo, ora em trilha rasa, ora por veredas tesas, ao sol ou pela sombra fria e múrmura das matas, saindo em andurriais, galgando as grimpas ásperas, cascalhando em seixos, resvalando em lajes, metendo-se à água ou vencendo areais, balofos e quentes como rescaldos.

Pousavam em ranchos – a gente estirava-se pelo chão, em couros, com um fogo alumiando, a animalada, peiada, ia e vinha na macega, tinindo chocalhos.

De manhãzinha, antes da luz, partiam. E caminhavam dias, ao sol, à chuva ou, mais agradavelmente, pelo clarão do luar, ao fresco fragrante, com uma toada a que se juntavam, em compasso, o estropear das mulas e o som rítmico das campainhas.

À vista das primeiras turmas dos trabalhadores, que andavam construindo a Estrada, dobravam-se os cuidados. Os tropeiros desviavam-se da linha, dos cortes, guardando, com mais atenção, os animais que, ao silvo dos trens de lastro, esbarravam assustados, de orelhas fitas, refugando, ou disparavam desaponderadamente mato dentro, quando não se precipitavam, de rebolão, pelos barrocais.

E era um trabalho insano para conter os medrosos, reunir os prófugos, consertar arreios e cangalhas de sorte que, ao avistarem as primeiras casas da cidade, ainda de sapé, nos matos ou entre laranjais e hortas, respiravam e, dando graças a Deus, entravam na Corte comentando a viagem, os trabalhos, as aventuras e calculando o tempo que ainda levariam a chegar os carros que haviam ficado longe, nas ladeiras escavadas em caldeirões, com as rodas entaladas no lamaçal, com os carreiros desesperados aguilhoando inutilmente os fatigados bois até que, exaustos, atiravam-se na macega, enquanto os animais esfalfados, a língua pendente, babavam arquejantes atolados no lodo.

Na cidade, a negrada tomava um fartão de pagode admirando as novidades, a vida tumultuária.

Aviadas as encomendas do senhor, carregavam os animais com as compras e partiam, com muita tropa folgada, revezando os cargueiros ao longo do caminho.

O regresso era fácil, alegre, sem risco, a não ser nos socavãos da serra onde bandidos e quilombolas tocaiavam tropeiros acometendo-os de improviso, desbaratando-os a tiro, perseguindo-os, matando os mais intrépidos e tocando a récua para os valhacoutos alcantilados. Mas com os trabalhos que andavam na serra os ladrões rareavam. Citavam-se os assaltos, e as vítimas eram sempre viajantes imprudentes que se afoitavam, à noite e sós, em tais paragens.

Mas a tropa da Cachoeira, com Macambira à frente, ganhara fama desde que, numa garganta, recolhendo à fazenda com avultado carregamento, atacada por uma quadrilha, rechaçara os bandidos, matando-lhes o chefe.

• • •

Manuel Gandra, Senhor da Cachoeira, uma das fazendas mais ricas do vale do Paraíba, chegara ao Brasil em uma leva de colonos.

Moço e robusto, airosamente aprumado, com sangue a recumar-se em cores nas faces, uma alegria vívida nos olhos garços, destro ao jogo do pau e lânguido à guitarra, impunha-se aos homens pela valentia, e as mulheres adoravam-no, pedindo-lhe tonadilhas e fados tristes.

Aventuroso como os da sua raça, longe de deixar-se enredar nas seduções da cidade, meteu-se atrevidamente ao sertão e, chegando à Cachoeira, que era um maninho, engajou-se como administrador fazendo-se valer pela audácia e pelo pulso.

Camilo Feitosa, o fazendeiro, obeso e lerdo, de uma obtusidade granítica, passava os dias lambiscando lambarices, a arrastar as chinelas pela casa, com o ventre enorme a espocar do cós das calças de enfiar, ou dormitando, aos roncos, à sombra das árvores, com a cainçalha em volta. À noite rebolcava em libidinagem pelas tarimbas das negras.

Viúvo, vivia com dois filhos – um rapaz e uma menina: Honório e Clara.

Eram dois selvagens criados à lei da natureza, medrando à bruta na calaçaria da roça e das senzalas.

Debalde Feitosa tentara instruí-los. Tomou professor, um velho alemão paciente, muito amigo de plantas e de insetos. De manhã, quando o bom homem procurava os alunos, as negras chasqueavam-no. O sábio sorria adiando a lição para o dia seguinte e, com o cachimbo, o herbário e um saco de talagarça, metia-se pelos matos.

Os dois irmão madrugavam ao ar livre: o rapaz com a espingarda, a menina num rol de negrinhas ganhando veredas cerradas – um à caça, outra aos ninhos, às frutas, à vagabundagem na espessura. Só apareciam à noitinha cansados, escalavrados, com enfiadas de caça e samburás de frutas.

Às vezes encontravam o alemão e desciam juntos, e Feitosa, vendo-os entrar, ria, sacolejando-se nos refegos de banha, achando graça na estroinice dos pequenos e louvando a paciência do professor.

Honório acabou desastradamente no rio, querendo atravessá-

— lo a nado no mais grosso e revolto de uma enchente.

Clara, deitando corpo, continuou na bruteza, passando os dias entre as negras, aos palavrões e à bordoada com as mucamas, informando-se de amores obscenos, rindo do que lhe contavam, com um sem-vergonhismo crasso ou errando nos matos, à cata de frutas, banhando-se nos córregos, trepando nas árvores com os crioulos, apedrejando-os com frutas verdes ou descendo estabanadamente com um despejo de injúrias torpes para esmurrá-los, se os surpreendia agachados, espreitando-a por entre os ramos.

Às vezes, antes do banho, sentada no barranco, com a camisa úmida colada ao corpo, chapinhando com os pés n’água, ouvia estralejo de ramos. Voltava-se de golpe e, descobrindo negros, moleques acocorados nos matos, apedrejava-os, perseguia-os às palavradas até longe, correndo, com a camisa tufada ao vento, as pernas nuas, os cabelos soltos prendendo-se, deixando fios nas ramagens.

Sentindo-se só, espapava-se na erva com volúpia animal, espojando-se, a enfunar a camisa, gozando o sol no corpo como a carícia de um macho.

Manuel Gandra, assumindo a direção da fazenda, teve jeitos de insinuar-se no coração da virgem agreste, e o velho, inerte e pigro, ainda que os visse sempre juntos, só se apercebeu da perdição da filha quando, uma noite, no silêncio da residência, os gritos de Clara repercutiram lancinantemente.

Então, sem revolta, recebendo o neto, chamou Manuel Gandra e, comovido, quase em súplica, fê-lo aceitar a filha e, com ela, toda a vasta riqueza daquelas terras fartas.

Celebrou-se o casamento à capucha, e meses depois, tendo Camilo, após abundante almoço, descido pesadamente para a rede, onde costumava dormitar à sesta, ali ficou o dia todo, e à tarde acharam-no morto, com o carão balofo mascarrado de placas denegridas, a boca escancarada, retorcida em ricto, com a baba vitrificada aos cantos.

E a fazenda, energicamente administrada por Manuel Gandra, prosperou, desenvolvendo-se prodigiosamente. Entraram escravos novos, construíram-se casas cobertas de telha, touros de raça berravam nas várzeas, e era um encanto ver, à tarde, no caminho em aclive, o denso rebanho descer, tão apinhado que parecia a própria terra esbarrondada que resvalava, ladeira abaixo.

A residência, que ameaçava ruir, fendida em brechas, foi reformada e alargada, lançando-se-lhe à frente o alpendre, limpando-

— se-lhe o terreno em volta, escalonando-se o jardim em anfiteatro.

Quando os vizinhos viram as grandes benfeitorias da propriedade, dantes tapera, puseram-se a murmurar pelas vendas dos caminhos, pelos negócios da vila: “que o galego passava notas falsas”.

Alguns, dando-se por informados, explicavam “que o dinheiro vinha do Reino em canudos de lata metidos em pipas de vinho ou em barris de manteiga”. Por isso ou por aquilo, Cachoeira tornou-

— se a mais bela fazenda da região.

Gandra tinha gosto e, conhecendo, por experiência, a utilidade das florestas, não consentia que tocassem em árvore das que faziam sombra à casa. “Não faltavam capoeirões, fossem lenhar alhures.” Gozava sentindo o cheiro acre e sadio das resinas, ouvindo os pássaros livres, e à noite, do seu dormitório, que era um salão cercado de persianas, escutava, com enlevo, o frondejar da mata.

A mulher, alcunhada de “Capivara”, à medida que reconchava em ádipe, amolecia em inércia, apassivando-se preguiçosa e balorda.

Era uma massa de chorume, obesa e flácida, rebolando aos ofegos, derreando-se nas cadeiras onde ficava esparrimada, arquejante, a cochilar vadia.

As negras esbeiçavam muxoxos desprezíveis passando por ela, respondiam-lhe de repelão, afrontando-a com olhares enviesados, e ela temia-as, sempre a suspeitá-las de bruxarias, desconfiando de tudo, num invencível, estarrecido temor da morte.

Se, na ausência do senhor, alguma, mais atrevida, boquejava ameaças, regelava de medo, recusando a comida, fazia promessas aos santos ou mandava chamar Egídio, velho cabinda, pai de quimbande, que conjurava os mais violentos feitiços fazendo passes com um galho de arruda ou queimando na palma da mão crustácea uma pitada de pólvora, sobre cujo resíduo sussurrava palavras mágicas, soprando-o depois e com ele expelindo o mandado funesto.

As mucamas, quando a viam carrancuda, de trombas, cantavam para irritá-la, riam-lhe em rosto despejadamente, trocavam ditérios e, se a mísera revoltava-se ameaçando queixar-se ao marido, plantavam-se-lhe na frente e, enclavinhando os dedos, arrebitando o beiço em momo sarcástico, perguntavam-lhe “se queria um carrinho para ir mais depressa”.

Ela engasgava apoplética, roxa de cólera, com os bócios a papejarem, e as raparigas dobravam-se às cachinadas e, rebolindo as nalgas, arrastando achincalhadamente as chinelas, lá iam, muito anchas, impando descaso, numa ostentação cínica da rascoagem em que viviam com o senhor.

O filho, Julinho, crescia robusto e solto naquele meio dissoluto, entre mulatinhas zabaneiras, precocemente devassas, e moleques sornas com os quais andava aos ninhos ou farandolava nos córregos, e, à proporção que se desenvolvia reforçando-se, acendia-se-

— lhe no sangue uma sensualidade suína que o levava a fariscar as mulatas roçando-se por elas aos reboleios, agarrando-as, apalpando-as onde as encontrava, num furor de árdega lascívia.

Pedia-lhes, lamuriando, que lhe mostrassem nudezes, “queria ver, só ver”. As mais depravadas cediam “por pagode”. E o rapazelho derrubava-as, rasgava-as frenético, fossando-as, mordendo-as, e elas, rindo, a princípio, defendiam-se encolhidas, súbito, porém, excitadas, embarcavam-no, subjugavam-no brutalizando-o alucinadamente.

Velhas negras resmungavam quando o viam de tocaia nos caminhos ou encostado à porta dos quartos espiando as mucamas em camisa, chamando-as e cainhando como cão ao cio.

“Isso, ahn! Isso vai sê pió qu’o pai! Oia só... Criança d’outro dia...” Espocavam muxoxos. Algumas paravam a rir interessando-

— se na mangalaxa e açulavam-no: “Entra... Mecê tá perdendo tempo. Pontaria demorada espanta a caça.” Outras esconjuravam-no: “Credo! que assanhamento...”

Manuel Gandra destinava-o à medicina, queria-o formado, fazendo curas prodigiosas, elogiado nos jornais, batendo a cidade a carro, com o consultório apinhado, até a fama elevá-lo a médico do Paço, grande da Corte, célebre no mundo. Um sonho?

E o rapazola arisco, arredio dos livros, corria à méquia ou, com um vergalho, alanhava os moleques, perseguia os animais, aviltava os velhos negros, ultrajava as mulheres diante dos maridos, as filhas na presença dos pais, chasqueando-as com alusões obscenas.

Os pequenitos abriam choro medroso quando lhe ouviam a voz, arrastavam-se, fugiam de gatinhas para onde as mães. Se o não podiam evitar, encolhiam-se papeando humildades e, de olhos apavorados, a mão estendida à bênção, tremendo, engoliam lágrimas na expectativa dolorosa dos pontapés e dos beliscões que lhes seviciavam o corpo.

Negros formidáveis, de bíceps hercúleos, se o viam de relho em punho, cosiam-se covardemente com as paredes, confundiam-se com as árvores agachando-se nos matos.

Ele, às vezes, chamava-os, interpelava-os arrogante e, ordenando que se ajoelhassem, esbofeteava-os ignominiosamente.

O pai, que era generoso, repreendia-o com severidade, mas o rapaz resmungava amazorrado “que não aturava desaforo dos negros”. E, para justificar-se, mentia, caluniava.

Como os mulatinhos eram os que mais sofriam, as negras afirmavam, com ódio, que ele era açulado pela mãe. “A Capivara faz por vingança porque sabe que os coitadinhos são filhos do senhor.” E eram juras rancorosas, pragas de arrepiarem.

Quando Julinho completou treze anos, taludo e esperto, Manuel Gandra, apesar da choradeira da mulher, desceu com ele à Corte e internou-o em um colégio de fama, de onde só saía nas férias, quando Macambira ia buscá-lo.

Na fazenda o pequeno desforrava-se à ufa do apertado regime do internato, galopando à rédea solta, banhando-se, às parapemadas, no córrego, devastando os ninhos a bodoque, armando mundéus e arapucas e atraindo com sainetes, senão com os próprios olhos, que eram negros e grandes, de mórbido langor, as mulatinhas púberes.

E a mãe, esparrimada em enxúndia, se alguma negra, por bajulação, cochichava-lhe aos ouvidos as proezas do rapaz, babando-se de júbilo vaidoso por sabê-lo já homem, pedia pormenores vergonhosos e rindo, com um gelatinoso tremer dos refolhos do papo, aprovava os estupros, aplaudia as violências, seguindo, em mente, as ignomínias do filho pelos matos, nas cevas sensuais das balsas floridas.

“Faz muito bem. Está na idade. Se há de ser um negro, que seja ele. Está no que é seu.”

Se alguma rapariga, sabendo da desgraça da filha, ousava lamentar-se, D. Clara irrompia assomada:

— Já viram só!? Pois não é que a descarada vem fazer queixa do menino! Burra! Em vez de ficar orgulhosa por meu filho dar confiança à lambuzona da negrinha, o diabo estica as trombas como uma grande coisa. Ah! vergalho! – E meneava com a cabeça rilhando os dentes podres.

Para D. Clara tanto direito tinha o filho sobre a vida e a honra dos escravos como sobre o fruto das árvores e sobre a caça dos matos. Não podia compreender que as negras se revoltassem contra a violação das filhas ou que os negros se sentissem do aviltamento das mulheres que o senhor moço apetecia. Habituara-se, desde menina, a ver os escravos jungidos aos rebolos da erva, grunhindo, agatafunhando-se no furor do cio. Ria, atirava-lhes pedras, bradava enxotando-os, e eles fugiam como cães acossados, metendo-se na espessura onde, de novo, engalfinhavam-se mais árdegos. Eram como animais que não conhecem o pudor e, fariscando a fêmea, rastreiam-na, afuroam-na, empolgam-na, abocanham-na, subjugam-na saciando-se instintivamente com a mesma descuidada, natural simpleza com que espostejam a carniça ou se desalteram numa poça d’água.

E Julinho, fiado no prestígio materno e na passiva timidez das negras, estuprava crianças ainda impúberes, forçava mucamas, aforciava casadas sem temer represálias, gabando-se, muito enfatuado, a descrever as suas possuídas, elogiando-as ou com caramunhas, cuspilhando de nojo, arrependido de se haver atolado em imundícies.

Só um negro ousava afrontar-se com ele quando o surpreendia em contubérnio nos matos ou nalgum desvão das tulhas ou dos paióis – era Macambira. Estacava severo, gritava à fêmea, fosse quem fosse: “Sai, negra! Vai-te embora!” e, de costas para o senhor, expulsava a rapariga, acompanhava-a com o olhar até longe e, sem dizer palavra, carrancudo, lentamente afastava-se.

Rei Negro

Sinopse

Leia gratuitamente Rei Negro, de Coelho Neto, clássico brasileiro em domínio público. O romance acompanha Macambira no universo brutal de uma fazenda cafeeira do século XIX, em versão modernizada e conservadora, organizada em dez capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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