Leia agora
A menina Lisa

Universo da obra

A menina Lisa

Capítulo 16 · A menina Lisa

A menina Proh doente

16 de 19 ≈ 19 min de leitura

Durante todo este dia Casimiro teve uma espécie de febre; ficou em casa, mas deixou entreaberta a porta da entrada para ouvir o que se passa na escada; não ouviu senão o jovem Fonfonso cantar com a música do carrilhão de Dunkerque:

—Quem é que te ensinou essa infame cantiga? diz de repente a sr.ª Proh, saindo ao patamar.

—Foi Rouflard, que a canta muitas vezes quando desce da água-furtada.

—Que monstro que é esse borrachão do Rouflard! não compreendo que o meu vizinho Casimiro empregue semelhante homem; e tu, Fonfonso, se tornas a cantar essa cantiga, levas uma roda de açoutes e ponho-te a pão seco.

—Sim? pois se me dás pão seco, direi que ontem, com a força de um espirro, deixaste cair os dentes postiços.

—Cala-te, Lúcifer! Ó céus! e dizer que há pessoas que desejam ter filhos!

Casimiro não sai de casa senão para ir jantar. Quando chega ao patim do primeiro andar, passa muito depressa e depois sai sem levantar a cabeça. Vai à noite ao teatro, e só recolhe depois da meia noite, mas vê ainda luz nos quartos do primeiro andar. A sr.ª Montémolly entretém-se sem dúvida em arranjar os seus novos aposentes. Ele, segundo o costume, vai buscar a luz ao cubículo do porteiro; então este diz-lhe com ar malicioso:

—O senhor sabe sem dúvida quem tem agora a felicidade de ter por vizinha?

—Não, sr. Chausson, e afianço-lho que isso me interessa pouco.

—Não dirá o mesmo quando souber que arrendei o primeiro andar à sr. Montémolly, uma amiga intima do senhor.

—Em primeiro lugar, o sr. Chausson faz amigas íntimas de simples conhecimentos, depois, nós tivemos uma ligeira discussão, essa senhora e eu... estamos indiferentes.

—Ah! que pena! aposto que foi por causa da maldita política! isso malquista toda a gente, mas o senhor há de fazer as pazes com essa senhora, que tem muito bonitas maneiras.

—Dê cá a minha luz, e faça favor de não me tornar a falar em tal assunto.

Casimiro apressa-se a subir a casa, e o porteiro segue-o com a vista, murmurando:

—Ah! ele está arrufado com esta senhora! como os homens são volúveis! dirá muita gente, e as mulheres também: então, é coisa que está na natureza!...

No dia seguinte pela manhã, o jovem pintor sobe a casa de Lisa; mas, antes de isso, procurou Rouflard, e pô-lo de sentinela na escada, com ordem de cantar a canção dos Lampiões se vir subir a inquilina do primeiro andar. de este modo, não será surpreendido em casa da sua vizinha; terá descido os dois andares antes que Ambrosina tenha tido tempo de subir os seus...

Lisa põe-se ainda a tremer vendo entrar Casimiro em sua casa. Mas este tranquiliza-a dizendo-lhe a ordem que deu a Rouflard, relativamente à senhora do primeiro andar. Casimiro não cessa de repetir a Lisa que não era para ele mais que um simples conhecimento, uma pessoa que o queria proteger, mas que abusava da influência que tinha tomado sobre ele, influência de que há muito tempo estava, resolvido a libertar-se. A rapariga, que não sabe nada do que se passa no mundo, acredita tudo o que lhe diz o vizinho. Conversam largo espaço; o tempo corre tão depressa quando se está bem acompanhado! De repente, Lisa empalidece, exclamando:

—Ouvi cantar!...

—Mas não é o Rouflard, é aquele maldito garoto do menino Proh!

—É o mesmo, ouço muito barulho no prédio é preciso ir-se embora.

—É Adriana que a menina ouve, a criada da sr.ª Montémolly, quando esta rapariga está em alguma parte, não se ouve senão ela.

—Mas vai ver o Rouflard na escada.

Em primeiro lugar, para o ver, será preciso que ela olhe para o ar.

—Oh! estou bem certa que é a ordem que tem.

—Vamos, sossegue minha encantadora Lisa, eu me vou embora, mas amanhã...

—Oh! sim, amanhã tratarei de me habituar a ter medo.

Passam-se de esta sorte oito dias. Casimiro sobe pela manhã a casa de Lisa, depois de ter posto Rouflard de sentinela na escada. Não tem encontrado Ambrosina, nem mesmo a tem visto de longe, entretanto está bem persuadido de que ela não veio morar para o mesmo prédio sem ter o seu plano. Sabe que a sr.ª Montémolly é bastante altiva, bastante orgulhosa para procurar fazer as pazes com ele; mas sabe também que é vingativa e deve ter formado o projeto de se vingar.

Ao nono dia da sua entrada nos seus novos aposentos, ali pela volta do meio dia, Ambrosina sobe os quatro andares que vão ter à morada de Lisa, e entra de repente em casa da rapariga, que fica pálida e trêmula ao seu aspeto.

«Todavia a sr.ª Montémolly não tem aquele ar terrível com que uma vez se apresentou a Lisa; pelo contrário, é sorrindo, é com um ar amável, gracioso mesmo, que ela se aproxima, e lhe diz:

—Perdão, menina, venho talvez incomodá-la, mas sou há oito dias sua vizinha, moro no primeiro andar, soube, pela sr.ª Proh, que a menina se ocupava em trabalhar em roupa branca, e venho perguntar-lhe se quererá trabalhar para mim?

Lisa está de tal modo perturbada, que pode apenas balbuciar:

—Mas, minha senhora, queira sentar-se... Perdão, não ouvi bem o que me disse.

—Sossegue, menina; pois eu meto-lhe medo?

—Oh! sim, minha senhora, quero dizer, não, minha senhora, agora não... mas é que receava...

—Que viesse ainda contender com o sr. Casimiro? Sossegue, no outro dia fiz mal, convenho em isso, mas eu sou muito arrebatada; aquele senhor tinha-me faltado muitas vezes à sua palavra para o meu retrato e isto tinha-me encolerizado. E o retrato da menina está acabado?

—Sim, minha senhora.

—Mas o sr. Casimiro contínua a vir visitá-la?

—Algumas vezes, minha senhora...

—Ora, tem todo o direito de o fazer. Mas a menina ainda me não respondeu sobre o fim da minha visita; quer trabalhar para mim?

—Oh! certamente, minha senhora, com muito gosto.

—Muito bem. E borda também?

—Sim, minha senhora.

—Então, aqui tem estes lenços de cambraia, quero as minhas iniciais bordadas; olhe, como este... pode bordar-mas?

—De certo, minha senhora.

—Pois aqui lhe deixo estes seis e o modelo; mas faça isto de seu vagar, quando tiver tempo, eu não tenho pressa nenhuma. Enquanto ao preço, a menina dirá quanto quer.

—Oh! minha senhora, ficarei satisfeita com o que a senhora me der.

—Adeus, menina, ou antes, até à vista, porque há de permitir que eu venha algumas vezes saber se pensa em mim.

—Oh! quando a senhora quiser.

—Já lhe não meto medo, espero?

—Não, minha senhora, pelo contrário, sinto agora que terei muito prazer em a receber.

Estas palavras parecem surpreender Ambrosina que, entretanto, faz uma mesura graciosa à rapariga e retira-se. Lisa está bastante comovida, mas muito contente de não ter já em sua casa o cavalete. No dia seguinte, não falta a dar parte a Casimiro da visita que recebeu. Este não fica satisfeito com isso; abana a cabeça murmurando:

—Ambrosina, que quer que a menina trabalhe para ela... Ambrosina, amável, afetuosa com a menina.... hum! isso não é natural; tome cuidado, Lisa, não confie em essa senhora, porque tudo isto esconde alguma perfídia!

—Oh! sr. Casimiro, creio que não tem razão, e que de esta vez é injusto para com essa senhora; já não tenho nenhum receio de ela; pelo contrário, é uma coisa bem esquisita, parece-me que estou quase a ter-lhe afeição...

—Ah! é que a menina não suspeita de nada, não desconfia dos laços que lhe podem armar!

—Laços? oh! aquela senhora tem um sorriso encantador... isso não pode ocultar uma perfídia.

—Bem se vê que não conhece o mundo.

—Meu Deus! é então um conhecimento bem maú, pois que se deve sempre desconfiar de ele!

—de esse modo, fará a obra que a senhora lhe deu?

—Sem dúvida, são uns lenços magníficos para bordar... mas é obra que há de levar muito tempo.

—E irá levar-lhos a casa quando estiverem prontos?

—Sim. Acaso não faço eu o mesmo à sr.ª Proh? porque havia de ser menos cortês com esta senhora do primeiro andar?

Casimiro não diz nada, mas deixa Lisa, muito inquieto com a visita que ela recebeu.

de aí a poucos dias cai doente a menina Angelina Proh; a mãe receia que seja uma constipação de peito; o pai sustenta que é uma febre miliar, e o menino Proh afirma que sua irmã está doente por ter comido uvada de mais. Mas as indigestões são às vezes perniciosas, e podem dar lugar a outras doenças; quer a uvada tenha ou não alguma coisa em isso, o que é certo é que a rapariga tem uma grande febre, uma sede ardente, e por vezes um pouco de delírio.

Os Proh não têm criada, porque o ex-professor sustenta que, em uma casa onde há duas mulheres, não se deve ter necessidade de tomar uma terceira para os arranjos domésticos, e que seria isso um luxo inútil. Não há pois senão a sr.ª Proh para tratar de sua filha, porque o papá encerra-se na sua dignidade, e o Fonfonzinho, como quebra tudo quanto apanha, não pode ser utilizado. Como a jovem Angelina tem estado bastante doente para que seja mister velar junto de ela de noite, a sr.ª Proh anda que não pode consigo, e diz um dia ao maride:

—Senhor, eu não posso mais; se isto continua, vou também cair doente; há duas noites que não durmo e eu não sou de ferro...

—Eu nunca disse que a senhora era de ferro, se as mulheres fossem de ferro, seria isso bem incômodo nas relações que a natureza nos manda ter com elas.

—Vejamos, Castor, porque é que não quer tomar uma criada? a nossa posição permite-nos isso...

—A nossa posição é muito correta como está: nós somos quatro, o quadrado perfeito, uma pessoa de mais em casa desarranjaria o equilíbrio e a retidão; não, a retidão não é o termo próprio, devo dizer o retângulo...

—Oh! senhor, quanto me aborrece com os seus quadrados e as suas combinações. Quer então que eu caia doente?

—Não, senhora, porque seria preciso dobrada tisana, dobrado xarope, e por conseguinte seria dobrada despesa; não poderia ser esse o meu desejo.

—E' todavia o que há de acontecer se eu tiver de passar ainda esta noite velando à cabeceira de nossa filha. Quer o senhor ficar?

—Eu? mas a senhora bem sabe que, em chegando a minha hora de dormir, é-me impossível resistir-lhe; torno-me um arganaz, um buzio, se acham melhor, ainda que a comparação é estrambótica; eu por consequência não seria de nenhuma utilidade.

—Então é mister tomar uma enfermeira...

—Uma enfermeira! introduzir uma estranha nos meus lares! Nunca! isso é estúpido e perigoso.

—Entretanto, declaro-lhe que não quero passar em claro a noite próxima; não poderia resistir... Ah! uma ideia!... a menina Lisa... sim, ela é muito obsequiadora, não se negará a vir um instante revezar-me; esta não dirá o senhor que é uma estranha... conhecemo-la perfeitamente.

—A menina Lisa... sim, essa mora no prédio. Em rigor, podemos ocupá-la.

—Subo imediatamente a casa de ela; quero estar certa de ter alguém esta noite ao pé de minha filha.

Lisa fica menos admirada vendo entrar em sua casa a vizinha do terceiro andar, para quem tem trabalhado muitas vezes. A sr.ª Proh explica-lhe imediatamente o motivo da sua visita, e a rapariga responde-lhe:

—Oh! minha senhora, eu estimaria muito poder ser-lhe prestável; mas, para ir para sua casa, teria de deixar minha avó...

—Mas sua avó, enquanto está a dormir não tem precisão da menina; lembre-se de que pode ir lá para baixo às dez horas da noite, e pela manhã às sete e meia, oito horas quando muito, voltará para junto de ela. Demais, sua avó não está melhor?

—Sim, minha senhora, graças ao vinho quinado, passa muito melhor desde certo tempo para cá. Não é verdade, avozinha, que vai agora melhor?

A velha levanta-se um poucochinho na cama, dizendo:

—Sim, minha filha, sim, vou melhor. Ah! é que tu tratas bem de mim; e depois deste-me uma colher de prata, e isso deu-me grande prazer. Mostra-a lá à nossa vizinha.

—Oh! avozinha, isso pouco interessa a esta senhora.

No entanto, para fazer a vontade à avó, Lisa mostra à sr.ª Proh a colher de prata, que é muito simples.

—É uma prova de que a menina faz as suas economias, diz Celeste, dou-lhe os meus parabéns...

Depois a sr.ª Proh aproxima-se da paralitica, e diz-lhe:

—Não é verdade que a senhora poderia dispensar a sua neta por uma noite, e permitir que ela venha velar à cabeceira de minha filha, que está doente? desceria só às dez horas da noite e voltaria logo de manhã; oh! com isso me faria um grande serviço.

—Sim, sim, pode ir; vai, Lisa, para obsequiares a senhora. Bem sabes que eu, em adormecendo à noite, não tenho mais precisão de ti. Oh! eu estou melhor.

—Como! pois a avozinha consente em que eu a deixe uma noite inteira?

—Sim, minha filha, sim; é preciso obsequiar esta senhora.

—Pois bem, visto que a avozinha consente. Minha senhora, esta noite às dez horas, estarei em sua casa.

—Ah! muito agradecida, a menina é muito amável; retiro-me sem mais demora, porque tenho que preparar a cabeça de vitela para meu marido; até à noite.

Às dez horas em ponto, assim que adquire a certeza de que sua avó dorme sossegadamente, Lisa sai do seu quarto e dirige-se a casa da sr.ª Proh. Esta aguardava-a com impaciência, porque tinha muita necessidade de dormir. Leva a sua jovem vizinha para o quarto de cama de sua filha, e aí a deixa, dizendo-lhe:

—Angelina está hoje melhor, creio que não terá uma noite desassossegada; em todo o caso, aqui está em cima de esta mesa tudo o que é preciso: a tisana sobre a lampada de espírito de vinho, assucar para a tisana, uma colherinha para a mecher, depois uma colher de sopa para dar de este xarope que vê em esta garrafa; mas isto, somente lho dará se ela não puder dormir e estiver agitada; compreende bem?

—Sim, minha senhora, tudo isso não é difícil.

—Se por acaso sobrevier alguma coisa extraordinária, acorde-me, eu durmo aqui no quarto do lado; mas espero que não acontecerá nada. Aqui tem uma grande poltrona onde ficará perfeitamente... e livros. A menina gosta de ler?

—Oh! muito, minha senhora.

—Então aqui tem um romance que a há de cativar, está cheio de crimes, assassinatos, enforcamentos, torturas, é muito interessante. Angelina já o leu duas vezes; é desde esse tempo que ela tem tido delírio. Mas eu vou-me deitar, porque estou com muito sono; os meus homens dormem já como pedra em poco... vou fazer outro tanto; minha filha está sossegada, não tenho precisão de lhe dizer que é mister não a acordar.

—Oh! pode ir descansada, minha senhora.

—Não se esqueça das minhas instruções: uma colher de xarope, somente se ela estiver agitada.

—Sim, minha senhora.

E a sr.ª Proh retira-se. Lisa, que não deixou de trazer trabalho para fazer, senta-se a bordar. Passado algum tempo a doente pede de beber, e Lisa apressa-se a dar-lhe um copo de tisana. Angelina reconhece-a, e diz-lhe:

—Ah! é a menina que me está velando... sim a mamã tinha-me prevenido...

—Como se acha a menina?

—Muito melhor.

—Quer uma colher de xarope?

—Não, não é preciso... sinto que vou outra vez adormecer; agradecida.

Efetivamente, a menina Proh torna em breve a pegar no sono. Lisa volta ao seu bordado, mas este gênero de trabalho cansa muito a vista. Larga-o pois por um momento, e cede ao desejo de conhecer o romance que a sr.ª Proh lhe gabou. Senta-se para isso na grande poltrona; mas, no fim de algum tempo, quer por fadiga quer por efeito do romance, Lisa adormece profundamente.

São seis horas da manhã quando a sr.ª Proh entra no quarto da filha, e ainda Lisa esfrega os olhos.

—Então, como se passou esta noite? pergunta Celeste. A nossa doente ainda está a dormir, é bom sinal.

—Oh! minha senhora, a noite foi muito sossegada; a menina só pediu de beber uma vez.

—Muito bem; então não tomou o xarope?

—Não, minha senhora.

—Às mil maravilhas! Decididamente, creio que Angelina vai entrar em convalescença.

—Minha senhora, visto que está levantada, permite-me que volte imediatamente para junto de minha avó, não é verdade?

—Sim, certamente, vá, minha menina, nós nos entenderemos a respeito da remuneração pela sua noite de vela.

—Oh! minha senhora, não falemos em isso, estimo muito ter podido obsequiá-la!...

E a jovem enfermeira, com a pressa de subir a sua casa, está já na saleta de entrada, quando a voz da sr.ª Proh a chama:

—Lisa, Lisa!...

—O que quer, minha senhora?

—Onde meteu a menina a colher do xarope!... não a acho.

—Não a acha!... deve estar no mesmo sítio, minha senhora; pois que não tive precisão de me servir de ela...

—Diz que não se serviu de ela!... contudo, a colher não está já em cima da mesa... olhe, veja a menina...

Lisa vê em cima da mesa, depois debaixo, depois em todos os moveis, em toda a parte, e a sr.ª Proh faz outro tanto do seu lado; mas não se acha a colher.

—É singular! diz Lisa.

—E mais que singular! exclama Celeste, cuja fisionomia tomou já um aspeto severo. Enfim, a menina bem sabe que eu deixei-lhe sobre esta mesa duas colheres de prata, uma pequena e uma grande, a pequena aqui está, mas que é feito da grande? é preciso que apareça, é preciso! não entrou aqui outra pessoa além da menina... logo é a menina a única responsável pela colher...e a menina ia saindo com tanta pressa...

—Oh! minha senhora, pois pode suspeitar que eu levava a sua colher! ah! veja bem, minha senhora, esquadrinhe tudo... veja nas minhas algibeiras, no meu vestido. Oh! meu Deus! suspeitar-me de-furtar...

—Eu não digo isso; mas algumas vezes, inadvertência... sem fazer reparo...

—Oh! veja, minha senhora, peço-lhe eu, faça favor de me revistar!...

A sr.ª Proh apressa-se a passar revista às algibeiras de Lisa; apalpa-a por toda a parte, ausculta-a como faria um cirurgião, examina-lhe até os sapatos, ainda que a rapariga tem o pé tão pequeno que o seu calçado mal poderia conter uma colher pequena. Esta inspeção severa prova à esposa do antigo professor que Lisa não levava a colher.

—Então, minha senhora, está agora persuadida de que eu não levava nada? diz Lisa.

—De certo, bem vejo que a não tem em si, mas então o que fez a menina à colher? vamos... procure... atirou certamente alguma água pela janela e deitou fora também a colher.

—Não, minha senhora, não atirei nada pela janela.

—Ou deixou-a cair em alguma parte?

—Eu não saí de este quarto, minha senhora; não fui ao patamar...

—Oh! ao patamar, de fato, não teria podido lá ir, porque eu fecho sempre com três voltas a porta que dá para a escada; e tem um ferrolho de segredo... acabo agora de a abrir...

—De modo que a senhora está bem certa de que eu não saí de sua casa esta noite durante o seu sono...

—Valha-me Deus! não digo o contrário!... mas tudo isso não me restitue a minha colher...

—Há de se achar, minha senhora, há de se achar no momento em que menos se pensar em ela.

—Mas onde diabo a escondeu?...

—Para que quer a senhora que eu a tenha escondido? com que fim? porque motivo? Volto para junto de minha avó, que deve estar agora acordada... a senhora fica bem certa de que não levo a sua colher, não é verdade?

—Estou certa de que não a tem em si... mas que diabo fez de ela?

—Oh! se é preciso pagar-lhe o valor da colher, eu lho pagarei, chegarei a isso à força de trabalho; mas, por quem é, não fale em semelhante coisa a minha avó, que lhe faria muito mal...

—Está bem, menina, está bem, falarei a esse respeito com o sr. Proh.

Lisa sobe para sua casa muito triste e com os olhos rasos de lágrimas, dizendo consigo:

—Suspeitarem de ter furtado! oh! é horrível isto! O sr. Casimiro tinha muita razão em dizer que desconfiasse do mundo! E todavia esta senhora não pode querer afligir-me; mas que foi então feito de aquela maldita colher!...


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

A menina Lisa

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A menina Lisa

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A menina Lisa Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 16 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir