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A menina Lisa

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A menina Lisa

Capítulo 11 · A menina Lisa

Ainda as criadas

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São decorridos quinze dias. Casimiro trabalha com assiduidade no seu quadrozinho de cavalete e da cabeça de Rouflard; este conserva a posição muito regularmente, sobretudo desde que dá as sessões antes do almoço. Mas não conseguiu ainda vencer a resistência de Lisa, que não quer deixar tirar o retrato. Isto penaliza o jovem pintor, que subiu muitas vezes a casa da sua linda vizinha do quinto andar; mas não se demorou muito lá, porque ela parece sempre temer que a vista do rapaz contrarie sua avó, e é mostrando-se bem discreto que Casimiro espera captar a confiança de Lisa e triunfar da sua recusa.

O jovem pintor contínua a dar lições de desenho à menina Proh, que não faz nenhum progresso e passa uma semana com a mesma orelha. Começou também o retrato da sr.ª Proh, mas pouco trabalha em ele, e prefere muito mais a cabeça de Rouflard. Enfim, Casimiro acabou a sua pequena paisagem, e mandou-a para uma loja de quadros, diante da qual param de boamente os amadores, porque se expõem ali a miúde bonitas coisas e raras vezes má pintura.

Deve-se bem supor que a ciumenta Ambrosina, não aceitou sem desgosto, sem receio, o novo modo de viver que o seu amante acaba de adotar; mas compreendeu que era preciso fazer algumas concessões para não perder inteiramente o seu império. Vê Casimiro muitas vezes; mas em vez de passar em casa de ela uma parte das suas manhãs e das suas tardes, a conversar como costumava, o rapaz almoça agora em sua casa, e trabalha algumas vezes até às cinco horas da tarde; quando se sente perfeitamente bem, quando está contente de si, custa-lhe muito largar os seus pinceis, e fica muito admirado de ver com que rapidez se passa um dia todo consagrado ao trabalho, ele que outrora achava o tempo bem comprido e não sabia como empregá-lo para evitar o aborrecimento.

Ambrosina, que quer certificar-se de que Casimiro não a engana, chega muitas vezes a casa de ele sem o prevenir da sua visita. Acha-o trabalhando com o seu modelo, e não é Rouflard que pode inquietá-la; encontrou lá também uma vez a sr.ª Proh, que dava uma sessão ao seu vizinho, mas a esposa do antigo professor não podia despertar-lhe ciúme. Não tinha pois nenhum motivo real para se afligir, e todavia não estava sossegada; parecia-lhe que o amante não era já o mesmo com ela, que com o amor inteiramente novo que lhe viera pelo estudo, tinha perdido muito de aquele que em outro tempo lhe dedicara. Não sabia bem o que se passava no coração de Casimiro, mas adivinhava que havia agora entre ambos alguma coisa que devia destruir a sua felicidade. As mulheres têm uma segunda vista, que lhes faz pressentir tudo o que tem relação com o seu amor.

Isto devia necessariamente produzir um aumento de crises nervosas, e a menina Adriana era muito a miúde enviada à farmácia que já tivemos o prazer de fazer conhecer aos nossos leitores.

Correndo ali um dia (sabemos já como Adriana corre, que para a conversar com todos os conhecimentos que encontra,) a gorda criada acha-se outra vez cara a cara com a sua amiga, a menina Rosa, aquela que tem um tão belo comodo em casa de um homem só, que lhe faz presentes, e que tomou um criado para que ela se não canse muito com o trabalho domestico.

—Bons dias, Adriana.

—Ah! és tu, Rosa! onde vais de esse modo?

—Vou ali à pastelaria encomendar umas empadas, que as fazem deliciosas!...

—Ah! bem sei, é também onde nós compramos, é a melhor do bairro.

—Ainda estás em casa da tal senhora nervosa?

—Oh! não me fales em isso! desde algum tempo a esta parte, está constantemente de maú humor! anda furiosa! porque os amores já não correm muito bem! Eu bem vejo, o tal sujeito já aparece menos vezes, por mais que a senhora se apure no vestuário, por mais que se faça bonita, estou convencida de que ele tem vontade de a deixar.

—Ora! e ela arranja logo outro!

—Pensas que la em casa se faz isso com essa facilidade! Nós adoramos o nosso pintor, minha rica, seríamos capazes do nos deixarmos depenar por ele!

—Ah! é um pintor, algum pobre pinta-monos?...

—Parece que desde certo tempo para cá vai adquirindo talento, está para fazer o retrato da senhora, é ela que o quer, é preciso ver se ele me faz também o meu em quanto está de vez. E tu, Rosa, andas muito chic, pareces a mulher de um ourives! Contínuas em casa do tal homem só?

—Em casa do sr. Loursain, de certo minha rica; sou mais sua dama de companhia que sua criada; não faz nada sem me ouvir, hoje fui eu que apeteci as empadas, disse-me logo: «Vai encomendá-las...»

—Ah! ele trata-te por tu!...

—Não... enganei-me... ele disse-me: «Vá, Rosa, encomende-as a seu gosto, e traga também pasteis de nata.»

—Cáspite! és tratada como uma princesa!

—O senhor não faz nada sem me consultar. Quando os seus amigos me fazem zangar, digo-lhe a ele: «O seu amigo fulano deu-me ontem um beliscão em certo sítio...» Oh! o tal amigo fica pronto, é recebido de tal maneira que nunca mais volta.

—Oh! isso é bem armado, é um meio para te veres livre das pessoas que te aborrecem.

—É uma astúcia velha que nunca erra o seu efeito. Mas imagina que me tinha vindo à ideia aquilo que me disseste o outro dia; uma de estas tardes, depois de jantar, à sobremesa, digo ao patrão, que estava mais terno que de costume: «Senhor, se tem vontade de casar comigo, não se constranja, eu não desejo outra coisa.» A isto o patrão desata a rir, como um perdido! Fez-me zanga vê-lo rir assim, e digo-lhe: «Então que motivo há para rir do que lhe proponho?» Ele ri ainda mais, e depois responde-me: «Que diabo de ideia se te meteu na cabeça! e que tolice ires pensar no casamento.» «Mas, senhor, tornei eu, não acho que o casamento seja uma tolice.» «Pois olha que é, e bem grande; não, minha rica, não casarei contigo, não farei semelhante disparate! mas ainda mesmo que tivesse vontade de o fazer, não me seria isso possível, pois que já sou casado.»

«Bem deves fazer ideia que fiquei embaçada ao ouvir isto «Como! pois o senhor é casado?» exclamei eu «e sua mulher está viva?» «Sim Rosa, minha mulher está viva, bem viva, e não creio que tenha vontade de morrer, porque é muito mais moça do que eu.» «E então porque não está o senhor com ela? para que vive sem mais nem mais como se fosse solteiro? É enganar a gente; isso dá às raparigas solteiras certas ideias a seu respeito: pode a gente iludir-se com o senhor, pensando que é para bom fim, e depois era uma vez!... Isso é desagradável...» O patrão fez então uma cara de mau humor, e respondeu-me:

«—Não tenho que lhe dar satisfações; se me separei de minha mulher, é porque provavelmente isso me conveio, não é negócio da sua conta. De hoje para o futuro, há de fazer favor de me não tornar mais a falar a tal respeito, porque isto desagrada-me.»

«Ora, bem deves supor que não foi preciso dizer-mo duas vezes; vi que tinha ido longe de mais, e desde então não tenho falado mais em tal. Mas é o mesmo, desejava bem conhecer a mulher do sr. Loursain, e saber o motivo por que ele a deixou.

—Ora! tem muito que saber! é que lhe fez falcatrua, e esse senhor não gostou; há homens tão ridículos. Valha-me Deus! e eu sem ir buscar o remédio à botica! Adeus, Rosa, até mais ver.

—E o teu moço de quem gostavas tanto?

—Ah! isso já acabou! agora é outro! eu nunca me prendo, gosto da variedade.

Quando a menina Adriana volta à presença de sua ama, esta ralha muito com ela por se ter demorado tanto tempo fora; a criadinha porém não falta a responder-lhe:

—Não foi por minha culpa, minha senhora, é que encontrei uma amiga, uma patrícia, que não via há muito tempo, então estivemos a conversar, perguntei-lhe pela família...

—Sempre desejava saber que interesse podia ter em isso...

—É que a Rosa tem um irmão que esteve quase à morte por minha causa.

—Por amor?

—Não, minha senhora; mas querendo levar-me muito longe nos braços, à força de pulso, ficou corcovado.

—E o que faz a sua amiga?

—Oh! tem um belo comodo, em casa de um homem só, onde ela faz tudo quanto quer; manda fazer empadas quando lhe dá na vontade... e pasteis de nata, enfim, grandes banquetes.

—É então rico, esse senhor?

—Sim, minha senhora. Oh! parece que o sr. Loursain é riquíssimo!

Ao nome de Loursain, Ambrosina sente uma viva comoção; apressa-se porém a dominá-la replicando:

—Como se chama esse senhor em casa de quem está a sua amiga?

—Loursain. A senhora conhece-o?

—Não, parecia-me ter ouvido outro nome. E esse sujeito é... viúvo?

—Quer dizer, vive como se o fosse; mas na realidade não o é. Tem ainda a mulher viva. Eu soube tudo isto pela Rosa, de quem ele está loucamente namorado, e com quem estimaria muito casar; mas ele disse-lhe em confidência: «Eu não posso casar contigo, Rosa, e tenho muita pena de isso, porque sou casado e minha mulher ainda é viva, infelizmente; mas, se ela morrer, podes estar descansada, tens a certeza de ocupar o seu lugar... o teu futuro está seguro.» O que é pena, é que parece que a tal senhora é muito mais moça que o marido; mas, enfim, em todas as idades se morre, não é verdade, minha senhora?

—Certamente. E o amo da sua amiga mora perto de aqui?

—Sim, minha senhora, na rua Béranger, aquela que faz continuação à nossa. Parece que aquele senhor tem uma bela casa, em um segundo andar, do lado da rua, e mobilada no grande chic. O quarto da Rosa é no mesmo pavimento, o que é muito comodo, porque... a senhora bem entende... a Rosa não mo quis confessar, mas é como se mo tivesse dito, demais, ela descuidou-se comigo... o amo trata-a por tu, e...

—Basta, basta, não quero saber dos negócios da menina Rosa; mas, para a outra vez, trate de conversar menos tempo quando eu a mandar a algum recado.

Deixada só, Ambrosina fica por largo espaço engolfada nas suas reflexões, das quais sai por fim, dizendo de si para si:

—Loursain mora perto de mim, e eu não desejo encontrá-lo, é preciso mudar-me.


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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