Universo da obra
Universo da obra
Não é sem custo que o jovem artista consegue do seu modelo que se deixe pôr em posição, e principalmente que se não mecha depois de adotada enfim a sua atitude. A final Rouflard aquieta-se; demais, Casimiro permite-lhe conversar e ele usa da permissão. O antigo sedutor tem-se feito muito loquaz com a idade; gosta de falar dos seus triunfos passados e enfeita as suas recordações de reflexões que são às vezes picantes. Rouflard não é falto de espírito; este homem possuía tudo o que é preciso para fazer caminho no mundo, e foram todas as suas vantagens que o perderam.
Casimiro ouve o seu modelo contar-lhe os seus triunfos com as damas, mas em breve conduz a conversação a um assunto que o interessa mais. É da menina do quinto andar que ele gosta muito de ouvir falar!
—Mora há muito tempo em este prédio sr. Rouflard?
—O senhor é muito delicado em dizer morar, meu Rafael; estar empoleirado é que devia dizer. Enfim não importa; há seis meses que o ocupo, aquele buraco, e confesso que nunca lá tive vontade de cantar: «Como se está bem em uma água-furtada aos vinte anos!...» É verdade que já não tenho vinte anos; mas, ainda que os tivesse, não seria nunca da opinião de Béranger. Mas isto de poetas, em o pensamento sendo original é o suficiente! Bem se importam eles com a verdade!
—E quando o senhor veio morar cá para cima, já a menina Lisa aqui habitava com a avó?
—Sim, já cá estava, mas havia pouco tempo, pelo que tenho ouvido dizer.
—O senhor está no caso de saber quando ela recebe as suas visitas.
—Visitas! em casa da Lisa! oh! nunca! que eu saiba, nunca a nossa vizinha recebeu ninguém de fora. Só a sr.ª Proh é que lá subiu uma ou duas vezes com o filho, para levar trabalho. O garoto não cessava de gritar: que feio que é isto aqui! e, como queria ralar a paciência à pobre da avó, Lisa pô-lo fora de casa. Enquanto à senhora Pro-tocole, essa não se fartava de dizer à rapariga: «Eu não poso pagar isto por doze soldos, é muito caro, não dou senão dez.» E tantas vezes o repetiu, que Lisa respondeu-lhe: «Dê a senhora o que quiser...» Pobre pequena! regatear por dois soldos, a quem trabalha dia e noite para sustentar a avó! é uma ação digna da sr.ª Pro-fanée!...
—Volte a cabeça um pouco mais para a esquerda. Muito bem, faça por conservar essa posição...
—Está satisfeito comigo?
—Sim, senhor, não se põe mal... isto há de ir...
—O senhor está pintando o meu retrato para o mandar à exposição?
—Talvez, se me sair bom.
—Em todo o caso, há-de-mo dizer, não é verdade? porque eu não desgostaria de me ir contemplar.
—Sim, sim, mas ainda lá não chegamos. Sabe o sr. Rouflard quem eu estimaria bastante ter por modelo?
—Ora! aposto que adivinho? é a menina Lisa que o senhor quereria retratar!
—Exatamente, teria grande prazer em reproduzir na tela as bonitas feições de essa interessante rapariga!
—Pois bem! quem é que lho impede!
—Perguntei à nossa vizinha se consentiria em me deixar tirar-lhe o retrato, e ela recusou-se!
—Ah! recusou! Aposto que foi para não deixar a avó sozinha tanto tempo?
—Mas, como eu tinha compreendido isso, propus-lhe ir eu a sua casa com os pinceis e a palheta, de modo que poderia ela servir-me de modelo sem se afastar um momento da sua pobre doente...
—Oh! isso era bonito da sua parte! E ela ainda recusou?
—Sim, recusou sempre. Tenho dobrada pena com essa recusa, porque a menina Lisa trabalha muito e ganha pouco...
—Acredito! sobre tudo se trabalha para a sr. Proh...!
—Enquanto que consentindo em me servir de modelo teria ganho muito mais, e mesmo sem que isso lhe fizesse largar o seu trabalho habitual. Ter-lhe-ia proporcionado alguns regalos, poderia comprar para a sua doente coisas que ela por falta de dinheiro não lhe pode agora oferecer. Pois eu não tinha razão, Rouflard?
—Tinha cem vezes, mil vezes razão! e não sei por que ela recusou!
—É que tem medo de se comprometer; tem ouvido dizer que as mulheres que servem de modelo aos pintores não gozam de boa reputação.
—De ordinário não são nenhumas vestais! mas quem necessita de trabalhar para viver, não se deve prender com isso! A susceptibilidade de Lisa é exagerada! Esteja descansado, meu pintor, o senhor só tem boas intenções, só quer fazer bem à pequena, fazendo ao mesmo tempo um bonito estudo; indo pintar em casa de ela diante da avó, tira todo o pretexto à maledicência. Farei compreender isso à minha boa vizinha, estou convencido de que a hei de resolver a deixar-se retratar!
—Deveras! acha que vencerá a sua resistência?
—Com toda a certeza! tenho vencido outras mais fortes. Triunfar das mulheres era a minha profissão! É verdade que empregava para isso meios de que não usarei com a menina Lisa; resta-me, porém, a minha eloquência, e o desejo que também tenho de ser útil àquela que nunca me recusou um bocado de pão. Será talvez a primeira vez que prestarei serviço a uma mulher, isso há de fazer-me mudar.
Para primeira sessão, Casimiro não quer fatigar muito o seu modelo, e ao cabo de duas horas, conhecendo que Rouflard começa a sentir formigueiros nas pernas, diz-lhe:
—Basta por hoje.
—Deveras! põe-me em liberdade! Pois bem! gosto de isso, porque principiava a sentir uma espécie de câimbras nas pernas, falta de hábito, já se vê mas hei-de-me costumar. Será preciso vir amanhã outra vez?
—De certo; assusta-o isso, por ventura?
—Nada, pelo contrário, creio até que tomarei gosto pela coisa. Ganhar dinheiro assim não custa nada. Oh! é preciso que a nossa vizinha se preste também a isto, tanto mais que poderia assim dar grande prazer à avó, estou mesmo espantado de que ela não tenha pensado em tal.
—Como é isso? explique-se melhor, Rouflard; em que é que a menina Lisa daria grande prazer à sua pobre paralitica?
—Vai imediatamente perceber. Conversando algumas vezes comigo, porque eu gosto muito de conversar, sobretudo com as raparigas bonitas, é um resto da minha juventude... desinit in piscem... oh! eu também sabia latim! mas, com as mulheres, esquecia-me de ele, elas não gostam de línguas mortas!
—Voltemos a Lisa.
—Tem razão, eu poderia ter sido um belo advogado, porque trato os pormenores com muito cuidado. Ora, ia eu dizendo: conversando, a minha vizinha tem-me dito algumas vezes: «Ah! se eu pudesse ajuntar algumas economias. Há uma coisa que daria grande prazer a minha avó, e que eu estimaria muito poder-lhe oferecer, mas não o posso conseguir!» «O que é então, lhe disse eu, que a sua avó deseja tanto?» «É, me respondeu ela, uma colher de prata; porque ela teve uma muito bonita em outro tempo, em vida da minha ama, porém depois da sua morte, quando estive muito tempo sem achar trabalho, foi-nos preciso pouco a pouco vender o que possuíamos, e a colher de prata levou esse destino. Hoje conseguimos viver, mas não posso ajuntar dinheiro para comprar outra; e ainda menos agora, que o médico receita algumas vezes remédios que são muito caros! Mas a saúde está primeiro que tudo, vale mais que uma colher de prata!...»
—Tem razão, Rouflard, essa menina, servindo-me de modelo, teria ganho em breve com que comprar o que deseja oferecer à avó.
—A não ser que o médico receite ainda algum remédio ruinoso; então, lá se ia embora todo o dinheiro! porque Lisa não regateia quando se trata de dar alívio à pobre enferma. Mas é o mesmo, eu lhe falarei. A sessão amanhã é à mesma hora?
—Mais cedo, às dez horas em ponto.
—À hora que quiser; eu sou livre como o besouro! Ah! permite-me que veja o que o senhor fez?
—Sim, pode ver.
—Espere, isto já não está mau, eu não sei pintar, mas tive a reputação de entender de quadros e, no tempo das minhas fortunas, comprei por vezes alguns quadrozinhos de gênero... e ganhei sempre em eles.
—Pois então, olhe para essa vistazinha de Bougival, que ainda não acabei...
—Vejamos; oh! é bonita, é aprazível, tem vida! O senhor é colorista, o que nem todos os pintores são, mesmo alguns que têm entretanto muito talento. Isto que lhe digo, não é para lhe fazer um elogio banal, o senhor tem o sentimento da cor... trate bem este quadrozinho. Olhe, eu em outro tempo teria pago isto por trezentos francos, e ainda havia de ganhar...
—Bom, visto que esta paisagem não lhe parece de todo má, vou acabá-la. Eu faria talvez melhor o quadro de gênero que o retrato, não importa, tentarei as duas coisas. Até amanhã, Rouflard.
—Sim, senhor, e não almoçarei senão depois da sessão, para me colocar em posição com mais dignidade.
Assim que o modelo se retira, Casimiro deixa a cabeça de Rouflard e deita-se à paisagem; trabalha com um ardor de que ele próprio se espanta, mas toma gosto pela sua obra, procura-lhe cuidadosamente os defeitos, aperfeiçoa-lhe muitas partes, e o tempo passa depressa quando a gente se entrega a um trabalho que agrada. Casimiro ouve dar quatro horas, e diz consigo:
—Não é possível que já seja tão tarde. Ah! Santo Deus! e eu que devia ir buscar Ambrosina às três horas, para ir passear com ela ao bosque! mais uma cena que terei de aturar! Porque deixei eu esta mulher dispôr assim do meu tempo? porque? Porque sou um preguiçoso, um cobarde, porque a menor ocupação me metia medo, e hoje tenho infinitamente mais prazer em trabalhar em este quadro do que em ir passear ao bosque. Ah! é que penso em essa menina Lisa que não procura nenhuma distração, que trabalha constantemente em um quarto onde não tem por companhia senão uma velha paralitica, e isto de ter assim vivido na inação envergonha-me. Tenho ainda diante dos olhos a situação de Rouflard. Este homem, que foi tão festejado, tão amimado pelas mulheres, viveu à custa de elas e eu vejo onde isso conduz, o seu exemplo não será perdido para mim. A sr.ª Montémolly pode zangar-se quando quiser, mas de hoje em diante hei de trabalhar; estou resolvido a isso, no entanto, como é preciso ser sempre delicado com as senhoras, vamos ter com ela, senão seria capaz de vir aqui para saber o que estou fazendo.
Casimiro dirige-se portanto a casa da formosa Ambrosina. Esta dama está de muito maú humor; acha-se vestida e pronta há mais de uma hora, e não vê aparecer o amante. Passeava com impaciência pela sala, olhava a cada instante para o relógio, chamava a criada e dizia-lhe que fosse perguntar que horas eram a qualquer parte, exclamando:
—Estou certa de que este relógio anda adiantado, deve regular mal; Adriana, vá saber que horas deram com exatidão.
Adriana vai informar-se ao quarto do porteiro, e volta dizendo:
—Minha senhora, o seu relógio não está adiantado, pelo contrário, anda atrasado seis minutos.
—Você é uma tola! exclama Ambrosina, rasgando as luvas com cólera, de certo viu mal...
—Não, minha senhora, eu...
—Basta! não quero que sejam perto de cinco horas, é impossível!...
—Ah! se a senhora quer que não seja mais de meio dia, isso para mim é o mesmo.
—Cale o bico! parece-me que tem a confiança de gracejar comigo! se diz mais uma palavra, ponho-a na rua!...
Adriana retira-se, dizendo consigo:
—É que o gajo ferrou-lhe alguma peça! Ainda agora a procissão vai na praça, minha rica!
Chega finalmente Casimiro. Esperando uma cena de ralhos, vem revestido de toda a sua paciência; demais, está decidido a persistir na resolução que tomou de mudar de vida.
—Ah! chegou enfim, diz Ambrosina mordendo os lábios com despeito. Sabe que horas são?
—Cinco horas menos vinte minutos.
—E a que horas devia o senhor vir buscar-me?...
—Um pouco mais cedo, é verdade; mas pus-me a pintar e o tempo passou mais depressa do que eu imaginava.
—De certo que não presume que eu me satisfaço com semelhantes razões; deveria, pelo menos, ter inventado outras, dizer-me ainda que estava à espera do seu amigo Miflaud, que foi ele que o demorou...
—Disse-lhe a verdade, minha senhora, não tem razão em não me acreditar. Estive trabalhando.
—Esteve trabalhando! e desde quando, se me faz favor, desde quando lhe veio esse belo amor pelo trabalho, que eu lhe não conhecia?
—Estou admirado de que a senhora me diga isso, porque, desde algum tempo a esta parte, temos tido bastantes conversações a tal respeito. Sim, minha senhora, pus-me ao trabalho, e de aqui em diante conto empregar assim uma parte do meu tempo, a minha resolução está tomada e é inquebrantável, agora não mudarei. Estou envergonhado da vida que tenho levado até hoje, e é preciso que isto acabe. Bastantes vezes lhe tenho manifestado o desejo que sentia de achar um emprego. Em vez de me confirmar em este desígnio, a senhora tem sempre procurado fazer-me esquecer do que a minha posição tinha de censurável. Não lhe faço uma arguição. Deus me livre de tal! cada um ama a seu modo: uns somente pelo prazer de amar; outros pela felicidade que experimentam em ouvir fazer o elogio do objeto da sua escolha. Eu possuo só um recurso, a pintura. Posso, à força de estudo, de trabalho, adquirir algum talento. É o que vou tratar de fazer; não ve o em que isso me poderia malquistar com a senhora, porque lhe asseguro que os prazeres parecem mais doces, quando vêm depois das horas de trabalho.
Casimiro disse tudo isto com um ar tão decidido, em um tom tão firme, tão convencido, que a sr.ª Montémolly compreende que de esta vez não triunfará da nova resolução do seu amante. A cólera desapareceu então como por encanto. É que ela conhece Casimiro suficientemente para perceber que perderia muito no conceito de ele, procurando ainda estorvar-lhe os projetos. Em vez de isso, faz esforços para retomar o seu ar gracioso, e toma-lhe o braço, dizendo-lhe:
—Perdoe-me, meu amigo, eu não tinha razão; não o censurarei mais por trabalhar. Mas isso há de impedir-nos por ventura de irmos ainda passear algumas vezes?
—Ah! estou às suas ordens e encantado de a achar tão razoável...
—Pois bem! então, vamos dar um passeio até ao bosque, e à volta jantaremos no Ledoyen...
Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.
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