Universo da obra
Universo da obra
O jovem Casimiro Dernold ocupa um lindo aposento de rapaz solteiro, em um terceiro andar, em uma bela casa da rua de Paradis-Poissonniére. Tem uma saleta, uma sala e um quarto de dormir. Tudo isto está no maior asseio, e bem adornado; a mobília, sem ser de uma extrema elegância, é de bom gosto e ainda da moda. Enfim, tudo anuncia que quem ocupa este pequeno aposento não deve ser, como se diz vulgarmente, um semsaborão.
E entretanto aquele que ali habita, rapaz de vinte e seis anos, bonito de cara, bem feito de corpo, cujo porte é elegante e o trajo sempre apurado, passeia em este momento na sala com um ar de muito maú humor, batendo algumas vezes nos moveis com uma chibatinha, ou amarrotando as luvas com cólera, e falando alto, o que acontece amiúde às pessoas fortemente excitadas por um sentimento qualquer; porque parece que desafogamos dizendo o que nos aflige, mesmo quando ninguém mais nos pode ouvir.
—Nada! não!... isto não pode durar assim... é preciso acabarmos com isto! exclama o rapaz, que acaba de bater com a chibatinha em uma poltrona fazendo sair de ela uma nuvem de poeira, o que o detém na sua exclamação e lhe faz dizer: Se é assim que o meu porteiro me sacode a mobília, não se deve cansar muito... Nada! estou cansado de ser escravo de Ambrosina, porque sou completamente seu escravo!... Não posso dar um passo, nem ir a parte alguma, sem que ela o saiba... Estou persuadido de que me manda espreitar; diz que é por amor; ela ama-me, sim, concordo em isso, devo mesmo acreditá-lo... porque eu custo-lhe muito caro... Ela compra-me tudo o que eu desejo; paga-me o alfaiate, o sapateiro, enfim, todos os meus fornecedores... Aliás, como havia de eu pagar-lhes, eu que não faço nada, que não ganho nada, que para nada sirvo? Oh! mas, se não faço nada, ela é que tem a culpa! Todas as vezes que tenho querido procurar um emprego, ela tem-se oposto a isto. Quando me quero deitar de novo à pintura, porque eu principiava a ir menos mal na paisagem, tinha também conseguido fazer alguns retratos, tinha experimentado a mão com os amigos. Eu devia ter continuado, mas Ambrosina acha sempre meio de me impedir de trabalhar, levando-me para o campo, obrigando-me a acompanhá-la constantemente, a andar passeando com ela, a levá-la a alguma festa... Enfim, imagina sempre alguma coisa, tudo para fazer monopólio de mim, para me ter sempre na sua dependência. Havia de afligir-se muito se eu ganhasse dinheiro, porque então poderia passar sem ela, escapar-me das suas garras! E eu, covarde, preguiçoso, comilão, gostando dos prazeres, da vida regalada, deixei-me enredar por esta mulher, por quem senti algum amor, no começo, e da qual depois não tive força para recusar os favores. E quando a gente se acha em este declive, é muito difícil parar, sobretudo quando se é, como eu dizia, preguiçoso, comilão, e amigo das suas comodidades. Ah! os rapazes deviam tomar muito cuidado nas ligações que arranjam... essas ligações influem em todo o resto da existência. Tenham duas, três, doze amantes se se acham com forças para tanto, mas não se prendam com nenhuma... porque é essa que os fará cometer tolices e perder o futuro. Aqueles que passam por doudos e extravagantes, são portanto os que têm mais juízo; pelo menos não se deixam cair no laço e conservam o seu livre arbítrio. Nada, não, há dois anos que sou o chichisbéu da sr.ª Montémolly, irra! já estou farto!
Casimiro dá nova chibatada em uma das suas poltronas; levanta-se uma tal poeirada, que o rapaz fica quase cego, e tem de, se refugiar na outra extremidade da sala, murmurando:
—Olhem o maroto do porteiro! não é possível ter menos cuidado com os meus moveis! E diz ele que passa metade do dia a arranjar-me a casa. Ah! se Ambrosina soubesse que dou lições da desenho a uma menina do prédio, como não ficaria furiosa! É todavia uma coisa bem inocente. A menina Angelina Proh é uma rapariga nem feia nem bonita; antes tola que espirituosa; mas creio que isso é de família. Mora com o pai, com a mãe e com um irmãozinho, no mesmo patamar defronte de mim. Esta família Proh é de uma extrema polidez; a mãe, que ainda tem pretensões, dizia-me a cada passo:
«—O senhor é pintor, ah! eu estimaria muito ter o meu retrato, e, se o senhor não levasse muito caro, pedia-lhe que mo tirasse, mas a óleo, com tintas porque eu detesto a fotografia, acho que faz a gente feia consideravelmente.
«—Minha senhora, sinto muito, mas não me julgo ainda com forças bastantes para tirar um retrato do natural.
«—Oh! isso é talvez demasiada modéstia! Será preciso experimentar; nós somos vizinhos, não virei senão quando o senhor tiver tempo de seu.
«Tempo de meu! tenho-o sempre, quando porém Ambrosina me dá licença para o ter!... Depois o papá Proh, que é, creio eu, um antigo professor de grego e de latim, propôs-me o dar algumas lições de desenho à filha e ao filho, quando ele não fizer travessuras. Já se vê, aceitei. Vinte e cinco francos por mês não são grande coisa, mas eu não poderia dizer com que sentimento de alegria, de felicidade, recebo este dinheiro, que é adquirido pelo meu trabalho. Sinto-me deveras orgulhoso! Ah! estes vinte e cinco francos dão-me cem vezes mais prazer que o cartucho de moedas de ouro que Ambrosina me mete no bolso; tanto mais que ao depois é preciso que eu lhe dê uma conta exata do emprego que fiz de esse ouro...
«Hoje devia ir buscá-la às oito horas para a levar a um café-concerto. Ela havia de escolher o que mais a tentasse. Mas como isso me não tentava nada a mim, e como desde muito tempo ardo em desejos de ir ao Mabille ver as damas que dançam com tanto chic, escrevi-lhe um bilhetinho dizendo que o meu amigo Miflaud tinha uma pendencia de honra para amanhã pela manhã, que ele contava comigo para ser um dos padrinhos, e que era absolutamente preciso que eu lhe fosse falar esta noite, para me entender com ele e com o outro padrinho sobre as condições do duelo e sobre o motivo da pendencia. Engolirá ela esta peta?... Hum! não é muito provável; o importante é que Miflaud, que deve ir comigo ao Mabille, não me faça esperar muito tempo. Logo que eu me apanhe fora de casa, tanto pior! se Ambrosina aqui mandar, não me encontrarão.
«Vejamos as horas que são: já oito horas! e este tolo de Miflaud devia cá estar às sete e meia. Felizmente, mandei a minha carta a Ambrosina muito tarde; de certo não a recebeu antes das oito horas. Quem a há de aturar amanhã! Mas, em ela vendo que me zango deveras, oh! então, acalma-se logo; ela no fundo não é má, mas muito ciosa de mais! infinitamente ciosa; uma verdadeira andaluza. Graças a Deus não traz faca na liga. Ah! lá tocam a campainha, é Miflaud, finalmente...»
Casimiro corre a abrir a porta, mas, em vez do rapaz por quem esperava, acha-se com um menino de seis anos, que lhe diz:
—Sr. Casimiro, venho da parte da mamã saber se o senhor está em casa?
—Bem vê que estou, Afonsinho, e o que me quer a sua mamã, a sr.ª Proh?
—Acaba a costureira de lhe trazer um vestido novo muito bonito, de riscas verdes e encarnadas. A mamã vestiu-o, e queria que o senhor a visse com ele, para lhe dizer se a quer retratar assim.
—Mas meu menino, eu não vou agora fazer o retrato da sua mamã; terei muito tempo para ver o seu vestido.
—Sim, porém ela disse-me: Vai pedir ao nosso vizinho que entre cá um minuto; quero que ele me veja assim vestida...
—É que estou à espera de uma pessoa. Ah! mas posso deixar a porta aberta. Ande lá adiante de mim, Afonsinho! Seu papá não está em casa?
—Não, senhor, saiu agora mesmo dizendo à mamã que ela parecia uma girafa com o seu vestido de riscas.
—Oh! com a breca! mas a sr.ª Proh não havia de ficar muito contente!
—Por isso respondeu ao papá: «Tu então não precisas estar vestido para pareceres um chimpanzé.» Sr. Casimiro, o que é um chimpanzé, com que o papá se parece?
—Meu caro amigo, é... ora... um chimpanzé é um homem dos bosques, um bonito homem dos bosques, enfim é um quadrúmano.
—É o que é um quadrúmano?
—É um homem que tem os pés com forma de mãos.
A aparição da sr.ª Proh vem pôr termo às perguntas do filho. Esta senhora vem até à porta da escada ao encontro do seu vizinho. Celeste Proh é uma mulher de quarenta e sete anos, loura, deslavada, com olhos azuis muito desmaiados, e sem rasto de sobrancelhas; é obrigada a fazê-las com um pincel, que ela molha em uma composição, cuja cor nem sempre é a que se esperava, o que faz com que esta senhora tenha por cima dos olhos um arco, ora preto, ora cor de castanha, ora avermelhado; ela porém acha que isso lhe dá mais graça à fisionomia; tem-se por muito bonita e julga parecer mais nova que sua filha, que tem dezesseis anos. Repete muito amiúde na conversação que não compreende seu marido, que nunca mostrou empenho em possuir o retrato de sua mulher, com o qual ele deveria ter adornado todos os seus aposentos.
A sr.ª Proh tem efetivamente um vestido novo de riscas largas de um encarnado muito vivo e de um verde claro, o que lhe dá quase o ar de uma mouta florida e atrai a vista a cinquenta passos. Avança sorrindo para o vizinho.
—Mil perdões, sr. Casimiro, fui indiscreta, mandei-lhe lá o Fonfonso; é que eu queria saber a sua opinião a respeito de este vestido; como o acha?
—Acho-o muito bonito, é original e faz sobretudo muito efeito; enfim, vê-se de longe.
—Eu gosto de isto, gosto do que dá nas vistas. Acha que me fica bem?
—Admiravelmente! assenta-lhe que nem uma luva!
—Gosto muito do vestido bem justo ao corpo. Demais, creia que não me tolhe por modo algum os movimentos. Então está dito, há de retratar-me com este vestido, não é verdade?
—Então sempre quer que lhe tire o retrato?
—De certo que sim.
—Mas eu já lhe disse que me não julgo com forças de tirar um retrato do natural.
—Mas o senhor pintou o retrato da gata do porteiro, já lho vi lá em baixo no cubículo.
—Aquilo foi um ensaio, para me distrair.
—Pois bem! fará também o meu para se distrair. O sr. Casimiro é demasiadamente modesto, desconfia muito do seu talento; a gata do porteiro parece que está viva, e todavia ela não esteve muito tempo em posição diante do senhor?
—Não esteve tempo nenhum, pintei-a de memória.
—Eu estarei o tempo que o senhor quiser. O meu Proh queria fazer-me fotografar, mas eu não quis; detesto a fotografia, desfeia e envelhece a gente, mas não custa caro, e por isso toda a gente se serve de ela. Falem-me da pintura! isso é que tem vida, expressão, cor...
—Sou inteiramente do seu parecer, minha senhora.
—Entre e descanse um pouco...
—Muito obrigado, mas espero uma pessoa, e é preciso que eu esteja em casa.
—Então como este vestido lhe agrada, poderá retratar-me com ele?
—Estou pronto a retratá-la com o trajo de que a senhora mais goste, mesmo de Diana caçadora, se quiser.
—Oh! mas é uma bela ideia essa. Diana caçadora! oh! isso é que seria de bom gosto...
—Boa tarde, minha senhora, e fico às suas ordens.
—Mas, vizinho, onde poderei encontrar o trajo de essa deusa da caça?
—Casimiro não responde mais à vizinha, porque fechou já a porta, dizendo consigo:
—Esta sr.ª Proh é massadora! Se não fosse o interesse que tenho em lhe dar lições aos filhos, já a teria mandado para o diabo com o seu retrato! E este Miflaud sem aparecer! São quase oito horas e meia, estou capaz de me ir embora sem ele. Mas ir sozinho ao Mabille não é nada divertido!
Passam ainda cinco minutos quando finalmente tocam a campainha com violência; o rapaz corre a abrir a porta, mas é a sr.ª Montémolly, que entra com um ar decidido, furibundo, toda esbaforida e a escorrer em suor, porque subiu a escada a toda a pressa. Os leitores já sabem pela menina Adriana que sua ama, que quer passar por ter trinta e quatro anos, deve andar perto dos trinta e oito. Para completar o retrato, acrescentaremos que é uma mulher alta e bonita, que tem uma certa graça nas maneiras, uma certa perfeição nas formas, e que veste muito bem. É uma mulher trigueira, cujos olhos bem rasgados nem sempre são meigos, e cuja boca, um pouco metida para dentro, é muitas vezes desdenhosa e altiva; mas, quando ela quer ser amável, é uma bonita mulher, um verdadeiro tipo andaluz; para ser uma perfeita espanhola, não lhe falta senão o pente muito alto debaixo do véu preto e umas castanholas nas mãos.
Esta senhora entra sem se demorar um instante, sem mesmo dizer uma palavra àquele que lhe abre a porta; atravessa imediatamente a saleta de entrada, a sala, vai passar revista ao quarto da cama, esquadrinha todos os cantos à casa para ver se está por ali alguém escondido; só depois de ter acabado esta inspeção é que volta à sala, e atira consigo para cima de uma poltrona exclamando:
—Ah! não era a mim que o senhor esperava, não é verdade?
—De certo! responde Casimiro sentando-se com o ar de uma pessoa que acaba de levar com uma telha na cabeça; e é deveras um acaso o ter-me encontrado aqui. Já teria saído para ir a casa de Miflaud, se ele me não tivesse escrito novamente dizendo-me que viria ele mesmo cá, que antes queria isso, porque em sua casa, como mora com a mãe, receava que ela suspeitasse do duelo e então...
—Sr. Casimiro, quando faz tenção de acabar com essas mentirolas? Pensa porventura que acredito todas essas patranhas que me conta, e mesmo muito mal.
—Mas, minha senhora, não há aqui patranha nenhuma. Que espanto é que um meu amigo tenha uma pendencia de honra? é uma coisa que acontece todos os dias. Ele pede-me que seja seu padrinho, e isto não se recusa...
—Em primeiro lugar, há muito tempo que o senhor me não falava no seu amigo Miflaud; parece-me que tinha deixado de andar com ele.
—Deixado... porque, estando sempre com a senhora, não posso andar com ele, mas não estávamos desavindos.
—O senhor devia passar o serão comigo.
—Isso nada tem de notável, porque os passo todos!
—Então com quem queria passá-los? O senhor escreve-me: «Não espere por mim esta noite.» Como é amável!...
—Visto que era para obsequiar Miflaud. Mas tanto pior para ele; não estou para o esperar mais tempo. Venha, vamos passear.
—Ah! agora tem pressa de sair, está com medo não chegue essa pessoa. Isto esconde uma perfídia; não é Miflaud que o senhor espera!
—É sim, é ele. Mas, visto que a senhora se deu ao incômodo de cá vir, que o leve o diabo. Vamos, Ambrosina, estou às suas ordens. Hein? isto é que é ser amável! Vamos embora...
—Oh! que pressa que tem de sair! isto não é natural, o senhor está-me a atraiçoar!
Casimiro levanta-se encolerizado, e põe-se a passear pelo quarto dizendo:
—Isto é demais! o demônio leve as mulheres com o seu gênio infernal! Quer a gente sair sem elas, gritam; quer estar com elas, gritam do mesmo modo! Enfim, faça-se o que se fizer, gritam sempre! Ah! não estou para aturar mais cenas de estas! Adeus, minha senhora, faça o que quiser, eu cá vou-me embora!
E já o rapaz tem dado alguns passos para a porta; mas Ambrosina corre para ele com a rapidez de uma corça, segura-o, enlaça-o nos braços, olha para ele amorosamente, e diz-lhe com ternura:
—Aonde vais, ingrato? queres abandonar-me? bem sabes porém que não posso viver sem ti, que és a minha felicidade, a minha alma, a minha vida! Reputas um crime o eu ter vindo aqui? não era muito natural que eu me quisesse certificar de que não recebias aqui outra mulher, ou de que não ias ter com ela a alguma parte?...
—Bem vê que não escondo aqui mulher alguma; o que me havia de ser difícil! a senhora esquadrinhou todos os cantos à casa.
—Não, mas estás talvez à espera de ela!
—Outra vez! ah! a senhora é terrível!
—Não! não! não tenho razão, meu amigo, sou injusta, não o serei mais...
—Bom! ainda bem! vamos passear.
Casimiro está com pressa de sair, porque receia agora que a chegada do seu amigo Miflaud ponha a descoberto as suas mentiras. Mas, sempre prometendo não tornar a ser ciosa, Ambrosina, que continua a ter suspeitas, acha meios para não sair tão depressa: é o seu chapéu que não está bem posto, depois é a cuia que não está muito segura, e é preciso que ela arranje tudo isto; o seu amante está sobre brasas; já pôs o chapéu na cabeça, tem a bengala na mão, e a sua amante tem sempre alfinetes a pregar em alguma parte. Sucede alfim o que ele receava, batem à porta.
O rapaz não dá mais que um pulo da sala à porta de entrada, afim de tratar de prevenir o seu amigo; mas, por mais pronto que tenha sido, Ambrosina chega lá ao mesmo tempo que ele, depois de ter atirado ao chão os alfinetes que estava a pregar.
É efetivamente Miflaud, jovem corretor de comércio, da idade de Casimiro, que não é bonito, mas que tem uma cara bastante original, que gosta de grisettes, de dança, de vinho branco e de camarões; não foi muito favorecido pela natureza enquanto ao espírito, mas está sempre pronto para se divertir, para rir, enfim para brincar, contanto que não seja encarregado de inventar as brincadeiras.
—Boa noite, Miflaud, vens por causa do teu duelo... pois que te bates amanhã, e eu devo servir-te de padrinho. Mas sinto muito, meu amigo; procura outro... Tenho que fazer amanhã.
Tudo isto foi dito por Casimiro de um só jato, sem tomara respiração. Um outro que não fosse Miflaud, um de estes farsantes como há tantos, teria compreendido a situação, sobretudo vendo os sinais que o seu amigo tratava de lhe fazer; mas Miflaud não era esperto, e enquanto que a sr.ª Montémolly o mira com ansiedade, ele toma um ar muito espantado respondendo:
—Eu! bato-me em duelo! Essa é muito boa! Mas não percebo nada, isso é uma brincadeira!
—Vamos Miflaud, não vale a pena ocultá-lo... esta senhora tudo sabe, eu contei-lhe tudo; não se dirá nada a tua mãe. Boa noite... vamos sair...
—Mas eu estimaria bem saber o que tu queres dizer com o teu duelo...
—Este senhor fez todavia tudo quanto é possível para que o senhor compreendesse! diz Ambrosina lançando sobre Casimiro um olhar fulminante; ele quis imediatamente pô-lo ao fato de tudo, para que o senhor não desmentisse as patranhas que ele me contou... mas perdeu o tempo e o trabalho; não me deixo enganar tão facilmente! Vamos, sr. Miflaud, não esteja a quebrar a cabeça, não se canse a querer adivinhar o que significam os sinais que o seu amigo lhe faz... O senhor não tem nenhum duelo, não se bate amanhã, e estimo muito que assim seja.
—Muito obrigado pela sua bondade, minha senhora; é certo que não tenho nenhuma tenção de me bater amanhã, nem mesmo depois de amanhã...
—E vinha buscar este senhor para ir com ele... a algum baile de tasca, sem dúvida?
—Oh! minha senhora!... ora essa!... um baile de tasca!... eu vinha... nós devíamos ir... Casimiro, dize lá onde é que estávamos para ir...
Casimiro encolhe os ombros, e atira consigo para uma cadeira exclamando:
—Oh! não te embaraces... pois que com esta senhora não há meio de dar um passo, de ir a um divertimento sem sua licença... Pois bem! é verdade, íamos, ou pelo menos devíamos ir ao Mabille passar uma hora. Isto não é crime! mas a senhora é tão ridícula, tão ciosa, que em tudo vê maldade! e obriga-me a mentir para evitar as cenas de ciúme; mas com a senhora não se evitam nunca!
—Ao Mabille! quer ir ao Mabille! que horror! um lugar de perdição! Bem se sabe o que os homens vão lá procurar!...
—Mas, minha senhora, engana-se, diz Miflaud; o Mabille é um jardim frequentado pela boa sociedade, pelos estrangeiros mais distintos, por lindas mulheres...
—Por cocotes! diga o termo.
—Mas lá não há só cocotes; e ao menos as que lá vão, apresentam-se vestidas no rigor da moda, e algumas que dançam com uma graça, uma desenvoltura. Asseguro-lhe que é muito curioso ver aquilo.
—Oh! desconfio bem que não é só para ver que os senhores lá vão...
—Mas, como Casimiro parece estar agora ocupado com a senhora, penso que não iremos, e portanto vou...
—Nada! nada! vamos lá, eu quero ir por força! exclama Casimiro levantando-se arrebatadamente. Não se há de dizer que nunca faço o que me dá na vontade. Vem, Miflaud, vamos tomar uma carruagem.
—Ah! querem por força ir ao Mabille, diz Ambrosina correndo a buscar o chale; pois bem! vou também com os senhores. Penso que o sr. Miflaud não se recusará a dar-me o braço...
—De certo que não, minha senhora, terei até muita honra em isso.
—Ah! lá me esqueciam as luvas...
Enquanto a sr.ª Montémolly vai ao fundo da sala buscar as luvas, diz Miflaud em voz baixa a Casimiro:
—Com ela não será a coisa tão divertida!
—Tu é que tens a culpa, imbecil! responde Casimiro; se tivesses entendido os meus sinais, ela teria acreditado no duelo, e deixava-me sair contigo.
—Mas... se eu não sou forte em mimica!
Ambrosina volta calçando as luvas e parte com os dois rapazes. Casimiro faz quanto pode para ocultar o seu mau humor; a sua amante olha para ele, com ar meio irônico e meio de ameaça.
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